X — SARMIENTO, Comodoro Rivadavia

Preferia a imaginação febril das crianças àquela ansiedade bruta.

Enquanto debaixo da ducha quente, as ondas cerebrais de Asami aceleravam de forma desproporcional, ao passo que seu corpo físico executava movimentos mecânicos tão lentos e curtos quanto possível. Por fora, Asami mal parecia respirar o vapor.

Tudo da viagem havia sido planejado em torno daquele espaço de autodescoberta. Exatamente por isso a mulher julgava (agora) habitar um espaço mental de puro desconforto, baseado, não na ideia, mas no próprio fato de que seus planos iniciais haviam mudado sem que ninguém a perguntasse se era exatamente isso. Ora, Asami não era infantil e sabia que Korra pensava igual: viviam apenas um flerte prolongado, que findaria provavelmente na próxima parada programada, uma vez que desta seria melhor para Korra seguir a própria rota até O Fim do Mundo. Ainda que isso fosse um fato e que Asami tivesse o total de zero intenções de mudar o próprio roteiro, havia algo que a incomodava. A ideia de deixar Korra ir amargava sua boca, mas a ideia de fazer Korra ficar atrapalharia não só a si própria, como também sua companheira de viagem. Havia também a opção de prolongar a estadia naquela mesma cidade, achando meios de viver o que era possível viver e então partir sem remorsos ou quaisquer outros sentimentos negativos. Sob tudo isso, também a realidade de que Korra poderia simplesmente se negar, alegando não possuir igual interesse de manter aquela relação temporária. A possibilidade a fez suspirar, cansada.

Essa aflição não constava no roteiro.

Paralela à dita aflição, transcorriam memórias recentes que faziam Asami sorrir.

Desde que se levantara (e tinha que confessar, havia sido uma árdua e ingrata tarefa), a imagem do corpo de Korra contra a parca iluminação não lhe abandonava. Os beijos da mulher, ora lentos, ora desesperados, contra seu pescoço ombro seios e coxas. A textura da pele quente da mulher debaixo das unhas de Asami e aquele aperto que ela dava toda vez que alcançava o clímax. Korra dormindo no banco do passageiro. Korra dirigindo. Korra levantando uma das sobrancelhas enquanto pesquisava no Google Maps onde almoçariam. Korra se oferecendo para pagar uma cerveja ou sorrindo para seu próprio trabalho contra o visor da câmera que carregava como coisa mais preciosa do mundo na mochila.

Estava preocupada. Do dia para a noite seu mundo havia se tornado uma mulher.

(Paixão é mesmo uma demência). (É se informar e morrer por dentro).

Poderia romper. Mentir que recebera uma ligação e que sua presença era requisitada com urgência em Buenos Aires. Que não poderia prosseguir com ela conforme o combinado. Então pediria desculpas, sussurraria um sinto muito antes de alcançar as chaves no fundo da bolsa e oferecer carona até a rodoviária. Diante do pouco que conhecia Korra, provavelmente isso bastaria para a mulher não entrar em contato novamente, o que daria tempo para Asami se recuperar do susto que era se importar e querer outra pessoa.

Misturar rotas e dividir camas.

Do quarto escutou ruídos. Korra devia esperar ela sair para também se banhar. Apesar de imaginar (e internamente saber) disso, Asami não queria voltar à realidade de decisões que aquele além-chuveiro aguardava, ansioso e abrupto. Sendo honesta consigo, queria mesmo era gritar para Korra aproveitar a água quente e entrar no box enquanto ainda estava ali.

Um horror desejar que a mulher simplesmente ouvisse seus pensamentos.

Asami desligou o registro, alcançando a toalha branca e enxugando com pequenas batidas no próprio rosto. Tinha que agir da maneira mais natural possível. Desejar bom-dia e retribuir qualquer gesto físico que Korra tomasse primeiro que si mesma, fosse um aceno, uma piscadela ou um beijo. De uma forma ou outra, Asami firmou acordo com o macrocosmo: se Korra ainda estivesse nua, ela não se perguntaria sobre o início ou o fim. Ela só gozaria disso.

Portanto, foi quase com dor que constatou que Korra estava perfeitamente vestida. O short era curto e parecia confortável. Já a camisa era a mesma que ela vestira durante a ligação. A ligação. Asami havia ficado tão envolta em suas próprias questões que por um instante esquecera que havia sido a testemunha indireta da demissão de Anori. Estava preocupada com ela, mas Korra parecia… neutra. Asami decidiu sorrir e dizer um “oi” débil. Korra sorriu de volta, o que lhe provocou um pequeno arrepio na base da coluna e um impulso até então não programado para dizer:

— Eu estava pensando em te convidar para almoçar hoje. – Asami rezou para que a voz soasse descontraída. – Como nós fizemos mais da metade do percurso, podemos aproveitar para pensar nos próximos passos, como fizemos no La Biela.

Korra a encarou por um instante, talvez lembrando também do primeiro encontro em Buenos Aires. Havia sido há dias, mas agora parecia outra vida. Ao menos para Asami.

— Parece ótimo – ela pegou o celular, verificou a hora e apontou com o queixo para o banheiro – Preciso só de um banho antes. – Asami assentiu, tentando não pensar em Korra sem roupa de novo. Tentando não pensar naquele alvoroço esquisito no peito.

Korra passou por Asami e por um segundo pareceu que ambas queriam apenas parar ali no meio do quarto, encarando uma a outra por uma infinidade de tempo sem palavras, até que de algum modo as roupas não existissem, os questionamentos não existissem, muito menos os medos. Mas Anori seguiu em frente, Asami suspirou e apertou as próprias mãos em um gesto apaziguador antes de se sentar na cama e esperar, exatamente como sua companheira de viagem havia feito instantes antes.

O restaurante escolhido foi o Cayo Coco del Mar. Durante todo o percurso até lá, Asami e Korra puderam observar melhor as características do local de passagem. Comodoro Rivadavia era como qualquer cidade mediana da América Latina: contava com um trânsito relativamente caótico, uma constelação de lojinhas de varejo, igrejas aqui e acolá, pedestres com caras cansadas ou distraídas, muros com grafites coloridos, monumentos, e uma colina específica que a diferenciava de outras paisagens, uma vez que parecia uma pirâmide.

Elas comentaram sobre todas essas coisas durante o caminho e quando Sato estacionou em frente ao restaurante, estava se sentindo bem. O modo como Korra sorriu ao ver a fachada do local escolhido apenas acrescentou densidade ao estado de espírito. O restaurante tinha vista para o mar, mas não era muito pomposo. Parecia o tipo de coisa que a própria Anori poderia propor e esse foi o seu critério seletor na hora de vasculhar o google.

— Ora, ora, Sami, se ainda não tivesse acontecido, diria que está tentando me levar para cama – Korra gracejou antes de sair do carro, deixando uma Asami levemente aturdida para trás.

Uma vez sentadas, elas analisaram o cardápio, famoso pelos pescados e frutos do mar. Tudo parecia de encher a boca e poupou a conversa de rumos difíceis ou vergonhosos durante uns quinze minutos. Por fim, o pedido foi feito e então não havia mais desculpas para tratar do que realmente interessava.

— Nós deveríamos começar com o famoso “foi bom para você?” ou a sexualidade alternativa nos salva desses clichês? — foi Korra quem tocou o dedo na ferida outra vez e Asami se sentiu mais uma vez agradecida por sua proatividade.

— Por Deus, não. Nós definitivamente não precisamos passar por esse tipo de constrangimento.

— Certo, certo. Mas foi bom pra mim, só pra constar — Korra sorriu de maneira divertida e Asami, que já sabia que ela sempre optava pela resposta que pudesse soar como uma provocação, direta ou não, sentiu uma vontade quase incontrolável de beijá-la.

— Vou me lembrar disso – foi a única resposta que conseguiu formular.

— Vai? — Asami pensou que o sorriso malicioso de Korra deveria ser proibido em lugares públicos. Em seguida, ela pensou que adoraria saber em que direção ficava o banheiro do estabelecimento e se os garçons ou outros clientes achariam estranho se ela arrastasse sua companheira de viagem em direção ao toalete para funções biológicas sim, mas não as socialmente esperadas em espaços assim.

– Você sente um prazer especial em me desestabilizar, não é, Korra?

— É uma maneira de ver as coisas. — o sorriso sumiu, mas ela ainda continuava bem humorada. – Se for para ser honesta, esse é o meu jeito de deixar as coisas quites entre a gente.

Asami quis perguntar como diabos isso poderia deixá-las quites, mas ao invés disso, respirou fundo. Havia coisas mais importantes a serem tratadas. Tomando coragem, ela cruzou as pernas e tocou no braço dela por um instante.

— Posso aproveitar que você está sendo honesta para te perguntar porque você decidiu fazer essa viagem? – e antes que Korra pudesse abrir a boca para responder qualquer coisa rasa ou superficial, ela confessou: – eu ouvi o telefonema hoje.

— Ah. — Korra suspirou, passando a mão umas três vezes pelo próprio rosto como se o gesto tivesse o poder de fazê-lo desaparecer. — Você ouviu aquilo — ela meneou a cabeça, parecendo… frustrada? decepcionada? era difícil dizer. — Eu não sei, Asami. Eu coloquei em risco o meu emprego, como agora você bem sabe, simplesmente porque eu não suportava mais a ideia de que todas as pessoas que eu amo e me importo parecem estar florescendo, movimentando-se em direção ao que elas querem enquanto eu… Não sei. Me sinto presa. Isto é, me sentia. Desde que nós começamos a viajar, muitas coisas continuaram a me atormentar, mas esta não é mais uma delas. E eu estou disposta a lidar com as consequências quando eu voltar para Buenos Aires.

— Isto parece… Sincero o suficiente — Asami murmurou, sentindo-se culpada de ter abordado o assunto, mas ao mesmo tempo, feliz por tê-lo feito. — Entendo a sensação de estar presa. E cansada também, no meu caso. Terrivelmente cansada.

— Não deve ser fácil fazer o que você faz, Asami – havia solidariedade genuína no tom de Korra e Asami sorriu quando ela lhe afagou o ombro por um instante. – Ainda em nome da verdade, Jinora, minha… bom, irmã de consideração, é uma fã. Ou o namorado dela, algo assim. Ele estagia na sua empresa. Enfim, quando ela me contou, achei que o seu perfil no MismoDestino era fake.

Asami riu de verdade diante da revelação.

— Não sei, acho que eu preferiria ser outra pessoa às vezes. – ela abriu um sorriso triste, antes de olhar para a mesa. – A minha mãe foi concebida no Japão, nasceu em Porvenir, no Chile, e passou quase toda a curta vida na Argentina. Eu quis fazer essa viagem porque eu queria… Me sentir menos estrangeira dentro de mim mesma.

– Eu sinto muito pela sua mãe – Korra se manifestou, os olhos desaguando preocupação.

— Tudo bem. Tem muito, muito tempo — Asami olhou pela janela. O mar quebrava em ondas fortes e ao mesmo tempo serenas. – O meu pai faleceu por agora. Acho que no processo de luto por ele, acabei recuperando o luto que suprimi dela. Ao menos, acho que é isso que minha terapeuta diria.

Korra assentiu e segurou a mão livre de Asami. Aquele era só o início da conversa – ambas sabiam disso. Havia tantos desdobramentos para aquela abertura de diálogo quanto eram possíveis. Por um instante, no entanto, o simples ato de estarem de mãos dadas parecia o suficiente.