Road To Nowhere
1 Mataderos
I — MATADEROS, Buenos Aires
Quando fim de tarde, era comum o sol alaranjado inundar o pequeno bistrô através da vidraça da fachada. A luz se propagava, atingindo o prisma do vidro de forma que produzia um pequeno arco-íris sob um dos vasos de planta no canto do ambiente. Àquela hora, do lado de fora, o trânsito era intenso, mas dentro do estabelecimento poucas mesas estavam ocupadas. Uma das mais afastadas, por exemplo, era utilizada por um casal de amigos, que discutiam num baixo tom de voz.
O rapaz, que devia ter por volta de vinte e tantos anos, tinha uma postura rígida, ombros tensos e inegáveis olhos de detetive. A garota parecia dividir algo em torno do mesmo tempo de vida, mas as semelhanças ali se encerravam. Ela tinha porte atlético, ombros largos de nadadora e discretas olheiras de quem provavelmente demorava a pegar no sono. Enquanto o amigo era pálido como um fantasma (consequência direta das diversas rondas noturnas que vinha fazendo), a pele cor-de-canela dela se destacava sob a luz do sol poente. Ele parecia uma pessoa metódica e silenciosa, e ela, mesmo que em silêncio, parecia do tipo turbulenta: havia algo em sua linguagem corporal e no jeito que sorria torto que deixava nítida a impressão de que era uma farejadora de problemas.
Se perguntássemos ao seu amigo, cujo nome de batismo era Makoto, ele concordaria que essa era uma descrição acurada do passado recente de Korra, além de informar que o seu desastroso currículo escolar do colegial – época que se conheceram – manchado de advertências e suspensões comprovava o fato. Ao cruzar a curva da vida adulta, no entanto, ela havia gradualmente se tornado uma pessoa mais ponderada e menos impulsiva, pelo menos nas margens.
Ou era isso que Mako diria antes de ela anunciar a tal viagem.
— Deixa eu ver se entendi: você quer viajar com estranhos, pessoas que você nunca viu, conversou, sequer sabe se usam alguma substância ilegal ou não, sequer sabe se compraram a carteira de motorista ou não... pessoas selecionadas através de um aplicativo de celular, que pode ter seu sistema facilmente burlado por qualquer adolescente... pessoas cujo o único ponto em comum com você é o local de destino. E você quer que eu não me preocupe?
Korra já vinha se preparando psicologicamente para aquela situação e olhar crítico que recebeu, e mesmo assim não pôde deixar de se irritar por dentro.
— Não é desse jeito – suspirou frustrada – é um aplicativo bem-conceituado, desenvolvido por mulheres e para mulheres. Todo o objetivo é que garotas possam ter um pouco de diversão, como já diria Cindy Lauper, e em segurança.
— E você não tem diversão o suficiente por aqui? – ele franziu o cenho, as sobrancelhas grossas quase se unindo no centro do rosto – preciso lembrar que não faz nem uma semana que precisei te buscar naquele pub irlandês às três da manhã? – flashes de Korra levemente alcoolizada projetando subir em mesas invadiram a mente de ambos. Ela teve o senso de espírito de ruborizar um pouco.
— Olha, esse é exatamente o meu ponto – retomou, a voz mais baixa, como se falasse mais pra si que para o amigo – parece que estou congelada no tempo, Mako. Se não presto atenção o suficiente, quando percebo, estou fazendo as mesmas coisas que fazia há cinco ou dez anos, entende?
— Então isso é uma crise pré-trinta – ele analisou, cruzando os dedos de ambas as mãos. Seu tom de voz soou mais gentil, mas Korra não tinha certeza se gostava da versão Mako-Sigmund-Freud também.
— Não. Quer dizer, talvez seja, mas isso não é necessariamente ruim. Tudo que eu sei é: você cresceu. E apesar de eu ter minhas ressalvas em relação às suas decisões profissionais, me orgulho de você estar se saindo bem no seu trabalho como um rato.
— Policial – Mako sibilou.
— Isso que eu quero dizer – ela sorriu torto antes de continuar – até Bolin parece ter encontrado um rumo na vida depois da fase deprimida pós-cancelamento da série ruim em que ele atuava. Acho, inclusive, que o streaming VRKflix decaiu bastante porque só quem acessava eram os fãs do Bolin, mas isso não vem ao caso. Aliás, até agora não acredito que ele vai se casar.
— Opal é uma mulher corajosa – Mako ponderou e Korra concordou com a cabeça.
— Ela é. Falando em coragem, e Jinora? Jinora, Mako, estamos falando de alguém que eu troquei as fraldas! Ela está prestes a partir para o mestrado na Europa. E olha que eu estou filtrando pela lista de pessoas que gosto, nem me faça falar de todos aqueles babacas com quem estudamos tendo filhos aos montes e sucesso em empregos que nem deveriam existir...
— Você obviamente tá falando da Kuvira e o Instagram de coach.
— Lógico – ela sequer hesitou – “seja a ditadora do seu próprio reino na terra”, quer dizer, que porra é essa?
— Não faço ideia.
— Nem eu! E ainda assim, mesmo ela parece, sei lá, ter seguido com a vida.
— Korra, você não pode tá invejando a sério uma pessoa como a Kuvira.
— Não, eu não estou, eu só... Quero sentir que estou indo para algum lugar, Mako. Pela primeira vez em muito tempo tenho um objetivo a curto prazo que é possível de realizar. E embora eu aprecie a sua preocupação, não estou pedindo permissão, você sabe. Eu vou de um modo ou de outro.
— Esse é o tipo de batalha que desisti de vencer há tempos. – Mako encolheu os ombros e seu semblante era sincero. — Não acredito que alguém no mundo seja capaz de te demover dos seus planos depois que você os coloca na cabeça, Korra. Além do mais, ainda que você não sinta, você também cresceu. É adulta, sabe o que faz. Só, por favor, pesquise com calma sobre isso, tudo bem?
E porque isso ela faria de qualquer maneira, depois de revelar seus planos no encontro com o amigo, Korra passou duas horas e uns tantos minutos perdidos lendo sobre o MismoDestino. O aplicativo de celular era relativamente novo, idealizado por uma brasileira e uma argentina que se sentiram inspiradas pelo movimento social “vamos juntas?” que havia surgido em São Paulo em meados de 2015. Era o primeiro app sul-americano gratuito de viagens (talvez por isso alvoroço e o estrondoso sucesso) que prometia unir viajantes e mochileiras que possuíssem percursos em comum de forma segura. Embora fosse liberado para todos, o principal público-alvo eram mulheres. A ideia vinha surfando na recente onda global de empoderamento feminino, o que havia rendido muita repercussão internacional.
A média de avaliações era alta e os relatos variavam entre empolgantes e emocionantes. Às vezes os dois. Além disso, a identidade visual – tanto do site quanto do aplicativo – eram bonitas e chamativas. O time de marketing da empresa desenvolvedora devia estar ganhando por mês mais do que Korra recebia anualmente. Quem poderia imaginar que um casal lésbico formado por pessoas de dois países rivais poderia desenvolver um aplicativo tão rentável?
A própria história de origem gerava visibilidade e eles não se cansavam de usá-la.
Além de toda publicidade, o foco na segurança era a cereja do bolo. Havia rigorosos passos de cadastro para garantir a veracidade e idoneidade dos usuários. Korra já havia passado por todos eles antes de conversar com Mako, de modo que podia navegar pela interface com tranquilidade. O único problema é que embora quisesse viajar e considerasse aquele um bom meio, ainda não tinha ideia de para onde ir.
A princípio havia cogitado sair da Argentina. Conhecer outro país da América do Sul, como o Chile, Bolívia ou o Brasil. O que – pelo menos teoricamente – a impedia era sua carga horária de trabalho como administradora de uma empresa de distribuição. Korra trabalhava de segunda à sexta-feira, apesar de uma escala de plantão que contava com um sábado e um domingo por mês. Como odiava esse trabalho. Sempre que recordava, julgava-se um pouquinho menos por queimar quase metade do salário nos pubs e boates da cidade. Suspirou. Àquela altura, Korra só buscava pensar como acreditava que pessoas adultas e responsáveis pensam: primeiro no emprego, seu sustento e sobrevivência, depois lazer e sua vivência. A vida do assalariado era, claramente, injusta.
Baseado na dor e no calendário que contava com apenas três dias livres – pretendia engolir uma sexta ou uma segunda-feira, e eles que lutassem – buscou destinos mais próximos e curtos: cidades do interior ou num raio possível de até quinhentos quilômetros de distância. Encontrou para o final de semana seguinte uma carona com uma mulher chamada María, que estava partindo de Buenos Aires para Montevidéu, Uruguai, com seu marido. Korra podia jurar escutar a voz de Mako dizendo que viajar com um homem estranho presente no carro era mais perigoso ainda. A mulher cobrava três mil pesos argentinos de ajuda com o combustível, e voltaria para a capital numa data possível para Korra. Parecia o ideal, mas novamente, o ideal para um adulto. Estava longe do que ela de fato buscava: uma grande aventura, que marcasse sua vida. Só de pensar, a expressão de desaprovação de Mako lhe surgia. Odiava como, vez ou outra, ele tinha uma grande influência sobre suas escolhas. Azar ou destino, minutos depois três pessoas confirmaram a carona de María e o carro lotou.
Frustrada, deu continuidade a pesquisa.
Uma das caronas do outro final de semana do mês era para Tandil – ou, como ela gostava de chamar, Capital do Tédio. Ainda na província de Buenos Aires, sua cidade natal ficava a trezentos quilômetros dali. Seus pais, que evitavam a todo custo a aglomeração e ruído de uma grande metrópole, haviam optado por continuar no município, e foi assim que aos quinze anos de idade Korra se mudou para viver na maior cidade da Argentina com seus padrinhos, Tenzin e Pema.
Quanto à sua viagem, tinha uma grande certeza: passar bem longe de Tandil.
Fez então a pesquisa mais genérica possível: não escolheu destino algum, apenas uma data. Através da agenda do MismoDestino, Korra saiu verificando todas as rotas agendadas entre os dias vinte e trinta e um de maio. Para sua sorte, as caronas se concentravam especialmente às sextas e finais de semana. Para seu azar, a maioria contemplava as principais atrações turísticas litorâneas, como San Clemente del Tuyú e Mar del Plata. Raras eram as caronas com rotas pouco comerciais e mais aventureiras.
Até que uma chamou sua atenção:
Saindo de Buenos Aires para Porvenir, na Terra do Fogo do Chile. Trinta horas de viagem pelo litoral do Atlântico Sul, dois mil e quatrocentos quilômetros. Numa segunda-feira, sem data prevista para volta. A mulher até respirou um pouco torta. Absolutamente tudo estava contra si: era longe, no começo de uma semana de trabalho, e sem data para voltar. Fez uma rápida pesquisa dos voos comerciais da Porvenir até Buenos Aires e a inviabilidade do plano – não só por questões de valores, mas como de datas também. Era muito mais do que planejava. Mas algo na rota (que ligava uma ponta a outra do país até chegar ao destino fronteiriço) mexeu com seu íntimo, remendando aquela curiosidade adolescente que há muito não brotava em sua persona.
Quis reprimir, afinal, aquilo não era adulto ou responsável... Por outro lado, talvez fosse a aventura que tanto procurava. De Porvenir até a cidade de Ushuaia, conhecida como a cidade do fim do mundo, por exemplo, eram só algumas horas a mais de carro. Tentada, Korra clicou para encaminhar mensagem de interesse para o usuário que anunciava a viagem: uma mulher de trinta e três anos chamada Asami Sato.
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