Risk.
8 Capítulo VI – A Súplica
Sala do Mestre – Santuário, Grécia. Três meses atrás.
Era uma noite fria de sexta-feira, estava tarde, Athena preparava-se para descansar um pouco. Deveria dormir, mesmo sendo uma deusa, continuava encarnada em um corpo humano, por isso estava ligeiramente cansada. Com razão, passara a manhã inteira trazendo seus leais cavaleiros de volta à vida. Estava feliz por tê-los ao seu lado novamente, amava-os muito. E todos, mesmo que alguns tenham cometido graves erros, eram de extrema importância para a deusa.
Ainda estava sentada em seu trono – antes ocupado pelo Mestre do Santuário –, quando um cavaleiro adentrou a Sala do Mestre. Estava usando um enorme manto negro, que balançava junto dos longos cabelos azuis, ele fechou a porta e o vento cessou. Caminhou em direção de Athena, mas parou há alguns metros de distância desta. Ajoelhou-se perante ela, fazendo uma saudação com o braço que segurava a capa.
– Desculpe-me importuná-la, Athena. – Disse Saga, a voz soava seca, como se estivesse com a garganta inflamada de tanto gritar.
– Você deseja algo, Saga? – Perguntou Athena.
– Eu vim aqui para fazer-lhe um pedido. – O geminiano parecia transtornado, fitava o chão, ou olhava para os lados, em nenhum momento olhou para a face da deusa.
Por que sinto uma tristeza descomunal vindo do Cavaleiro de Gêmeos? O que está havendo...?, perguntou-se Athena. Se atender o pedido do geminiano pudesse dissipar aquela tristeza, com certeza, ela o faria. – Pode dizer, Saga.
– Eu lhe sou grato, por ter me dado a oportunidade de viver novamente, mas não sou digno de tal presente. – Estava com dificuldade para respirar, como se tivesse algo engasgado em sua garganta. – E-eu vim lhe pedir pelo meu irmão. – Respirou fundo. – E-ele não merece permanecer no Inferno, a culpa de tudo isso é apenas minha, tudo o que ele fez foi por minha causa... – Ele se curvou completamente diante da deusa. Lágrimas atingiram aquele piso sagrado. – Eu lhe imploro.
Não era tristeza, era culpa., concluiu Athena. – O que você quer dizer?
– Eu não mereço viver. – Disse entre um soluço. – Ele merece.
A deusa por instante aterrorizou-se, ele não tinha intenção alguma de viver, talvez ela tenha percebido isto desde o momento que o trouxe de volta, mas preferiu ignorar. Saga era um homem orgulhoso, daqueles que prezava demais por sua honra e princípios, e não suportava a vergonha. Talvez ele jamais fosse se perdoar, mesmo que todos a sua volta já tivessem o feito. O que a deusa não entendia, era o porquê de ele desejar tanto que o irmão – pessoa por quem ele demonstrava mais ódio do que qualquer outra coisa – pudesse ter uma nova oportunidade de viver.
– Então você trocaria sua vida pela de Kanon?
– Sim. – Ele respondeu sem ao menos hesitar.
Ele levantou o rosto, fitando a deusa por alguns instantes. Então ela pôde perceber, em um simples olhar, todo o sentimento que Saga sempre escondeu. Com certeza, jamais havia se tratado de ódio. E aquele era um ato de puro e sincero amor.
~
Camus estava atravessando as fronteiras do Santuário, um caminho cheio de entulhos – antigas pilastras que foram quebradas –, estava usando uma calça jeans, uma camiseta de manga comprida e um casaco, ambos pretos. Os longos cabelos estavam presos com uma fita. Andava por entre aqueles destroços, como se não houvesse outro caminho. Não tinha dificuldade alguma, parecia leve e ágil a ponto de praticamente deslizar, ao invés de caminhar.
Estava quase fora dos limites do Santuário, perto de uma das vilas da redondeza, quando avistou um homem; estava sentado em uma rocha enorme, parecia observar o céu, o vento batia violentamente em seu rosto, mas ele não parecia se importar. O aquariano se aproximou e logo reconheceu o Cavaleiro de Gêmeos.
– Saga...? – Perguntou, parando ao lado do grego. Este levantou o olhar, reconhecendo o aquariano, esboçou um leve sorriso cansado. – O que faz aqui?
– Você está indo embora, Camus? – Saga retrucou com outra pergunta, provavelmente estava ali sem motivo algum.
– Estou indo à França.
O grego nada disse, voltou a olhar as poucas estrelas no céu, provável que uma chuva logo viesse. Camus suspirou, aproximou-se muito do Cavaleiro de Gêmeos no decorrer de sua morte, até tornar-se um Espectro, aprendeu a gostar e admirar Saga, mesmo que o próprio geminiano não soubesse, ele recuperou o respeito e a honra que havia perdido há muito tempo. Entretanto, depois que eles voltaram à vida, tudo pareceu sem sentido.
– Vai para a França sem malas? – Perguntou o grego. Estranhara a ausência das malas do amigo, ele carregava apenas uma mochila, mas não era o suficiente para passar um tempo na França, com certeza Camus não iria ir em um dia e voltar em outro.
A expressão do Cavaleiro de Aquário em geral não mudava muito. Ele sempre se mantinha sério. Mexer os lábios minimamente significava um sorriso. – Talvez eu esteja fugindo, mas eu voltarei em breve. – Fez uma pausa e observou o geminiano que demonstrava menos reação que o próprio aquariano, estava praticamente imóvel. – Quer ir comigo?
Ele não respondeu. Ora, aquele não parecia o Cavaleiro de Gêmeos de quem havia se tornado amigo; um líder nato, objetivo e claro em todas as coisas. Tampouco se parecia com aquele outro Saga, cruel ao ponto de matar os próprios companheiros. O que restara dele? Camus sentia-se muito mal, sentia-se no dever de ajudá-lo a encontrar-se novamente consigo mesmo. Mas temia que o problema fosse apenas a falta de Kanon.
– De quem você estava fugindo mesmo?
Camus arqueou as sobrancelhas, havia dito isso mesmo? – Se você quiser, podemos conversar depois, mas não fique me perguntando essas coisas agora.
O grego soltou uma leve risada, apesar do aquariano parecer misterioso, aos olhos dele, Camus era bastante previsível. Então levantou-se, parecia ter concordado em ir com o outro, não tinha nada a perder mesmo.
– Venha. – O francês segurou na mão do amigo. Ambos foram embora, caminhando em passos rápidos.
~
As noites em Paris eram sempre belas, Camus observava a cidade da sacada. Estava num hotel, apreciava uma taça de algum vinho caro, não estava com sono, mas já iria deitar-se. Saga disse que iria passear pela cidade, havia saído há quase uma hora. Não entendera muito bem as intenções do geminiano, já passava de meia-noite e ele estava passeando pela cidade? Apesar de estranho, isso não era de sua conta.
Preparava-se para dormir quando Saga entrou no quarto. O aquariano estava sem camisa, havia acabado de terminar a garrafa de vinho, e perambulava pelo quarto, como se procurasse algo. Passou pelo geminiano, mas agiu como se ele não estivesse ali. Andou de um lado pelo outro na sala de entrada, procurava sua mochila.
– O que você está procurando? – Perguntou o grego, estava incomodado com o modo que o aquariano agia.
– Fiquei imaginando o que diabos você estava fazendo na rua essas horas. – Disse de modo tranquilo, enquanto procurava uma camiseta que lhe servisse de pijama, não havia praticamente nada em sua mochila, além de produtos de higiene e algumas peças de roupas íntimas.
Saga pareceu sorrir. – Agora eu posso saber do que você está fugindo?
– Tsc. – Ele havia achado uma camiseta, foi novamente para o lado de fora e debruçou-se no parapeito da sacada. Adorava o ar de Paris, sentia falta de sua terra natal. – Você não está sentindo um vazio?
O geminiano parou em seu lado. – Que tipo de vazio?
– Um vazio... Vazio. – Como especificaria o vazio? – Sinto-me estranho desde que voltei à vida. – Continuou. – Sinto que uma parte de mim continua morta.
– Isso é estranho, Camus. – Lançou um olhar desconfiado para o amigo. – Posso lhe dizer o que eu penso estar lhe incomodando?
O francês assentiu com a cabeça. – O Milo. – Disse com naturalidade. – Eu sei que você sabe sobre o que eu sinto. Eu também sei sobre o que você sente. Mas...
– Mas?
– Se eu me relacionar com uma pessoa, eu vou acabar magoando-a. – Suspirou, parecia ficar cansado só em falar. – Depois de um tempo, vou voltar ao meu habitual. Fazer isso com o Milo seria crueldade, eu, eu...
– Você o ama, não faria isso.
Os sentimentos de Camus eram contraditórios, todos sabiam que ele era completamente fechado e não mantinha relações com ninguém. Exceto Milo. O Cavaleiro de Escorpião parecia ser seu melhor amigo, provavelmente foi o único durante algum tempo. O que o escorpiano não sabia é que Camus o considerava mais que isso. E como o francês diria isso a ele? E depois de dizer, o que faria? Não conseguia demonstrar seus sentimentos, nem se quisesse o faria, há anos não abraçava alguém. O que faria com Milo então?
– Eu já fiz. – Ele saiu em busca de outra garrafa de vinho, encheu duas taças do líquido e voltou-se para o grego, entregando-lhe uma taça. – Eu estou aqui. E estou com você.
– E deveria estar lá, com ele?
Por um instante eles se encararam. Estavam juntos num quarto de hotel, pensando nos homens que amavam, porém não estavam com eles. Por quê?
– O que Athena lhe disse? – Camus desviou o assunto de Milo, estava curioso para saber que fim havia levado Kanon.
– O Castigo dos Deuses... – Saga bebeu um gole do vinho, as palavras da deusa voltaram a sua mente, mas não tinha vontade de pronunciá-las. – Ela não pode fazer nada.
O aquariano não disse nada. Era triste demais. Então, aproximou-se do amigo e envolveu-lhe com os braços. Era a primeira vez em anos que tocava em uma pessoa sem a intenção de machucá-la. Saga estremeceu, jamais imaginara ser abraçado pelo aquariano numa situação como aquela. Mas era um abraço sincero, de certo modo, caloroso, como o francês parecia não ser.
Estavam próximos demais um do outro, Saga estava olhando diretamente nos olhos azuis do aquariano, e Camus parecia não se importar em deixar seu rosto mais próximo do dele. O grego deslizou os dedos pelas mechas verde-azuladas do cabelo do outro, tocou em seu rosto. Camus baixou o olhar, fechando os olhos calmamente, a sensação era boa. Então, Saga, com muito cuidado, tomou os lábios do francês, sentiu um leve gosto de vinho, mas havia mais alguma coisa, quem sabe, aquele fosse o gosto de Camus.
Afastaram-se, nenhum dos dois entendeu direito o que havia acontecido. Ambos sentiam-se comprometidos com outros homens, mesmo que as relações oficialmente não existissem, logo, aquele ato era um ato de traição. Mas, de certo modo, gostavam muito um do outro, e não parecia haver nada de mal nisso.
Camus largou a taça sobre uma dos móveis e foi deitar-se, não deveria ter beijado o grego, iria dormir, amanhã se esqueceria de tal coisa absurda. Alguns minutos depois, Saga estava parado na entrada do quarto. Caminhou até a cama, subindo na mesma, apoiava o corpo nas mãos e joelhos, engatinhou até ficar praticamente em cima do aquariano. E talvez um beijo não fosse o suficiente. Selou seus lábios novamente, enquanto levantava a camiseta que o francês havia acabado de colocar, tocando em seu corpo. Camus segurou a mão do grego, encarou-o por alguns instantes, não devia deixá-lo continuar.
– Esqueça o Milo e eu esquecerei o Kanon. – Beijou-o mais uma vez. – Apenas por essa noite. Que ela seja nossa.
Ele fechou os olhos, largando a mão do geminiano. – Apenas nossa...
Saga esboçou um leve sorriso, tirou a camiseta do mais novo, então desabotoou a própria camisa, jogando-a também no chão. Curvou-se sobre o aquariano, deslizando os lábios sobre seu peitoral bem definido, sua pele era muito macia. Parou diante do feixe da calça, sem dificuldade, desprendeu-o, então se levantou e puxou a calça pela barra. Novamente outra peça de roupa ao chão. Ambos estavam apenas com as roupas íntimas. Camus dobrou as pernas, pareceu encolher-se na cama, sua face estava rubra, provavelmente nunca havia se deitado com um homem.
De volta à cama, o geminiano avançou em cima do outro cavaleiro, enroscou os dedos no elástico da boxer, retirando-a rapidamente. Agora o Cavaleiro de Aquário, pela primeira vez, lhe pareceu inofensivo. A medida que despia o aquariano, Saga tirava as mesmas peças de roupas, ambos estavam nus. Ele permaneceu em pé durante alguns instantes, observava os detalhes do corpo do outro, ele era realmente belo, praticamente a beira da perfeição. Perfeito, se não tivesse uma personalidade tão enigmática e se não fosse tão recluso. Camus era complicado, mas também era muito simples, coisa que confundia a cabeça de muita gente.
Mas não o Cavaleiro de Gêmeos, claro. Ele segurou na mão do mais novo, levantando-o, em questão de segundos, Camus estava completamente envolto pelos braços do geminiano. Em seu calor, dissipando todo o frio daquela madrugada gélida. Mais um beijo. Saga girou o homem em seus braços, prensando contra a parede. O aquariano sentiu algo roçar entre suas pernas, tentou virar o rosto em busca do de Saga, mas o grego estava entretido em morder seu pescoço, sugando a pele e deixando leves marcas avermelhadas.
– S-saga, eu nunca-
– Tudo bem, eu farei com cuidado. – Disse Saga, então levou os dedos aos lábios, chupando-os. – Eu vou... – Estava com os lábios próximos à orelha do outro, falava enquanto o penetrava com o primeiro dedo. Camus cerrou o punho, arranhando a parede. – Fazer isso e depois... – Retirou o dedo, penetrando-o agora, com dois deles.
O aquariano segurou a mão que lhe envolvia a cintura, apertando-a, encostou a cabeça na parede gelada, soltando um suspiro pesado sentindo o coração acelerar. O geminiano tirou os dois dedos, forçando a entrada de três. O mais novo socou a parede, xingou algo em francês, mas não fez nada para que o grego parasse.
Saga afundou o rosto na nuca do mais novo, Camus largou sua mão, apoiando ambas na parede, tremia um pouco, mas nada que o atrapalhasse. O grego – agora com as mãos livres – segurava com cuidado em sua cintura, juntando seu corpo ao do outro cavaleiro. Cuidadosamente, ele o penetrou. Pôde ver o corpo inteiro do mais novo praticamente paralisar. Camus fazia uma força descomunal para não xingar o mais velho. Um gemido engasgado conseguiu passar por sua garganta. Como alguém poderia gostar daquilo?
– I-isso dói. – Disse um pouco nervoso, contraindo todo o corpo.
– Camus, relaxe... – O grego passou a mão por seus cabelos, com cuidado deslizava os dedos por seu corpo, ele estava muito tenso. Deu alguns passos para trás, sentando-se novamente na cama, agora com Camus praticamente em seu colo. Então ele desceu as mãos que estavam na cintura do aquariano, diretamente para seu membro.
– O-o que você está fazendo? – Perguntou, tentando tirar as mãos dele dali.
Saga não respondeu, limitou-se a puxar as duas mãos de Camus para as costas, segurando-as pelos pulsos com uma única mão. Com a mão livre voltou ao que estava fazendo. Envolveu o membro do aquariano com os dedos, movimentando a mão. Em questão de segundos, o francês estava ereto. Uma sensação quase nostálgica invadia seu corpo, Saga era realmente ágil.
– Agora é a sua vez. – O geminiano sussurrou no ouvido do outro, sem parar de movimentar a mão. Soltou seus pulsos, voltando a mão livre para sua cintura. Novamente, forçou seu corpo para baixo.
Era uma sensação nova, uma dor suportável, e combinada com as carícias que recebia do geminiano, era, no mínimo, bastante prazeroso. Conforme movimentava-se no colo do outro cavaleiro, sentia algo completamente novo invadindo seu corpo. Não apenas o próprio Saga, mas uma sensação extasiante de completo e puro prazer, que nunca havia sentido antes. Permitiu-se gemer agora, o geminiano apenas soltava uns longos suspiros, arranhava a pele do aquariano sem o menor pudor, havia parado de masturbá-lo, quando este ejaculou em seus dedos, em breve, o grego faria praticamente o mesmo.
As unhas de Camus eram praticamente garras cravadas nas coxas do geminiano, ele ergueu a cabeça, disse algo que soava incoerente para Saga, que gemia coisas mais incoerentes ainda, enfim, desfazendo-se no corpo do mais novo. O aquariano parou ao sentir algo quente fluindo no interior de seu corpo, esboçava um sorriso malicioso, estava completamente entorpecido, nunca desfrutara de tanto prazer numa noite só. Os minutos se passaram, o tempo não existia. Levantou-se, tirando os braços do grego de sua cintura, virou-se ainda com o mesmo sorriso no rosto.
Saga estava com os olhos fechados, abriu-os calmamente, o rosto do francês estava praticamente grudado no seu, seus lábios ainda estavam curvados no mesmo sorriso malicioso, que se desfez no meio de um longo beijo.
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