XVI — VIA Y-65, Porvenir, Magalhães e Antártica Chilena

A estadia na antiga casa se estendeu à base de longas conversas, ora corriqueiras, ora quase programadas, de muita comida caseira e de algumas-várias xícaras de uma das melhores infusões que Asami Sato teve o prazer de experimentar na vida. Embora não soubesse ainda, Asami retornaria outras vezes – mas a bebida nunca tornaria a ter aquele sabor novamente. Era daquele tipo de memória afetiva insubstituível.

A recepção de Martina fazia com que Asami se sentisse igualmente grata e culpada. No fundo da mente, sua consciência lhe explicava que não era de bom tom permanecer na residência e ocupar o tempo da velha senhora por mais de uma noite. No entanto, Martina havia insistido de tantas maneiras sutis e não sutis – como oferecer uma cópia corriqueira da chave da porta principal, caso Sato quisesse sair à noite –, ao passo que Asami não havia se esforçado muito para resistir à hospitalidade. Ambas ações somadas resultaram em um período de estadia maior que o planejado desde o princípio. E de alguma forma, se sentir querida pela senhora também significava algo que a mulher não soube identificar de imediato.

Por horas se pegou caminhando por Porvenir – seu destino favorito era o museu provincial. Não que isso impedisse Asami de simplesmente se maravilhar com as vistas do céu, ou da orla, se perdendo num estado contemplativo e legítimo de absorção. Quando voltava, compartilhava todas suas descobertas com Martina com o intuito de obter curiosidades, informações (ou fofocas) a partir da perspectiva da moradora local. Era estranho, mas ao mesmo tempo maravilhoso perceber como havia conseguido se adaptar, mesmo que temporariamente, num espaço geográfico tão pacato quanto era a vila. A diferença no ar, a diferença em sua rotina normal, o trânsito distinto de uma grande metrópole, o sorriso e bom-humor das pessoas era convidativo, quase quente, apesar do clima.

Asami decidiu aceitar o descanso de bom grado.

Para além do contato diário com Martina, conversava regularmente com Zhu Li e também com Korra por chat. A cada dia, porém, havia um pequeno ritual interno contra o hábito: Asami tentava, de todos os ângulos viáveis, se convencer de que não deveria enviar mensagens para Korra; que talvez estivesse sendo inconveniente, atrapalhando a viagem e as descobertas da mulher – ou pior que isso, que estivesse sendo maçante ou (que Deus a ajudasse) carente. No entanto, algo dentro de si empregava força e energia semelhantes na total direção oposta. E dessa maneira, de forma sorrateira e sutil, o cérebro de Asami Sato trabalhava de maneira obstinada para sempre encontrar qualquer desculpa que justificasse o ato, fosse para com Korra ou para com ela própria.

O primeiro dia foi marcado de uma conversa pontual e educada: perto de meio-dia ambas haviam se limitado a dizer que estava tudo bem, e no decorrer da tarde e da noite, haviam feito aparições discretas no perfil uma da outra em forma de curtida em fotos ou respostas despretensiosas nos stories. Então veio a sexta, com uma mensagem de bom-dia que estabeleceu um contato matinal comum nos próximos dias. O sábado, em que ninguém mais tentava ser formal e já se encaminhavam fotos com um percentual de relevância baixíssimo – como a foto do cardápio do restaurante itinerante em que Korra havia almoçado naquele dia. Enfim, o domingo.

Acho que Martina me adotou como a neta que ela nunca teve.
enviada às 11h45min

não sei se isso é assustador ou fofo
recebida às 11h46min

Também fico na dúvida
enviada às 11h46m

mas faz sentido, Red. você tem toda essa cara de pessoa séria e respeitosa
recebida às 11h47m

Respeitosa?
enviada às 11h49m

é, tem algo com sua postura. e você sabe como tratar pessoas mais velhas
recebida às 11h49m

Asami estreitou os olhos. Tão ligeiro quanto a irritação que a alcançou sorridente, foi a conseguinte lembrança inadequada que lhe surgiu. Suspendeu um sorriso malicioso com os dentes superiores, se sentindo uma adolescente ao escrever uma provocação quase infantil:

Essa é uma justificativa vaga, Korra. Se fosse assim, eu poderia dizer o mesmo de você, por exemplo.
enviada às 11h51m

ASAMI! HAHAHAHA (nós só temos 5 anos de diferença, pelo amor de deus)
recebida às 11h51m

Só pontuando. De todo modo, eu entendi o que você quer dizer. Não é a primeira vez que ouço. A diretora do internato que estudava no colegial me amava por isso. Bom, por isso e pelas doações do meu pai, claro.
enviada às 11h54m

e porque ela não sabia que você era o terror das menininhas da sua sala
recebida às 11h55m

Eu não sei de onde você tira os seus delírios, Korra…
enviada às 11h56m

evidências observáveis. ah, vai! com essa cara, Asami, quer me dizer que não era popular ou o sonho erótico secreto de suas colegas? se fosse hoje, falariam de você no twitter
recebida às 11h56m

Eu agradeço o elogio implícito e lamento te desapontar, mas como você já notou, "essa cara" tem uma nítida ascendência asiática. Como mulher não branca, você sabe.
enviada às 11h58m

"beleza exótica".
recebida às 11h59m

Exato. Era o que a minha (única, diga-se de passagem) namoradinha de colégio costumava dizer.
enviada às 12h00m

sinto muito (devia ter mandado ela tomar no cu) mas você sabe que agora tô curiosa, Sami.
recebida às 12h02m

Não tem muito o que dizer, mas você vai gostar de saber que nosso primeiro beijo escondido foi na capela.
enviada às 12h03m

HAHAHAHAHAHA VOCÊ ME CONHECE EU PRECISO DE MAIS
recebida às 12h03m

Eu amo o dragão fofoqueiro que há dentro do seu corpo minúsculo.
enviada às 12h04m

pela milésima vez, eu tenho uma estatura média. olhe ao redor e comprove
recebida às 12h05m

Tudo bem, Hobbit. Enfim, o termo "namorada" é por minha conta, claro. Ela encarava como uma brincadeira tardia de meninas.
enviada às 12h07m

qnts anos vcs tinham?
recebida às 12h08m

15...? Por aí
enviada às 12h10m

ninguém chamava de brincadeira as coisas que eu fazia com Mako aos 15 hehehe mas imagino
recebida às 12h11m

Mako como em “Makoto, aquele otário do meu melhor amigo?”
enviada às 12h11m

esse mesmo, haha
recebida às 12h12m

Você é uma criatura interessante, Korra.
enviada às 12h12m

hm… conte mais sobre isso
recebida às 12h13m

E ridícula também.
enviada às 12h14m

;)
recebida às 12h14m

Eu preciso almoçar agora.
enviada às 12h15m

sua nova avó tá chamando né?
recebida às 12h15m

… (Sim) Ela preparou um banquete de despedida.
enviada às 12h16m

despedida?
recebida às 12h17m

É, devo voltar pra Buenos Aires ainda essa noite.
enviada às 12h17m

ah
recebida às 12h17m

Com um monte de compotas e geleias.
enviada às 12h19m

se não for usar, eu aceito!
recebida às 12h20m

Posso dividir. Tem o suficiente pra mim e mais umas 30 famílias. Quando você volta?
enviada às 12h21m

agora que sou uma mulher temporariamente livre das garras do capitalismo tardio? não sei bem, talvez hoje, talvez amanhã, talvez nunca, talvez eu vá para o brasil ou para o hawaii. mas por geleias feitas por uma simpática senhora da terra do fogo… talvez buenos aires
recebida às 12h22m

E o casamento do seu amigo!
enviada às 12h22m

menos importante, mas sim, tem isso também. acho que devo ficar mais uns 4 dias
recebida às 12h22m

Entendo
enviada às 12h23m

falando no casamento de Bolin, você tem algum compromisso no penúltimo final de semana do mês? tava pensando que talvez você quisesse ir pra festa comigo rir do vestido ridículo das madrinhas
recebida às 12h25m

Você não é uma delas?
enviada às 12h25m

Sim, mas eu sou bonita, Sami, não conta. vc pode ou não?
recebida às 12h26m

Eis um fato que não posso discordar de você, Korra. E eu estou livre sim. Observar vestidos alheios é um dos meus esportes favoritos.
enviada às 12h26m

o meu é tirá-los, mas acho que são modalidades parecidas. estamos combinadas então?
recebida às 12h27m

Asami sentiu calafrios enquanto digitava:

Combinadas.
enviada às 12h28m

Asami guardou o celular, encarando a mala já feita sob a cama. Do lado de fora, apenas mais um cachecol rubro, seu documento de identidade e a chave do carro. Não notou, mas suspirou com o coração pesado por inúmeros fatores – só não sabia distinguir se mais por um que por outro. Estava se despedindo de muitas coisas das quais não queria se distanciar nunca mais. Quase pontuou em voz alta que não fazia sentido voltar para Buenos Aires, que já não sabia onde estava sua casa ou coração – mas ora, Asami Sato têm deveres e obrigações. Ela tinha que voltar.

Quando tornou a aparecer na cozinha, Martina terminava de expor seu banquete. Uma típica comida tradicional dos povos originários da parte sul da Terra do Fogo: uma comida forte para manter o guerreiro que cruza a patagônia e o estreito da Cordilheira Darwin seguro. Para garantir que encontrasse seu caminho de volta, independente da ardilosa ventania ou do mais alto escalar. Asami sorriu. Sua luta era mais interna.

Conversaram durante a refeição, que acabou um par de horas depois.

Enquanto Asami organizava o carro, checando sua mala, o ponteiro da gasolina e outros avisos, água, bateria do GPS e afins, Martina surgiu com um pequeno sorriso – daqueles que Asami julgou saudoso, alegre, que expõe rugas nos olhos – e um pequeno embrulho retangular de papel pardo, seguro por um barbante fino. O embrulho era tão fino e frágil que Asami sabia ter um único pedaço de papel dentro.

— Abra quando tiver certeza do que quer fazer – disse, depositando o envelope nas mãos de Asami, que franziu o cenho, apesar de inclinada a agradecer.

— O que eu tenho que fazer? – Asami sorriu, olhando para o presente.

— Seguir seu coração.

Isso fez com que a despedida durasse um pouco mais. Asami tinha algo de urgência no peito que não soube significar, mas algo nos olhos de Martina lhe davam a certeza de que não era nada ali. Então quando Asami abraçou a velha mulher e agradeceu com algumas lágrimas de alívio pelos dias, ainda não sabia o que suas palavras significavam – apesar de óbvias. Sato descobriria dias mais tarde que Martina sabia ler as linhas do coração.

Asami voltou para a Rota 3, confiando no que o silêncio poderia lhe contar.

Por quase todo o percurso que ligava Porvenir e Rio Gallegos, se conteve de enviar uma mensagem para Korra. Antes de abandonar a cidade, havia avisado que estava retornando e que quando chegasse à Buenos Aires a primeira coisa que faria seria tomar um café na cafeteria em que haviam se conhecido. Korra não estava online e também não havia sinal de telefone na estrada. Isso deixou Asami ligeiramente ansiosa para chegar até Río Gallegos. Tinha, dentro de si, um resquício de esperança – que sabia não dever alimentar.

Asami sentia-se perdida, e sabia que também estava apaixonada: pela cidade, pelo aconchego, pela calmaria dentre ventos robustos, por Korra e pela vida. Isso a deixava atordoada. Sua esperança residia em um espaço de absoluta certeza que se Korra a chamasse para conhecer qualquer outro lugar ou se a chamasse apenas para ficar dentro do carro observando a orla, pinguins ou pessoas caminhando, iria. Asami Sato só iria. Justamente por isso que os 250km que ligavam Porvenir e Río Gallegos viraram mil. O tempo se estendeu, e tudo que Asami queria era dar meia-volta e partir para o lado norte da ilha da Terra do Fogo.

Não queria nada de Buenos Aires àquela altura.

Em seu glossário pessoal, Asami não acreditava que eternidades eram possíveis – principalmente quando feitas de seres humanos que são perecíveis diante do tempo e da natureza. Isso não a impediu de pensar numa vida com Korra, ou numa vida em Porvenir. Seria pedir muito, ou talvez só estivesse sendo permissiva com seus próprios sentimentos, pela primeira vez depois de tantos e tantos anos. Pegou seu celular por puro impulso. Continuava sem mensagem ou notificações.

Então, totalmente contra ambos seus desejos (chegar a Río Gallegos ou dar meia-volta até Ushuaia), Asami estacionou no acostamento. Eram quase cinco horas da tarde e logo o sol, que pouco fazia presença, desceria de encontro ao horizonte. Asami encostou a testa no volante, calculando as probabilidades e consequências do que viria ou não a fazer.

Acreditava, até então, estar mais segura das suas escolhas, nas interferências ou não-interferências diretas no destino. Afinal, porque tudo tinha que ser tão dramático quando falava de paixão e desejo? Respirou fundo, recuperando o celular no porta-luvas. Não pôde evitar: subiu um pouco – e depois muito – da conversa com Anori, relendo trechos que sabia que faziam seus pelos da nuca eriçarem. Releu provocações que deixavam quase explícito. Suspirou com a foto da mulher.

Embora fosse uma pessoa dos números e da engenharia, das lógicas por um mundo funcional e pouco soubesse dos afetos e relações, Asami parecia decidida a tentar. Sua única via, porém, tratava que não tomaria aquele tipo de atitude – que implicava em uma vida além da sua – sozinha. Escreveu uma mensagem na conversa e clicou enviar, mesmo que esta só chegasse quando encontrasse uma torre funcional na próxima cidade. Então, voltou para a estrada. O coração não parecia menos ansioso, aliás, parecia pior.

Ainda assim, tinha um sorriso no rosto.

E um embaralho, uma vertigem de palavras para contar.