Road To Nowhere
7 Las Grutas
VII — LAS GRUTAS, Río Negro
A vegetação mudava conforme os quilômetros avançavam em direção ao sul, de Mar del Plata até Las Grutas, no distrito de Rio Negro.
Há dez horas Korra dirigia de forma ininterrupta – salvo duas circunstâncias em que se viram obrigadas a fazer uma pausa para abastecer. A tensão que fez morada em seus ombros era oriunda de diferentes porquês: primeiro, pensou que havia deixado claro para Asami não ser uma motorista de toda experiência (e isso, por si só, deveria bastar para que Sato não a deixasse dirigir por altas rodovias após anoitecer), e segundo, o valor aproximado do carro, altura e robustez. Estava irritada e mal se esforçou para esconder o desconforto que Asami Sato, de alguma forma, não conseguiu captar no ar. A mulher mais velha estava integralmente alheia à dor de Korra, enquanto imersa em qualquer leitura que fazia em seu dispositivo eletrônico. Perto de uma da manhã avistou luzes elétricas da cidade.
Sentiu alívio. Optou também por não acordar Asami que cochilava no banco do passageiro. Estacionou em um posto de gasolina, abarrotado de caminhões e bitrens de carga. Pesquisou por hotéis e pousadas na região, rezando por uma imersão em água quente e cama espaçosa para envolver sua nuca rija. A quase seis quilômetros dali encontrou um hotel bem recomendado com estacionamento privativo e recepção 24h.
— Asami – cutucou o ombro da mulher que abriu os olhos vagamente – vamos descer antes que eu te mate e esconda o corpo numa cova rasa.
A mulher sorriu entre sono como quem delibera a verdade na afirmativa. Fez um breve reconhecimento espacial de onde estavam e Korra assistiu o exato instante em que seu rosto se contorceu em legítima surpresa.
— Devia ter me acordado antes! – houve censura em sua voz e por um segundo Korra sentiu um impulso de culpa por ter alimentado a irritação no lugar de tê-la chamado. No fundo sabia que sua personalidade não teria permitido algo diferente.
— Bom, você está acordada agora – murmurou. Ela massageou os próprios ombros tensos enquanto caminhavam para o saguão de entrada. Asami tomou a dianteira, tratando de conversar com a recepcionista. Korra se manteve distante em alguns metros, julgando que quando necessário Asami a chamaria para pagar sua parte da diária. Havia selecionado o lugar levando em consideração a média de critério de custo-benefício do próprio bolso. Não era elegante, mas limpo e seguro, além de contar com café da manhã incluso.
— Aqui – Asami depositou a chave nº513 na palma da mão de Korra. A mulher segurava uma chave gêmea com a identificação 516. Girando entre os dedos, Asami voltou para o carro sem esperar sua companhia de viagem.
Anori sentiu-se aturdida. Seus olhos incrédulos caminharam da simpática funcionária do balcão até as costas de Asami. Encarou mais uma vez a recepcionista antes de voltar para o carro e buscar sua bolsa também. Tudo indicava que o pagamento já havia sido feito.
— Devia ter me cha… – sua frase nunca alcançou o fim. O modo como Asami sorriu, incentivando-a a concluir fez com que ela se sentisse estúpida e envergonhada. Korra engoliu o próprio orgulho junto com o resto das palavras de reclamação. Optou pelo silêncio.
Estavam quites outra vez.
Quando cada uma tinha sua respectiva bolsa de mão, Asami notou que Korra era canhota. Chamaram o elevador em direção ao terceiro andar. Ora, ninguém nessa vida passava tanto tempo em um para constituir fã-clube ou ter carteirinhas, mas a verdade era que após a morte de Hiroshi, Asami tinha adquirido certo pânico das tais cabines metálicas quase-caixão. Bastava entrar e de repente, um peso lhe comprimia o peito como se, assim que a porta se abrisse, estivesse destinada a alguma notícia bizarra ou visão horripilante.
— Tudo certo aí? – o timbre de Korra não passou de um sussurro, e Asami assentiu com a cabeça. Eram momentos feitos aqueles, inusitados, que sua companheira de viagem se mostrava sensível e atenciosa. Sato tinha curiosidade em descobrir como funcionavam tais mecanismos internos de Korra, que giravam em chaves tão opostas a depender da hora.
— Sim – a porta metálica abriu e Asami não foi engolida por nada além do carpete carmim. As portas de madeira de ambos os quartos se encaravam quase em aversão – nos vemos amanhã às sete? – Korra respondeu de forma positiva, antes de também sumir.
Korra se sentia reduzida a uma bola de cansaço. Após seu banho programou o despertador do celular para minutos antes da hora combinada e então, adormeceu.
Sato passou por ritual semelhante, mas diferente de Korra, dedicou boas horas da sua noite encarando o teto cor-de-creme. Embora o sono no banco do copiloto fosse cheio de interrupções e desconfortos após horas na mesma posição, Asami tinha dormido o suficiente para desregular parcialmente seu sono. Portanto, não foi por opção que ela repassou todo o seu primeiro dia de viagem. Em sua avaliação, haviam feito um bom trabalho. O silêncio em alguns trechos era confortável o suficiente, e as interações sociais tinham sido pontuais e agradáveis durante o percurso. Estava claro feito sol em apogeu num dia de verão o quanto suas personalidades eram dissonantes. De algum ponto também havia o traço de competitividade ou provocação – não conseguia decifrar qual dos dois – que parecia sempre desencadear em ambas as identidades um fator reativo que as fazia encenar pequenas brigas de gato e rato.
Quando tal surgia, no entanto, Asami se sentia mais energizada que irritada. Crescendo em ambiente e com pessoas sempre alinhados ao seu tom de voz e linhas de raciocínio, nascia surpresa e desassossego conhecer alguém que batia de frente e parecia discordar dela por pura diversão e prazer. Mas havia ali também, em algum nível, alívio.
Decidiu que gostava de Korra antes de dormir. Gostava daquela frenesi e também da intensidade – feito carro de corrida.
E talvez tenha sido por essa analogia final, antes de mergulhar no reino do inconsciente, o motivo pelo qual sonhou tanto com direção: em seu sono, havia uma longa estrada livre e um automóvel desgovernado. Asami estava ao volante e sabia que o pedal de freio apresentava considerável defeito. Independente, havia uma alegria suicida em apenas acelerar. Uma mistura paradoxal e irresolúvel de medo e prazer.
Acordou bem no dia seguinte.
— Bom dia – desejou à uma Korra pontual.
— Bom dia – a outra retribuiu num falhar que ainda raspava o sono. Korra não olhou Asami nos olhos, embora tenha reparado no cabelo ligeiramente molhado. O que quando seco formava ondas, agora só caía liso por toda a extensão das costas da mulher.
— Descansou? – Asami perguntou enquanto se serviam.
— Um tanto – não tinha como ser mais assertiva do que isso naquele dito instante.
Korra mal tinha coragem de levantar o rosto, tamanho era o medo de que algo em sua feição a denunciasse. Diferente de Asami, havia acordado de sonhos pouco castos há quase quarenta minutos, assustada e suada. Suas lembranças eram confusas, vagas, mas se lembrava o suficiente de um recorte específico que lhe causava um sentimento de desconforto, vergonha, culpa e desejo: a visão de si própria sentada de frente para Asami Sato, numa distância pouco segura e intima; mais especificamente no colo da mulher, de onde Korra se movimentava de maneira que não poderia ser descrita de outra forma se não obscena, enquanto Asami a encarava compenetrada. Korra podia jurar que havia sabor naquelas íris castanho-esverdeadas.
Só de lembrar das manobras de seu sádico inconsciente, Korra sentiu súbita vontade de morrer. Notou suas mãos suadas. Ridículo que um único sonho erótico fosse capaz de tanto. O suco gelado de abacaxi sem açúcar conseguiu confortar um pouco seu coração temporariamente escandalizado. Sabia que com o passar das horas esqueceria o ocorrido, mas enquanto ainda dilatado na mente, continuaria empenhada em ser o mais vaga possível.
O que, aliás, não passou despercebido a Asami que era, por si só, uma pessoa perceptiva. Revisou suas conclusões noturnas frente àquela Korra silenciosa e taciturna e se questionou se havia sido otimista demais. De uma forma ou outra lá estavam, prestes a seguir viagem, até que Asami propôs, em algum instante menos constrangedor de todo aquele juvenil e recente silêncio que podiam visitar as grutas da cidade.
A proposta agradou Korra.
El Cañadón de las Ostras ficava a dez quilômetros da cidade e era, segundo o Google Maps, um ‘refúgio da vida selvagem’. Asami propôs um guia turístico, afinal, era óbvio: garantia não só suas sobrevivências, como também um proveito total da atração proposta. A ideia foi rebatida por Korra com o argumento de que Las Grutas era um passeio de idosos e pessoas de meia-idade, que não apresentava risco algum para a saúde e bem-estar de ambas.
Asami discordou, mas foi abatida por puro cansaço estratégico de Korra.
Eram quase oito e meia da manhã quando alcançaram o estacionamento da reserva. A orla era limpa e refletia o sol claro contra os olhos. O mar parecia ligeiramente manso como o cão que observa e escolta movimentos até enfim abocanhar calcanhares.
Caminhavam descalças sob a areia pálida, enquanto Korra se remoía mais um tanto. Sabia que o silêncio havia sido um trinco que ela mesma trancara ao dar pouco espaço para conversa e troca de farpas desde cedo. Infantil, concordou com a voz da sua consciência, afinal não era inusitado que ocasionalmente pessoas viessem a ter sonhos eróticos – e contraditórios com suas próprias conclusões – com terceiros. Não era pra tanto. Asami Sato era uma mulher charmosa, mas também conseguia ser árdua em vários aspectos que conseguiam enervar o sangue de Korra, a ponto de pular seu pulso. Isso não necessariamente pontuava uma possível química – ou falta de – durante uma transa casual, afinal, logo haveriam de se separarem para nunca mais se cruzarem.
Talvez houvesse espaço e energia. A réplica das imagens que jamais desabitaram sua cabeça tornaram a tomá-la abruptamente, o que fez Korra corar, e Asami se preocupar. A mulher encarava a companheira de viagem pelo canto dos olhos verdes.
A faixa de areia reunia várias estruturas rochosas e altas, antigas conforme o folheto informativo que Asami insistira em pegar na entrada. Havia de pequenas até grandes e largas fissuras nos rochedos mais altos, que podiam ter, segundo Korra e mais ninguém, uns dez metros de altura. Numa destas, um grupo pouco diverso de seres humanos: três homens de cabelos brancos e dois carecas, todos de bigode ou barba feita, todos de polo rosa, branco e azul-bebê, shorts cargo e sapatênis, todos de óculos escuros. Todos. Batiam fotos no fundo da fissura, enquanto em frente a eles, menos de estatura, mulheres de igual idade, regatas coloridas e chapéus de tecido. Korra riu baixinho, finalmente livre do próprio torpor. O sol irritava seus olhos e o suor já escorria ligeiramente sua nuca. Prendeu os fios do cabelo.
— Mocinha! – um dos homens-polo acenou atrás do óculos – você é a contratada que disseram na guarita que tira fotos profissionais dos turistas? Quanto é a unidade?
— Não, ela… – Asami se adiantou, gesticulando com as mãos negativamente.
— Sim – Korra sorriu naturalmente, correndo o zíper da bolsa lateral e removendo sua câmera semi-profissional. Encaixou a objetiva no corpo da câmera e removeu a tampa, ajustando configurações simplórias – como vai ser?
— Aqui, Ivete, vamos tirar nós dois – o homem pareceu satisfeito, puxando uma mulher que Korra julgou ser sua esposa – nós não estamos conseguindo tirar fotos direito, o fundo sempre fica escuro e na frente muito sol.
— Não se preocupe, sempre tiro fotos aqui nas grutas, vai ser tranquilo.
A srta. Sato parecia atônita, mas julgou que já não era possível desmentir a farsa estabelecida. Korra ajustava a posição e poses do grupo de idosos, fazia diferentes cliques e depois revelava o resultado para todos que pareciam surpreendentemente realizados. Por fim, informou que só tinha disponível vinte minutos com cada grupo de excursão, combinou valores e enviou as fotos por anexo em um e-mail. Tudo ali, instantâneo, na frente de Asami.
Depois de relativamente longe dos olhos do grupo, Asami puxou Korra pelo antebraço para dentro de uma das fissuras. A areia dali era úmida e fria, diferente da areia pálida da praia que encontrava o mar carregado. O coração de Asami parecia aos pulos e o apertão que ela deu em Korra não foi bem calculado.
— Pelo amor de Deus, Korra, o que foi isso? Se nos descobrirem?
— Nós? – cruzou os braços, sorrindo ardilosa – eu não te vi dando palpite em como melhorar nenhum bigodinho do grupo, Sami, então por favor, não roube meus méritos.
— Bigodinhos o que, Korra, você roubou o serviço da tal fotógrafa, não te pesa a consciência nem um pouquinho?
— Eu entreguei o serviço, ainda descolei o dinheiro do almoço – concluiu, apoiando a bolsa da câmera num rochedo e se recostando em uma das paredes – zero arrependimentos, Asami, aliás, bem-vinda ao mundo real: aqui é bicho devorando bicho. Por que diabos está tão nervosa? Nunca fez nada errado na vida?
Nunca fez nada errado na vida: a vozinha interior sussurrou.
— Claro que já, mas não assim, não assim, e eu – ela gaguejou e isso foi quase como servir um drink forte numa balada open-bar para Korra Anori. Ali Asami cedeu espaço para Korra rir em astúcia e se sentir numa daquelas raras ocasiões, mais confiante e felina por sob Asami Sato. Korra se aproximou, ainda sorrindo.
Ainda sorrindo resvalou a mão, afinal, é o que um drink forte faz: te faz confiante.
Fale com o autor