Risk.
18 Capítulo XV – Um novo dia.
Sala do Mestre – Santuário, Grécia. 12:17, Sábado.
Como de costume, Athena estava sentada em seu trono, entediada. Estava na hora do almoço, e por isso pedira a um de seus servos que lhe trouxesse algo para comer. Na verdade, pedira alguma comida de fast-food – coisa que até deuses gostavam. Aproveitou e pediu também que chamasse um dos Cavaleiros de Ouro. Lembrava-se exatamente de uma noite, há quatro meses; quando ele entrou na Sala do Mestre, com seu manto negro e a luz de seu cosmo apagada. Aquela tristeza que era praticamente incompreensível, aos olhos da deusa. E poderia jurar que tal cena estava se repetindo, se o sol do meio-dia não estivesse brilhando no alto do céu.
O Cavaleiro de Gêmeos ajoelhou-se, do mesmo jeito cordial e respeitoso da última vez. Um jovem veio chamar-lhe em Aquário, por isso, preferiu vir imediatamente, aproveitando-se do fato do aquariano ainda estar dormindo. Não queria deixar Camus só, estava muito preocupado com ele, e não achava bom que ele ficasse desamparado. Mas não poderia negar um chamado de Athena, além do mais, precisava muito agradecê-la.
Ela sorriu ao vê-lo. – Saga, levante-se. – Disse docemente, desejava conversar de igual para igual.
– Athena, perdoe-me por não ter vindo antes. – O geminiano não fez nem menção de se levantar, curvou-se ainda mais, agradecendo-lhe. – Meu irmão... O-obrigado!
A risada da deusa ecoou pela sala. Ela se levantou, indo em direção do cavaleiro, ajoelhou-se então, bem a sua frente. O geminiano ergueu os olhos, fitou-a espantado, tentou fazer com que ela se levantasse, mas ela se negou.
– Você vem me agradecer, mas continua triste. – Disse, colocando as mãos em seu rosto, erguendo-o para poder ver seus olhos.
– Athena, por favor, levante-se. – Pediu o cavaleiro, uma deusa não deveria se ajoelhar daquela maneira perante um humano! Não, não perante um humano como ele.
– Eu tinha esperanças de que o Kanon pudesse lhe trazer alguma alegria, mas nem ele conseguiu ajudá-lo? – Um pergunta retórica, tinha certeza de que o outro geminiano não havia ajudado muito.
Saga pensou no irmão então. Estava tão focado em Camus, que havia parado de pensar em Kanon. Ora, é claro que estava feliz por ele estar vivo, mas o fato de ele estar com Milo o magoava. E que motivos, que direito achava ter de sentir ciúme do irmão mais novo? Eles eram apenas irmãos e Saga deveria aprender a aceitar isso. Aceitá-lo com outro homem.
– Não se preocupe comigo...
– Certo! – A deusa afastou as mãos, sorrindo como se tivesse concordado em não se importar-se mais. – Na verdade, eu gostaria de lhe perguntar sobre Camus...
Ele pensou um pouco antes de responder. – Ele está muito abalado com o que houve. – Respondeu baixo, talvez nem soubesse como o francês se sentia de verdade. – Sinceramente, não sei ao certo como ele se sente. Mas é típico dele; ignorar sentimentos e manter-se alheio a quase tudo. – Soltou um breve suspiro. – Um dia tinha de explodir, não acha?
Athena concordou com a cabeça, parecendo pensativa, iria dizer algo, mas fora interrompida por outra pessoa que acabara de adentrar a Sala do Mestre. O jovem dos recados. Ele segurava um pacote, provavelmente um embrulho com hambúrguer, batatas fritas e refrigerante. A deusa ergueu-se num pulo, logo agradecendo o garoto, pegando o embrulho sorridente.
– Está servido? – Perguntou ao cavaleiro, enquanto entregava as batatas ao garoto.
– Não, obrigado. – Saga tentou sorrir; um sorriso triste, cansado. Então se levantou. – Peço licença para retirar-me.
– Ah, claro. – Ela concordou, sentando-se novamente no trono, mordendo o hambúrguer. Viu o Cavaleiro de Gêmeos afastar-se, mas chamou-o novamente quando estava próximo a porta. – Saga! – Ele se virou imediatamente. – Eu só vou deixar de me importar com meus cavaleiros, quando vocês pararem de lutar pelo amor, pela paz e pela justiça na Terra. – Esboçou mais um sorriso, deixando o rosto suavizar-se. – E isso quer dizer nunca.
~
Os raios de sol já haviam adentrado o quarto há um bom tempo, mas só agora Shura se incomodara com eles. Abriu os olhos com dificuldade, cobrindo-os com a mão por causa da claridade. Virou a cabeça para o lado oposto do da janela, procurando saber onde estava. Aquele era Shiryu? Era o Cavaleiro de Dragão sentado ali, na cadeira ao lado da cama, adormecido. Apoiava a cabeça numa das mãos, os cotovelos nos joelhos – o que sustentava seu corpo. O espanhol esticou o braço, encostando no rosto do mais novo com a ponta dos dedos. Este despertou, segurando o pulso do mais velho com força, como se um estranho estivesse tentando atacá-lo. Só então abriu os olhos, deparando-se com a expressão de dor do outro cavaleiro.
Baixou o olhar, fitando o pulso roxo do mais velho, soltando-o imediatamente. – D-desculpe-me! – Disse envergonhado, cobrindo a face rubra com uma das mãos.
O mais velho não disse nada, segurou no próprio pulso apertando-o com força. Os dois doíam bastante, assim como seu rosto que provavelmente estava tão roxo quanto eles. Franziu o cenho, com alguma dificuldade lembrara-se do que acontecera naquela madrugada. Estava um tanto alterado por causa da bebida, mas lembrava-se de Aioros e lembrava-se de cada uma das sensações que sentira quando unira-se a ele; mágoa, dor, prazer. Talvez não chegasse a compreender a dimensão daquele acontecimento. Havia sido forçado a fazer algo? Com certeza não. Estava em dívida com o sagitariano, e único modo de pagar esta dívida, seria se o Cavaleiro de Sagitário o matasse. E Shura sabia que ele jamais o faria.
Um olhar de relance para o libriano e percebeu que este estava tão pensativo quanto ele próprio estivera. No que ele pensava? Por que estava ali? Passou os olhos pelo quarto mais uma vez, não o reconhecendo como seu. Colocou uma das mãos sob as cobertas, sentindo a seda de seu pijama. Obviamente, não se lembrara de ter se vestido, tampouco de ter mudado de quarto. Sabia que havia sido chinês. Shiryu havia cuidado do mais velho, havia lhe feito um chá, havia limpado seu corpo, o vestira, e o colocara em uma cama limpa. E por que ele o fizera? Por que justo ele?
– Você está se sentindo melhor? – De repente a voz de Shiryu. Ele estava preocupado e esta coisa, este sentimento de preocupação confortava o mais velho. E ia muito além disso, o simples fato do chinês estar ali, ao seu lado, fazia com que se sentisse melhor.
Shura tentou se sentar, mas a dor ia além de seus pulsos e cabeça, em regiões bem mais constrangedoras. Seus braços estavam trêmulos e o capricorniano sentia como se não tivesse força o suficiente para erguer-se. Era como se ela tivesse se esvaído horas atrás, como se seu espaço tivesse sido preenchido pela forma mais pura de tristeza. Ou talvez não estivesse preenchido, talvez fosse apenas um vazio.
– Fique deitado. – Shiryu ergueu-se, foi até a cama e fez com que o outro parasse de tentar se levantar. Sua voz tinha um tom de preocupação quase maternal.
– Você deveria ter ido para casa. – Disse, tentando não olhar para o mais novo. – Não deveria ter ficado aqui.
– Eu me preocupo com você, sabe? – Retrucou meio emburrado.
– Não precisa preocupar-se comigo, eu sei me cuidar. – A voz soara mais baixa, ainda mais rouca. Sentia a garganta doer também. Chegando à conclusão de que praticamente tudo estava dolorido. – Vá para casa.
Ah, com certeza você sabe..., pensou o chinês. Encarou o mais velho, sua expressão calma desfez-se, dando lugar a uma bem mais séria e atípica. Não achava correto ir para casa e deixar Shura sozinho. O Cavaleiro de Capricórnio certamente era forte o suficiente para defender-se, mas ele não o fez; e tal atitude mudava a visão que Shiryu tinha sobre os últimos acontecimentos. Ao julgar pelo modo como o chinês o encontrara era mais que óbvio o que haviam feito com ele. E com certeza, deixar o capricorniano sozinho já não era mais uma opção.
Então o libriano retirou as cobertas que estavam sobre o mais velho, pegando-o no colo.
– O-o que você está fazendo? – Shura perguntou assustado.
– Estou indo para casa, oras. – O mais novo respondeu de modo simplório, seguiu andando para fora do quarto.
– M-mas eu posso ficar aqui! – Protestou, tentando sair do colo do chinês.
Shiryu parou de andar, segurando-o ainda com mais força. Baixou a cabeça, fitando o outro cavaleiro, as mechas de seu cabelo tocaram a face dele. Shura apertou os olhos, provavelmente já estava rubro, virou o rosto, acabando por encostar-se no peito do mais novo. E naquele momento, pôde ouvir claramente as batidas aceleradas do coração dele.
~
Já se passavam das treze horas, quando Hyoga acordou. Ainda estava zonzo pelo trauma que sofrera, olhou em volta, tentando identificar onde estava. Nunca teria reconhecido o próprio apartamento, se não fosse pelo relógio do X-Men que havia em seu criado mudo. O lugar estava tão limpo, que era praticamente irreconhecível. Com certeza alguém limpara a sua moradia, mas quem seria? Lembrou-se vagamente do dia anterior; lembrou-se de da briga com Shiryu e de estarem fazendo as pazes, quando Camus apareceu, então lembrou-se da fúria que jamais havia visto – não vindo do Cavaleiro de Aquário. Mas como havia chegado em casa? Não sabia nem como ainda poderia estar vivo.
Com alguma dificuldade, o russo se levantou, indo para o banheiro antes de ir procurar a pessoa que havia limpado sua casa; se ela não estava lá, certamente haveria de ter deixado um bilhete, um recado, algo que explicasse o que acontecera. Parou diante do espelho, não conseguindo acreditar no que via. Estava praticamente desfigurado, seus olhos estavam roxos e inchados, a boca cortada, a pele cheia de arranhões e pequenos cortes, seu rosto estava mais inchado ainda. Impressionara-se de não ter perdido nenhum dente. Era inacreditável. O loiro estava tão pasmo tentando se reconhecer, que nem percebeu que Shun estava parado na porta o observando.
– Hyoga... – O japonês disse baixo, andando até ficar atrás do loiro, fitando-o através do espelho.
– E-eu não acredito... Como pude chegar a esse ponto? Eu estou horrível... – Murmurou, como se falasse consigo mesmo, segurava uma lágrima que tentava escorrer de seus olhos, não estava gaguejando, mas sua voz falhava como se não quisesse verbalizar aquilo que já sabia. – Imagine o que... Imagine o que minha mãe pensaria de mim se me visse assim. Eu sou uma vergonha como cavaleiro.
– Hyoga, isso foi uma fatalidade. Você pode melhorar, reencontrar sua honra. – O virginiano respondeu-o com um tom amigável, queria consolá-lo de algum jeito, apesar de não saber muito bem como fazê-lo. Encostou o queixo no ombro do outro cavaleiro, reparando que o outro abaixara a cabeça, deixando algumas lágrimas silenciosas percorrerem as feridas em sua face.
– Não... Eu não mereço esse título... Eu sou uma vergonha para meu Mstre, uma vergonha para Athena. Eu estou parecendo um monstro.
– Não, Hyoga, você não está. – Shun disse, abraçando o Cavaleiro de Cisne delicadamente. – Você continua lindo, como sempre foi. E as feridas? Elas cicatrizarão em pouco tempo. – Sua vida toda teve vergonha de se aproximar do russo, mas nesse momento, sabia que o outro estava muito mais frágil que si, emocionalmente e fisicamente. Sabia que ele precisava de apoio e carinho, e ele era o único disposto a oferecer isso para ele; a apoiá-lo incondicionalmente, a ajudá-lo a recuperar sua honra, e principalmente, a amá-lo do jeito que merecia.
– Eu perdi minha honra... O respeito de meu Mestre e de Athena. Não poderei continuar exercendo essa função. Camus tem razão, eu sou um lixo. As feridas podem cicatrizar, mas eu nunca voltarei a merecer a Armadura de Cisne. – Ao terminar de falar, sentiu-se ser virado de costas para o espelho. Estava de frente para o Cavaleiro de Andrômeda, mas não tinha coragem de encará-lo nos olhos. Estava com vergonha, e não se sentia merecedor de nenhum tipo de compaixão.
– Hyoga. – Disse sério, virando o rosto do outro para poder olhar em seus olhos, o que fez o russo recuar um pouco, sentindo a pia gelada contra sua cintura, que fez seu corpo retesar, já que estava sem camiseta. – Você não é um lixo. Você vai recuperar sua honra como cavaleiro, vai recuperar o respeito de seu Mestre. E eu vou lhe ajudar, eu estarei aqui, para o que precisar. – Respirou fundo antes de prosseguir. – Não importa o que aconteça, eu vou estar aqui para você, eu nunca lhe abandonarei.
O aquariano não conseguiu segurar as lágrimas ao ouvir as palavras do outro garoto, o carinho que estava recebendo dele, era algo que desconhecia. Pela primeira vez, teve certeza de que alguém se importava consigo.
Shun abraçou-o carinhosamente, praticamente sussurrando em seu ouvido. – Eu me preocupo contigo, por favor, se não por você, tente melhorar, por mim. Você não tem noção do quanto significa para mim. – Abraçou-o com mais força, encostando a testa em seu ombro. Poderia começar a chorar copiosamente naquele momento, sabia que havia praticamente se declarado para o loiro, e era algo que não conseguira evitar. Precisava dizer-lhe o quanto se importava, precisava demonstrar-lhe o quanto era capaz. Com muito esforço segurou as lágrimas, era seu momento de ser forte, demonstrar ser uma base firme para que o outro pudesse se apoiar, mesmo sabendo que sua estabilidade emocional dependia quase que completamente do russo.
Hyoga silenciou, não havia mais nada a ser dito. Na verdade, queria agradecer o virginiano por todas aquelas palavras de apoio, por ele se importar, como ninguém jamais havia se importado. Mas não tinha forças para fazê-lo agora, a única coisa que poderia fazer, era aceitar seu abraço e afundar-se nele. Desejando que durasse para sempre.
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