XIII — RÍO GALLEGOS, Santa Cruz

Queime a casa de um homem e você descobrirá o que ele ama – era dessa forma que Korra se sentia enquanto se sujeitava, lentamente, à árdua tarefa de arrumar sua mala. Desconhecia o sentimento, afinal, em meios gerais, os humanos costumam se alegrar ao fazer malas para sair de férias, engomando sem necessidade algumas camisetas, separando o relógio favorito ganhado no aniversário ou o óculos-de-sol comprado na última volta dentro do shopping. Mas Korra estava quase neutra e ousava questionar a falta de legitimidade no ambíguo sentimento de felicidade que rondava seu estômago ao passo que também amargava a boca. Terminar aquela mochila parecia sepultar algo além do percurso combinado no MismoDestino. Só não queria se lembrar do que também estaria acabado quando descesse do carro em direção à rodoviária.

Estavam a duas horas de Río Gallegos.

O Tecniaustral S.R.L era o ônibus que completaria os 600km restantes entre Santa Cruz e Ushuaia. Tinha previsão de partida para 17h30, e de chegada, às 5h do dia seguinte. Korra havia reservado uma passagem de ida online, da mesma forma que tinha combinado com Asami de deixar o Parque Nacional perto das duas e meia da tarde. Era quarta-feira, primeiro de abril e ambas tinham dormido mais que o planejado – a verdade é que Korra havia acordado perto das oito horas, mas Asami não, e ela decidiu que era melhor assim: se enrolar cada vez mais naquele lençol xadrez alaranjado, buscar cada vez mais a pele quente da mulher, cada vez mais seu cheiro. Essa mesma cena se repetiu outras duas vezes, com Korra cochilando e acordando até de fato encontrar Asami desperta, verificando qualquer coisa no celular. Almoçaram o café-da-manhã, e agora o relógio já alcançava duas horas da tarde. Korra bebia um café doce, mas gelado e Asami acertava o valor da estadia do lado de dentro.

Korra nunca tomava café velho. Queria declarar Asami culpada.

Era verdade que sua viagem iniciava naquele instante: na manhã seguinte já estaria apreciando quaisquer que fossem as torradas e geleias que a população local usava na primeira refeição do dia, e reproduzindo, mesmo que parcialmente, os recomendados pelo Google. Desde o início havia planejado utilizar o percurso da carona como tempo útil para montar seu roteiro de estadia no Fim do Mundo, mas é sabido que Korra havia feito muito, menos montado seu itinerário final. Até playlists tinham sido construídas (em conjunto) e agora ela não sabia como agir.

— Ei, você – Asami rasgou baixinho, quase delicada. Korra quis rir de si mesma, ciente que encarava fixamente um par de meias brancas já há algum tempo, enquanto mal escutava o podcast que seu celular reproduzia no banco do motorista. Suspirou antes de virar o rosto em direção a Asami, sorrindo – podemos sair quando terminar, já está tudo acertado e o rapaz me disse que vamos encontrar um posto de gasolina antes de Gallegos. Isso é bom, não vamos morrer na estrada, afinal.

— Ah, uma pena, Sami – sua garganta ressoou as palavras em um tom rouco de divertimento, mas a realidade passava longe disso. Korra não se importava, sequer ficaria chateada se o carro-de-um-milhão ficasse sem gasolina na estrada deserta de Santa Cruz. Poderiam empurrá-lo para o acostamento e sinalizar ajuda que demoraria chegar, mas certamente chegaria. Asami buscaria sinal de telefone enquanto Korra a puxaria para o banco traseiro por mais uma semana ou mês ou ano. Uma pena, Sami.

Quando terminou de guardar o último item na mochila – o livro Pássaros na boca – Korra fechou o zíper, dando por encerrada sua tarefa. No banco da frente repousava sua carteira com documentos e cartões, seu celular e sua câmera.

Descansou a coluna e tombou a cabeça contra o acolchoado do banco que havia lhe servido de cama nos dois últimos dias – e de motel, em outros. Fechou os olhos ao mesmo tempo que sua mão buscou a cintura de Asami que estava em pé ao seu lado. Rodeou a mulher com o braço, mas sem força dessa vez. Era um gesto cuidadoso, suave. Asami cedeu quando Korra inclinou, a puxando para seu colo. Abraçou a mulher, encostando sua testa no braço dela, que permanecia em silêncio.

Não tinham falado disso e ora, não era necessário fazer tudo. Nenhum sentimento é controlável. Todos estavam tão acostumados a viver freneticamente até o esgotamento, até onde fosse possível, que não enxergavam que era justamente esse tanto-tentar que possibilitava tudo ruir em alguma forma negativa. Às vezes não era necessário continuar, viver uma história de amor básica. Às vezes acabava ali mesmo e iria cicatrizar. Claro, Korra não estava sendo ultra pessimista ou niilista na base do conhecimento, só julgava que o espaço que existia entre Asami e ela era um enorme desconhecido de insegurança e batidas em portas-de-vidro.

Reverberava. Ela não sabia o que fazer com aquilo. Tinham vidas opostas e Korra sequer sabia se, depois de Ushuaia, teria vínculos ou razões suficientes para voltar a viver em Buenos Aires. Não sabia dos complementares ou não-complementares da vida de Asami Sato. Mas também era sincera com o que sentia: aquele podia ser tanto o último dia, como também o primeiro. Nada era tão perfeito ou sufocante a ponto de durar para sempre.

— Você tá legal? – Asami deslizou a mão até a nuca de Korra, que sorriu, mas não respondeu de imediato. Ela não sabia o que responder ou perguntar. Sequer tinha uma piada sarcástica pronta ou um delírio sobre como as gaivotas devoram pneus de carros – você sabe, eu posso deixar você escolher as músicas que vamos ouvir daqui até lá.

— Aquece meu peito saber disso, Sami – sorriu – até me sinto adulta agora.

— Não se sentia antes? – questionou e Korra enfim levantou os olhos para encarar a mulher. Asami parecia tranquila, nem séria ou triste, nem alegre em demasia. Apenas tranquila, como quem sabia que muito dependia do acaso, e não delas. Que controle era algo para corporações, multinacionais e corridas de carro. Não para aquilo. – Sabe que teu cabelo é mais escuro na raiz e mais queimado nas pontas? É um castanho curioso.

— Hmm – murmurou em resposta, deslizando o nariz no pescoço da mulher que arrepiou de maneira breve – eu deveria usar protetor solar nos fios, minha cabeleireira já comentou comigo – então beijou a pele exposta – mas eu cortava sempre, então mal queimava. Agora que estou deixando crescer um pouco e rola isso. O sol castiga Sami, você saberia disso se saísse um pouco do escritório.

— É verdade – a mulher zombou, despreocupada.

— Claro que é verdade.

— Mas olha, eu não ligaria de tomar sol no mercado de San Telmo com você qualquer final de semana desses.

— Você? – Korra guinchou surpreendida, instantaneamente sufocando num meio riso de pura desconfiança. A surpresa genuína a ajudou a ignorar a volta no estômago que aquele convite-implícito havia lhe proporcionado. Ela já sabia o quanto Asami adorava dormir em seu curto tempo livre. Imaginá-la levantando cedo em um sábado ou domingo para andar na rua era melhor do que ouvir uma piada pronta.

Asami girou os olhos, mas riu também, antes de justificar:

— Você fala sobre o lugar como se fosse a Catedral de Notre Dame, Korra. Não é tão surpreendente que eu esteja curiosa.

Korra riu mais um pouco antes de encostar os lábios no dela com gentileza.

— Obrigada por ter colocado essa imagem na minha cabeça, sério – e se Anori vinha lutando com sentimentos ambivalentes até então, agora ela sentia uma empolgação unânime. Uma vontade de viver só para, num futuro próximo, rir de Asami em seu lugar preferido de Buenos Aires.

— Disponha – Asami piscou, beijando-a uma última vez antes de se levantar para assumir o seu posto ao volante. Ela estava satisfeita com a tarefa de ter melhorado os ares, Korra conseguia perceber a partir do semblante do rosto bonito. Como retribuição e agradecimento, ela repousou uma mão em cima da mão de Asami, que descansava na marcha automática.

— Se esse milagre acontecer, Red, te pago um sorvete – era seu jeito de dizer que sim, que ela adoraria andar com Asami no mercado ao ar livre.

Sato sorriu de leve, registrando o mais novo apelido recebido. Esse vinha da constatação óbvia de sua paleta de cor preferida para roupas e batons. Korra não precisava saber o quanto as variações de nome a agradavam ou o quanto faziam com que ela sentisse ter uns dez anos a menos, pela leveza que traziam. Mas, mais uma vez, ela soube mesmo assim, pelo sorriso que Asami deu.

— Eu gosto de pistache.

— Não vou esquecer – Korra avisou antes de colocar um álbum antigo da Shakira para tocar. À medida que Anori ia cantando todas as músicas de maneira entusiasmada, mais a gargalhada de Asami preenchia os espaços entre os versos – o que foi? – Korra encolheu os ombros em um instante que parou para tomar fôlego. – Isso é o que acontece quando se tem duas irmãs postiças mais novas. E também quando se é melhor amiga de Bolin, eu suponho.

Asami fez um afago na coxa de Korra de maneira distraída, meneando a cabeça de um lado para o outro, como se ela não existisse. Depois de sucessos colombianos dos anos 90 e dos anos 2000, Korra pediu que Asami colocasse um álbum de sua preferência. Ela ficou um tanto inibida, constatando que, num geral, seu gosto musical era definitivamente melancólico, mas acabou selecionando Bi, do americano-argentino Kevin Johansen.

Achava que talvez fosse seu álbum musical favorito e ficou feliz ao perceber que Korra tinha gostado. Elas riram em Mi name is peligro, que Korra adotou como sua música de imediato. Foram duas e alguns minutos de atraso agradáveis: quando as placas de quilometragem cessaram e elas finalmente chegaram a Río Gallegos, um silêncio dolorido desceu sobre o carro. Agora Eddie Vedder cantava sobre como eram os caminhos do mundo, como a gente nunca sabe direito onde colocar a nossa fé ou como ela vai crescer. Parecia apropriado e triste o suficiente, de modo que nem Korra nem Asami tentaram puxar assunto.

Dali, Korra partia em direção ao Fim do Mundo. Dali, Asami partia para o Início do Mundo – ao menos no que concernia a ela própria. E embora ambas estivessem torcendo pela jornada da outra, havia aquele estranho apego desenvolvido na última semana que tornava todo o processo penoso, difícil de desvencilhar. Quando Asami estacionou o carro, respirou fundo. Pelo canto dos olhos via Korra fazer o extremo oposto de respirar fundo, segurando a respiração de forma que seu peito estava estático.

Quem sabe assim o tempo não passasse.

— Bom... – Asami começou, como sempre começava. Daquela vez, porém, Korra teve que admitir que não se sentia grata. Sentia a garganta seca, implorando para rasgar – foi uma jornada e tanto.

— Eu não poderia ter escolhido melhor companhia de viagem, Red – respondeu, utilizando um tom muxoxo parecido com o da mulher ao lado – me desculpe se...

— Nem ouse – Asami a interrompeu.

— Certo, – pigarreou, incerta de onde repousar as mãos e os olhos, ou sobre o que fazer com o coração que acelerava numa pilha de nervos. Não conseguia encarar Asami e tinha a impressão que a mulher também não queria encará-la. Depois de tanto, enfim havia se instalado uma estranha e noviça vergonha entre elas.

— Sei que vai estar muito, muito ocupada comendo biscoitinhos amanteigados, mas me avise quando chegar em Ushuaia, sim? – Sato demonstrou preocupação no tom, para além das palavras. Seus olhos tinham assumido um curioso brilho, que levou Korra a pensar que poderiam ser intensos feito temporal – e ela amava dançar na chuva. Por isso Anori se perdeu. Ela não era de chorar, mas a visão a tinha quebrado em muitas partes.

— Aviso – respondeu com a solenidade de uma promessa, mesmo sabendo que lhe seria muito custoso mandar uma mensagem sem achar que estava sendo inconveniente.

Asami lia seus pensamentos, ela tinha certeza.

A mulher estendeu a mão com o mindinho levantado. Era um gesto infantil que há muito Korra havia abandonado, mas conhecia o valor do ato. Garantia um juramento, e Anori nunca na vida tinha quebrado um. Quis rir, mas se manteve séria o suficiente para cruzar seu dedo com o de Asami, antes de tomar sua boca uma última vez.

Afinal, amor também é desencontro.