Road To Nowhere

9 Comodoro Rivadavia


IX — COMODORO RIVADAVIA, Chubut

Tão certo quanto o fato de que Korra havia tomado a iniciativa era a realidade de que havia perdido a liderança naquela empreitada erótica-amorosa logo após o primeiro beijo. Ela conseguia sentir o rosto formigar ao lembrar do modo como Asami havia encostado o corpo contra o dela no capô do carro, minutos antes de deslizar os dedos com destreza pelo cós do jeans, desatando o botão que prendia a calça. Korra não recuou, ao contrário, confessou que havia sonhado com aquilo entre um suspiro e outro, o que pareceu ser o incentivo final para todo aquele festival de sexo-na-beira-da-estrada que elas protagonizaram em seguida.

O nevoeiro, os beijos urgentes, os gemidos baixos, o jeito como Korra prendeu as pernas em torno da cintura de Asami como se sua vida dependesse disso: ela não se arrependia de nada, por mais vulnerável e suscetível que tenha se sentido no momento e após. Havia se assustado com a facilidade com que seu corpo reagia e se entregava para Asami, mas se maravilhado com a constatação de que Sato respondeu de mesma maneira quando Korra a puxou para o banco traseiro (sentindo-se finalmente agradecida pelo carro grande, alto e confortável). Nenhuma delas tinha a intenção de reproduzir a icônica cena de Titanic, mas ambas estavam cientes de que para todos os automóveis que passavam apressados pela estrada, essa era a identidade visual que teriam – um carro muito caro parado próximo ao asfalto depois do acostamento, vidros fechados e embaçados com gotículas de água que escorriam lentas.

Breves pensamentos de preocupação surgiram e sumiram da cabeça de Korra. Podia ser perigoso. Ela sabia e achava que Asami concordaria, mas talvez fosse isso mesmo – fora toda a tensão sexual acumulada – que tenha escaloneado o sexo para aquele nível quase impecável de tão lascivo, o tipo de experiência que farias suas pernas perderem força toda vez que ela ousasse recordar, Korra tinha certeza.

— Chegamos – Asami anunciou em voz baixa, mais para quebrar o silêncio confortável (porém longo) que haviam estabelecido ao pegarem a estrada novamente do que a título de informação. Korra registrou o modo como a mão dela repousou distraidamente em sua coxa, produzindo uma onda elétrica interna que ela esperava que não se revelasse em seu rosto.

Dessa vez elas haviam pesquisado e reservado os quartos de hotel durante o almoço, ainda em Las Grutas, de modo que não havia muito o que fazer além de estacionar e seguir para o saguão de entrada. Ao invés disso, elas ficaram um momento paradas dentro do carro já desligado, a iminência da pergunta que ninguém queria formular pairando sob suas cabeças como a nuvem grossa que Korra tinha fotografado mais cedo.

Asami quem quebrou o silêncio outra vez:

— Eu não me importaria de dormir com você essa noite – ela estava olhando para frente como se ainda estivesse dirigindo, mas as palavras soaram claras e seguras. Korra admirou nela a coragem que não tinha encontrado em si e sentiu-se profundamente agradecida.

Não havia nenhum manual de viagem que alertasse sobre procedimentos, perigos ou possíveis consequências de transas casuais com sua companhia de estrada. Anori não tinha ideia de como se portar dali em diante, mas naquele segundo sabia que precisava beijar Asami de novo, mesmo que essa não fosse a atitude mais apropriada ou cautelosa. E assim o fez, com devoção aos lábios que havia conhecido apenas algumas horas antes. Asami inclinou o corpo ligeiramente para frente, retribuindo o carinho.

"Nenhum manual de viagem", Korra lamentou de novo, quando sentiu o risco traduzido em ter a pulsação acelerada outra vez. Nenhum manual. E então outro pensamento a atingiu com força quando Asami lhe abriu um sorriso bonito: "foda-se".

Cancelaram uma das reservas e repetiram no quarto único todo aquele ritual de mãos que trilham corpos e beijos que descem úmidos pela superfície da pele. A procissão subversiva que consistia em percorrer cada centímetro de corpo uma da outra se entranhou noite adentro e, no fim, Korra memorizou com fascínio o modo como o rosto de Asami brilhava de suor sob a luz âmbar indireta de uma luminária lateral. Algo naquele semblante fazia com que Korra fervesse em desejo nunca completamente satisfeito. Ela apenas queria e queria e queria. A julgar pelo modo como Asami a encarava, vontades similares deviam lhe rondar a cabeça. Constatar isso fazia Korra se sentir sob a insígnia de uma sorte que não acreditava que merecia. Toda essa miscelânea de emoções atingiam-na a fundo.

Não parecia um bom sinal.

Esse foi seu último pensamento consciente antes de enveredar pelo mundo difuso dos sonhos, o coração ainda batendo descompassado no peito, um braço rodeando a cintura alheia e as coxas firmes atadas às pernas de Asami. Teve a impressão de ouvir – como um ruído muito distante – um “boa noite” suave, mas não saberia dizer se havia conseguido responder.

Foi mesmo uma noite boa. Korra apagou (como costumava se referia aquele tipo de noite de sono pesado sem sonhos) e isso fez com que seu corpo se sentisse revigorado, embora tenha sido acordada apenas quatro horas depois com o celular vibrando inconformado debaixo do travesseiro. Ela tateou até encontrá-lo, e viu com olhos semi-despertos e ainda embaçados o telefonema que só podia ser do trabalho.

Xingando baixinho, recusou a ligação e virou-se com cuidado para o lado em que Asami ressonava de maneira tranquila. Suspendeu a respiração ao admirá-la: Asami Sato era uma das pessoas mais bonitas que ela já conhecera. Despida como estava, perdia uma boa parte da imponência que portava nas roupas, cabelo penteado e maquiagem, mas Korra achava que essa fragilidade insuspeita em outros contextos apenas a beneficiava. Deixou que os olhos escorregassem para baixo, até o quadril esquerdo onde sabia que encontraria um ideograma. Crescendo com padrinhos budistas em um dojo zen, Korra sabia reconhecer alguns kanjis que simbolizavam coisas como força, harmonia e paz, mas não tinha ideia do que poderia significar o de Asami.

Para além disso, achava curioso que as duas portassem tatuagens que revelassem suas respectivas ascendências. Korra tinha um fino bracelete com símbolos guarani mbya no braço direito. Ela se lembrava de Asami deslizando os dedos com delicadeza pela extensão da tinta já cicatrizada. Sentiu um ímpeto de acordá-la, de perguntar sobre o ideograma, de contar para ela sobre a própria tatuagem feita ainda aos dezoito anos, de como ela se sentia inapropriada vivendo tão longe dos costumes dos seus avós, da falta de legitimidade entre seus pares e fora dele – o limbo de não ser reconhecida nem em seu próprio grupo, nem fora. Como a bissexualidade, às vezes. Ela sentiu vontade de dizer tudo isso para Asami. Conversar sobre coisas difíceis como identidade, preservação e cultura: por horas. Por dias.

Sexo, Korra, lembrou-se, sexo, não terapia em grupo.

O celular vibrou novamente e Korra repetiu seu gesto. Cinco minutos depois, mais uma insistência. À luz da manhã ela suspirou, atinando em um bruto lampejo de lucidez que não havia escapatória, fosse em relação ao trabalho ou Asami Sato. Levantou cuidadosa para não acordar a mulher e respirou fundo antes de dizer “alô”.

Claro que o desenrolar não era surpresa para ninguém: Korra esperava ser demitida, mesmo que fosse uma das poucas profissionais naquela região que aceitasse tanto trabalho por tão pouco benefício. A verdade é que até havia se sentido um pouco querida quando Amani, a sra de meia-idade (quase patrimônio histórico) dos recursos humanos apenas lhe pediu para retornar ao serviço no dia seguinte. Haviam tantas coisas das quais Korra não podia voltar atrás que ela riu, daquela maneira cínica e baixa, o que pode ou não ter ofendido a mulher do outro lado da linha. Por fim, desculpou-se e complementou a mentira de estar responsável pelos cuidados médicos de algum parente idoso fora do país, e que não seria possível retornar até a próxima semana – a jogada foi até esperançosa, mas pouco efetiva. Amani afirmou que ela devia ter avisado ou telefonado, e que aquilo demonstrava irresponsabilidade incompatível com o cargo de gestor administrativo que Korra exercia. O resto é história.

Fato era que Asami havia acordado e optado por voto de silêncio enquanto observava com os olhos verdes semicerrados todos os trejeitos de Korra enquanto ao telefone. Acompanhava os movimentos do corpo seminu da mulher que decidira apenas por uma camisa bege e desbotada. Asami esteve presente por quase toda a ligação, e quando enfim Korra desligou e tornou a se despir para deitar ao lado de Asami, a mulher voltou a fingir ainda residir próxima ao sono REM. Conhecendo o pouco que conhecia Anori, Asami podia jurar que ela resmungaria baixinho pelos próximos minutos, o que não veio. Korra apenas deslizou os dedos pela maçã-do-rosto de Asami e nada mais fez.

E se aquela pausa era só um recurso de viagem para descanso, logo se tornou estadial real, mesmo que não acordada em palavras – mas em gestos. Abraçar as costas longilíneas de Asami fez Korra não querer levantar mais. Descansar a ponta do nariz e a extensão dos lábios na nuca da mulher e esquecer as mãos no quadril fez ela esquecer da Cidade do Fim do Mundo, seu destino final.

Era um ato curioso.

Korra já havia se deitado casualmente com diferentes homens e mulheres e isso nunca constituiu um acordo formal – na verdade, o acordo formal era universal: os encontros sempre começavam e terminavam iguais. Bebiam num lugar público e conversavam pouco, trocando amenidades não tão profundas sobre filosofia. Após a segunda cerveja, uma aproximação sutil, e após o primeiro beijo, uma permissão primária para que mãos contornassem corpos. Então, normalmente, um motel ou apartamento, uma transa de no máximo duas horas, um lado-a-lado por no máximo quinze minutos, um banho partilhado e uma despedida com um selinho de ‘foi ótimo, até nunca mais’. Esse era o comum na vida de Korra e ela gostava dessa dinâmica em específico. Era universal e pouco lhe dava dor de cabeça. Não haveria vontade de ver a pessoa no dia seguinte e ninguém se sentiria necessariamente mal se ela ignorasse as mensagens de repeat no dia seguinte. Igualmente Korra não se sentia capaz de passar mais do que os quinze minutos contados partilhando a cama, em silêncio ou num gesto gentil e afetuoso de carinho – que às vezes acontecia.

E mesmo assim, lá estavam. Korra subconscientemente quase implorava ao Universo em expansão que firmasse contrato com a Terra para diminuir o movimento de rotação. Que findasse o tempo, diminuindo ou aumentando sua permanência, mas anulando as alterações naquele instante da vida de Korra e Asami. Não queria sair da cama, não queria abandonar o calor daquele corpo, não queria pensar no que isso significava, apesar de quase ter certeza. A negação era tudo à que podia se agarrar. Ainda tinham dias pela frente juntas e isso era muito se considerasse que as coisas entre elas poderiam ficar esquisitas a partir de agora; ao mesmo tempo, os dias que tinham não pareciam suficientes para Korra e ela já julgava sentir dor.

Korra já sentia dor.

Perto do meio-dia, porém, foi inevitável. Asami se levantou e elas não partilharam o chuveiro. Talvez Asami não conhecesse as regras universais. Ou talvez fosse uma variação que Korra não conhecia, então optou por apenas permanecer na cama, olhando o teto enquanto mantinha os ouvidos atentos para o som do impacto da água no outro cômodo.

Talvez fosse isso e ela tivesse perdido sua carona.

Talvez fosse isso e ela só tivesse perdido a base de uma amizade.

Talvez fosse isso e ela só tivesse ganhado sexo até o fim da viagem.

Um romance com data de validade.