XV – USHUAIA, Terra do Fogo

A vida não é párea para a escuridão,

foi tudo que Korra conseguiu pensar enquanto no Tecniaustral S.R.L.

Doze horas separavam o último ponto geográfico que avistara Asami Sato e o Fim do Mundo – ao menos no sentido físico, afinal, haviam sido inúmeras as vezes que tinha aberto a conversa online com a mulher e visualizado aquela mesma fotografia, após a despedida. E doze horas, doze horas era metade de um dia terrestre, doze horas eram setecentos e vinte minutos, doze horas era um abismo para alguém tão inquieta quanto Korra Anori era.

Foi, portanto, um espaço de tempo perfeitamente suficiente para encenar mil e um desenrolares diferentes do que haviam vivido. Ora, ambas podiam, desde o princípio, ter optado por rumos opositores, com companheiros de viagem irregulares [e quem sabe essa pessoa se apaixonasse por Asami Sato, como Korra fizera] de forma que nunca viriam a trocar uma mínima palavra. E das inúmeras realidades alternativas que surgiram dessa linha de raciocínio, Korra não se afeiçoou a nenhuma.

A outra linha configurava o atual presente, onde haviam se encontrado naquele mesmo café e decidido viajar, apesar de possuírem tão pouco em comum. Dessa linha, surgiram realidades onde discutiam durante o percurso e Korra, irritada, se decidia por ficar em qualquer cidade antes do previsto; nessa linha também era possível Asami não sentir atração por Korra e a viagem transcorrer sem maiores acontecimentos – visto que o contrário era subitamente improvável: o coração de Anori vivia um enorme vacilo por Asami Sato. Em nenhuma das simulações mentais em que conhecera Asami, era uma opção não a amar.

Por fim, existia a linha que transcorria uma outra realidade alternativa, aquela em que após terem deixado o Parque Nacional, ambas optavam por permanecer e ser e vivenciar o que queriam em conjunto. A realidade em que Korra teria que lidar com a preguiça descomunal de Asami de levantar logo cedo e tomar a estrada para si com alguns beijos na palma da mão e alguns olhares lascivos de ‘sim, Sami, eu te entendo, mas vamos lá’. Era a favorita de Korra, mas também a mais dolorosa.

Porque não era real.

Quando a idealização pesava, Korra tinha a impressão de que poderia, enfim, dormir. Então piscava de alívio e fechava os olhos, inspirando bem. Vinte minutos depois estaria acordada novamente, ensandecida de saudade e ansiedade por coisas que sequer sabia como pontuar. Quando a idealização pesava, Korra evocava pequenos recortes dos últimos dias: estes eram reais e continuariam sendo. Recordar Asami e seus vários sorrisos faziam Korra tremer na poltrona do ônibus, tanto quanto sentir o peso, a confusão que tomava conta dos seus gestos mais simples. Quanta saudade.

Korra tinha estado tão desejosa por aquela aventura, por viver momentos legítimos, que quando estes vieram, ela mal pôde respirar. Ansiava chegar em Ushuaia e ser quem ela deveria ser, tanto quanto voltar para o abraço cálido da mulher que deixara em Río Gallegos. Korra não sabia, e era difícil raciocinar enquanto quase tudo para ela era preto ou branco. Ou ela queria tudo, e teria tudo, ou nada. Por isso permitiu poucas lágrimas enquanto observava a absoluta escuridão do mundo além, veloz, sutil e silenciosa.

Talvez o céu estivesse nublado – não conseguia ver as estrelas.

Na metade da madrugada Korra sentiu um impulso de enviar mensagem para Asami: questionar se chegara bem, se encontrara um lugar satisfatório para pernoitar, se avistara algo de muito estranho e peculiar na estrada, que cor eram os telhados, que música havia ouvido, que velocidade teria alcançado. Se o motor e seu tórax haviam aguentado tudo isso, mas se conteve. Pretendia enviar mensagem quando chegasse, assim como prometido. Faltavam cinco horas. Cinco longas horas.

Entre o fim do outono e o começo do inverno, Ushuaia tinha baixas temperaturas, que oscilavam entre um e sete graus. Havia chuva, vento e muito pouco sol: este nascia perto das nove horas da manhã, para se deitar no poente pouco depois das seis da tarde. Diante disso, quando Korra (finalmente) abandonou o translado, o céu ainda era escuro e uma densa nuvem exposta parecia abraçar a cidade de maneira possessiva. A viajante tremeu diante da vastidão.

Na pequena e solitária rodoviária havia um posto turístico fechado, um grande mapa e poucos folhetins que contavam fragmentos da história da cidade que havia sido fundada em meados de 1884, entre a cordilheira Martial e o Estreito de Beagle. Korra leu que Ushuaia tinha uma faixa semelhante a 22km² de extensão, o que na sua cabeça, era pouco mais de 10km de uma extremidade a outra.

Poucos turistas haviam desembarcado junto de Korra. Num geral, aqueles que se utilizavam do Tecniaustral S.R.L eram moradores de Río Gallegos, que tinham negócio por ali. Era sabido também que havia outro fator que ausentava a cidade da multidão de visitantes que costumava atrair: a estação. Ushuaia era muito apreciada durante o verão, tanto pelo clima, quanto pela estadia prolongada de pinguins, assim como também durante o auge do inverno, quando muitos desciam ao extremo sul para esquiar ou patinar.

Não era nenhum dos casos, e provavelmente devido a isso que o posto turístico estava fechado, assim como as lojas e lanchonetes. Portanto, não foi surpresa quando um casal de mochileiros, tão turistas quanto Korra, lhe dirigiram a palavra, com um sotaque pontual, o que fez sentido quando afirmaram que vinham de Bogotá, quase no outro extremo da América do Sul.

O rapaz tinha vinte e seis anos e se chamava Santiago. A garota tinha vinte e cinco e se chamava Niray. Vinham descendo a América desde o início do ano, e de Ushuaia pretendiam pegar qualquer voo em direção ao Brasil ou América Central – o mais barato que encontrassem, disseram. Korra riu, invejando a liberdade e desapego deles. Pesquisaram no Google qualquer cafeteria ou padaria mais próxima que estivesse aberta para o desjejum e uma provável água no rosto. Korra havia dormido muito pouco, e ainda assim se sentia alerta e animada. Um café quente e talvez uma empanada melhorassem seu humor, com toda certeza.

Os três se agasalharam melhor antes de iniciar a caminhada de pouco mais de 1 km. Cada qual com sua própria cargueira volumosa nas costas sendo açoitada pelo vento rígido. A iluminação pública era bem espaçada, reproduzindo grandes feixes de luz e trevas conforme avançavam. Korra inspirou fundo. Era diferente de qualquer coisa que já tivesse experimentado. E de repente, sentiu enormes saudades de Asami: queria que a mulher estivesse ali, vivenciando cada pedacinho daquilo ao seu lado. Claro, tudo tinha seus contras – provavelmente, se estivesse com Asami não estaria caminhando pela escuridão e ansiando o nascer do sol para constatar a cor das casas e o horizonte a perder de vista. Se estivesse com Asami, Korra estaria dentro do luxuoso carro ou numa cama quente rolando nos braços de sua companheira de viagem.

Isso feriu.

Não demoraram para encontrar a cafeteria, que de fato estava aberta, porém, sem indícios de movimentação, fosse recente ou iminente. Tinha cheiro de café e uma minitelevisão de tubo ligada num filme antigo. Os três se sentaram numa das mesas e passaram a conversar sobre como tinham chegado ali. O casal parecia vacilar entre surpresa e animação quando descobriram a possibilidade de viajar de carona por meio de um aplicativo de mobile e Korra ficou igualmente eufórica quando eles passaram a falar sobre os lugares que já tinham conhecido nos últimos cinco meses. Tardou um pouco, mas logo um rapaz apareceu para servi-los. Korra pediu café e empanada de frango, sendo acompanhada por Santiago e Niray. Era quase oito e meia da manhã quando o céu passou a assumir um tom mais aberto e eles resolveram sair para assistir o nascer do dia.

Korra fazia o tipo, só não tinha por hábito confessar.

O sol ainda não havia despontado quando Korra tirou uma foto. O céu era avermelhado, espelhado num tom púrpura, com camadas de nuvens azuladas e a exposição do início da cadeia de montanhas nevadas no horizonte – em Ushuaia, de um lado você via sempre o mar, e de outro, sempre a cordilheira. Korra sentiu o peito encher e não escondeu o sorriso quando enviou a fotografia para Asami, com um singelo (e carregado de afeto) “bom dia”.

Outro pensamento vago:

E doce loucura, vim para buscá-la: a perspectiva do perigo só existe para nos livrar do controle. Lembre-se disso. É um lugar sagrado.

Após se despedir dos novos amigos – haviam trocado redes sociais, além das playlists de mochilão –, Korra procurou uma pousada simples, mas definitivamente aconchegante. Estava vazia e isso fez com que o valor das três diárias abrisse um sorriso tanto nos lábios de Korra quanto da proprietária. Pediu indicação de trilhas que pudesse realizar sozinha, sem necessidade de guias especializados ou veículo próprio.

A proprietária da pousada se sentou antes de sorrir de novo (e Korra podia jurar que de preocupação dessa vez) e apontar alguns cantos no mapa, bem como as estradas que tornavam-nas possíveis. Anori questionou sobre a dificuldade de acesso do mirante da lagoa 5 Hermanos e a sua interlocutora, que era pequena e magra, disse ser possível para alguém do porte de Korra, mas que aconselharia, no mínimo, um translado até a entrada de acesso da trilha, e mais um casaco como terceira pele. Ela também alertou sobre o terreno irregular e íngreme e anotou num pedaço de papel o nome do acampamento que demarcava o acesso. Encerrou a indicação afirmando que era um espaço afastado e longínquo do som da cidade, onde era possível escutar o que o vento lhe dizia.

Assim Korra partiu.

Enquanto na van que havia conseguido carona – também por intermédio de Maria, a proprietária da pousada –, Asami respondeu sua mensagem. Korra não hesitou ao abrir a conversa, se distraindo poucos instantes da paisagem outonal e pálida além da janela.

Bom dia. Deu tudo certo?
recebida às 11h21min

Em seguida a foto do que parecia ser um quarto escuro. Korra sorriu.

acho que deu mais certo que você. onde diabos se enfiou?
enviada às 11h21min

Passados cinco minutos, Korra deixou de esperar uma resposta imediata. Ainda no aplicativo, acessou a conversa com Mako, com quem havia trocado poucas palavras desde o início da aventura. Havia tanto para contar quando voltasse, que Korra não se deu ao trabalho de lhe digitar muito. Aliás, Makoto sequer fazia o tipo que perdia muito tempo no celular. Escreveu que havia chegado em Ushuaia naquela manhã e que já se encaminhava em direção a um mirante isolado da sociedade – que era a única coisa planejada desde o início de tudo. Havia lido, alguns anos antes, sobre meditações genéricas e provavelmente era isso que estava fazendo. Se isolando num plano quase espiritual para meditar. Disse ainda que acreditava ser possível voltar a tempo para acompanhar o casamento de Bolin, e que tinha uma provável acompanhante em mente.

Na entrada do acampamento Kawi Yoppen, Korra desembarcou. Ainda possuía sinal da operadora, apesar da internet ter baixado de qualidade. Mesmo assim esperava, numa ansiedade malandra, a resposta de Asami. Começou a subir.

Quinze minutos de trabalho fatigante e o sinal desapareceu.

E o que a deixou preocupada por alguns instantes, logo se tornou mais um atrativo para seguir em frente, sorrindo diante do próprio esforço, pé-a-pé, vento e nuvem sorrateiros.

A trilha entre a vegetação a levou para o que sabia ser a cachoeira Véu de Noiva. Estacionou breves instantes, pensando se deveria enfiar a mão na água, mas era certo que não queria perder os dedos da mão. Após outros 4km, o caminho começou a apresentar pequenos declives e Korra se viu obrigada a agradecer mentalmente à Asami, que a tinha convencido, ainda em Rivadavia, a comprar caríssimas botas impermeáveis, quando se viu obrigada a atravessar um riacho.

Dali em diante, a vegetação começou a ficar escassa, alterando parcialmente a paisagem. Uma subida íngreme, de mais de 1 km, foi o alerta de que estava se encaminhando para um pequeno pico. Isto exigiu determinada técnica e equilíbrio por parte de Korra. Apesar de sinalizado, esse pedaço particular da trilha lhe tomou mais tempo que todo o restante. Quando enfim alcançou a lagoa, Korra suava frio e estava vagamente ofegante com a altitude e o ar parcialmente rarefeito.

A lagoa 5 Hermanos tinha coloração esverdeada. No fundo, era possível ver o Monte Olivia, a maior cadeia de montanha da região, com 1.300m acima do nível do mar. Seu cume estava coberto por uma nuvem acinzentada e partida. Korra riu satisfeita antes de largar o corpo defronte ao mirante. Sua garganta estava seca e seu sangue perdia calor devagar, causando a impressão de que a temperatura baixava instante após instante. Este é o lugar onde eu queria estar, este é o lugar que eu gostaria de estar. Ali nascia o ar viciado onde tudo se anulava, exceto a consciência de Korra.

Talvez essa fosse uma de suas verdades, uma das suas filosofias:

Precisava sentir o doce sangue queimar e o céu incendiar.

Precisava viver sua tempestade de alma. Nada além.