Road To Nowhere
4 Montserrat
IV — MONTSERRAT, Buenos Aires
olha moça, somos duas amigas e eu. se você quiser elas podem fazer um perfil no app, porque estamos muito animadas, sabe? acabamos de nos formar no colegial e tivemos que fazer quase uma apresentação em slide pros pais liberarem a viagem, então assim, caso eles peçam algum comprovante de que você não é nenhum velho creep, tudo bem?
recebida às 10h22min
Bom dia, Ayelen. Quantos anos você e suas amigas tem? Vi no seu perfil que a data de nascimento está ocultada. E eu acredito que seria bom elas se registrarem no aplicativo também, por questão de segurança. Só mais uma coisa: antes de confirmar com vocês, preciso verificar tudo que pretendo carregar no carro, talvez não tenha espaço para mais de três pessoas. Até amanhã te dou novidades.
enviada às 10h23min
oh, sim, tudo bem, moça
recebida às 10h23min
e tudo bem se meus pais quiserem te conhecer?
recebida às 10h23min
Ela inspirou de forma ruidosa. Buscava, entre variadas virtudes, a paciência que havia construído com tanto afinco nos últimos anos. Suyin havia pontuado o quão irritadiça andava Asami após os últimos eventos de sua vida. Tinha cada vez menos calma, fosse para com importantes situações e decisões do trabalho ou pequenas problemáticas do cotidiano.
Três possíveis adolescentes, Asami pensou. Não culpava nenhuma das meninas por desejar uma longa viagem para o fim do mundo após o término do colegial, tampouco pela espontaneidade, ânimo e provável humor. Ou pelas conversas sem começo ou fim que provavelmente tomariam conta dos ouvidos cansados de Asami nas quarenta horas haveriam de dividir. Ou pela reclamação de ausência de sinal na rodovia, por parte dos pais. Ou qualquer outra questão juvenil que não surgiu em sua mente naquele instante, mas que certamente não tardaria.
Por outro lado, sua possível outra companhia não parecia tão diferente do perfil das adolescentes em questão: Korra Anori havia marcado tags como Natureza, Praia, Sol, Esportes e Bebidas Energéticas; transpassava tanta energia quanto era possível por uma rede social como o MismoDestino. Além disso, algo a alertava que Korra não era do tipo com quem se dialoga, porque está ocupada demais com a própria impulsividade. Isso talvez fosse um problema durante a viagem, mas claro, não passava de conjecturas de Asami sobre uma pessoa desconhecida.
Considerando que a viagem estava marcada para dali a dois dias, e que ela não tinha o intuito de se aventurar sozinha na estrada, precisava resolver logo. Ainda sem responder a mensagem de Ayelen, alternou as abas do aplicativo para a conversa com Korra.
Olá, Korra, queria saber se você confirma a viagem. Quero dar por encerrado só com nós duas no carro, assim me sobra espaço para carregar tudo que acho necessário.
enviada às 10h31min
Aliás, se sim, nós já podemos escolher onde serão as paradas e quais hotéis iremos ficar. Se você tiver habilitação para dirigir, podemos dividir o volante também e assim chegamos mais rápido ao destino, porque haverá menos paradas. Não há preocupação, o carro é automático. De qualquer forma, acho interessante termos em mente o tempo total já estimado pelo Google Maps.
enviado às 10h32min.
Não houve tempo de fechar o aplicativo. Korra estava online.
ei, confirmo contigo sim. já tem algum hotel em mente?
recebida às 10h31min
Há o The Vines em Comodoro, por exemplo.
enviada às 10h31min
hmmm, vou pesquisar aqui. mas sabe da diária? nós podemos acampar também, e sei lá você, mas eu não sei se precisamos de fato de um planejamento de estrada. é só levar umas castanhas e umas frutas secas pra comer, água pra caralho. suco. sabe?
recebida às 10h32min
eu tenho um fogareiro à gás aqui. nós podemos fazer macarrão com salsicha
recebida às 10h32min
Não era possível aquela conversa ser séria.
Nos hotéis há restaurantes, mas sim, nós podemos levar algum não-perecível.
enviada às 10h33min
Nós devemos, aliás.
enviada às 10h33min
não seja tão séria. só estou falando que nós podemos aproveitar a estrada também, e não só o destino final. juro que não sou tão ruim.
recebida às 10h33min
só não espere que eu de fato pare num hotel 5 estrelas
recebida às 10h33min
Ponto: a parceria que sequer havia nascido, jazia morta e sepultada. Asami sentiu as ondas de raiva arrebentarem na superfície diante da risada ácida que se seguiu, quebrando a concentração de Zhu Li que rapidamente levantou os olhos da tela do computador, fitando-a por cima do óculos de armação redonda. Era mais um acesso.
— Você consegue acreditar nessa conversa? – e recitou para a secretária o que Korra havia digitado há pouco.
Zhu Li prendeu um sorriso mordiscando a bochecha internamente, o que não passou despercebido à Asami. Embora a relação fosse profissional, o convívio diário havia conferido intimidade e, embora nunca tivessem tratado disso verbalmente, era claro que Asami via em Zhu Li uma amiga e vice-versa.
— O que foi? – Asami exigiu saber, um tanto irritada – qual é a graça?
— A graça é estar certa, como sempre – Zhu Li sorriu em paz – eu te disse que esse aplicativo não era uma boa ideia, Asami.
— Bom, não é como se eu não tivesse te convidado antes de pensar nessa alternativa – Sato cruzou os braços, frustrada. Por vezes, pelo menos diante de pessoas de confiança, não sabia como reagir a situações de clara chateação.
— Aprecio o convite, mas acontece que sou uma grande fã dos avanços tecnológicos conquistados ao longo dos séculos, você sabe. Não há nenhuma hipótese em que eu viajaria de carro por quarenta horas sabendo da existência de aviões – Zhu Li relembrou, sem remorso algum na voz – além do mais, você precisa de férias e isso envolve não acordar com o rosto bonito da pessoa que te relembra os seus compromissos profissionais diariamente.
Asami assentiu, demonstrando derrota. Talvez estivesse levando aquela – quase – roadtrip muito a sério. Aviões eram, além de práticos e rápidos, seguros, sem contar o fator que era facilmente ter acesso a um jato particular, se assim quisesse. A distância entre Buenos Aires e a cidade em que sua mãe nascera, na Antártica Chilena, era grande. Muito grande mesmo. Por via aérea, porém, ela levaria pouco mais de quatro horas para chegar.
Com os anos, havia aprendido a favorecer seu lado racional em detrimento do emocional. Não fazia sentido dançar na chuva, por mais convidativo que fosse, se havia a possibilidade de ganhar um resfriado. Não havia motivos para tomar a estrada com um desconhecido se seu dinheiro era capaz de comprar todo conforto possível. Racionalmente fazia sentido, mas emocionalmente parecia um desvio de caráter. Arremeter a estrada não era só atrativo, mas totalmente condizente com seu desejo de autodescoberta: redescobrir o próprio país, ver com os próprios olhos cartões-postais que sua mãe guardava no fundo da última gaveta do armário; recuperar, quem sabe, a emoção daquela única roadtrip que havia feito em família quando Yasuko ainda estava viva. Sentir o couro do volante em mãos, a consequente direção, tanto no sentido literal quanto figurado.
Mas talvez fosse fantasioso demais.
— É mesmo uma péssima ideia, não é? – a mulher murmurou, concordando com o que a amiga havia dito de maneira indireta. Zhu Li tinha uma resposta positiva à pergunta direcionada na ponta da língua, pronta para conhecer o mundo, mas algo no modo como o rosto da chefe desmoronou fez com que ela repensasse sua fala. Asami vinha passando por momentos bem difíceis desde a morte de Hiroshi e apesar de Zhu Li se sentir um tanto reticente em relação ao modo como ela decidira viajar, a verdade é que estava contente por ver a mulher optando por fazer algo por si.
— Não é péssima, apenas muito específica. Mas veja, há uma pessoa interessada em te acompanhar, e apesar do breve conflito de personalidades, as sugestões não foram exatamente ruins, apenas trabalhosas. Você pode declinar do mesmo modo que ela declinou a ideia do hotel. Para quem lida com tantos sócios brancos de meia idade insuportáveis dia após dia, tenho certeza que você consegue chegar a um meio termo com uma jovem adulta entusiasmada. Confio no seu potencial social. Um pouco menos que o potencial profissional, sim, talvez, mas ainda confio.
— Mas quem em sã consciência abre mão de conforto assim?
— Você, por exemplo, que não quer ir de avião – apontou – e quem não tem orçamento para pagar por ele, às vezes. Inclusive por isso que o aplicativo oferece caronas.
Asami sentiu o rosto ligeiramente quente. Uma das coisas que ela mais amava sobre trabalhar com Zhu Li era o modo como a secretária sequer hesitava em lembrá-la dos seus privilégios de classe. Dentre todos os lembretes diários sobre reuniões, arquivos e telefonemas, aquele era o que Asami mais era grata.
— Oh – ela baixou os olhos, demonstrando culpa.
— Se está decidida a fazer isso, barganhe com ela – Zhu Li pontuou, voltando para sua planilha de mil e tantos números do excel.
Ao voltar para o interior da sua sala, Asami respirou fundo contra o telefone em suas mãos. Analisou uma vez mais a foto de perfil de Korra: maçãs do rosto altas, sorriso despreocupado e regata azul. A mulher tinha feição de atleta, do tipo que possui inteligência corporal-cinestésica, como as garotas do colegial que aterrorizavam Asami nas aulas de Educação Física. Poderia fazer sentido, para além do fator financeiro, a vontade de Korra de acampar e acender suas próprias fogueiras ao relento. Trilhas, talvez – Asami certamente preferia a morte. Mas Korra era adulta. Talvez não houvesse partidas obrigatórias de handball como no colegial ou trilhas obrigatórias. Nada indispensável que fizesse Asami reviver o difícil período escolar.
Além disso, se era pra ser condescendente, então sim, ela admitia que na maior parte do tempo soava séria demais. Ao mesmo tempo, não sabia definir onde estava a sutil linha que a separava de uma mulher muito séria e, porque não dizer, antiquada, de alguém puramente educada. De todo modo, quem era Korra para lhe dizer o que não fazer?
Quem quer que fosse, estava digitando uma mensagem:
olha, desculpe se pareci rude nas últimas msgs. as vezes sou péssima com isso. se você quiser, podemos tomar um café e conversar pessoalmente sobre a rota.
recebida às 10h45min
paz?
recebida às 10h45min
Ponderou: a proposta parecia razoável, então Asami se sentiu parcialmente dura em seu julgamento. Considerou três respostas não-tão-formais.
É uma boa ideia. Na verdade, eu daria um rim por um café agora.
enviada às 10h45min
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