Road To Nowhere
6 Mar del Plata
VI — MAR DEL PLATA, província de Buenos Aires
O dia vinte e cinco mal começara a despontar por sob o horizonte quando Asami tomou direção à garagem interna do casarão que habitava. Tinha seus passos abafados pelo solado macio do tênis esportivo que resolvera usar, não por estética, mas por conforto. Independente do fato, tinha certeza que seus ouvidos captavam o eco do piso ao longo de toda a trajetória que envolvia seu quarto, cozinha e garagem.
Havia informado Nicolás e também Florencia para que não se incomodassem em levantar mais cedo que o habitual, fosse para tratar de despedidas ou quaisquer outros afazeres. Nenhum dos dois levou a instrução ao pé da letra: ambos estavam parados no saguão de entrada quando Asami chegou. Feições solenes e despertas, apesar da hora.
Nicolás Diaz trabalhava como mordomo para os Sato antes mesmo do nascimento de Asami. A cumprimentou com um aceno de cabeça e mencionou amenidades sobre o clima: azul e cinzento, pálido e nebuloso. Avisou que havia checado, afinal, precaução nunca é demais, o carro alugado uma última vez. Asami não teve tempo de sentir culpa ou agradecer. Foi tomada por um abraço apertado e impulsivo de Florencia, que pedia sua proteção numa reza baixa.
Nenhum dos dois possuía qualquer laço sanguíneo com Asami Sato, mas ambos haviam visto a mulher crescer e perder os pais. Nutriam um nítido afeto pela herdeira dos Sato, e ainda que a mulher não fosse de demonstrar tanto carinho quanto, sabiam que o sentimento era recíproco. Era uma verdade incontestável: o mordomo e a governanta eram as duas únicas constantes restantes em sua vida. Para alguns, a afirmação poderia soar assustadora, mas para Asami era um conforto ainda tê-los por perto.
Se despediu antes de encarar o automóvel alugado para a dita viagem: uma Mercedes G500. Carros off-road estavam longe do topo da sua lista de preferência, mas eram quase itens essenciais para garantir uma viagem longa e segura. O carro tinha tração nas quatro rodas e lataria que garantia estabilidade em altas velocidades, o que a deixava particularmente aliviada. Era um carro forte e robusto, e além disso, carregava em sua pintura um preto-grafite muito semelhante ao carro sedan que Asami já usava.
Organizou os últimos apetrechos no porta-malas antes de experimentar o volante de couro entre as mãos e permitir que a alavanca de câmbio abandonasse o ponto-morto. Foi então assaltada pela mesma emoção de quando no autódromo.
Asami sorriu quando digitou uma rápida mensagem para Korra Anori, anunciando sua partida e previsão de chegada ao bairro dela. Desde o encontro em La Biela, vinham trocando esporádicas – e até, simpáticas – mensagens online, de forma que o coração de ambas tinha assentado em segurança com a companhia uma da outra. O auge dessa provável amizade tinha tomado forma através do esqueleto de uma playlist colaborativa de viagem, que seria alimentada conforme os dias.
Era o princípio de uma quarta-feira e há muito tempo Asami não se sentia bem como agora. Se permitiu desfrutar do sentimento enquanto o painel do carro acendia, e o motor biturbo V8 respondia suavemente. O carro tinha rodas grandes e pneus grossos, o que só ajudava na altura já exagerada do automóvel. Era como dirigir um tanque de guerra. Sabia que teria que lidar com diversas piadinhas e comentários de Korra, mas não se arrependia da escolha.
Inspirada, ligou a rádio e ao som de Nancy Sinatra, que cantarolava sobre botas que haviam sido feitas para caminhar, Asami cruzou veloz uma Buenos Aires ainda adormecida e enevoada, mas de temperatura amena. Era quase como um sonho.
Os postes de iluminação da rua de Korra ainda estavam acesos quando chegou. A mulher a esperava na calçada, com uma garrafa térmica em mãos e uma enorme mochila cargueira nas costas. Usava uma calça jogger cinza, camiseta escura e jaqueta jeans que certamente a fariam passar frio caso Asami decidisse acionar o ar-condicionado. Korra mal aparentava por fora o nervosismo que lhe corroía por dentro. O sentimento, no entanto, foi brevemente solapado, pego de surpresa ao verificar qual seria seu meio de transporte.
— Nenhum comentário em mente ainda? – Asami perguntou, sequer descartando o riso que brotou em seus lábios ao reparar que Korra precisava dar um pequeno salto para entrar.
— Tantos que nem sei por qual começar – respondeu, arrancando outro sorriso de Asami – bom dia pra você também.
Abandonando a via Ricardo Balbín e dobrando na rodovia 2, Asami e Korra deixaram para trás a vista do Rio da Prata. A pista era igualmente plana por quase todo o percurso até então, e única para cada sentido, o que tornava a direção algo mais sossegado. Do lado direito da pista, Korra encarava, em silêncio, altos e velhos pinheiros dividirem solo com jovens eucaliptos de corte, com madeira clara e folhas verdes. Era outono e algumas árvores já abandonavam suas folhas em prol do inverno que ainda tardaria chegar. Do outro lado, um eterno campo limpo e a pista oposta, de quem já voltava para Buenos Aires, depois de poucos ou muitos dias de descanso fora da grande metrópole. Há quase duas horas haviam saído, e o relógio já alcançava o ponteiro das nove da manhã, enquanto o clima avançava cinzento.
Korra foi quem anulou a calmaria ao perguntar para Asami se ela aceitava café preto.
Foi servida numa caneca de alumínio azul, e já no primeiro gole foi possível constatar diferenças fundamentais nas personalidades opositoras das duas: diferente de Korra, que enquanto na cafeteria fez questão de demonstrar seu desagrado com o café através de uma carranca, Asami sorriu e engoliu o líquido forte e amargo. Zero açúcar. Haviam criado intimidade o suficiente para que Asami reclamasse do fato em questão, mas a verdade era que ela tinha observado Korra pelo canto dos olhos pelos quase quarenta minutos que a mulher cochilou após o início da viagem. A conclusão interna de Asami era que Korra estava serena demais para ser provocada por tão pouco. Não valia a pena. Por isso, vez ou outra descia sua mão direita do volante, mantendo o carro na oitava marcha automática, e entornava um gole do café só para testemunhar indiretamente o sorriso de satisfação de Korra.
— Já planejou onde vai ficar em Ushuaia ou o que vai fazer por lá? – Asami julgou ser o tipo de conversa que deveriam ter na ocasião.
— Não para as duas perguntas – Korra ergueu ambas sobrancelhas como se ela própria se julgasse estúpida pela falta de planejamento – meio que nasci metade mochileira que não planeja nada e nem tem dinheiro pra realizar o que pretende e mesmo assim vai, e metade me-formei-em-administração e vou procurar uma carona que torne tudo, ao menos, viável, sabe? É meio idiota, mas acho que se tivesse planejado tudo, administrado tudo, não teria o mesmo gosto. Estou cansada de administrar coisas… só quero alguma grande novidade e…
Korra divagava, mal piscava ao encarar o grande borrão do lado de fora, frutificado pelos quase 132 km/h que o carro alcançava suavemente.
— Só não quero descobrir que meu destino já foi escrito.
Sato sentiu a necessidade de apoiar, de pronunciar em voz alta que o destino de Korra não estava escrito – e mesmo que se estivesse, que era possível rasurá-lo. Quis pontuar, mas sentiu-se hipócrita e então, manteve-se calada. Estavam viajando por motivos semelhantes, apesar de possuírem gatilhos diferentes.
O silêncio voltou a ser companheiro até alcançarem a entrada de Mar del Plata, perto das onze e meia da manhã. Asami sentia fome, posto que não tinha se alimentado de nada além do café amargo que Korra havia lhe servido. Pretendia levantar a ideia de almoçar num restaurante conhecido do centro, antes de propor passar o volante para Korra até a pousada que haviam planejado parar para pernoitar. De volta às ruas de uma cidade, se sentiu à vontade para abrir as janelas, grata pela brisa parcial que balançou os fios de cabelo preto.
— Pode pesquisar algum restaurante para pararmos?
— Posso – ao passo que deu uma pausa – mas estava pensando num shopping.
— Ah, é? – Asami desacelerou o carro num sinal vermelho e então olhou para a mulher no banco do passageiro – e por que?
— Porque tem estacionamento privado, vigiado por câmeras, e com estrutura para receber essa gentil banheira que está nos levando até o fim do mundo – respondeu, fazendo um leve carinho sobre o painel polido do carro – com todo respeito.
— O carro tem alarme e GPS, além do seguro da locadora. Não precisa se preocupar.
— Claro que eu me preocupo, eu não quero nem pensar o quanto custa uma diária dele, ou vou ser obrigada a viajar em pé pra não gastar o banco ou qualquer coisa assim. Acho que se respirar um pouquinho mais fundo eu faço um prejuízo de vinte mil.
— Seria bem possível – Asami sorriu sacana, acionando seta para a esquerda.
— Um prejuízo de vinte mil pesos?
— Não, você viajar em pé dentro do carro, considerando sua altura e… você sabe, o exagero da minha banheira alugada e cara.
O Paseo Aldrey Shopping ficava no centro turístico de Mar del Plata, há exatamente 850m de uma praia comum, o que pareceu atiçar momentaneamente o espírito aventureiro de Korra, que baixou o vidro para respirar o ar salgado da maresia que desprendia do mar. Buenos Aires era sim banhada pela água do mar, mas por meio de uma baía entre o Uruguai e a Argentina. Mar del Plata, diferente disso, era aberta para o Oceano Atlântico Sul. Korra comentou ainda, em tom de dúvida, se quanto mais se aproximassem da extremidade do país, mais próximas estariam do Oceano Antártico e se isso implicaria águas mais frias.
Asami achou o questionamento fofo.
Após estacionar o carro e dividirem o elevador até a praça de alimentação, ambas mulheres pareciam mais plácidas com a presença da outra. Ao menos até a hora de escolher onde elas almoçariam. Korra Anori era uma pessoa fitness do signo de áries, ou em um breve resumo para leigos: ela trabalhava com apenas duas chaves, oito ou oitenta. Convidou Asami para comer um combo de junk food e após a recusa, ofereceu salada com castanhas e frango grelhado ou peixes e frutos-do-mar com água com gás. Asami Sato, por outro lado, tinha preferência por massa fresca e condimentos especializados. O debate findou com a divisão de uma pizza de salmão, cogumelos, manjericão fresco e rúcula.
A escolha havia sido certeira de forma com que, com humor renovado, decidiram por um breve passeio pela orla da praia mais próxima antes do retorno à estrada. Ainda era quarta e o expediente pós-almoço permitiu que caminhassem pela faixa de areia branca quase que solitárias. Aliás, mais que isso, ambas pareciam tão inertes em suas próprias reflexões que quem olhasse de fato acreditaria que elas não se conheciam: Korra precisou acelerar o ritmo dos próprios passos para acompanhar Asami, que mesmo sem compromisso, tinha passadas de quem estava atrasada para alguma coisa. Korra pensou em comentar a respeito, emitir uma nota através de uma piada ou coisa que o valesse, mas a verdade é que a mescla da maresia e do perfume de Asami formavam um sabor curioso e salgado na boca. Um convite para a dita contemplação e silêncio que ela adotou de bom grado.
Sentaram-se num encontro de rochas, um pouco após o calçadão, e enquanto encarava o mar tênue, Korra se distraiu observando como, além daquela área onde a terceira corrente de onda costumava quebrar, logo à esquerda, havia um ponto que curiosamente tinha a exata cor dos olhos da sua companheira de viagem.
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