Road To Nowhere
3 San Telmo
III — SAN TELMO, Buenos Aires
— Então abrimos as caixas e carregamos os fardos avulsos até o andar de cima, por que o elevador estava quebrado, certo? Quando terminamos, quarenta minutos depois, com os punhos, costas e coxas completamente destruídos, o Ramon disse que estávamos na unidade errada da cafeteria. Mano, você não tem ideia.
— Desceram tudo? Não tinha nenhuma entrega lá?
— Descemos tudo, tivemos problema na logística de reorganizar as caixas que estavam abertas e com quase o dobro do volume, e nossa. É isso, Korra, eu me recuso a voltar pra rota com ele. Deve haver algum motorista que não se dê com o ajudante para trocarmos! Aliás, não me mande conversar com María Romina, que ela não resolve nada. Por isso vim direto contigo, ver se olha, você me dá uma luz no fim do túnel. Eu não tenho nem idade, nem tempo pra ficar desperdiçando com motorista que não sabe nem a rota.
Rotas e trajetos, rodovias e viagens, um eterno queimar pneu.
Korra deixou de ouvir o que Mário dizia. Recordou das solicitações de chat que havia enviado para duas diferentes caronas no app, na noite anterior. Somente uma delas havia respondido até então e apesar de ser o itinerário para o qual torcia, assim que visualizou o perfil da mulher baixou suas expectativas. Apesar do destino e do carro serem ideais – considerando que ficariam numa mesma posição por quase quarenta horas seguidas –, a companhia não pareceu tanto: Sato era do tipo corporativo que Korra detestava ter que ouvir enquanto na fila do aeroporto ou da máquina de café expresso, afinal, impossível seus mundos cruzarem se não fossem em qualquer outra circunstância. A foto de perfil era quase profissional, ausência de sorriso, pose de modelo involuntária, roupas sóbrias e finas, joias douradas. Sobrancelhas feitas, cabelo sedoso, maçãs do rosto marcadas. O que não condizia com o estereótipo, e talvez dissesse mais da personalidade da mulher que qualquer outra característica era o forte e escuro batom vermelho que usava. Aquilo deu pequenas jarras de esperança para Korra. Que talvez a mulher também gostasse de ouvir música ou, sei lá. Viver.
Passada a primeira impressão, Korra engoliu o próprio preconceito antes de digitar um simples, mas respeitoso “boa noite”, que teria um retorno somente no dia seguinte com um pontual “Boa noite! Como vai?”. Pouca foi a surpresa da mulher ao constatar que Sato se utilizava de letras maiúsculas e correta pontuação ao responder uma mensagem online, afinal, toda mulher corporativa fazia dessa forma. Era necessário. Dito isso, é compreensível que Korra ainda não tivesse digitado uma resposta ao bom dia, apesar de já ser noite e fim do expediente dela. Certeza que Sato já estava em casa há horas.
Mário bateu a porta ao abandonar a sala. Após a conversa, Korra havia concluído que – talvez – ele tivesse passado de um homem muito frustrado para um tipo muito irritado. Era completamente compreensível o desejo de trocar de parceiro, considerando os furos. Por outro lado, Mário também devia entender que não haviam outros desentendimentos entre motoristas e ajudantes registrados. Korra não possuía meios de trocá-lo de equipe, e ela devia estar resmungando isso em voz alta enquanto pensava na sua provável parceira de viagem.
O suspiro que abandonou sua garganta veio carregado de puro cansaço e preocupação. Era excitante a perspectiva de viajar, mas ainda muito distante, uma vez que a obrigava a tomar uma importante decisão num prazo muito curto de tempo. De que adiantava trocar figurinhas com Asami Sato, combinar datas e horas, e ocupar um espaço do carro se não era certeza? Ela desembalou um chiclete de morango e desatou a mascar.
boa noite, Asami, desculpa a demora em responder, estava no trabalho e tal. então, vi que você pretende sair cedo no dia, mas que não colocou qual seria o custo de ajuda da gasolina. daí pensei que era um carro elétrico. mas então repensei porque, claro, não tem como você recarregar um carro em meio a uma rodovia de mais de duzentos quilômetros hahaha. nem os postos de beira de estrada devem ter recurso, não estamos na europa. enfim, estou falando como se você estivesse me entrevistando para dividirmos apto na faculdade, né? só queria falar do meu interesse na viagem mesmo e confirmar se está tudo certo. achei seu anúncio bem inusitado, na verdade
enviado às 18h21min.
Korra Anori se arrependeu da mensagem instantes depois. Diferente do Whatsapp, o MismoDestino não permitia a exclusão de mensagens instantâneas, o eterno fingir que nada aconteceu e que você não foi idiota. Devia estar no contrato de utilização que ela nunca leu (ou leria) que você devia pensar duas vezes antes de apertar Enviar na tela do aparelho. Ela correu os olhos e repassou o texto antes de rir de si mesma e guardar o celular na mochila. Fechou todos os documentos abertos na tela do computador e deu por encerrado seu dia.
No caminho para casa, recebeu duas mensagens, uma de texto e outra de voz.
O áudio de trinta segundos era de Tenzin, seu padrinho. O homem confirmava o horário de visita que haviam marcado para o sábado, enquanto Meelo gargarejava ao fundo. A mensagem de texto era de Asami, que respondia ao seu surto ariano de uma forma muito polida, como Korra teve o desprazer de constatar:
Boa noite, Korra, sem problemas. De fato, o carro que escolhi para alugar ainda é movido a combustível fóssil, o que é problemático, mas inevitável. Não coloquei os custos de viagem, porque não pretendo cobrar. Iria realizar a viagem independente de companhia, então não me faz diferença o valor. Não se preocupe com isso. E não precisa sentir como se eu estivesse te entrevistando, não tenho pré-requisitos para companhia além da pessoa ser/se identificar como mulher. Se você estiver disposta, o horário e o dia são esses. Não pretendo mudar.
recebida às 18h43min
Rapidamente leu a mensagem duas vezes. Julgou a mulher do outro lado cortês, pontual, mas igualmente ácida. Na segunda leitura, o instinto de compreender a vibe – psiquê – individual de pessoas de forma completamente virtual – habilidade inerente a qualquer nascido depois de 1990 – ofereceu para Korra um relatório de que Asami Sato talvez fosse tolerável. Agradável surpresa, ela foi obrigada a admitir.
Talvez funcionasse. Mas naquele instante, enquanto aguardava o ônibus que lhe deixaria há duas ruas de distância de casa, tudo que era capaz de desejar é que a potência do seu chuveiro não oscilasse como havia feito pela manhã. Para o pós-expediente daquela sexta-feira, era tudo o que podia querer. Bem, quase tudo. Comida tailandesa e um engradado de cerveja vinham logo depois.
E ela estava com sorte.
A condução não demorou e quando deu por si, já estava abrindo a porta do banheiro, deixando o vapor da água quente dissipar pelos trinta e dois metros quadrados de sua quitinete. O lugar era pequeno, mas agradável. Korra havia passado os dois últimos anos empenhada em deixar o espaço com a sua cara, o que, em síntese, envolvia muitos tons de azul e detalhes brancos e/ou neutros. Não era nenhum apartamento de capa de revista ou de blog, mas para alguém que não tinha nenhuma noção de design de interiores – ou paciência para montar pastas de referência no Pinterest –, até que Korra tinha bom tato.
A cozinha americana era separada da sala por uma bancada. Lâmpadas retrôs de filamento pendiam do gesso no ambiente principal. Um sofá compacto de dois lugares estava estrategicamente posicionado de frente para um rack que comportava uma tv de vinte e nove polegadas. Um grosso livro sobre fotografias jazia esquecido como objeto de decoração ao lado da tela; além disso havia um porta retrato de Naga, a golden retriever de Korra, rolando no jardim de Tenzin, onde morava ainda hoje, uma vez que o senhorio de Korra, o mesquinho sr. Tomáz, não aceitava animais de estimação – e nem o apartamento era grande o suficiente para comportá-la. Perto da janela de correr, um abajur de piso e uma poltrona reclinável findava a composição. Para além da cozinha e da sala, um pequeno corredor levava ao banheiro de onde Korra havia acabado de sair à direita, e, à esquerda, seu quarto onde uma cama-box de casal a esperava de peito aberto para que se deitasse e enrolasse – geralmente sozinha – toda noite.
Ela morava no segundo pavimento de um apartamento sobreloja de três andares. Não havia muito do que reclamar – exceto quando Lia, a vizinha de cima, terminava um namoro e passava horas escutando fardo português, uma herança irritante de família, pelo visto. Aos finais de semana, quando não visitava os padrinhos e Naga, Korra gostava de perambular pelo mercado de San Telmo, há apenas algumas quadras de sua casa. Nessas ocasiões, trocava amenidades com os feirantes que conhecia e gostava de comprar alimentos orgânicos e frescos para compensar, nos dois dias de folga, toda a cafeína, as frituras e a comida duvidosa de rua que consumia nos cinco dias úteis da semana.
Como se sentia particularmente cansada, Korra estava feliz de deixar o seu destino nutritivo nas mãos de Pema naquele fim de semana. A madrinha cozinhava excepcionalmente bem e sempre preparava generosas marmitas que seriam congeladas para consumo durante o restante da semana. Era um alento para o coração.
— Bolin não vem? – foi a primeira sentença que a garota de cabelo castanho fez para Korra ao abrir a porta no dia seguinte. No auge dos dezesseis anos, Ikki estava vivendo uma paixão platônica bem explícita pelo amigo de Korra. Ela gostava de rever todas as cenas que ele surgia descamisado na série de TV cancelada. Korra tentou não debochar da menina que era como sua irmã mais nova. Jinora, que estava por perto e de fato tinha laços sanguíneos com Ikki, não demonstrou tanta empatia. Girando os olhos, ela fechou o livro que vinha lendo só para acompanhar o diálogo que se seguiu.
— Você sabe tanto quanto eu que ele passa os fins de semana com Opal na casa da família dela em Tigre, K. – Korra relembrou, adentrando a sala de estar familiar. Aquela havia sido a sua casa dos quinze aos vinte e dois e sempre lhe passava a sensação de segurança. Poucos objetos haviam trocado de lugar mesmo depois de tanto tempo.
A residência ficava nos fundos da propriedade onde Tenzin e Pema haviam construído um dojo zen muitos anos antes. Desde então era a fonte de renda da família. Eles começaram oferecendo aulas de yoga e meditação e à medida que os negócios prosperaram, também cerâmica e tai chi. Havia um amplo espaço verde entre o dojo e a casa, além de uma horta, o que contribuia para a atmosfera pacífica do lugar.
— Sonhar não custa nada. – Ikki murmurou num muxoxo desanimado, jogando-se no sofá. Foi só esse o intervalo (de breve diálogo e seis passos de Korra) que Naga demorou para atravessar o quintal latindo de felicidade em direção a dona no interior da casa. Talvez Korra até tivesse se safado de ir ao chão, não fosse o tornado-Meelo em conluio com a cachorra.
— Koooooooorra! – o menino de quase onze anos e energia infinita desde sempre guinchou de alegria. Se Korra pretendia responder, não foi possível; Naga aproveitou a posição horizontal da tutora para lamber sua cara de maneira implacável.
— Pelo amor de Deus, Meelo… – Jinora suspirou, repreendendo o irmão – Tenha dó. Vai acordar Rohan desse jeito.
— Tudo bem, tudo bem – Korra disse, levantando-se e dando tapinhas em ambos – Oi para vocês também.
Era sempre um ritual de cerimônia sua chegada. Uma vez que todos estavam novamente habituados à sua presença, ela podia sentar e relaxar como se nunca tivesse saído dali. Depois de ter sua oferta de ajuda recusada por Tenzin e Pema, que terminavam o almoço, e lutar com Meelo uma vez mais, ela pôde dividir um pouco de paz esticando as pernas no tapete para que Naga se deitasse.
— Então… como vão os preparativos para a viagem? – perguntou para Jinora, que na semana retrasada estava tendo dores de cabeça com o passaporte internacional e com alguns formulários que a universidade havia pedido.
— Ah, tudo bem. – ela suspirou. Não parecia muito disposta a tocar no assunto. Korra sabia que o que quer que fosse que a estivesse incomodando, partilharia quando se sentisse confortável para tal – e o seu plano?
— Ah… – Korra uniu as sobrancelhas, sacando o celular do bolso do jeans – pensei em algumas possibilidades, mas olha só – ela abriu a conversa com Asami e entregou o telefone para Jinora – se eu não tivesse pesquisado a procedência do aplicativo, diria ser um perfil fake. Parece bom demais pra ser verdade, não é?
— Espera – Jinora arregalou os olhos. – Asami Santo?
— Hm?
— Da empresa Sato, Korra!
— Eu amo como você supõe que eu entendo tudo o que você fala, Nora.
— É o lugar onde Kai faz estágio. É uma empresa gigante, sabe? Eles fabricam peças para carros, coisas do gênero. Asami Sato é uma deusa da engenharia automotiva, Kai super admira o trabalho dela.
— Você é tão nerd… – a garota revirou os olhos, com um sorriso cansado.
— Ela também é CEO do lugar – concluiu e finalmente Korra arregalou os olhos de susto – Aí está, essa é a expressão adequada!
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