V — RECOLETA, Buenos Aires

Às quartas usamos rosa e às segundas azul jeans padrão com dose de saudosismo do sobretudo com cinto cor-de-creme inverno. Ou era isso que Korra havia reparado nos frequentadores passivos da dita cafeteria pós pouso do sol.

Cardápio pomposo, larga variedade de café, chocolate e frappuccino. Enquanto aguardava Asami Sato, escolheu uma dose de café de torra média com leite de amêndoas e espuma. A bebida quente não tardou e poucas haviam sido às vezes naqueles vinte e nove anos de vida que Korra se sentiu tão decepcionada: o café valia pouco, se não menos da metade do que ela pagaria pela bebida rala, sem gosto de café ou amêndoas. Conseguia escutar as palavras de repúdio da sua conta bancária, decepcionada com as escolhas que a dona fazia, dia sim e dia também.

Korra tinha uma perceptível careta estampada quando Asami entrou. A mulher acenou de forma discreta e cumprimentou o homem baixo e calvo do outro lado do balcão de madeira com um sorriso curto e gracioso, de forma que a reação de Korra não poderia ser outra senão levantar uma única sobrancelha em gesto de curiosidade. Os segundos seguintes fizeram do tempo uma piada: pôde observar não só o contexto, mas também a mulher que a aguardava. A conclusão óbvia: aquele não era o mundo de Korra.

O “Café notável”, La Biela, era aconchegante ao estilo rebuscado. Estrutura com pé-direito alto, profundidade de espaço para o ambiente, apesar de não tanto entre as mesas e cadeiras de madeira, que tinham estofado fino de linho verde-musgo. Venezianas altas, escancaradas e outras basculantes em par com a baixa iluminação dourada de bar. No teto, samambaias pendiam saudáveis. Claramente idealizada por uma equipe de design de interiores. Mas havia algo fora da curva, tal qual o batom vermelho escuro de Sato.

La Biela, mesmo possuindo todas as características básicas – e porque não chamar de obrigatórias – de um café argentino com típica carta medialuna derrapava ao exibir diferentes artefatos automobilísticos nas paredes e estantes, na fachada ou no website: troféus de glória, radiadores de carros antigos, bielas e buzinas, faróis e quadros e jornais em sépia. Korra era conservadora naquele aspecto, e acreditava que toda cafeteria deveria abraçar uma livraria. Não fazia sentido bebericar um café falho que custava o mesmo que um quilo de carne enquanto observava radiadores quebrados.

Claro, você paga pela experiência, alguns dizem.

Sato, como o La Biela, não era tão diferente do imaginado: era alta e também elegante. Tinha uma pele bem tratada sob a maquiagem social e discreta. Vestia um sobretudo de sarja, escuro e vermelho, e um cachecol azulado em torno do pescoço. Desejou boa noite antes de se convidar para sentar. Korra só conseguia ruminar no quanto a mulher parecia mais jovem se comparada à sua foto de perfil.

— Perdoe meu atraso – Asami assoviou, desabotoando os primeiros botões – esperava trânsito, mas não tanto. Por sorte, Miguel havia me confirmado que não precisaríamos de reservas hoje.

— Não se preocupe – Korra não conseguiu evitar sorrir de maneira cínica – sempre frequento cafeterias por aqui... Miguel conseguiria uma mesa independente do que, mesmo que fosse na sala dos fundos do gerente. Usaríamos a cadeira de couro brilhante com a mesa de estampa de vidro para debatermos a rota da viagem e… onde almoçar, lavar o retrovisor etc.

— Claro – a mulher mais velha retribuiu o sorriso depois de alguns segundos de aparente confusão sobre a atuação espontânea da outra. Olhou o café já frio de Korra – cliente tão assídua que já se cansou do sabor, certo?

— Precisamente.

Asami não conseguiu reprimir o sorriso:

— Então vamos lá para fora, está abafado aqui.

A área externa era inegavelmente mais agradável. Simplórias cadeiras e mesas de plástico, preta&branca. Chão comum, céu comum, arbustos quadrados e comuns. Korra respirou parcialmente alegre por poder sentar-se na esquina da Recoleta. Há uma mentira nesse parágrafo: o céu não era tão vulgar. Àquela altura do dia, a atmosfera podia ser particularmente generosa com quem prestasse atenção. Tons roxos sob rosa, algo de mais quente no horizonte, algo de mais frio para o leste.

Korra Anori ainda não havia comentado do perfume de Asami Sato.

Estavam a pelo menos um braço de distância uma da outra. Independente disso, Korra sentiu o aroma cítrico do perfume que a mulher usava e isso foi o terceiro fator relacionado à Asami que lhe surpreendeu. Só não soube identificar se laranja ou limão, tampouco se um dia feliz ou um alguém específico a tinham obrigado a escolher o perfume em questão. Não fazia o tipo de Asami, Korra se convenceu.

— Gostariam de pedir? – um garçom risonho parou por perto – o de sempre Srta. Sato?

— Sim, por favor.

— Estou bem – Korra piscou e o rapaz pediu licença para se retirar.

— E então? Por onde começamos?

— Provavelmente por alguma pergunta inconveniente do tipo... por que você está querendo se isolar numa cidade que mal tem rotas ou pontos turísticos? – sorriu, tamborilando com os dedos na mesa de plástico – ou talvez... se nós devemos mesmo viajar juntas, já que você gosta de hotéis cinco estrelas e cafeterias em bairros nobres.

Não devia ter dito isso. Não de forma tão direta, pelo menos. Asami demonstrou surpresa por um tempo menor que trinta segundos. Inspirou, sorriu de forma consternada e continuou:

— Talvez tenha sido uma má ideia. – Korra piscou. Seu sorriso irônico estampado no rosto desapareceu. – Ou quem sabe você só se sinta intimidada por estar num ambiente estranho, e me atacar ao acaso seja uma forma de autodefesa.

— E esfregar isso na minha cara vai nos ajudar a trabalhar juntas? – argumentou. Korra recostou na cadeira, fixando os olhos no chão. Não era sábio encarar Asami naquele instante e certamente o bico desgastado da sua bota era mais interessante.

— Licença – o garçom surgiu, como quem brota em busca de ouro. Sentiu-se grata pela presença de uma terceira pessoa, mesmo que por pouco tempo. Tornou a levantar o queixo, encarando a mulher que bebia O De Sempre.

— Amigas?

— Ou algo perto disso.

Precisava admitir que estava se deixando levar pelo nervosismo. A sensação de deslocamento e leve intimidação nublavam sua conduta de forma embaraçosa, então Korra tentou a via da gentileza.

— A paisagem daqui de fora é muito bonita. Obrigada pela sugestão.

Asami a fitou por um longo instante, como que decidindo se deveria ceder também.

— É reconfortante – murmurou, recordando que estavam há poucos minutos de caminhada tanto do cemitério de Recoleta, onde sua mãe jazia, quanto da sua própria casa. – Há algumas décadas, pilotos e apaixonados por automobilismo se encontravam por aqui.

— Por isso a decoração – Korra concluiu e Asami concordou – é um interesse que vocês têm em comum?

— Sim, trabalho com engenharia automobilística, montagem e desenvolvimento de peças. Corro também no kartódromo toda semana – Korra não evitou a expressão de surpresa no próprio rosto, o que fez com que Asami sorrisse discretamente, satisfeita – você?

— Desenvolvo planilhas chatíssimas – abriu um sorriso torto, que pela primeira vez na noite não parecia nascer da área implicante do seu cérebro – e apesar de ter carteira de motorista, não costumo dirigir.

— Mas está disposta a fazer turnos comigo durante a viagem, certo?

— Hmm – fingiu pensar no assunto de forma externa, enquanto de fato pensava. Korra já havia dirigido em diferentes rodovias e em diversificados carros, mas passava longe de ser o que poderia ser considerada uma excelente motorista – sim, acho que é o mínimo que posso fazer por você, mas aviso que… sei lá, só não espere muito.

Sato assentiu, o peito ligeiramente menos pesado ao descobrir que era possível ter uma conversa agradável com a mulher. Fosse em consequência ou não da mudança de atitude de Anori, Asami decidiu responder parcialmente a pergunta que a mulher havia feito.

— Minha mãe nasceu na Terra do Fogo, na parte chilena, em Porvenir. Por isso a rota.

— Então é uma visita familiar.

— Algo assim – concordou, sem desejo de aprofundar o assunto, ou explicar que a mãe em questão estava morta – e você? Por que, e aqui uso das suas palavras, está querendo se isolar numa cidade sem rotas ou pontos turísticos?

Ouvir da boca de Asami fez Korra notar que a pergunta era irreverente. Havia sido desagradável de forma gratuita, mas não ousou pedir desculpas uma vez mais.

— Acho que eu só… gostaria de ver quão longe dá pra ir – o duplo sentido, explícito ou não, estava ali, e Asami conseguiu se relacionar com isso – além disso, pretendo tentar uma outra carona de Porvenir até Ushuaia ou quem sabe um ônibus interestadual.

— Se é até o fim do mundo que você quer ir, interestadual não. Você vai precisar cruzar a fronteira do Chile e da Argentina para isso – comentou e Korra apreciou o modo como a mulher sorriu em aprovação.

— Mas parece interessante, não é?

— Demais.

Korra sentiu-se energizada. Sentiu um impulso de desatar a articular sobre suas memórias, ainda da adolescência, de quando ela havia folheado uma revista da National Geographic na casa do padrinho. Fotos e descrições daquele pedaço de terra do extremo sul das Américas, no alto de uma colina, cercada tanto pela Cordilheira Martial, quanto pelo Estreito de Beagle. Ushuaia era fria, com ventos fortes, e também a última parada para os que se aventuravam em expedições marítimas até a Antártida. Não era difícil entender as razões que a tornaram uma desejo, até então impossível, para Korra. Quis mencionar, mas se conteve.

O pedido de Asami chegou. Um croissant francês que trouxe até o rosto dela uma alegria de fato genuína. Vez em quando bebericava suco de tomate. Outra vez a mulher agia fora do ponto de previsão de Korra, que em algum momento teve que admitir para si mesma que estava apreciando a banalidade da situação. Fazia Asami parecer… notavelmente comum.

— Deveria experimentar o suco – aconselhou e Korra recusou gentilmente.

— Estou bem.

— Mesmo?

— Mesmo – e porque pareceu apropriado, decidiu ser sincera a respeito das próprias impressões – eu realmente acho que a viagem pode funcionar.

— Que bom que estamos de acordo – respondeu, bebendo um gole generoso da bebida vermelha e texturizada – vamos planejar a rota?

Korra então debruçou sobre a mesa para falar de negócios. Não foi preciso muitos minutos para descobrir que ambas – mas em aspectos diferentes – eram mulheres que prezavam não só por organização, mas também por praticidade.

— Grande parte da viagem, senão ela toda, é pelo litoral, segundo o GPS do Maps. Exceto no começo em que passamos por Olavarría ao invés de Mar del Plata – Korra comentou, com os olhos fixos na tela do smartphone. Nesse instante, Asami tinha uma pequena agenda aberta sobre a mesa e o sol já havia se despedido de forma definitiva naquele dia. A mulher riscava números e às vezes letras com uma caneta fina e dourada que, por alguma razão, parecia pesada demais para um objeto tão pequeno – podemos parar por lá para almoçar, dependendo da hora que sairmos daqui.

— Faz sentido, mas acha que o melhor é ir pelo interior mesmo? Podemos ir pelo litoral e parar em Mar del Plata se preferir.

— Não está com pressa de chegar no Chile?

— Não sei – a mulher respondeu e Korra sentiu que ela havia cedido espaço para perguntas que Korra e seu nível de interação social não sabiam formular. Por isso fingiu não ter escutado e prosseguiu.

— Em questão de hora é pouca a diferença, mas... em quilometragem, é cem a mais.

— Você se importaria? – perguntou, levantando o rosto para encarar Korra, que só então tomou conhecimento do verde escuro que eram os olhos de Asami.

Verdes de quem nunca confessava sua completude.

— Não – respondeu sem sequer pensar direito. – Eu não me importaria.