Roderick e seus doze irmãos
16 É feio fofocar, Cat
Notas iniciais
1585
Roderick, sendo o bom tio que era, cumprira sua promessa e levara Nick em um passeio à cavalo pelos perímetros do castelo. Em outros tempos ele o teria levado para os prados na periferia de Gayern, onde os fazendeiros criavam seus animais, ou no tapado mais próximo do castelo, onde eles caçavam javalis ou, com alguma sorte, veados vermelhos. Entretanto, Fionna os proibira de ir tão longe, mesmo com guardas do castelo.
Mesmo assim, conseguiram se divertir. Correram com os animais pelo bosque, saltando os riachos que apareciam, desviando-se de galhos e esporando os cavalos para correrem o mais rápido que conseguiam. Quando enfim pararam, foi por insistência de Roderick. Nick, apesar de estar tão esbaforido e cansado quanto o tio, não iria querer admitir sua fraqueza naquele rito de passagem dos homens Donne.
Voltaram caminhando, guiando os cavalos de volta para os estábulos, as pernas doridas. Roderick tentava entreter seu sobrinho com histórias de Daire, histórias que ouvira dos irmãos e primos de Francisca. Quando estas se esgotaram, entretanto, caminharam em silêncio por alguns instantes.
Nick se encontrava no momento da adolescência em que não era nem homem nem criança, mas um meio-termo desengonçado. Ele tentava forçar sua voz, para que ficasse mais grave, mas logo se esganiçava. Tinha herdado os cabelos e os olhos de Fionna, mas de resto – seu nariz alongado, o rosto ovalado, as sardas – herdara do pai.
— Tio, a minha mãe… ela está bem? – perguntou ele, quebrando o silêncio.
— Por que perguntas?
— Ela está estranha. Não tem falado muito comigo – explicou o menino – Mandou uns amigos do avô serem meus tutores. Estão me falando da última guerra.
— A tua mãe está a te educar para o futuro, Nick. Um dia tu serás o conde de Saye, quando ela morrer.
Nick fez um carinho em seu cavalo, tentando esconder sua careta.
— Mas ainda é cedo – ele murmurou – Minha mãe não vai morrer por algum tempo…
— Bem, é sempre importante estar prevenido. Nunca se sabe o dia de amanhã – Roderick respondeu – E todo mundo morre um dia. Até mesmo a tua mãe.
Seu sobrinho assentiu, novamente pensativo. Roderick se perguntou o quanto ele saberia sobre o que a condessa andava a planejar. Ele se perguntou se Fionna estava se preparando para o pior, pensando em todos os seus bisavôs, tios avôs e outros parentes que tinham herdado Saye e morrido logo depois, ainda adolescentes.
Mas isso não aconteceria com eles. Não desta vez.
— Como a tua mãe reagiu, quando o teu avô morreu? – perguntou Roderick.
Já estavam chegando aos estábulos. Os dois baixaram a voz, para manter sua conversa protegida dos empregados do castelo, que os recebiam com pequenas cortesias.
— Ela se trancou no quarto por um dia todo, Rod. Não falou com ninguém – respondeu o rapaz — Meu pai é que teve que ir lá, trazê-la de volta. Ela me abraçou forte e chorou, e nunca mais tocamos no assunto.
Roderick suspirou. Bem como esperava.
— Ouve, Nick. A tua mãe é a pessoa mais forte e inteligente que eu conheço – ele disse, pondo uma mão no ombro dele – Mas isso quer dizer também que ela nunca vai admitir quando está fraca. Cabe a nós ficar de olho nela, e lhe oferecer ajuda quando achamos que ela precisa. Entendes?
— Entendo. Obrigado, tio.
Já estavam a caminho do castelo, quando subitamente uma rajada de vento veio, acompanhada de uma voz estridente, gritando:
— RODERICK!
O lorde mal teve tempo de se virar antes que Cat viesse voando em sua direção, quase o derrubando para trás com seu potente abraço. Moira vinha não muito atrás. Pelos vistos, enquanto estavam ocupados andando a cavalo, suas irmãs haviam chegado.
— Miúdas! – Roderick respondeu, assim que Cat o permitiu respirar novamente – Como foi a viagem?
— Uma chatice. Moira leu o tempo inteiro e não quis jogar nada comigo durante os três dias.
— Teus jogos de adivinha são todos tão aborrecidos! – retrucou a mais velha – Eu já não me interesso por estas coisas.
— Bom, ao menos agora tenho o Nick para me acompanhar – concluiu Cat.
Era estranho pensar que aquele trio era composto por tias e sobrinho – Moira e Catriona, com vinte e dezesseis anos, e Nick com quatorze.
— Eu também acho jogos de adivinha muito chatos, Cat. É jogo de criancinhas – disse o menino.
— E tu és o quê? Nem tens pelos na cara ainda.
— Parem de brigar, vocês três – Roderick repreendeu – Então, é só isso que têm a me contar depois de tanto tempo sem nos vermos?
A última vez que estiveram juntos foi antes de Roderick ir para Daire, dois anos antes. Tinham trocado inúmeras cartas no meio tempo – suas irmãs pareciam ter um abastecimento infinito de tinta, papel e fofocas – mas era completamente diferente vê-las em pessoa.
— Roderick, tenho algo a te contar! Encontramos com o teu amigo Logan Clery numa taberna, quando paramos na estrada a caminho daqui – Moira comentou.
— Ah é? E como ele estava?
— Bêbado. Ele e a senhora Peigi pareciam estar a comemorar antecipadamente. Mas foram simpáticos conosco, e asseguraram que logo nos veríamos no casamento.
— Acho bom mesmo. Se aquele bebum não aparecer, eu mando Fionna exilá-lo – Roderick resmungou.
— Não lhe dês ideias, tio, a minha mãe odeia o Logan – Nick riu.
— Eu sei bem disso. Eu o conheço há mais tempo do que vocês dois são vivos – continuou o conde, apontando para as duas criaturinhas mais novas.
— Estás mesmo velho – brincou Cat – Ainda bem que vais finalmente se casar, mais um pouco e tua noiva ia ter que te encontrar numa cripta.
Roderick gargalhou.
— Sua diabrete, por acaso foi a senhora tua mãe que te ensinou estas indelicadezas?
A garota respondeu apenas mostrando-lhe a língua. Moira tapou a cara com uma mão, balançando a cabeça.
— Cat, os teus modos, eu juro…
— Deixa ela, eu já ouvi ofensas piores – Roderick assegurou, pondo uma mão no ombro dela – Mas chega de ficarmos parados aqui, vamos para casa.
— Oh, Rod, eu já ia me esquecendo! Tenho uma surpresa para ti! – Catriona disse, puxando a manga do casaco dele – Está no nosso quarto, tens de ver!
— Por favor, me diz que é um cãozinho – disse o lorde.
— Não é um cãozinho.
Ele foi arrastado pelas escadas e corredores, com Cat caminhando praticamente aos saltinhos. Pelo meio do caminho Nick ficou para trás, sendo chamado pela mãe para fazer algo mais importante.
O quarto que as garotas agora dividiam estava caótico, com os pertences delas ainda espalhados por todos os cantos. Em cima da cama de Cat estava uma caixa de madeira, decorada com uma fitinha na tampa.
— Depois que eu fiz quinze anos, nossa mãe insistiu que eu aprendesse alguma habilidade de donzelas – a garota contou, revirando os olhos – Então eu aprendi a costurar. E olha só o que fiz para ti!
Ela apontou orgulhosamente para a caixa. Roderick retirou a tampa, e lá encontrou uma peça familiar.
Era o traje tradicional de Saye. Na época de seus avós, aquele era o traje que os sayenos usavam no dia a dia. Com o fim da guerra, entretanto, Breator proibira o uso da vestimenta sem ser em eventos importantes, e o traje tornara-se mais um lembrete vergonhoso da derrota.
Consistia em uma bata comprida, que ia até os joelhos, com um cinto de couro que separava a parte de cima. Esta podia ser removida através de uma costura e em ocasiões especiais devia ter as cores e o brasão da família. A parte de baixo, uma espécie de saiote grosso era sempre de um castanho lamacento, que os ajudaria a se camuflarem na paisagem quando fosse necessário fugir.
Os tordos negros costurados no peito e o verde-musgo da parte de cima, reforçada por um colete de couro, marcavam aquela veste como sendo dos Donne.
— O que achaste? – Cat perguntou, seus olhos arregalados de antecipação.
— É excelente, miúda – Roderick respondeu, erguendo as peças para colocá-las por cima do corpo – Como sabias que iria me caber?
— Eu mandei a Abigail roubar umas roupas tuas que ficaram aqui para eu usar as mesmas medidas. Ainda bem que não engordaste demasiado no sul.
Roderick riu, e voltou a guardar as peças na caixa. Então, virou-se para Moira.
— E tu, como andam as aulas de harpa?
— Ah, eu… eu parei, depois que o pai morreu – Moira respondeu, olhando para o chão – Ele gostava tanto de me ouvir tocar. Agora sempre que tento tocar fico triste a pensar nele.
Até a constante animação de Catriona se apagou naquele momento. Ela tomou a mão de sua irmã, sem acrescentar nada.
— Bom, vamos falar de alguma coisa mais feliz – ele disse, ansioso por mudar de assunto – Vocês vão finalmente conhecer a Francisca.
Os rostos de ambas se iluminaram.
— É verdade – Moira respondeu, sorrindo – Sinto que vamos ser boas amigas.
— Eu também acho – ele concordou.
— Rooooderick, tenho uma pergunta indiscreta para te fazer… — Cat disse, quase cantarolando – E Moira, já sei o que vais dizer, ah, é feio fofocar Cat, isso não se faz, blá blá blá, não me interessa, vou perguntar na mesma.
Sua irmã mais velha bufou, e cruzou os braços. Roderick respirou fundo.
— Diz, Cat.
— É verdade que só estás a te casar com a princesa porque ela está grávida?
Moira deu um tapa em sua própria testa, o rosto vermelho. O lorde riu, tentando parecer inabalado pela sugestão.
— De onde tiraste isso?
— É o que o nosso padrasto anda a dizer. A mamãe também acha que é verdade.
— Bem, não é verdade – Roderick respondeu.
— Que pena. Eu estava doida para ter uns sobrinhos.
Roderick riu.
— E o Nicholas é o quê?
— Ele não conta, é da nossa idade.
— E os filhos da Griselda?
— Nós só os vemos uma vez por ano, também não contam. Queria um sobrinho filho teu, porque assim podemos ficar mais tempo aqui em Gayern para ajudar a tua princesa a cuidar deles…
— Ainda há muito tempo antes de eu ter meu primeiro filho, Cat, acalma-te – Roderick garantiu – Tens tempo de costurar um enxoval inteiro.
— Oh, céus, não lhe dês ideias – Moira revirou os olhos, enquanto sua irmã batia palmas deliciada com a ideia – Mas então diga-me, Roderick, se não é por causa de escândalo, por que é que vais te casar com a princesa assim tão de repente?
Moira tinha uma cara séria, inquisitiva, como se estivesse insultada por ter sido privada daquele assunto nas cartas que recebera do irmão. Ele queria tanto contar-lhes a verdade, mas sabia que não era hora.
— Bom, é um escândalo. Eu e Francisca éramos…. – Roderick começou.
— Amantes— completou Cat, sorridente.
Moira parecia prestes a ter um ataque de nervos, tremendo de vontade de esbofetear a irmã até que sua sem-vergonhice desaparecesse.
— Sim, exato. O irmão dela, o rei José, descobriu e ficou preocupado com a virtude de Francisca – Roderick continuou, incerto de que palavras usar – Então, como eu era o culpado por aquilo tudo, aceitei me casar com ela para evitar que ela caísse em desgraça.
— O rei deve te odiar.
— Não, pelo contrário, somos bons amigos. Eu tinha que assumir a responsabilidade pelo que eu fiz.
— Terias feito o mesmo se fosse conosco?
— Oh, o rei é infinitamente mais bondoso do que eu. Se eu descobrisse que algum rapaz andou a se engraçar com uma de vocês, só encontrariam os ossos dele – o lorde brincou.
— Roderick!— protestou Cat – Não é justo.
Ele riu, prendendo-a com um braço e bagunçando seus cabelos com a mão livre.
Moira havia ficado quieta. Ela olhava pela janela, com o rosto indecifrável. Não teria gostado da piada? Teria achado vergonhosa a farsa que haviam criado para justificar o casamento? Roderick nunca havia considerado que aquilo poderia ter algum efeito na maneira que suas irmãs o viam.
— Cat, podes ir embora por um instante? Quero falar a sós com o Roderick – pediu a garota.
— Por quê?
— São coisas de adulto, não te interessam. Vai perseguir um gato, ou coisa do tipo.
Catriona olhou para Roderick, e ele lhe respondeu com um aceno de cabeça.
— Vá, Cat, eu prometo que logo depois do jantar eu te conto tudo e mais um pouco sobre as festas de Daire – ele disse.
— Aí sim! – exclamou a garota.
Ela lhe deu um último aceno, e deixou Roderick e Moira em paz.
— Então, o que querias perguntar?
Moira alternou o peso de um pé para o outro, de braços cruzados e olhos fixos no chão.
— Eu sei o porquê do teu casamento com a princesa. Ouvi minha mãe e o meu padrasto a conversar sobre isso, em segredo.
Roderick empalideceu.
Oh.
— Vai haver uma revolta contra Breator, não vai? – ela completou – E a tua princesa é nossa aliança com o Sul nisto.
O lorde engoliu em seco, e agora era ele a olhar para o chão, sentindo uma enorme mão esmagar seu coração, e a dor familiar da culpa – e do medo, e da vergonha, tudo de uma vez — tomando o seu peito.
— Sim, Moira. É verdade.
— E haverá uma guerra?
Ele suspirou pesadamente.
— Idealmente, não. Mas Breator certamente não ficará feliz com as nossas ações e reinvindicações. Eles nunca foram muito bons em dialogar.
— Nem nós – Moira resmungou.
Naquele momento, algo que Roderick temia admitir ficou ridiculamente óbvio. Moira já não era uma criancinha. Em sua mente, ela e Catriona existiam na redoma da infância, alheia aos problemas e perigos que as cercavam, e coubera a ele e ao pai mantê-las assim. Mas elas cresceram, e a redoma já não mais lhe servia.
— A Catriona… a Catriona não sabe, não é? – Roderick perguntou.
Moira balançou a cabeça negativamente, lágrimas tomando conta de seus olhos.
— Ela é muito nova, ainda não percebeu. Prefere pensar que tu e a princesa têm uma linda história de amor proibido – respondeu com amargor – Mas é só mais política.
— Tudo é política, Moira. Quanto mais cedo souberes disso, melhor.
A garota limpou o rosto com um lenço que trazia no bolso do vestido.
— As pessoas vão morrer de novo, Roderick – murmurou – Eu estou com medo.
— Nada de mal acontecer a ti ou à tua irmã. Ou à tua mãe. Eu te prometo – foi a primeira coisa que ele conseguiu dizer.
— Mas e tu? Quem dirá o que acontecerá contigo? E a tua noiva, e os teus filhos?
Roderick quase conseguia ouvir os risos satisfeitos de Blair, nas montanhas. Ele respirou fundo.
— Eu não sei, Moira. Eu não tenho as respostas. Mas preciso fazer aquilo que acredito que seja certo.
— Eu não achei que iria me tornar uma adulta no meio de uma guerra.
A garota soluçou, e Roderick a puxou para um abraço de urso. Ela o abraçou de volta. Permaneceram assim por algum tempo, até que foram despertados por uma empregada batendo na porta para anunciar que o almoço os aguardava.
Moira limpou o rosto de novo com seu lenço.
— Desculpa… eu molhei teu casaco.
— Não faz mal, não faz mal.
Roderick tentou oferecer um sorriso animador, que Moira correspondeu.
— Vais ficar bem – ele disse – Isto tudo acabará logo.
Ela assentiu, e de braços dados, seguiram para o jantar. Roderick tinha a terrível sensação de que acabara de lhe contar uma enorme mentira.
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