II — ALMAGRO, Buenos Aires

Peregrinando contra a crença comum da sequência linear e progressiva de todas as etapas do luto, compreender que perdemos uma razão ou momento específico da vida é o pior instante, independente da fase do luto vivenciada. A dúvida do que poderia ter sido, a longo ou curto prazo, vem logo em seguida. Por último, a falta – afinal, a solidão sempre foi um fator inerente da sociedade moderna. Asami Sato já era solitária antes da morte do pai. A ausência do homem, fosse essa física ou afetiva, não doeu tanto quanto ela, ainda criança, havia imaginado.

E ela tinha imaginado muito. Asami guardava a impressão de que durante a passagem dos nove para os onze anos, tudo havia girado em torno daquele medo ferrenho de perder Hiroshi. Sua mente pueril projetava todos os cenários possíveis (e impossíveis) onde sua última referência simbólica de segurança se ia para sempre. O vazio visceral que sentia só de pensar nisso fazia com que Asami arrancasse pontas de cutículas por ansiedade.

Ela conseguia se lembrar dos pesadelos recorrentes, todos inaugurados depois da morte prematura da mãe, vítima da violência urbana – alimentada por uma sociedade estratificada onde o abismo entre as classes era gritante, em especial no início da década de 90. Para lidar com o medo infinito de dentro, que parecia crescer numa proporção bem maior do que ela, Asami havia se aplicado bastante para ser tudo aquilo que Hiroshi parecia esperar dela. Em compensação, só esperava que talvez assim ele não desaparecesse de repente.

A barganha infantil com o universo pareceu funcionar.

Desde muito jovem Asami teve uma instrução rígida. Estudando nas melhores escolas, sempre obteve êxito e o maior desempenho, fosse qual fosse a disciplina exigida. Na adolescência, privou-se daquele dito cinema, daquela dita boate ou saída ao shopping com as garotas da turma de biologia nas parcas vezes em que eram liberadas do internato para atividades extracurriculares e/ou de lazer. Asami se constituiu de acordo com as necessidades que Hiroshi um dia planejou para sua empresa; de maneira gradual e consistente, ela tinha forjado para si o prumo e a personalidade adequada para a coordenação perfeita quando o dia de receber o bastão chegasse – o problema é que nunca imaginou que a data de fato chegaria.

E não entendam mal, Asami era única como engenheira, mas passava longe disso quando obrigada a tratar da administração dos próprios sentimentos e emoções. O que a incomodava era facilmente arquivado em uma pasta. Externamente, rígida e pontual. Pouco sentimental, alguns diriam, talvez até mesmo Suyin, sua terapeuta, durante os primeiros meses. Internamente, porém, Asami era uma profusão de sentimentos, todos mesclados e embrenhados em uma grande teia que vez ou outra a esgotava.

Para Hiroshi Sato, no entanto, ela nunca fora nada além de perfeita. Alimentar essa imagem havia sido sufocante em muitos sentidos. Paralisada em um molde fixo, Asami Sato volta e meia sentia que não conseguia respirar, embora nunca tivesse sido diagnosticada com doenças respiratórias crônicas.

Pensava em queima de arquivo.

Amou Hiroshi, apesar dos pesares.

Até a adolescência havia acreditado genuinamente que ele era o homem mais inteligente do mundo. Os poucos momentos que tinham a sós enchiam o peito dela de felicidade: Asami gostava do modo como ele sempre falava com ela como se ela fosse adulta. Gostava ainda mais das partidas de xadrez em conjunto, muito embora elas fossem feitas em silêncio sepulcral. Mesmo depois, quando despontaram as primeiras divergências políticas e ideológicas – que ela guardou a sete chaves para si – ela ainda foi capaz de apreciar sua companhia e julgá-lo um homem sensato. E quando as diferenças se tornaram discrepantes em demasia, ela já estava fisicamente longe para se sentir pessoalmente ofendida.

Hiroshi fizera questão que ela fosse cursar o ensino superior no Japão, não apenas porque o país era uma referência quando se tratava de inovação tecnológica, mas também por ser o lugar de origem dos antepassados de Asami, tanto os paternos quanto os maternos. Na ida, ela havia odiado cada minuto dentro do avião, mas a verdade é que os oito anos que se seguiram foram os melhores de sua vida até então.

Asami colecionava boas lembranças da faculdade, do bairro onde morou, dos invernos, das viagens que fez e dos fragmentos de sua identidade pessoal que só floresceram na terra do sol nascente. Ela sorria ao pensar nos artigos científicos que havia escrito com os colegas de turma, na professora mentora com quem ainda trocava e-mails – ainda que raros – repletos de admiração mútua e mesmo em Iroh, o namorado que havia deixado para trás ao voltar para a Argentina, assumir a posição que lhe aguardava na empresa Sato. Não foi sem dor que deixou o Japão, mas sobrepondo a tristeza havia o velho e familiar senso de dever e de resignação com o qual já estava habituada.

De toda maneira, em um canto em outro, havia no fundo aquela sensação de não pertencer a lugar algum. De ser permanentemente estrangeira dentro e fora de si. Do Japão, além das memórias, havia trazido somente uma coisa: Shiroi, gato que havia encontrado e adotado ainda filhote. Algo no felino produzia um efeito calmante em sua tutora. Asami julgava que, na presença de Shiroi, qualquer lugar poderia ser casa.

E assim foi.

Dos vinte e seis aos trinta e três, Asami dividiu a antiga e muito imponente mansão Sato com o pai, os dois funcionários domésticos fixos e o gato que era capaz de transformar o espaço em lar. Ela mergulhou no projeto de Hiroshi. Acompanhou de perto os progressos e as perdas financeiras da empresa. Assumiu frentes gradualmente. Participou de inúmeras reuniões tediosas. Desenvolveu um sorriso cortante específico para velados comentários sexistas. Em troca recebeu mais olhares de orgulho de Hiroshi do que poderia prever.

...Até o infarto fulminante aos 67 anos.

Aconteceu numa manhã banal de quarta feira. O Sr. Sato tinha marcado de almoçar com a filha às onze, por isso, dez minutos antes do horário previsto, Asami saiu da própria sala em direção ao elevador privado. Ela se sentia sonolenta depois de uma noite mal dormida e se distraía deslizando na tela do celular as publicações do Instagram. Uma bossa tocava em volume ambiente na cabine. Asami observou a foto de um bebê com enormes bochechas vermelhas e olhos sorridentes e pressionou o dedo polegar duas vezes sobre ela.

O elevador parou e a porta se abriu. Asami pensou que genética era mesmo uma coisa curiosa; com um ano de idade, Haruo mal parecia uma pessoa ainda, mas as semelhanças com Iroh eram inegáveis. Ela atravessou o corredor, e adentrou o amplo saguão da sala paterna. Cumprimentou Raquel e aproveitou para elogiar o terno azul marinho. A outra mulher agradeceu e se levantou para avisar ao chefe que Asami havia chegado. Na janela de segundos, Asami olhou para o painel bonito onde a TV, ligada no mudo, passava uma propaganda qualquer com pessoas felizes viajando de carro por paisagens belíssimas. Um letreiro subiu na tela: o melhor destino é o que você faz.

Asami ainda teve tempo de abrir um sorriso de deboche antes de ouvir o grito de desespero da secretária que há menos de um minuto parecia perfeitamente bem. A partir daí, tudo era confuso e desconexo: ambulância, funcionários, Raquel, um copo de água, o celular, hospital, jalecos brancos, paredes em tons pastéis, café e fúria.

Muita fúria.

Essa foi a primeira coisa que Asami conseguiu classificar conscientemente depois do óbito. Ele só tinha o maldito compromisso de almoçar com ela. Não custava tanto assim, custava? E morrer daquela forma, no meio da semana, sem prepará-la, debruçado sobre a mesa como quem desiste. Asami ardeu em raiva porque não era esse o acordo: nem com o universo, nem com Hiroshi. Dois grandíssimos filhos da puta, se pudesse opinar.

Mas, apesar do oceano de mágoa que parecia prestes a lhe afogar, ela o amava.

E foi por amor que seguiu os últimos desejos registrados em testamento. Cremou o corpo do homem, envolvendo-o em uma urna com detalhes de ouro branco. Realizou a cerimônia, onde o público predominante era de investidores e sócios majoritários da empresa, comparecendo em pura demonstração de respeito à família Sato – mas Asami sabia a verdade por trás do evento: era um marco.

Marcava o fim do império de Hiroshi e a ascensão de sua filha. Era assim o mundo corporativo, sua ambição e carne crua. Todos queriam um pedaço, todos queriam demonstrar compaixão, mas não por cuidado ou amabilidade. Era esperteza..

Também por amor, Asami agradeceu um por um pela presença, assim como sua mãe teria feito. Desde o início dos trâmites funerários, ela voltara a pensar muito em Yasuko, em sua ausência e no profundo vazio que havia lhe deixado. Asami não conseguia se recordar com clareza do rosto da mãe e faria tudo para esquecer a última imagem que tinha do pai. Era uma ironia cruel, mas ela se manteve firme. Por amor a Hiroshi, deu continuidade ao trabalho. Assumiu o mais alto cargo e responsabilidade. Descobriu podres que sequer um dia poderia imaginar. Conduziu tudo com o máximo de dignidade possível.

Àquela altura começou a entender partes do que Suyin tentava pontuar.

Asami não sabia essencialmente quem era e como reverter o processo. O tempo e sua juventude não voltariam. As expectativas ad aeternum de Hiroshi sobre ela configurava um ruído mental que não tinha se dissolvido com a morte do pai. Mas precisava ser. Carecia de buscar autenticidade, sopesar os valores. Quebrar correntes e ser dona de si. Qualquer metáfora batida encaixaria nos pensamentos seguintes da mulher. Faltava amor, e não era para com seus pais. Faltou amor por si, e assim, Asami Sato decidiu começar a própria vida. O enlace de almas e até a coligação sanguínea de ambos não deixaria de existir, e ela queria acreditar que os mortos não levantavam mais.

Tornou-se objetivo encontrar um senso de perspectiva no ato que era levantar todos os dias. Enquanto dirigia até o centro, numa atípica manhã seca argentina, reencontrou-se com o slogan da propaganda idílica sobre viagens, num grande banner: O melhor destino é o que você faz, e ora, talvez estivesse mesmo precisando de férias.