XI — ABEL AMAYA, Comodoro Rivadavia

Anori sorriu para o sentimento que se instalou na base do estômago ao concluir que haviam conversado mais durante aquele almoço, que em todos os outros dias de viagem somados. Mas sabia também que de algum modo todas as meias conversas anteriores, todas as amenidades e implicâncias haviam servido de preparativo para que aquele diálogo específico fluísse tão bem. Foi surpreendentemente fácil falar sobre suas angústias e medos, e ainda mais fácil ouvir sobre os de Asami. Repararam com graça que os tópicos das conversas já haviam superado o tema 'serviço cansativo&tedioso’. Korra já falava sobre o casamento de um de seus melhores amigos, questionava sobre os padrinhos e recordava com saudade sua grande e enérgica labradora. Se derretia ao lembrar da comida que a mãe fazia especialmente para ela em sua visita anual. Comentou sobre a câmera fotográfica e tudo que envolvia aquele seu universo recém-descoberto, mas pouco explorado. Contou sobre como o mercado de San Telmo a deixava mais calma que o dojo zen de Tenzin, sobre o último namoro sério, cerca de dois anos antes.

Em resposta, Asami lhe contou sobre a experiência solitária de ser filha única. Dos funcionários da empresa de seu pai ou do casarão que vivia que faziam vezes de familiares, por quem ela tinha grande apreço e até mesmo, amor. Mencionou sua terapeuta para descobrirem, metade em surpresa, metade em riso, que a mulher se tratava da mãe da noiva de Bolin. Sobre os muitos anos do Japão, sobre suas primeiras paixões no internato feminino argentino durante o ensino médio. Sobre Iroh, o homem com quem ela cogitou casar.

Exageros à parte, Korra ouvia tudo com muita atenção. Seu olhar fixo no de Asami. Decorava cada detalhe da história da mulher com a mesma dedicação que tivera ao desbravar seu corpo. Fazia perguntas e anotava mentalmente as respostas. Soube que Asami tinha um gato adotado (e preferiu não mencionar que tinha medo de felinos). Percebeu pelo tom de voz e pela forma a que Asami se referia que Zhu Li, sua secretária, era também sua melhor amiga. Que o ideograma no quadril significava “chuva” e que Asami havia feito num explícito ato de rebeldia de uma caloura universitária bêbada e alegre.

— Lembro de ter pensado que… nem tudo faz ou precisa de sentido – justificou em um murmúrio seu insight juvenil. Acobertada pela febre da nostalgia, lembrou que se sentia muito feliz e que pediu ao tatuador para lhe riscar a primeira coisa que tinha em mente. Que olhar a tatuagem a fazia recordar de como podia ser despreocupada, ainda que raramente se sentisse de tal modo.

Korra assentiu, pensando que poderia ouvir Asami falar sobre qualquer coisa.

Por horas e horas e horas. Só para observar a mulher e encher mais seu peito.

Ali entendeu que o último percurso da viagem de Asami deveria ser feito de forma solitária, mesmo que a decisão não coubesse à ela. Ao se colocar no lugar de Asami, podia deduzir que era importante para ela encontrar o que quer que fosse, o que quer que procurava na cidade natal de Yasuko, e que precisaria de tempo para processar o achado. Não queria correr o risco de atrapalhar o que parecia ser uma jornada espiritual interna. Aquele processo era e sempre seria solitário, e ela já se importava o suficiente com a mulher para saber que não conseguiria se perdoar caso atrapalhasse de alguma forma. Diante disso, quando voltaram a falar sobre a rota, Anori sugeriu que, já que só haviam feito estadias em hotéis durante todo o trajeto, que parassem no Parque Nacional Monte León, há sete horas dali e acampassem lá por um dia inteiro. Do local, Asami a deixaria em Río Gallegos, onde Korra conseguiria um ônibus até Ushuaia.

A princípio, Sato relutou. Parecia de mau tom deixar Korra em qualquer lugar anterior ao planejado, mas a mulher já havia tomado sua decisão. Havia uma espécie de determinação nos olhos de Korra, que Asami não quis traduzir como teimosia. Ao mesmo tempo, o sorriso ligeiro e confiante que a mulher exibia fez com que Asami concordasse sem muitas ressalvas. Acertados os detalhes técnicos diante de uma comida parcialmente gelada, concordaram em voltar para o hotel. Seria mais interessante esperar anoitecer para seguir em frente com a viagem, uma vez que isso garantia o nascer do sol no parque nacional.

Nem todo clima é possível de romantizar – há momentos em que se torna inviável compor uma serenata. Diferente desses dias quentes ou absurdamente frios e pálidos, o clima estava ameno e nublado. E condizente de poesias ou filosofias, Korra já sentia a iminente dor da separação nos ombros e na palma da mão, mesmo que este estivesse relativamente (racionalmente) distante no tempo. Achava que se nunca falassem do fato, a dor nunca de fato as alcançaria. Era assim que se sentia quando esquecia de molhar o par de plantas que tinha em casa: sabia que estavam secas e murchas, mas tinha a impressão e quase a certeza, que caso não abrisse as cortinas da varanda para constatar sua afirmação, elas ficariam bem. Estariam bem, contrariando os pensamentos de Korra que elas precisavam da mulher para sobreviver. Estariam bem, se retroalimentando apenas do gozo de contrariar o humano que se achava importante demais para a natureza. Pensar assim fazia não se sentir mal por tê-las esquecido novamente.

Não tinha perdido a razão, só não a queria.

Lá fora não havia sol, mas não havia chuva também.

Quando ambas as mulheres se deitaram, não se fez necessário roupas ou tecidos. O calor da pele parecia bastar e em nenhum momento se tornou desconfortável. O contrário disso: Korra sabia que o mundo poderia entrar em colapso naquele instante, as economias findarem e os países da Europa declararem guerra contra os países asiáticos ou algum governo chegar à conclusão de que o céu já não era necessário e apagá-lo ao som de qualquer banda alternativa brasileira. O mundo poderia ruir que Korra se recusaria a tirar a perna que repousava entre as coxas nuas de Asami.

— Já sabe o que vai fazer quando chegar? – a mulher perguntou ao passo que arrastava os lábios contra a clavícula da pele escura de Korra – ou só pretende chegar?

— Bom, é o primeiro passo, sim – sorriu, rolando os olhos até o rosto da mulher que estava deitada contra seu corpo – mas tenho algo em mente, principalmente relacionado às paisagens e ao mar, as geleiras. Quero tirar fotos do porto e sentar, ficar quietinha só para ouvir o vento, talvez. Quem sabe também, sei lá, dividir um café com um morador local. Vai que a cidade do Fim do Mundo produz os melhores biscoitinhos amanteigados ou qualquer coisa assim? Nunca se sabe, e é esse tipo de coisa que quero.

— Talvez eu esperasse uma resposta mais subjetiva – Asami uniu levemente ambas as sobrancelhas – mas acho que coisas palpáveis como dividir um café com pessoas completamente desconhecidas é mais sua cara, mesmo.

— Bom, eu entrei no carro de uma desconhecida pra cruzar o país, certo? Que mal pode fazer. Aliás, a resposta mais subjetiva que você esperava é mais o seu tipo de coisa. Eu realmente gosto de só... viver o que tenho pra viver sem esperar nenhuma revolução espiritual, eu acho. Se vier, ótimo, se não... não é ótimo, mas tá okay, sabe. Sobre dividir café com alguém, é só um dos poucos romances da vida que tenho assim, é mais como miragem ou ilusão. Um pensamento avulso. Vai que eles não gostam de estrangeiros.

— É uma cidade portuária que sobrevive às custas de turistas, Korra, e por isso me parece bem difícil te tratarem mal. Aliás, você não é estrangeira, é tudo Argentina afinal.

— O que é isso? Eu deveria me sentir em casa?

— Talvez?

— E se eu disser que me sinto em casa nos teus braços, independente da localização geográfica, conta? – tratou de usar seu melhor sub tom de provocação e charme, como se de fato não fosse verdade. Queria ouvir a resposta de Asami, que caso fosse negativa, ela poderia argumentar ser só uma brincadeira. Mas a resposta não veio, só um aperto.

— Você não existe – Asami suspirou – e eu também não.

— Mas isso é um pouco agressivo, vai – Korra engoliu seco, sem tirar os olhos do teto de madeira – eu adoro te engolir, e não há meios de engolir o que não existe.

Asami riu, mas sabiam ter pesado a circunstância.

— Hmm, mas ainda sobre Ushuaia e tal. Mesmo quando saímos de Buenos Aires para Córdova, por exemplo, reparamos a rusticidade regionalista. Eu só acho que é isso que chamamos de país continental, não é? Enfim, só tenho a impressão que eles devem se dar mais com os chilenos vizinhos que conosco da capital, e é uma impressão justa, você precisa concordar comigo.

— Não sei se configuraria a Argentina um país continental, e impressões vindas de onde? Olha, eu realmente não preciso concordar com ninguém não – Asami provocou. Não era difícil, mesmo para terceiros, perceber que Korra odiava estar errada.

— Impressões vindas das vozes da minha cabeça – desconversou – e precisa concordar comigo sim, sou gostosa demais para discordar.

— Claro – Asami assumi em tom de deboche – mas enfim, nenhum museu, restaurante ou praia específico? Nenhum biscoitinho amanteigado específico?

— Assim você faz parecer que biscoitinho amanteigado é como é chamado possíveis flertes em Ushuaia, reparou? “Hmm, acho que vou chegar naquele biscoitinho sozinho ali, dando bobeira, o que acha?”. Aliás, Sami, você é um biscoitinho amanteigado fenomenal assim, com embalagem de luxo e tal, mas bem recheado e crocante também.

— Korra, por favor.

— O que?

— Só fique quieta, por favor.

E ela haveria de ficar quieta, mas só para beijar outra vez o corpo despido. E com uma familiaridade que não sabia ser possível até o dia anterior, Korra a beijou, sabendo que não precisava pedir licença para isso.