Roderick e seus doze irmãos
11 Trabalhos de mulher
Notas iniciais
1574
Quando Conall se tornara adulto, o Conde não perdeu tempo para tirá-los de seus quartos do castelo, e mandar que arranjassem uma casa própria na cidadela. Roderick foi quem tratou do assunto, e agora os quatro viviam numa casa razoavelmente grande, com uma governanta, uma velha serva e um valete que atendiam às suas necessidades.
A luz do fim de tarde entrava pela janela da sala da casa. O cômodo era um caos – os livros de Alister estavam inexplicavelmente jogados no chão ao lado da estante, e não nas prateleiras, que se encontravam cobertas pelos tecidos e materiais de costura de Kenna. No terreno ao lado, onde plantavam seus legumes, uma família de coelhos havia se infiltrado, e roía todas as cenouras que começavam a sair da terra.
Talvez deixar quatro adolescentes cuidando de uma casa não tivesse sido a melhor ideia, Roderick pensou, sentado com os braços cruzados apoiados na mesa.
Conall estava ao seu lado, empertigado na sua cadeira, tentando parecer igualmente sério.
Abigail, na frente deles, era uma confusão à parte. Tinha os punhos ensanguentados, o rosto sujo de poeira, e seu vestido rosa havia se tornado castanho com a lama.
— Eles estavam importunando uma garota – disse Abigail – Era mais nova do que eu…
— Tu bateste em dois velhos de guerra – Conall censurou.
— Eram dois filhos da puta pervertidos, isso que eram!
— É a terceira vez que te metes em confusão só neste mês!
— Não estaria me metendo em confusão se não houvesse nojentos na rua. Os Donne não deviam estar fazendo algo sobre isso?
— Abigail!
— Não, Alister, ela tem razão. As nossas ruas não são seguras – Roderick disse – Exatamente por isso que tu não devias estar a andar sozinha, Abigail.
— O que vais fazer então? Me trancar numa torre? – ela respondeu.
— Não, mas vais me forçar a colocar mais guardas na porta da casa, e que te acompanhem quando saíres.
— Para que eu seja uma prisioneira?
— Não, para que deixes de ser estúpida – Alister resmungou.
Abigail bateu na mesa, seus punhos ensanguentados deixando marcas na madeira. Roderick pigarreou, e ela voltou a afundar-se na cadeira.
— Conall, pegue um destilado e panos limpos. Vamos fazer curativos na mão dela – mandou – E tu, miúda, quieta aí.
Conall se levantou e foi para o poço do quintal, fazer como mandado. Abigail permaneceu emburrada, encarando Roderick como um gato raivoso.
— Com o Conall na Academia, tu és a mais velha aqui. Tens que aprender alguma profissão, e cuidar dos teus irmãos – ele disse.
— E achas que eu não sei? Eu odeio os trabalhos de mulheres. Se tiver que costurar mais um lencinho ou vestidinho tosco, vou furar meus próprios olhos com as agulhas – reclamou Abigail – Eu queria ir para o mar, com vocês.
— O mar não é lugar para mulheres.
— Quem disse?
— Eu digo. Eu sei que não é justo, mas não podemos subitamente fazer com que todos os homens tenham bom senso e respeito – Roderick suspirou – Confia em mim, é melhor para ti se ficares em casa.
— Sabe o que aqueles velhos me disseram? Antes de eu bater neles? – Abigail cuspiu – Disseram que eu deveria ser mais uma meretriz. Como a minha mãe. Realmente achas que eu vou ficar quieta? Achas que posso deixar pessoas assim andarem sem punição?
Ele odiava concordar com aquilo. Tentava fazer o papel de pai responsável, mas a verdade é que era apenas dez anos mais velho que ela e ainda sentia a rebelião da juventude em si. Mas Abigail não teria a mesma sorte que ele e Conall tiveram, de gastar sua energia em aventuras fúteis.
Roderick teve outra ideia, entretanto.
Era de manhã, e as plantas no fundo da casa estavam cobertas por orvalho. Abigail bocejava, sem saber bem o que Roderick queria com aquilo. Seria mais algum castigo por suas confusões na semana anterior? Ela olhava para o irmão, tentando obter alguma resposta, mas ele permanecia parado de braços cruzados, com um leve sorriso que ela não compreendia.
Alguns minutos depois, uma barulheira metálica se fez ouvir. Logan Clery arrastava um saco pesado, vindo da casa. Para um homem tão baixo, ele ocupava muito espaço, em todo lugar que fosse.
— Ei, Abigail! – ele fez uma reverência depois de arrastar o saco até o centro do pequeno pátio – Que prazer vê-la nesta manhã.
— Roderick, o que diabos está acontecendo? – ela perguntou.
— Bom, como tu insistes em causar confusões e entrar em brigas, eu decidi que é melhor que saibas bater, e não só apanhar – seu irmão explicou pacientemente – Logan aqui é um exímio espadachim. Ele irá te ensinar tudo de importante.
Logan tirara de seu saco de pano um espantalho desmontado. Ele rapidamente o pôs de pé, e jogou uma espada de madeira para Abigail. A garota franziu a testa.
— Não deveria treinar com espadas de verdade? – perguntou.
— Miúda, tu nem estás a segurar a espada corretamente. Vai demorar um pouco até pegares numa espada decente – Logan respondeu, erguendo sua própria arma de treino – Vá, em posição!
Ele avançou com a espada e bateu no braço de Abigail, que não reagiu a tempo.
— Morta! – Logan exclamou – Vamos, miúda!
Abigail fez cara feia, e ajustou os pés. Empunhou a espada com as duas mãos, e partiu para cima de Logan sem piedade. O lorde Clery habilmente se esquivou e aproveitou o momento do golpe dela para empurrá-la para a lama. Abigail grunhiu, e no próximo ataque gritou enquanto corria em direção a Logan. Mais uma vez ele se desviou, e a acertou nas costas.
— Morta!
— Cala a boca!
Roderick via tudo encostado em um canto, tendo arranjado uma xícara de chá, achando a cena divertidíssima. Eventualmente, Abigail ficou ofegante, e jogou a espada de madeira no chão.
— Era isso que querias, Roderick? Me humilhar? – gritou, o rosto vermelho e suado.
— Não é para te humilhar, Abi, é para veres que tens muito a aprender se quiseres ser uma verdadeira justiceira – ele respondeu – Quero que saibas o que estás a fazer. Mas vais ter que treinar muito.
— E o lorde Clery está a fazer isso porque…
— Porque teu irmão está a me pagar – Logan respondeu – E porque sinto falta de pegar na espada. Hoje em dia já não se fazem justas como antigamente.
— Estás a pagar?— Abigail repetiu – Roderick, não…
— Não te preocupes – assegurou seu irmão, pousando o chá – Considere que é meu presente de aniversário para ti, pelos últimos dezesseis anos.
Abigail correu até o irmão e o abraçou.
— Obrigada, obrigada, obrigada! Eu vou ser a melhor espadachim que Saye já viu.
— Vais ser a primeira espadachim que Saye já viu – Roderick respondeu.
— Não é verdade. Na velha Clery tivemos várias senhoras guerreiras! – Logan corrigiu, girando a espada de madeira na mão – Matavam os pretendentes que tentavam usurpar a liderança de seus clãs, eu descendo de uma longa linhagem de mulheres doidas.
Treinaram por mais uma hora naquela manhã. Logan começou por mostrar a Abigail como se posicionar, e como segurar melhor no punho da espada. Aquela de treino era uma espada de duas mãos, mas havia muitas outras que ela poderia experimentar.
— Temos também a espada de uma mão e meia— explicou o lorde – Podes usá-la tanto com duas mãos, ou uma mão só, como mais gostares. E vais gostar de como elas se chamam.
— Como elas se chamam? – perguntou Abigail.
— Espadas bastardas.
A garota riu.
— Acho que é esta mesma que vou usar.
Ao fim da manhã, Abigail estava suada dos pés à cabeça, e seu vestido tinha sofrido também. Ficara amarrotado e rasgado em algumas pontas, e limitara seu movimento o tempo todo.
Ela se despediu dos dois lordes no portão da casa, com um sorriso enorme. A esta altura, Conall e Kenna tinham acordado já, e do topo das escadas olhavam curiosos para a cena.
— Muito obrigado por fazer isto por mim, Logan – Roderick disse, enquanto caminhavam pelas ruas de terra – A Abigail tem o mau feitio dos Donne, prefiro que ela caminhe pela vida com maneira de se proteger.
— Fazes muito bem. Gayern é uma cidade grande e perigosa, especialmente quando se sabe que ela é uma bastarda.
— E antes que tenhas ideias — Roderick parou, e encarou o amigo – Bastarda ou não, ela é minha irmã. Se te atreveres a flertar com ela…
— Roderick, ela é tua irmã e ela é praticamente uma criança – Logan repetiu, pondo a mão no peito exageradamente – Que tipo de homem achas que eu sou?
— Não me interessa. Fique avisado.
Logan balançou a cabeça, rindo.
— O teu pai sabe de tudo isso? – perguntou.
— Não. E nem tem que saber.
Meses se passaram. Logan não estava o tempo todo em Gayern, então as sessões de treino não eram contínuas. Precisavam encontrar uma solução para aquilo, então Roderick entrou em contacto com o Grande Gaunt, amigo do conde, e explicou-lhe a situação – e pediu para que não contasse ao conde.
Dois dias depois de enviar a carta, o conde lhe chamou para o seu escritório pessoal. O jovem lorde sentou-se à frente do pai, separados por uma mesa. O cômodo era mobiliado escassamente, contando apenas com o tapete e algumas prateleiras ao seu redor.
Roderick sempre achava o rosto do pai indecifrável. Quando pequeno, nunca sabia se ia levar uma bronca, ou receber um elogio – embora este último fosse muito mais raro, ele nunca deixava de esperar que quando o pai queria conversar consigo, poderia ser para reconhecer algo de bom que fizera.
Naquele dia, entretanto, não tinha nenhuma dúvida de que a conversa não seria boa.
— Bom dia, filho – o conde cumprimentou.
— Bom dia, pai – respondeu Roderick, tentando controlar a emoção na sua voz – O senhor está bem?
— Estaria melhor, se não tivesse recebido notícias do velho Gaunt ontem.
— O que aconteceu? – o rapaz fingiu inocência.
— Estás a ensinar Abigail a lutar com espadas, Roderick, não te finjas de estúpido.
Roderick respirou fundo, se remexendo na cadeira.
— Pai, eu estou a fazer isto pelo bem dela. Abigail procura problemas, e se ela não os encontra, ela os cria. Ela é uma adolescente, dificilmente irá machucar alguém, mas ela já chegou ensanguentada em casa antes – explicou – Não conseguimos mudar seu comportamento, mas pelo menos podemos garantir que ela sabe se proteger.
— Uma bastarda espadachim – o conde repetiu – Tens ideia de quão ridículo isto soa?
As rugas e olheiras no rosto do conde pareciam mais escuras naquela manhã, ressaltando seu cansaço. Ele não devia ter dormido. O cabelo e a barba, da cor de ferrugem, estavam bagunçados, espetando-se para todas as direções como uma nuvem vermelha ao redor do rosto dele.
— Eu não vejo qual o problema – Roderick respondeu.
— Abigail não escapará dos rumores maldosos só porque tem uma espada. As pessoas ainda a vêm como filha da mãe dela— o conde explicou — Se ela andar por aí como uma espadachim, tentarão machucá-la ainda mais, só para ver até onde ela pode ir. Ela se tornará um alvo fácil de deboche e coisa pior.
— Mas ela ainda é da nossa família. O sangue Donne deveria ser suficiente para garantir-lhe proteção…
— Bastardos não têm o mesmo sangue que os filhos legítimos, muito menos os mesmos privilégios que foram concedidos a ti e aos teus irmãos. O melhor que eles têm a fazer é se misturarem com a multidão e desaparecerem. Faça a garota desistir da ideia, e não falaremos mais no assunto.
Roderick suspirou. Sabia que tanto Abigail quanto o conde não mudariam de ideias. Talvez a teimosia fosse a verdadeira marca dos Donne, e não os olhos escuros.
Teria de refazer seu plano.
O conde não iria permitir que seu nome e sua posição fossem usados para que Abigail ficasse protegida do escárnio popular. Roderick nunca tivera problemas para se misturar entre a população mais baixa de Gayern, mesmo antes de se juntar à Academia, e agora Conall seguia no mesmo caminho.
Talvez nunca devesse ter pedido a Logan e ao velho Gaunt para ajudarem sua irmã. Abigail era de outra realidade, e era nela que obteria apoio. Roderick encontraria o melhor plebeu espadachim, e este seria o novo professor de sua irmã.
1575
Fazia um ano que Abigail havia começado suas aulas de esgrima. Haviam organizado um pequeno torneio – ela, Roderick, Conall, Logan Clery e Alister, que mal conseguia erguer uma espada ainda. O professor de Abigail era um velho plebeu que havia lutado na guerra com o avô deles quando adolescente. Era respeitado entre a população de Gayern, e com a ajuda dele, Abigail também fez amigos e tornou-se bem-vinda em quase todos os estabelecimentos da cidadela. Agora, quando arranjava brigas na rua, tinha amigos ao seu lado.
Ela havia facilmente derrotado Alister na luta, e depois derrotara Roderick com algum esforço. Por fim, perdera para Logan, e Conall desistira para poupar sua honra. Abigail ficara orgulhosa de seus resultados, e comemoraram com muita cerveja.
Já de noite, Roderick e Abigail continuavam sentados no jardim, depois de todos terem ido embora.
— Por que te dás este trabalho todo, Roderick? – perguntou a garota.
— Do que estás a falar?
— Nos ajuda tanto, a mim, e ao Conall, e a Kenna, e o Alister.
— Ajudar vocês não é sacrifício nenhum para mim, Abi.
— Eu sei, mas não tens obrigação nenhuma de cuidar de nós. Por que o fazes?
Roderick suspirou. Vinha se perguntando o mesmo havia algum tempo. Fionna sempre dissera que ele tinha um coração mole. Mas ele tinha uma resposta diferente.
— Eu tinha a tua idade quando Finley nos deixou – respondeu — Eu não quero que vocês se sintam abandonados, como eu me senti. Sem ninguém para me guiar até a vida adulta.
— Eu não sabia disso – Abigail respondeu, deixando de lado o chá – Ninguém nunca fala dele.
— E por bons motivos.
Ela assentiu, pensativa, e encostou sua cabeça ao ombro de Roderick.
— Obrigada de novo, por tudo – ela disse.
— Ora essa.
Talvez ele fosse mesmo coração mole.
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