Roderick e seus doze irmãos
15 Amuleto
Notas iniciais
1575
— Tenho notícias.
Roderick ergueu os olhos do seu livro e encarou o pai com alguma preocupação. Na sala comunal do castelo de Gayern, ele estava sentado ao pé da lareira, coberto por sua manta preferida, com uma enorme xícara de chá na mesa ao seu lado.
Acabara de voltar de sua viagem para o reino de Norstad. Tinha viajado com o propósito de fazer uma boa propaganda de Saye, buscando estabelecer acordos para que o reino ajudasse o condado a transportar suas mercadorias pelo Mar Gelado. O acordo tinha sido um sucesso, mas como um bônus, Roderick tinha se envolvido com a rainha de Norstad, e acabara rejeitado, com o coração partido. Agora finalmente em casa, queria descansar antes de arranjar outro trabalho que lhe ocupasse os dias.
— O que foi? – perguntou Roderick – Algum problema?
Conde Ewan tirou de seu colete uma carta, e entregou-a para seu filho. Pelo selo e pela caligrafia cuidadosa, parecia importante.
“Meu caro conde Ewan,
Venho por meio desta informar-lhe que estou noiva novamente. O lorde Malcolm McKenzie pediu-me em casamento no último mês, e ofereceu ao meu pai um dote considerável, especialmente considerando que já não sou mais jovem, e muito menos donzela.
Não escrevo para convidar-lhe, entretanto, mas para dizer que meu noivado vem com uma condição: meu noivo é um homem tradicional, e ciumento. Por este motivo não quer criar as filhas de outro homem em seu lar. E é por isso, infelizmente, peço-lhe que aceite Moira e Catriona de volta ao castelo de Gayern, e cuide bem das nossas meninas.
Eu ainda terei permissão para vê-las com alguma frequência. Escreverei para Moira, e para Catriona também quando ela tiver idade para ler.
Com sinceridade, enquanto escrevo esta carta, meu coração se parte. Nenhuma mãe quer ver suas filhas crescerem de longe. Entretanto, conhece bem a situação financeira da minha família, e que uma mulher na minha condição não tem o privilégio de escolher quando uma boa oportunidade aparece. Por mais que eu não queria abandonar minhas meninas, faço isso para o bem delas.
Sua,
Ailsa Bigbie”
Roderick não soube como reagir ao acabar de ler. Ailsa era sua antiga madrasta.
Ela e o conde haviam se separado muitos anos antes, pois ele havia sido flagrado em adultério, e pelas leis sayenas, isto permitia divórcio. Assim, as duas filhas que o casal gerara foram morar com a família da mãe, e não pisavam em Gayern desde então.
— Então… Moira e Catriona vão voltar a morar conosco? – Roderick repetiu.
— Pelos vistos – Ewan respondeu – Crianças morando no castelo. Há quanto tempo não temos isto?
O conde tinha razão. Fionna morava com a família do marido, e o pequeno Nick os visitava com alguma frequência. Mas ter os quartos do castelo permanentemente ocupados por crianças era um fenômeno que já não viam havia tempos.
Roderick ficou surpreso por ver no rosto do pai o que parecia ser animação.
— Precisamos contratar governantas para cuidar delas – constatou o jovem lorde.
— Devíamos é contratar amigos para elas – brincou o conde – Crescer neste castelo sem outras crianças vai lhes fazer mal. Vou dizer a Fionna para que volte a morar conosco.
O bom-humor surpreendente do pai estava deixando Roderick preocupado. Será que ele finalmente tinha ficado senil? O rapaz deixou o livro de lado, e olhou para as pinturas penduradas pela sala, retratando a família Donne. Nos mais altos estavam desenhos brutos de seus ancestrais, e nos mais baixos, ele e seus irmãos.
Na ponta mais próxima da porta, estava a pintura mais antiga daquele grupo. Mostrava um jovem conde, com apenas dezoito anos, ao lado de uma garota sardenta de cabelos igualmente ruivos. Era a mãe de Fionna, que morrera no parto. Aquela pintura tinha sido feita no dia do casamento deles.
No centro estava o quadro maior. O conde, agora mais velho, com Elinor e as cinco crianças – Fionna, de pé ao lado do pai, Blair, que até na pintura parecia distraída, Griselda no colo da mãe, e Roderick com seus cabelos cacheados rebeldes. O rosto de Finley tinha sido apagado com fuligem.
Ao lado deste, estava a única imagem de Lady Ailsa que permanecia no castelo. Era ela, sozinha, com as duas meninas, Moira e Catriona. Cat também era apenas um bebezinho nos braços da senhora. Tinham ido embora de Gayern pouco tempo depois daquele retrato ter sido pintado, seis anos antes.
Roderick lembrava-se muito pouco das irmãs. Seus rostinhos infantis não eram marcantes, e ele poderia tê-las confundido com qualquer outra criança que visse. E agora elas voltariam para casa.
Um espaço já tinha sido reservado na parede, para um quarto quadro. O conde estava noivo novamente, aos cinquenta e três anos, com uma viúva de quarenta, a senhora Caroline Roy. Era um casamento de conveniência, acima de tudo – boatos sobre a lucidez do conde já começavam a circular, e alguns súditos começavam a se preocupar com o fato dele estar a se tornar cada vez mais recluso. A família Roy era dona de férteis terrenos, não muito longe de Gayern, e bons amigos dos Donne há gerações.
— A sua noiva não vai se importar com as meninas voltando? – Roderick perguntou, voltando-se para o pai.
— Já tratei do assunto. Caroline é uma pessoa dócil, e não é como se eu esperasse ter filhos com ela – o conde respondeu, simplesmente – Ela disse-me que vai ficar mais do que feliz em conhecer Cat e Moira.
Roderick assentiu. Pelo pouco que conhecia da nova madrasta, parecia ser verdade. O conde uniu as mãos, subitamente cheio de energia.
— Bom, temos que mandar os criados arrumarem-lhes um quarto. Ou quartos individuais, agora que o castelo anda tão vazio – anunciou, já se pondo a caminho da porta – Achas que os velhos brinquedos de Griselda continuam em bom estado? Certamente estão cheios de poeira, mas nada que panos não resolvam…
Roderick riu, incrédulo com a situação toda. Não se lembrava quando tinha sido a última vez que vira o pai tão empolgado com alguma coisa. Esta nova reviravolta lutava para se encaixar na mente dele, na visão que tinha do pai. Como é que ele estava tão ansioso por cuidar das filhas de novo, filhas que ele mal conhecera, e filhas de uma mulher que o detestava?
O comentário sobre o castelo estar vazio não passara despercebido. Será que o velho tordo estava sentindo-se solitário naquele ninho, agora que quase todos seus filhos legítimos eram adultos? A ideia pareceu-lhe absurda, mas era a única explicação que encontrava naquele momento.
Bom, se Roderick esperava que teria paz e silêncio em seus tempos de folga, estava muito enganado.
Algumas semanas depois.
Lady Ailsa chegou ao castelo com um rosto contorcido por desgosto, e as típicas roupas escuras de Saye pareciam ainda mais adequadas à situação. Parecia uma mulher assistindo sua própria marcha fúnebre. Até o clima parecia colaborar com a tristeza da nobre mulher – era uma tarde nublada de fim de inverno, e o vento uivava por todo o vilarejo. Não mudara muito desde que abandonara a cidade – na verdade, até parecia ter rejuvenescido. O cabelo castanho estava muito bem preso em um penteado elaborado, e trajava também elegantes luvas de cetim.
As duas pequeninas vinham de mãos dadas, escondidas entre as saias da mãe, os rostos mal sendo visíveis em meio à confusão. Moira, com seus dez anos já passava da altura da cintura de Ailsa, mas Catriona por vezes desaparecia por completo.
Vários criados carregavam baús pelo pequeno campo que ocupava o espaço entre as muralhas e o castelo em si. Roderick esperava para receber as três mulheres no meio do caminho, enquanto o pai as receberia no salão principal.
Os dois não haviam conversado muito sobre o assunto da cerimónia da chegada das meninas em si, mas o jovem lorde decidira se vestir bem para a ocasião. Não queria que suas irmãs sentissem que eram menos importantes, ou que estariam sendo recebida ali como servas. Eram herdeiras, afinal de contas, e mereciam boas-vindas dignas de tal.
Foi difícil encontrar um par de botas que não estivesse muito gasto, sua capa estava empoeirada, mas sua camisa de gola com rufo e o gibão de veludo verde que mais gostava ainda lhe cabiam. Verde-musgo era a cor da família Donne, portanto parecia justo usar a cor neste dia importante.
Quando Ailsa, Moira e Catriona finalmente chegaram a Roderick, as três fizeram uma vénia, mas não disseram nada. Sentindo que esperavam que ele tomasse iniciativa, ele disse:
— Minhas senhoras, bem-vindas ao castelo. Lady Ailsa, é um prazer revê-la.
Então, espontaneamente, Catriona saiu de trás de sua mãe e deu alguns passos nervosos para mais perto de Roderick. Olhou para cima, para o rosto dele, e disse:
— Papai?
Roderick sentiu seu rosto queimar e soube que agora ele estava completamente vermelho de vergonha. Catriona pareceu igualmente envergonhada com a situação, pois voltou para trás das saias da mãe.
— N-não, o… o pai está à espera de vocês dentro do castelo. Ele tem presentes para vocês duas.
— Meninas, não se lembram do vosso irmão Roderick? – disse Lady Ailsa.
— És nosso irmão? – agora foi Moira que perguntou – És tão grande.
— Bom, acho que vocês vão ser grandes também um dia, como eu – respondeu ele – Vamos, antes que comece a chover.
A caminhada até o grande salão do castelo foi tão desconfortável quanto aquele momento inicial. Lorde Ewan estava sentado no pequeno trono dos condes de Saye, que não chegava nem perto do luxo de um trono legítimo, mas era o melhor que tinham. Ele também havia decidido se arrumar para a ocasião, pois hoje sua barba estava aparada e o cabelo ruivo penteado.
Não pareceu impressionar Ailsa, pois seu rosto continuou tão glacial quanto antes. Receberam boas-vindas novamente, e foram apresentadas à governanta que havia sido contratada para cuidar das meninas.
— Agora, deixem-me lhes mostrar o vosso presente – disse o Conde – Roderick, podes me trazer as caixas?
O salão estava vazio no momento, sem mesas ou cadeiras. Atrás do trono, embaixo de uma das tapeçarias, duas caixas estavam dispostas uma em cima da outra. Eram cobertas com couro e com decorações em tinta dourada, num formato achatado. Também não eram muito pesadas. Roderick as pegou e levou até o pai.
O conde Ewan colocou as caixas sobre seu colo e abriu as fivelas que as mantinham fechadas, revelando um diadema em cada uma.
Os olhos de Catriona e Moira estavam esbugalhados e grudados nas jóias dos diademas, boquiabertas.
— É para nós? – perguntou Catriona, olhando para o pai.
— Claro que sim. Já não cabem em Roderick – brincou o conde, conseguindo fazer as meninas rirem – A com rubis é para Moira, e a de esmeraldas, para Catriona. Posso?
As duas assentiram ansiosamente, enquanto o conde colocava os adereços em suas cabeças. Ele continuou conversando com as duas, enquanto Lady Ailsa e Roderick se afastaram um pouco.
— Como estão os preparativos para o casamento, minha senhora? – perguntou o rapaz.
A senhora cruzou os braços e deu de ombros.
— Não tenho do que reclamar. Meu noivo é um homem rico, tudo será feito com todo o luxo que seu status permite. Mais até que a festa que tive com o senhor seu pai.
— Eu imagino. E ele é um bom homem?
Lady Ailsa olhou de esguelha para seu ex-enteado.
— Tão bom quanto qualquer outro que eu possa arrumar. Vai ser um bom casamento. Peço desculpas, mas não posso convidar nenhum de vocês, como podes imaginar.
— É claro.
— E tu, Roderick? – perguntou a senhora, voltando-se para ele – Estiveste em Norstad há alguns meses, não foi?
“Oh não”, pensou o rapaz, imaginando onde a conversa iria acabar.
— Estive sim, senhora – respondeu ele baixinho.
A mulher sorriu pela primeira vez, com algum traço de zombaria em sua expressão.
— Ouvi dizer que te aproximaste bastante da rainha… achei que estarias a arranjar um casamento nobre para ti mesmo também.
Roderick desejou que um buraco se abrisse no chão aos seus pés e o engolisse, para não ter de continuar aquela conversa.
— Com todo o respeito, acho que este boato é muito exagerado, senhora – disse, por fim – A rainha Gerda e eu fomos bons amigos.
— É claro. Todos precisamos de bons amigos, afinal – continuou Ailsa – Diga-me, Roderick, quantos anos tens agora? Trinta?
— Vinte e sete.
— Já podias ser pai das meninas – observou a mulher – E também não tens filhos nenhuns, pois não? Nenhum bastardo?
— Não, senhora.
Lady Ailsa deu de ombros.
— Devias começar a procurar uma esposa. Um homem, da tua idade, sozinho assim… podem surgir rumores desagradáveis.
Roderick agora desejava que o buraco que o engolisse também tivesse lava em seu fundo, pois as queimaduras seriam menos desconfortáveis que aquilo.
Voltou a sua atenção novamente para suas irmãs, ainda entretidas com o pai e com seus diademas. O conde lhes contava histórias da família, de suas irmãs mais velhas e suas peripécias. As duas acompanhavam tudo com olhos esbugalhados e risos prontos para escaparem de seus peitos.
Contra sua vontade, Roderick sentiu um pouco de inveja das duas. Aquela versão alegre de Ewan durara por pouco tempo em sua infância. Aquele não era o pai que ele tivera.
1583
— Olha só essa pedra, Roderick! – exclamou Catriona, ajoelhada à beira do muro que os separava do mar.
O lorde estava a alguns metros de distância da irmã mais nova. Atravessou o terreno acidentado do cais, de olho no chão. Moira logo o acompanhou, até pararem ao lado de Catriona.
— O que tem de especial? – ele perguntou.
Cat ergueu a pedra ao sol, branca e perfeitamente redonda. Deu um risinho zombeteiro.
— É igualzinha a ti!
As duas moças começaram a rir. Moira tomou o calhau das mãos da irmã e o colocou ao lado rosto de Roderick. Fechou um dos olhos, fingindo estar a concentrar-se na comparação dos dois.
— Com a tua careca brilhante conseguimos ver-te de outro condado! – riu-se a mais velha.
Roderick revirou os olhos e fingiu estar magoado, mas é claro que não estava.
Moira e Cat agora tinham dezoito e catorze anos, respetivamente, e tinham quase a mesma altura. Catriona ainda tinha um rosto rechonchudo e sardento de infância, mas Moira estava cada dia mais parecida com a mãe. Ambas tinham herdado o cabelo cor de chocolate de Ailsa, e os olhos igualmente escuros dos Donne.
Estavam os três a se divertirem no cais, mas o motivo de seu passeio era um tanto quanto triste. Roderick estaria partindo para Daire, como convidado da família real do distante reino ao sul. Era um gesto de educação, uma vez que o mais novo dos príncipes de Daire, o príncipe Henrique, tinha estado em Saye durante os últimos dez meses, e Roderick havia sido seu mentor.
Cat continuou sentada sobre a amurada, balançando os pés descuidadamente e olhando para o mar agitado abaixo de si.
— Promete que vais nos escrever toda semana? – pediu ela, erguendo o rosto para Roderick – E contar-nos tudo sobre os dairenses?
— Miúda, os mensageiros não vão de lá para cá toda semana – respondeu Roderick, sentando-se ao lado dela – Vão receber maços de cartas acumuladas, sabes disso.
— Não me interessa, quero saber das coisas incríveis que vais ver no Sul! – insistiu Catriona – Das roupas coloridas, dos vinhos, das praias quentinhas…
— E das tuas namoradas! – acrescentou Moira, juntando-se aos dois na amurada.
Roderick riu e cruzou os braços, olhando de uma para outra.
— Então é isso que vocês acham que eu vou fazer lá? – disse ele – Comprar roupas, embebedar-me e arranjar uma esposa?
— Não foi isso que eu disse! Mas olha, quem sabe, não é? – retrucou Moira – Ouvi dizer que as mulheres do Sul são muito bonitas, e quem sabe se tu não voltas para cá com uma coelhinha estrangeira!
Catriona tentou esconder os risinhos, tapando a boca com as mãos.
— Vocês meninas não pensam em outra coisa senão romance, não é? Aliás, Moira… – provocou Roderick – Um passarinho contou-me que tu e um tal de Connor Beattie dançaram três vezes no baile da semana passada…
Dessa vez, Cat não conseguiu esconder sua reação de espanto. Moira tinha o rosto contorcido numa carranca enfurecida, praticamente com fumaça a sair das orelhas.
— Tu foste ao baile? O pai tinha dito que nós não podíamos ir! – inquiriu Catriona.
— O pai disse que tu não podias ir. Eu sou uma adulta! – respondeu Moira.
— Adulta, é claro – ironizou Roderick.
— Traidora! – exclamou Cat – E o Connor é mesmo feio. Bem me pareceu que tinhas mal gosto para namorados.
— Ele não é meu namorado! – retrucou a mais velha – Rod, quem te contou isto?
— Alister. Ele viu-te lá.
Agora era Moira a tentar esconder o rosto com o seu casaco.
— Eu. Vou. Matar. O Alister. Vou arrancar a espada do pai da parede e espetá-lo bem no rabo! Aquele maldito…
Moira bateu as mãos contra a amurada de pedra. Roderick não duvidava de que ela realmente fosse estapear Alister.
— Bom, quando eu voltar de Daire, este tal Connor vai ter de passar pela aprovação minha, do Conall, do Alister e do pai… — continuou o irmão mais velho.
— Por amor dos deuses não conte ao pai!— gritou Moira, agarrando Roderick pelos ombros – Rod. Promete-me! Se contares ao pai, eu nunca mais falo contigo.
— Nunca mais ter que ouvir tuas reclamações e resmungos? Isto não é uma ameaça, Moira, é um alívio!
— Roderick!
— Estou a brincar, bobinha. Prometo.
— Não podes prometer pelo Alister! – cantarolou Catriona.
Moira voltou a murmurar alguma coisa, de braços cruzados. Roderick tentou fazê-la rir com um aperto nas bochechas, como fazia quando eram pequenas, e Moira acabou por descontrair.
Uma grande onda quebrou-se no paredão onde estavam, muitos metros abaixo. Catriona era mais ágil, e conseguiu se esquivar a tempo, emitindo um gritinho, mas Roderick e Moira tiveram suas pernas molhadas com os respingos.
— O mar está bravo, Rod! – observou a mais velha, subitamente nervosa – É seguro viajar?
— Já naveguei em tempos piores que este, Moira – explicou Roderick – E nós somos os melhores navegadores do continente. Não tens que te preocupar.
— Tens a certeza?
O lorde virou-se para sua irmã e sorriu. Ela continuava com os olhos fixos nas ondas, com ar bravo. Como se pudesse discutir com o oceano para que não atacasse seu irmão.
— Tenho sim, miudinha. E assim que puser os pés em Daire, mando um mensageiro para vocês saberem que estou bem.
Moira assentiu, parecendo satisfeita com a resolução. Cat continuou inquieta por algum tempo, até que sugeriu:
— Leva a pedra que parece contigo. Como boa sorte.
Ela ofereceu a pedra, que tinha ficado guardada no bolso de seu casaco. Roderick aceitou, girando um pouco o calhau em suas mãos, e depois passando-o para seu próprio bolso.
— Duvido que algum dia encontrarei um amuleto melhor – concluiu ele.
Roderick também se preocupava com sua viagem, mas não por ter medo do mar, mas sim por deixar Saye por tanto tempo.
Seu pai já não era nem metade do homem forte que fora um dia, estava velho e constantemente doente. Ele temia que fraquejasse, e a desgraça caísse sobre o condado enquanto estivesse fora. Confiava em Fionna, mas doía-lhe não estar por perto para tomar conta de Cat e Moira caso o pior acontecesse.
Tentou afastar os pensamentos por agora. Tinha que aproveitar os últimos instantes com as irmãs.
Depois de mais alguns minutos, gastos com risos, conversa simples e provocações, um servo veio dizer a Roderick que seu navio estava pronto para zarpar, e que Fionna queria conversar com ele em particular.
Imediatamente, os olhos das duas se arregalaram, e Catriona até parecia estar a segurar lágrimas. Roderick virou-se de volta para o chão de pedra, e pôs-se de pé. As meninas logo o imitaram.
— Chegou o momento, miúdas – anunciou ele – Venham olhar para a minha cara pela última vez.
— Assim parece até que vais morrer! – resmungou Moira.
Catriona rapidamente o abraçou, os braços finos apertando-o com toda a força que podiam.
— Não demores – pediu ela.
— Sabes que eu não posso garantir isso, Cat.
— Eu sei. Mas não demores na mesma.
Ela se afastou para deixar lugar para a outra irmã. Moira deu um abraço mais rápido no irmão, mas ao final, segurou-lhe pelos ombros e disse:
— Jogue a pedra da sorte no mar quando chegares em Daire. Para agradecer quaisquer deuses sulistas que existam por terem te levado até lá em paz.
— Pode deixar – Roderick sorriu.
Apesar de ser época de tempestades, a viagem por mar foi surpreendentemente calma. Nenhuma chuva forte ou onda gigantesca atacou o navio que transportava Roderick e o jovem príncipe dairense. Chegando em Soler, a capital de Daire, as nuvens clarearam, revelando um sol misericordioso e agradável. Roderick jogou a pedra no mar.
Fale com o autor