Risk.

7 Diário de Bordo – Parte I.


Veneza, Itália.

– Será que isso está funcionando mesmo?

– Claro que está, eu fiz tudo certinho. Está gravando já, vai, vai!

– Olá, eu sou o Dohko!

– Eles já nos conhecem.

– Que seja. – Resmungou, mesmo assim, continuando as apresentações, muito empolgado. – Esse é o nosso Diário de Bordo. Eu, o grandioso Cavaleiro de Ouro de Libra, e meu grande amigo, Shion, ex-Grande Mestre e magnífico Cavaleiro de Áries vamos gravar vários vídeos nesse estilo, lhes contando sobre nossas viagens!

– Não se esqueça dos relatórios que mandaremos à Athena. – Shion comenta, virando a câmera para mostrar um pequeno monte de papéis em cima de uma mesa.

– Enfim, estamos em Veneza! Um dos lugares mais belos e românticos do mundo!

– Esse lugar era muito mais bonito duzentos anos atrás.

– Verdade, mas mesmo parecendo um esgotão gigante, a comida daqui e os vinhos continuam sendo ótimos!

– Preciso concordar.

– Ontem demos um ótimo passeio numa gôndola, depois de jantar num restaurante maravilhoso, o vinho estava espetacular. – O chinês gesticulava com as mãos tão exageradamente quanto falava. – E apesar do gondoleiro ter uma voz horrível, foi o passeio mais romântico que já fiz em todos os meus duzentos e sessenta e um anos! – Terminou extasiado, abraçando o outro cavaleiro pela cintura e dando-lhe um beijo no rosto.

– Menos, Dohko. Estamos fazendo esse vídeo para falar sobre assuntos importantes. – Shion disse sério, desvencilhando-se do abraço do parceiro.

– Aliás, mandem um beijo pro Deathmask, afinal, estamos na terra natal daquele palerma!

O ariano colocou a mão na boca do outro cavaleiro, fazendo com que se calasse. – Enfim, estávamos estudando a situação do proletariado italiano, acho que eles exploram os camponeses, creio que poderíamos fazer alguns investimentos da fundação para uma associação que melhorasse a qualidade de vida dos trabalhadores rurais.

– Você deveria ser político, mais socialista, impossível. Estou ficando com ciúmes dos camponeses já. – O libriano, segurava a mão do outro próxima a boca enquanto falava, então beijou-a.

O tibetano assumiu um leve tom rosado na face, que normalmente era branca como um céu em dias nublados. – D-dohko, por favor. – Pigarreou antes de continuar, retomando a compostura. – Como estamos em uma cidade turística, é difícil ver a real situação desse lugar, mas de uma coisa eu tenho certeza, precisamos rever alguns projetos ambientais. Esse lugar está muito poluído, talvez pressionar o governo para eles se motivarem.

– Você quer ameaçar o governo, ou comprá-los? Isso não é errado? Eu realmente acho que deveríamos arquivar esses processos por enquanto, e verificar a situação de outros países antes de tomarmos alguma atitude. Vai ser bom para a fundação, e nós podemos aproveitar mais... – Dohko falou a última frase, mais baixo, no ouvido do outro.

O Cavaleiro de Áries sentiu um arrepio invadir todo seu corpo, com o simples ar quente que vinha da respiração do companheiro em seu ouvido. Voltou a si, empurrando o libriano com o cotovelo.

– Vamos fazer mais algumas análises... Estamos planejando nossa próxima viagem, vou averiguar os projetos.

Dohko lançou um olhar desconfiado para o outro cavaleiro, ainda sim, achava que poderiam aproveitar mais a visita à Veneza. Entretanto o ariano sempre levava o trabalho muito a sério. Divagava sobre isso, quando se lembrou de algo importante.

– Ah! Nós também iremos enviar outro relatório. – Fez uma pausa, pensando numa boa maneira para explicar-lhes o que haviam descoberto. – Ontem eu estava num estabelecimento de respeito degustando um drink quando ouvi falar sobre uma nova droga que está se espalhando por aí. Achei bastante suspeito, provavelmente vamos tentar trilhar a rota do tráfico, infiltrados, claro. Deste modo, descobriremos quem está por trás disso... Estava até pensando em usar disfarce, acho que seria bem legal, eu tenho uma roupa que usei algum tempo atrás que serviria bem, foi para uma festa à fantasia, guardei porque achei que seria útil, eu a adoro, é muito bonita, sabe? Creio que seja o momento perfeito, assim poderemos demonstrar nossas habilidades; que além de força, inteligência, sabedoria e beleza, também somos bons atores e talvez até pudéssemos nos tornar estrelas, quem sabe?! O futuro nem Athena sabe! Mas eu acho bastante interessante que nós façamos nosso roteiro baseado nessas porcarias que ficam inventando, porque a violência ultimamente anda embasada nisso, sabemos que a droga é apenas um dos problemas do mundo, mas enquanto nós pudermos fazer algo, iremos fazer! Porque prezamos pelo bem, justiça, lealdade, amizade, amor, companheirismo e-

– Dohko. – Shion disse calmamente, sabendo que se não o cortasse, ele não iria mais parar de falar por pelo menos duas horas. E eles não queriam, ou pelo menos o tibetano não queria fazer um vídeo longo.

– QUÊ?

– Creio que você já explicou o suficiente nossos planos. Despeça-se, não quero que o vídeo seja cansativo para nossa deusa. – Disse, pigarreando novamente ao final da frase.

O chinês tirou a câmera do tripé, levando-a para a janela, mostrando a vista enquanto falava.

– Vejam que vista linda temos da janela deste quarto! Invejem-nos, porque essa cidade é maravilhosa! Vou mandar um monte de postais legais que achei aqui!

Shion puxou a câmera da mão do libriano, com medo que ele a derrubasse da janela. Dohko não a soltava, assim, eles começaram uma pequena Guerra de Mil Dias pela posse da filmadora.

– Shion! Para com isso e me devolve! Eu ainda não terminei de mostrar as coisas legais! – Disse o libriano, puxando com força a mão da câmera do ariano.

– Dohko, por favor! Eles vão ficar cansados de ouvir você falando! E você vai acabar derrubando isso da janela! – Disse o tibetano, puxando a câmera, fazendo-a escorregar da mão do Cavaleiro de Libra, derrubando-a no chão.

A discussão parou por alguns segundos.

CULPA SUA, SEU VELHO CHATO! – Dohko gritou, apontando para a câmera, que continuava filmando, mas eles haviam se esquecido disso.

– Culpa minha? Você quem fica brincando com o aparelho! E eu prefiro ser velho chato a um homem de duzentos e sessenta e um anos com mentalidade de doze anos!

– Te odeio, seu imbecil!

Até o próprio Dohko se impressionou com as palavras que havia dito. Shion ficou quieto, encarando o outro cavaleiro. Então o chinês o puxou, enlaçando sua cintura, beijando-o, como num pedido desculpas.

– Desgraçado... – O tibetano disse baixo, pisando no botão que desligava a câmera.