Road To Nowhere
8 Rodovia III
VIII — RODOVIA 3, Chubut
Asami tinha os olhos fixos na estrada e o cenho levemente franzido por conta do sol a pino do início de tarde e também do pensamento repetitivo (ela iria beijá-la?) que lhe assaltava a mente de três em três segundos. A pulsação ainda acelerava mediante a indagação. Repassou a cena outra vez: Korra se aproximando, um riso que se tornou um silvo, os dentes bonitos a mostra, o modo como Asami se arrepiou diante da aproximação súbita e então aquela desculpa esfarrapada e infantil de um-inseto-no-seu-cabelo no último segundo. Korra era uma provocadora, ela já sabia; mas o que significava aquele recuo tão abrupto quanto a investida? Asami não via alternativa a não ser ruminar a questão obsessivamente.
Korra era uma mulher bonita. Ela não tinha problemas em admitir isso. Em muitos níveis, Asami achava que provavelmente seria mais fácil – e agradável – beijá-la do que conseguir uma conversa tranquila com Anori. Ela era tão absurda quando queria! Pensou nos turistas. O pior é que as fotos haviam ficado excelentes. Não parecia mesmo que Korra fosse amadora, mas Asami ficara tão apreensiva e irritada na hora… por fim, a verdadeira fotógrafa havia aparecido, bem quando elas já estavam indo embora, e as esposas dos homens de polo não se importaram em pedir mais uma bateria de fotos para a profissional.
— Viu? Deu tudo certo no final – Korra fez questão de dizer ao que Asami não se deu ao trabalho de responder. Esperava que outras coisas dessem certo até o final da viagem. Deixou que Anori pagasse o almoço com o dinheiro das fotos, como uma recompensa por ter mexido com seus nervos, o que ela fez de boa vontade.
O humor de Korra havia virado drasticamente da hora em que se levantaram até a tarde. Ela parecia relaxada e havia um quê de diversão que Asami suspeitava vir de seu abalo pessoal. O clima, como o estado de espírito de sua companheira de viagem, mudou drasticamente: o sol cedeu lugar a grossas nuvens. No horizonte, um conglomerado de massas globulares brancas com gradientes cinzas se formou; Asami admirou o que parecia um enorme algodão doce celeste, mesmo sabendo que ele não significava nada além de uma forte chuva em breve. Korra se aprumou ao lado, fascinada com a mesma visão.
— Cumulonimbus. – sussurrou. – Tudo bem se eu abrir a janela um instante?
Asami assentiu com a cabeça, desligando o ar condicionado. O vento de fora fez com que mechas de seu cabelo voassem por todo lado, mas ela considerou bem vinda a breve mudança de temperatura. Korra tirou a câmera da bolsa pela segunda vez naquele dia e como a estrada estava tranquila, Asami se permitiu observá-la de canto de olho. Ela assumia um ar de seriedade enquanto configurava a Canon manualmente. Os olhos se estreitaram enquanto ela selecionava, compenetrada, as suas predileções.
Em seguida, sem prévio aviso, ela desatou o cinto de segurança e colocou metade do corpo para fora, fazendo o coração de Asami saltar umas três batidas repentinas. Comprimiu os lábios em silêncio. Ouviu o clique miúdo e discreto da câmera uma, duas, três vezes. Então, com a mesma rapidez com que quase se jogou para fora, Korra estava novamente dentro do carro, os olhos brilhando com a satisfação de quem havia conseguido capturar o que desejava.
Asami abriu a boca e tornou a fechar quando Korra colocou o cinto de segurança novamente. Korra era um maldito espírito livre. Não havia o que pontuar. Ela simplesmente faria o que tivesse vontade, mas Asami sabia – ainda que não concordasse sempre – que todos os atos eram calculados dentro daquela cabeça. Método e impulsividade se emaranhavam e formavam Korra. Ela não teria se jogado daquele modo gracioso se não tivesse absoluta certeza de sua destreza motora, nem teria arriscado assustar Asami se a estrada estivesse abarrotada de outros carros. Sato não sabia como sabia disso, mas a convicção a atingiu como um raio ao ver o modo como os olhos analíticos de Korra encaravam a estrada.
Asami sentiu uma onda de admiração silenciosa apossar-se dela naquele instante.
— Conseguiu uma boa foto? – perguntou simplesmente. Korra sorriu e ela soube a resposta antes mesmo de Anori formular uma frase positiva.
— Veja por si mesma – inclinou o corpo da câmera para Asami – mas mantenha os olhos na estrada, por favor, não pretendo partir antes dos cinquenta e três.
O raciocínio de Asami vingou agitado, viajando sob o percurso da dúvida que antes se questionava “o que configura uma nuvem cumulus”, agora contornava sob o número cinquenta e três. O visor de LED salientava a tal Cumulus de maneira tão nítida (e talvez melhor) quanto era possível verificar sob o parabrisa do carro. O céu àquela altura da estrada era extenso, quase indeterminado devido a ausência de arranha-céus. Na fotografia, mais que na vida real, era possível observar a grande massa de partículas de água suspensa na atmosfera, parcialmente escondida sobre uma montanha – a topografia do mapa enfim se agitava conforme avançavam para além da metade do mapa argentino. Havia pouca luz natural naquela hora mística que era o crepúsculo, e mesmo assim Korra havia feito mágica o suficiente com as configurações da câmera para captar o céu cinzento, porém vívido e nítido.
— Em que configuração você mexeu para aumentar o brilho do céu? Está bem escuro já – Asami demonstrou legítima curiosidade, voltando os olhos para a estrada dupla que era, até então, reta e contínua. Queria elogiar o nível das habilidades fotográficas de Korra, mas sabia de duas coisas: a) ela não havia se acoplado com os artifícios técnicos para elogiar uma fotografia profissional da forma que merecia e b) Korra Anori já tinha um ego alto o suficiente. Isso para além dos c, d, e, f e por diante. Quem sabe o g fosse Korra achando que Asami estava dando em cima dela (o que, no seu íntimo, sabia ser possível), e Asami, obviamente evitaria passar tal percepção com todas suas forças.
— É só configurar bem a abertura do diafragma para entrar mais luz que há disponível de fato. Quando muito, muito escuro, nós temos ajudinha da ISO também, mas isso deixa ruído nas fotos e não é tão legal. Usei aqui, vê? – voltou a mostrar o visor, enquanto acionava o zoom do equipamento para apontar imperceptíveis, pelo menos aos olhos de Asami, pontinhos nas áreas mais escuras da foto. – Eu já tinha configurado antes de botar a cabeça pra fora – houve um risinho jocoso – já havia montado o que queria antes, então tranquilo.
— Você é boa com esse… lance, e parece gostar também – cochichou, passando a ter ciência que a compreensão que exercia contra o volante havia se intensificado. – Por que trabalha em escritório se pode ganhar dinheiro como fotógrafa? Deu certo na praia.
— Porque vida de artista não é fácil, querida Sami – Korra respondeu e o diminuto do nome de Asami não passou batido. Então abandonou o equipamento entre as coxas e segurou com a mão direita na alça do teto do carro. Sua voz havia assumido um incomum tom de sobriedade, e então Asami atinou que Korra já havia fracassado antes, e se sentiu mal. – Ainda na faculdade me inscrevi num curso de extensão de outro departamento. Era uma oficina de fotografia para iniciantes, mas era obrigatório ter equipamento próprio. Por sorte me inscrevi como bolsista e consegui o material, que é essa mesma câmera até hoje – olhou para a mochila de couro escuro e gasto – enfim, depois da oficina eu fiz bicos durante a faculdade. Trabalhei em alguns eventos, fui ajudante de alguns ensaios e tal, mas meu gosto mesmo era fotografia de aspecto natural. Gosto de tirar fotos da natureza e isso ninguém compra. Até tentei me vender um pouco para os ensaios, mas honestamente, não é bem meu forte capturar pessoas grávidas e crianças.
Há quem diga que o silêncio estrutura o discurso.
Asami não encontrou respostas ao mesmo passo que concluiu que demonstrar pena sob uma pessoa com personalidade semelhante a de Korra não era cabível, quem dirá inteligente. Assim, uma pausa não calculada se instaurou entre ambas, mas não perdurou tanto quanto imaginavam. Em fração de poucos minutos, o que era apenas uma grandiosa nuvem escura no entardecer, se transformou em grossas e gordas gotas de chuva na estrada. Asami acendeu os faróis e também reduziu proporcionalmente a velocidade do carro, agora que avistara uma placa de sinalização alertando de curvas à frente.
Desde o findar do sol haviam desligado o ar-condicionado do carro, apesar de todos os vidros permanecerem cerrados. Trocaram algumas amenas palavras sobre quanto tempo faltava até Comodoro Rivadavia, em Chubut, que era a próxima parada planejada. Além disso, só o som da água arrebentando contra a lataria.
Até o momento que Korra começou a cantarolar baixinho.
Era um reflexo humano, como quando um objeto cai ou uma pessoa se desequilibra perto de você, que tenta rapidamente capturá-los entre ambas mãos: Asami se concentrou na letra da canção para descobrir do que se tratava. Após o que julgou ser um refrão e uma estrofe inicial, desistiu, puxou fôlego e perguntou:
(você ia me beijar?)
— Que música é?
Korra piscou, como quem estivesse distraído demais. Algo dentro de Sato, porém, disse que a mulher de fato estava chamando sua atenção e estava mais que atenta.
— Madonna.
— Madonna? – Asami riu, desviando os olhos verdes para a figura da mulher perdida na escuridão do automóvel – e você tem idade pra isso?
— Tenho idade pra muita coisa, você sabe – replicou, quase canalha.
Asami não desviou os olhos da pista, mas experimentou os pelos da nuca e braços eriçarem. Agradeceu por ter optado pelo agasalho fino de algodão acobreado. Há algum tempo não se sentia assim, frágil, quase sensível a um tom ou brincadeira juvenil.
Talvez estivesse carente.
— Canta de novo a última estrofe, quero tentar lembrar – solicitou, apertando os olhos e verificando com a mão esquerda se de fato os faróis altos estavam ligados. A chuva havia tornado a estrada um longo túnel de névoa sólida. Asami havia reduzido para quase ⅓ a velocidade, tamanha era dificuldade de enxergar o que vinha em seguida.
— When your lips are burning mine and you take the time to tell me how you feel… – a mulher acatou o pedido, subindo vagarosa o tom de voz para não ser abafada pela chuva insistente – when you listen to my words and I know you’ve heard, I know it’s real.
— Realmente não me recordo – Asami concluiu, sentindo a boca ligeiramente seca.
— Rain is what this thunder brings – provocou, cantarolando a última frase num tom divertido de quem possuía a melhor memória da galáxia, senão do próprio universo.
Naqueles dias de viagem, Korra havia mantido ambas as mãos e seus dedos inquietos ora nas laterais do banco de couro, ora riscando o cinto de segurança, ora na alça superior, ora na mochila, celular, rádio, tênis, câmera, garrafa de água e isotônico. Sempre ocupadas. Naquele instante, porém, ela parecia mais e mais agitada que o comum. Ela riscava as unhas no jeans antes de ligar a luz auxiliar para mexer em algo na mochila velha. Quando acionou o botão de off, porém, seu braço não voltou para as próprias coxas, e sim descansou sobre o encosto de cabeça do banco de Asami, longe, mas perto o suficiente da nuca da mulher.
— Acho melhor pararmos no acostamento um instante – Asami conseguiu reproduzir a voz mais débil e raquítica possível para suas cordas vocais – a névoa parece só piorar, vamos… só estacionar na terra aqui e esperar um pouco.
Estavam na rodovia 3. Faltava pouco, mas Sato não se julgava em condições.
Estacionaram e averiguaram que o carro estava com todas as portas trancadas antes de anunciarem (concordarem, na verdade) que tiraram um rápido cochilo de dez minutos, mas não era necessário sapiência ou juízo para concluir que ninguém havia dormido ou descansado. O cérebro de Asami Sato parecia um caldeirão fervente, borbulhante e incômodo. Não cessava, não acalmava. Entrara numa constante de reproduzir vezes e vezes a cena em Las Grutas, antes de entrar em variantes fantasiosas em que Korra a beijava, em que Korra lhe agarrava, em que Korra... – variantes.
Após meia-hora, a chuva cessou, mas a névoa não.
Asami olhou para Korra que tinha o corpo inclinado para sua própria porta, com o banco reclinado. Observou cuidadosa o tom do cabelo refletindo o amarelo quente da luz auxiliar. Então desceu do carro. O tempo nublado incapacitava a lua de iluminar qualquer trajeto, mas Asami se sentiu capaz de inspirar o cheiro doce do ar frio com ternura.
Ao passo que queria ruminar – ou fantasiar – com sua companheira de viagem e só alimentar aquela brandura que percorria elétrica seu corpo, Asami também queria esquecer e não sentir absolutamente nada. Entrara na dita aventura solitária em busca de solitude, por uma razão muito mais nobre que encontrar romance (transa, Asami, somente sexo).
Somente sexo: quente e duvidoso.
Asami não reparou que Korra acordara. Asami não reparou naquelas grandes letras garrafais mentais que gritavam CUIDADO, LOBO SELVAGEM (que espreita ao lado) se aproximando antes que fosse tarde demais. Se Asami Sato só ruminava (ela ia me beijar? ela me beijaria?) Korra Anori era do tipo de atitude, mesmo que tardia ou deliberada por horas.
— Você tem que ter um pouco de fé no som – Anori anunciou, sorrindo após abandonar a escuridão que circundava o carro delas – ou vai ficar passível de morrer na base da surpresa.
— Você não fez som algum. — Asami contra argumentou após o sobressalto inicial ao se dar conta da presença alheia.
— Eu chamei teu nome – o que não passou de um sussurro.
A ausência de luz não impediu Asami Sato de presenciar os olhos azuis, quase obsessivos e incontestáveis se aproximarem. Também não refreou as mãos de Korra de esbarrar sua cintura numa facilidade pacífica.
— Acho que já passou da hora de eu falar “eu te disse” – Korra suspirou contra os lábios de Asami, que apenas suportou suas pálpebras se entregarem.
— O que? – soprou de volta antes de Korra a beijar.
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