Road To Nowhere
14 Porvenir
XIV – PORVENIR, Terra do Fogo
Asami acompanhou de longe a mulher se distanciar.
Quando as costas de Korra desapareceram entre os passantes da rodoviária, Asami permitiu que o choro até então contido, irrompesse. Como se houvesse um enorme fluxo de água dentro dela, esperando há muito pelo transbordamento. Se deixou surpreender com a quantidade de lágrimas mornas e grossas que vertia: de repente, um dilúvio inteiro por Korra, por Yasuko, por Hiroshi e por si. Quanto mais lágrimas, mais despressurizada se sentia e, afinal, Asami Sato era uma barragem rompida.
Ela riu entre soluços, assustada, mas também aliviada pela explosão emocional. Era difícil calcular a última vez que havia se deixado com tanta liberdade, chorado sem conter os grunhidos do fundo da garganta, ou os fluídos que congestionavam o nariz. Asami chorou feito criança na primeira infância, feito animal ferido na beira da estrada. E quanto mais se permitia, mais sentia o peito esvaziar, para então encher e esvaziar novamente. Movimentos tão sincronizados que pareciam um só.
Asami concluiu que nunca estivera tão consciente da própria existência, do próprio corpo e respirar, até aquele instante – sentia seu corpo, desde a ponta dos dedos, a pele, seus músculos cansados e coração agitado, a respiração no auge da arritmia. Foi com curiosidade amistosa que observou o mesmo dito corpo se acalmar com o passar dos minutos, num misto de torpor e alívio. Tudo ecoava dentro de Asami. Não se importava caso qualquer curioso demonstrasse preocupação através de uma batidinha no vidro de película escura para perguntar se ela estava bem ou precisava de ajuda. Caso ocorresse, Asami sabia que abriria um meio-sorriso, para então ligar a ignição do carro e partir sem resposta. Não por má-educação ou indiferença, e sim porque não havia resposta para pergunta tão banal. Não naquele momento, pelo menos. Asami se sentia viva.
E isso bastava.
Talvez por isso ela tenha afundado o pé (como diria Korra se estivesse ali, pensou) no acelerador, tão logo sentiu os olhos secos outra vez. Seu coração rugia de fome pela estrada. Queria voltar à rodovia, onde tudo seria um estranho recorte de fluxo de pensamentos, paisagens borradas e asfalto queimado. O que não tardou para alcançar, não com aquele carro, ela notou, com carinho. Vinha se apegando às coisas mais estranhas: o veículo alugado, a companheira de viagem irritante e charmosa, a ideia de abrir mão do controle… nada parecia muito próprio de passabilidade no seu filtro racional.
Seria possível comprar o carro da locadora? Se questionou, rindo por um instante, sem saber o que faria com o automóvel dentro da cidade, embora não faltasse espaço na garagem ou dinheiro na conta. Seria possível tentar um relacionamento amoroso com Korra? foi a segunda pergunta-invasora, e ela a analisou com o mesmo senso de humor. Talvez fosse mais fácil comprar o carro, afinal. E por último: seria possível se sentir assim mais vezes? Cheia de possibilidades?
Não sabia das respostas, e a verdade era que elas tampouco importavam. O que importava é que ela pudesse formulá-las, pensar a respeito. Dançar no abraço das dúvidas, naquele imenso salão mental.
Há muito tempo sua vida vinha sendo uma sucessão de certezas, especialmente no que dizia respeito ao trabalho e ao que deveria fazer para agradar seu pai, ser uma boa gestora nos negócios da família. Era bom, era gostoso não ter respostas instantâneas, se sentir como uma protagonista da Virginia Woolf: tropeçar, pelo acaso, na essência da vida e encarar o espanto que é ser – Asami sorriu diante da analogia literária. Fazia muito tempo também que ela abdicara do prazer da leitura (desde o final do colegial, se sua mente não estivesse lhe pregando peças). Naquele tempo, havia sido uma leitora assídua de Woolf, Borges e Mishima, mas então os planos acadêmicos e profissionais gradualmente se interpuseram no caminho, até minar o hobby.
Havia milhares de pedaços de Asami espalhados nos recantos mais empoeirados de sua memória e quanto mais rápido dirigia, mais conseguia visualizá-los de algum modo. Estava na hora de decidir o que queria manter e o que deixaria morrer dentro de si. Uma cerimônia fúnebre nunca pareceu tanto com uma festa: Asami seguia veloz, o carro comendo os quilômetros faltantes com um desempenho invejável, o som nas alturas, a voz de Sato competindo com a de Elton John (and I think it’s gonna be a long long time ‘til touchdown brings me around again to find I’m not the man they think I am at home), o vento soprando de uma janela a outra de maneira irascível. Oh, hell.
Quando ultrapassou o Paso Integracion Austral, que marcava a zona fronteiriça entre a Argentina e o Chile, mal pôde acreditar. Na sua cabeça, havia passado uma vida inteira chorando no estacionamento da rodoviária de Río Gallegos, mas estava há apenas cinco minutos na estrada – diferente da uma hora que o relógio digital indicava. Diminuiu a velocidade para absorver os últimos cenários argentinos. A paleta outonal das casas combinava com o clima. Asami apreciou a paisagem, ciente que Korra também gostaria se estivesse ali. Meneando a cabeça e sorrindo, Sato se consolou, sabendo que apesar de rumos diferentes, veriam lugares semelhantes.
O tempo se fez presente, permitindo que Asami pensasse em mais algumas coisas soltas – quase todas envolvendo Anori – antes de enfim alcançar o Chile. A paisagem era idêntica, o ar e o sol e as nuvens e rochedos eram os mesmos, mas agora o Chile inteiro se estendia na sua vida, na sua frente. Asami aceitou o convite e acelerou mais – e isso foi possível. De onde estava até a cidade natal de sua mãe restavam três horas, mas isso não foi motivo de angústia. A verdade é que Asami poderia dirigir o resto do dia sem dor.
O sol se despedia do céu quando ela finalmente chegou à capital da Terra do Fogo. As casinhas coloridas revestidas de ferro com telhados azuis eram pensadas e estruturadas para resistir ao frio e ao vento que alcançava 100km/h. Asami estacionou por um instante, ainda não portal de entrada da cidade, apenas para registrar com cuidado aquela imagem. Tinha visto fotos sem fim no Google Imagens e também em álbuns fotográficos de família, mas nada, absolutamente nada se comparava a estar presente e sentir o peito agitar. Nenhuma lágrima escorreu. Tudo que o rosto de Asami Sato foi capaz de expressar foi um sorriso dolorido, mas curioso.
Desligou o GPS e o rádio para se perder em Porvenir.
Dirigia devagar, absorvendo tudo que era capaz. Seguiu direções arbitrárias quando algo lhe chamava atenção e permaneceu nessa lógica infantil até encontrar um restaurante aberto. Até então não tinha traçado nenhum plano efetivo sobre sua estadia, então aceitou ao chamado do estômago vazio. Estacionou em uma vaga livre e caminhou como quem sonha, sem preocupações passadas ou futuras.
Centollas na entrada, truta da Terra do Fogo como prato principal, pisco como bebida. Um, dois, três copos, e estava tonta, mas satisfeita. Talvez fosse só emoção, mas parte dela se sentia em casa, mesmo que as pessoas ao redor a encarassem como turista. Passou muito tempo ali, apenas desfrutando do ambiente e das luzes quentes do restaurante antes de pedir a conta. O garçom havia sido simpático durante toda a sua estadia, então ela tomou a liberdade de perguntar onde poderia se hospedar. Ele respondeu que tinha uma irmã que trabalhava no Hotel Barlavento e que era um ambiente aconchegante e seguro. Asami agradeceu lhe entregando uma gorjeta que ele nunca havia recebido na vida. Mais tarde, ao comentar sobre a estranha cliente na área dos funcionários, ele mencionaria o brilho estranho nos olhos dela: o tipo de brilho de quem acabou de entender algo muito importante sobre si mesmo ou sobre o mundo e por essa razão mesmo não parecia estar presente.
Mas ele haveria de estar enganado: Asami estava presente, mais do que nunca.
Havia calculado que chegar até ali lhe causaria um misto quase insuportável de sensações ou de memórias reprimidas sobre o período pós-morte de Yasuko. Mas tudo que Porvenir lhe fez foi entregar de volta o senso há muito perdido de que sua mãe sempre estaria por perto, fosse nas partes mais iluminadas de sua consciência ou no peito de quem vive e faz decisões espontâneas como aquela viagem. E em tudo, enfim, que ela ousasse fazer por motivação pessoal e não pelo que esperavam dela. Yasuko estava lá.
A certeza a atingiu como um raio. Já estava a caminho do hotel indicado quando refez a rota no GPS, colocando o endereço que havia gravado de tanto imaginá-lo. Sabia que a coragem momentânea não tinha nada a ver com os copos de pisco, e talvez por isso tenha conseguido seguir rumo à casa desconhecida, apesar dos solavancos de nervoso que sentia na boca do estômago. Checou o horário e refletiu que sim, apesar do céu estar escuro, ainda não era tarde o suficiente para ser inapropriado bater à porta de alguém. Aliás, uma porta muito simpática.
Uma vez estacionado o carro em frente à residência, Asami passou um bom minuto apenas encarando os detalhes da fachada. Pegou a caixinha dentro do porta-luvas e retirou a foto antiga. Definitivamente era o mesmo local. Haviam trocado as janelas, mas todo o resto permanecia inalterado. Asami respirou fundo, tragando a sensação inquietante. Nunca havia estado ali – mas reconhecia a casa. Julgava já ter ouvido a respeito e de acordo com sua terapeuta, Freud escrevera sobre: como determinadas coisas podem soar estranhas, mas familiares ao mesmo tempo. Guardando com cuidado a caixinha de fotos no bolso interno do casaco, ela fechou os botões para se proteger do frio e de tudo que gritava dentro dela para Asami parar de agir como louca e ter juízo (essa voz na cabeça, notou ao cruzar a rua que levava a calçada, era surpreendentemente parecida com a de seu pai).
Sato estava receosa quando bateu à porta – mas também determinada.
No curto trajeto do seu veículo até a casa, decidiu que se a pessoa que abrisse despertasse qualquer alerta dentro de si, pediria desculpas, alegaria engano e iria embora. Quem abriu, porém, foi uma senhora de idade indeterminada, agasalhada com roupas de lã e um olhar curioso. Sato mal pôde suprimir o suspiro de alívio. Ela não tinha pensado no que faria caso o rosto fosse amigável, por isso, foi com surpresa que ouviu as palavras saírem de sua própria boca:
— Boa noite... a senhora se importaria se eu entrasse um pouco? – certo, à essa altura ela já parecia louca o suficiente – me chamo Asami Sato e percorri um longo caminho de Buenos Aires até aqui – afirmou, tateando o bolso e recuperando a caixinha para mostrar a foto antiga da mesma casa. Se a mulher parecia receosa durante a abordagem, olhar para foto lhe tranquilizou o suficiente para que ela concordasse com a cabeça e oferecesse passagem para Asami. O vento protestou e uivou atrás delas quando a porta foi fechada novamente.
O nome da velha senhora era Martina e vivia parcialmente sozinha. O marido, Francisco, trabalhava com as embarcações e voltava para casa de quinze em quinze dias. Além dela, havia Toph, uma gata cega e arisca que costumava sair e aparecer quando bem entendesse. Naquele momento, a felina estava empoleirada no braço do sofá, agindo como se Asami fosse de casa e não uma visita inesperada. Martina interpretou aquilo como um bom sinal.
Ofereceu uma cadeira na cozinha para que Asami se sentasse enquanto preparava um chá. Era uma deixa para que a convidada contasse mais sobre o motivo de estar ali e Asami seguiu bem o protocolo social: disse que a casa havia sido construída por seu avô, ao menos assim tinham lhe contado. A família havia decidido arriscar a vida com mineração no hemisfério sul. A febre do ouro já havia passado há muito, mas ainda assim atraia alguns tipos mais ingênuos. Assim, sua mãe, Yasuko, tinha nascido e vivido ali até os cinco anos, antes de se mudarem de vez para a Argentina.
Martina, que tinha ascendência croata, concordou com Asami em silêncio antes de dizer que se lembrava do avô dela. Ainda era adolescente quando o seu sogro comprou a casa das mãos do próprio pai de Yasuko. Disse que era fácil de lembrar, não haviam tantos asiáticos assim na ilha. Ela tinha crescido e vivido a vida toda ali. Todo mundo conhecia todo mundo, nem que fosse de vista. Martina também julgava se lembrar, ainda que vagamente, de Yasuko: a menina com o laço vermelho na cabeça. Asami engoliu a seco, emocionada, porque era de fato assim que ela aparecia nas poucas fotos de infância.
Martina ofereceu o chá com gentileza ao observar Asami lacrimejar.
— Desculpe – Asami murmurou, envergonhada, antes de se recompor bebericando um gole – recentemente descobri ter o mar dentro do peito – brincou, e Martina sorriu:
— Todo mundo tem parte com o mar, menina – respondeu, antes de se servir uma xícara também – sorte a sua que a casa parece um museu. Francisco é um homem apegado ao passado. Depois que esquentar a barriga, posso te levar para conhecer os cômodos. Há riscos no batente do banheiro que tenho certeza que são obra de criança. E Deus sabe que a última que houve nesta casa foi mesmo a sua mãe. Ele não me deu filhos – um leve esgar de desgosto pareceu cruzar seu rosto.
— É muita gentileza sua – Asami agradeceu, ainda comovida.
Nada naquela visita era de seu feitio, mas ela estava em paz com a decisão. Depois do chá, acompanhou Martina pelo tour na casa, deslizando as pontas dos dedos pelas paredes como se assim pudesse reter as histórias que elas guardavam. Pisou no chão que sua mãe pisara. E a cada passo era como se Asami estivesse mais perto de seu próprio coração selvagem. Ela se deixou guiar por Martina e escutou suas histórias com o sorriso de quem realmente se interessava e aproveitava. Provavelmente por isso a mulher solitária e comovida pela presença inusitada, tenha oferecido o quarto vago para que Asami pernoitasse, já que ainda não havia feito reserva em nenhum hotel.
Asami aceitou sem titubear. Naquela noite, sob uma cama de ferro que rangia e lençóis vagamente empoeirados, Asami teve a melhor noite de sono da sua vida adulta. Quando acordou no dia seguinte, soube que havia renascido.
Soube que acordara pela primeira vez em vida.
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