Risk.

14 Capítulo XI – O Retorno.


Casa de Escorpião – Santuário, Grécia. Um mês depois.

A água fervia na chaleira. Milo tentava, em vão, alcançar o acendedor do fogão para desligar a chama. Tarefa bastante complicada quando certo geminiano estava atracado em seu corpo. Kanon prensava o escorpiano contra a pia, imobilizando-o praticamente. O mais velho havia acabado de sair do banho, vestia um robe, enquanto o mais novo usava um avental e calças, estava sem camisa. Provavelmente, Milo deveria estar lavando a louça, que se acumulava com mais frequência desde a chegada do Cavaleiro de Gêmeos.

Interessante como um simples roçar de corpos com Kanon era excitante. O geminiano tinha total conhecimento de cada coisa – mínima que fosse – que agradava o escorpiano, e sabia utilizar disto ao seu favor. Principalmente na hora do sexo. Kanon praticamente arrancou o avental do pescoço do outro cavaleiro, abaixando em seguida suas calças. Empurrou o punhado de pratos que estava em cima da pia – quebrando alguns por sinal –, então ergueu o corpo de Milo, colocando-o sentado sobre o molhado.

– M-merda, Kanon! – O escorpiano socou o parceiro no peito, mas recebeu um beijo sedento em troca.

Kanon desfez o laço que mantinha seu robe fechado, obviamente, o geminiano estava pelado. Enfiou a mão dentro da boxer do mais novo, sentia o membro dele rijo.

Alguém aqui está precisando de carinho... – Sussurrou no ouvido do outro cavaleiro, mordendo o lóbulo de sua orelha.

Milo iria falar alguma coisa, mas as palavras engasgaram em sua garganta. Aquele era o toque de Kanon, os dedos ágeis envolvendo o membro do escorpiano, enquanto a outra mão deslizava pelas costas dele, os dedos enroscavam nas mechas azuis daquele cabelo levemente ondulado e bagunçado. Puxou seus cabelos, fazendo-o erguer a cabeça e gritar algo que facilmente poderia ser confundido com um gemido. Lambeu seu pescoço, e quando Milo abaixou a cabeça, selou seus lábios com um beijo luxurioso.

Aah, Kanon... – O escorpiano estava rubro. Odiava o fato de se render tão facilmente aos caprichos do outro cavaleiro. Kanon era praticamente irresistível.

– Sei o quanto você gosta disso... – A voz do geminiano saía num sussurro.

Ah, aah...

Kanon preparava-se para retirar a última peça de roupa que restara ao mais novo, quando ouviu alguém bater a porta, não tinha a menor intenção de atender, então ignorou. Infelizmente, da porta, era possível ter uma visão privilegiada do que se passava na cozinha. E pior, quem batia a porta, resolveu abri-la para verificar se a casa estava realmente vazia.

Para a surpresa de Milo, era o Cavaleiro de Aquário quem entrava em sua casa. Camus segurava algo em mãos, parecia ser alguma comida, um bolo quem sabe. Fez menção de dizer algo, mas, ao analisar melhor a posição que aqueles dois se encontravam, absteve-se a erguer uma das sobrancelhas, sem alterar a típica expressão séria.

– C-camus?! – O nome do aquariano escapou dos lábios de Milo, que logo empurrou Kanon para longe de si. Desligou a chaleira, acabando por queimar-se ao encostar nesta. Levou o dedo a boca, falando embolado. – E-eu posso explicar.

Camus pareceu ignorá-lo. – Desculpem-me, não tinha a intenção de atrapalhá-los. – Olhou para o lado, deixando a embalagem sobre uma das cômodas. – Eu volto outra hora.

O geminiano estava vermelho de raiva, vestiu rapidamente a calça de Milo que estava no chão, calçando os chinelos que estavam pelo caminho, resmungava algo como; você não deveria ir entrando na casa dos outros como se fosse sua. Então atravessou rapidamente a sala de estar, esbarrando no francês antes de abandonar a casa.

Obrigado, Camus. – Disse seco. Bufou, então bateu a porta.

O aquariano ignorou a grosseria voltando o olhar para o escorpiano.

– Bem... – O grego coçou a cabeça. – Por que você não se senta? E-eu, eu vou colocar uma roupa.

– Não, está bem assim.

Milo arregalou os olhos, corando bruscamente.

– Estou bem de pé... – Disse, ao ver a surpresa do outro cavaleiro. – Pode ir, eu me sento se você quiser. – Concluiu, sentando-se no sofá.

O escorpiano sorriu, como era idiota. Devagar deu alguns passos para trás, virou-se, acabando por correr até o quarto. Fechou a porta, batendo-a sem querer. Encostou-se numa das paredes, meio trêmulo, seu coração estava disparado, era como se fosse explodir dentro de seu peito. Tentou sentar, praticamente desabando no chão. – Camus... – Murmurou seu nome, tentando recuperar a calma. Tirou a mão do peito, socando a parede com força. – Merda! Por que ele tinha que aparecer justo agora...?

Não compreendia o Cavaleiro de Aquário, desde que se entendia por gente, eles eram amigos. Melhores amigos. Camus deveria ter noção do quão importante ele era para Milo, se não tivesse, seria no mínimo um idiota. Ele poderia ter ao menos feito uma visita ao escorpiano antes de desaparecer por completo. E agora estava ali, quatro meses depois, como se nada tivesse acontecido.

Milo se levantou, trocou a boxer que estava toda molhada. Vestiu uma regata e uma calça preta um pouco surrada, mas que ainda ficava justa em seu corpo bem-definido. Analisou seu reflexo no espelho, estava exageradamente corado. Bagunçou os cabelos com as mãos, depois deu alguns tapinhas nas bochechas, precisava voltar a sua tonalidade normal.

Camus permaneceu sentado no sofá, obviamente não expressara nenhuma reação ao ver aqueles dois se atracando na pia da cozinha. Que grande ironia aquela, ele com Saga, Milo com Kanon. Se tivesse o costume, provavelmente estaria rindo daquela infelicidade. Lembrou-se do escorpiano vestindo apenas a boxer roxa, ela estava molhada, e seu membro visivelmente ereto. Fechou os olhos ao lembrar-se daquilo, sentindo um leve arrepio subir-lhe o corpo. Suspirou, sua vontade era de espancar o grego, mas mais que isso. Era de tê-lo para si.

– Pronto. – Era a voz de Milo. Camus estava tão entretido com as imagens em sua cabeça, que nem percebeu que ele estava de volta. – Então... Você... – O grego tentava formular algo com palavras, mas a única coisa que sentia vontade de perguntar era onde diabos ele havia se metido, e por que ele teve que sumir daquele jeito. – Você...

– Eu estava na França. – O aquariano sabia muito bem o que o outro queria lhe perguntar. Na verdade, ele tinha essa péssima mania de descobrir o que os outros queriam falar, respondendo suas perguntas, ou concordando com suas ideias, antes que pudessem expressá-las. Saga, por exemplo, odiava isso.

Milo fez uma careta, se ele tivesse ido para uma ilha deserta, sem linhas telefônicas, até que seria compreensível. E mesmo depois de saber que ele esteve na França esse tempo todo, provavelmente fazendo coisas irrelevantes, o grego não conseguia ficar realmente irritado com o outro cavaleiro. – F-fico feliz que esteja de volta... – Disse, começando a enrolar os fios do cabelo com os dedos, sempre que ficava com vergonha, fazia isso.

O francês estendeu a mão, segurando na do outro. Milo ficou praticamente imóvel. Então Camus tirou um fio preto de seu cabelo, provavelmente era da regata que o grego estava vestindo. O modo em que olhou para o escorpiano, aquilo poderia ser considerado um sorriso. Então ele afastou a mão e cruzou os braços.

– Não esperava que estivesse com o Kanon... – Com certeza não esperava, poderia jurar que Athena não iria trazer aquele gêmeo encrenqueiro de volta. Pensou em Saga novamente, mesmo com toda aquela ironia do destino, ficava feliz por ele. – Eu realmente não queria incomodá-los. – Não que Camus estivesse realmente arrependido, ou sentisse algum peso na consciência por ter atrapalhado aquele momento tão íntimo, o francês era, simplesmente, muito educado.

– Achei que não ia voltar mais... – Disse com pesar. Não se importou nem um pouco com a interrupção, ele e Kanon faziam sexo toda hora mesmo.

O Cavaleiro de Aquário virou o rosto, procurava o embrulho que havia trazido. Encontrando-o em cima de uma das cômodas, levantou-se para pegá-lo, em seguida retirou o embrulho. – Eu lhe trouxe um pudim. – Disse sério, como se estivesse falando da Bolsa de Valores.

– Um pudim...? – Repetiu as últimas palavras do amigo, logo associando as coisas. Ora, aquele era seu doce favorito, e gostava mais ainda quando o próprio aquariano o preparava. – Obrigado. – Agradeceu, com um sorriso meigo nos lábios.

Por Athena, Milo era encantador. Seu sorriso, seus cabelos bagunçados, seus olhos, seu corpo. Camus fazia uma força descomunal para ir contra seus instintos. Queria agarrá-lo imediatamente, beijar aqueles lábios e tocar naquele corpo...

– Onde tem pratos e talheres limpos nesse lugar? – Disse, indo até a cozinha. Enfatizou bem aquela palavra, reparando no estado deplorável em que aquele ambiente se encontrava. Por mais que tentasse, não conseguia entender como alguém conseguia viver num ambiente tão bagunçado.

– Deixa que eu pego. – Milo foi atrás de Camus, o aquariano já fuçava em um dos armários. Sem querer, o escorpiano acabou por prensar o corpo do outro cavaleiro contra a bancada enquanto alcançava os pratos. Então afastou-se, e pegou colheres numa das gavetas. Por sorte havia louça limpa.

Sentaram-se a mesa para comer o pudim, o grego ficou maravilhado com o doce, há muito tempo não comia um pudim feito por Camus, e eles eram, de fato, deliciosos. Logo metade do pudim havia sido devorada. Voltou a atenção para o aquariano, que apreciava o doce discretamente.

– Camus...

Hm?

– Eu não quero saber o que você esteve fazendo durante esses quatro meses. – Disse, ficando novamente com a as bochechas coradas. – Mas, prometa-me que não vai mais sumir desse jeito.

O francês ficou quieto. Na verdade, não tinha o costume de tomar aquele tipo de atitude impensada. Mas estava confuso demais para ficar no Santuário, precisava de um tempo para si. Para entender seus sentimentos e compreender aquele estranho vazio em seu peito. Provavelmente jamais ficaria com o escorpiano e precisava aceitar esse fato imediatamente, afinal ambos estavam se relacionando com os gêmeos. Suspirou, formalizando a situação em sua mente. – Está bem, eu prometo.


~


Era um final de tarde pacato, o Santuário estava praticamente vazio, muitos dos jovens, que ali treinavam para tornarem-se cavaleiros, haviam saído. Afinal, era o fim da semana e a noite de sexta-feira era apenas o início da diversão. Enquanto os trabalhadores mais velhos provavelmente já estavam em suas casas, para estes, o fim da semana significava descanso. Já começava a escurecer quando Shura iniciara sua subida até a Casa de Capricórnio. Havia ido ao mercado comprar algumas bebidas. Enquanto subia as longas escadarias, bebia uma cerveja e pensava na vida.

Completava quatro meses desde que retornara do Inferno. O tempo estava voando, e o pior de tudo é que passara boa parte daqueles meses dormindo ou de ressaca, e que, a maior parte do tempo estava bêbado. Era lamentável um Cavaleiro de Athena portar-se daquela maneira.

Continuou a subida, estranhando apenas as luzes acesas na Casa de Gêmeos. Será que Saga estava de volta, ou Kanon resolveu morar lá? Não importava. Próximo à Sétima Casa, avistou o Cavaleiro de Dragão. Shiryu parecia ter acabado de chegar, procurava a chave no bolso, tinha algumas sacolas em mãos. Shura se aproximou do chinês, desde aquele convite de almoço mal-sucedido, não havia falado mais com o libriano.

O espanhol bebeu mais um gole de cerveja, indo cumprimentar o outro cavaleiro.

– S-shura? – O libriano surpreendeu-se com o mais velho, afinal, havia passado um mês entretendo-se com Hyoga, e não pensara mais tanto no espanhol. Provavelmente por não tê-lo visto mais.

– Tudo bem? – Perguntou, com um sorriso em seus lábios.

– Eu estou bem. – Estava encantado por seu sorriso, ficou alguns instantes em transe, depois desviou o olhar, deparando-se com a cerveja em sua mão. Lembrou-se das palavras de Marrie. – Sabe... – Disse com certa timidez. – Você deveria tentar beber menos.

O rosto de Shura ficou levemente corado. Até aquele garoto tinha mais bom-senso que ele. – Você tem razão. – Concordou, despejando o resto do líquido no chão, sorriu novamente, um pouco constrangido.

Shiryu retribuiu o sorriso, satisfeito. Com certeza poderia ficar a noite inteira apreciando aquele sorriso tão encantador, tão belo. Uma leve brisa afagou-lhes os cabelos, havia uma intensa e maravilhosa mistura de cores no céu; parecia uma obra de arte divina.

Shura estendeu a mão, tocando nos cabelos do mais novo, os longos fios tinham a cor do céu da meia-noite, eram belíssimos. O chinês sentiu um breve arrepio, que foi seguido de um leve suspiro, então fechou os olhos. Queria sentir inteiramente o seu toque. Queria senti-lo mais que qualquer coisa. O espanhol ergueu novamente a mão, os dedos tocaram de leve o rosto do outro cavaleiro. Ambos abriram os olhos calmamente, como se despertassem de algum transe. Seus rostos estavam incrivelmente próximos. Apenas mais alguns centímetros...

Encararam-se mais um pouco, como se um tentasse descobrir a próxima ação do outro e vice-versa. Shura baixou o olhar, esboçando um sorriso, não tão encantador quanto os outros, era belo, mas triste.

– É mais macio do que imaginei. – A voz soara baixa, sedutora.

– O-o que? – Perguntou Shiryu.

– Seu cabelo... é muito bonito. – Continuou o mais velho. – Você... é muito bonito.

Rapidamente a face do chinês assumiu um tom vermelho forte. Seu coração estava disparado, por que Shura tinha que ser tão apaixonante?

O capricorniano não havia reparado nas reações do mais novo. Apenas pensava se deveria se aproximar mais, ou se já estavam próximos demais. Não sabia o porquê, mas estava com um desejo quase incontrolável de descobrir se seus lábios eram tão, ou mais macios que seus cabelos. Então inclinou o rosto, pôde sentir o ar quente da respiração do mais novo, chegou a ouvir as batidas aceleradas de seu coração. Faltavam somente mais alguns milímetros, quando Shura sentiu algo empurrá-lo para longe do chinês.

Hyoga havia empurrado o capricorniano com violência, propositalmente. Lançou um olhar carregado de raiva para o chinês, ele havia assistido toda aquela cena.

Shiryu estava pasmo, levou um susto, pois não esperava que o aquariano aparecesse ali justamente naquela hora. – C-como você saiu?! – Perguntou estarrecido, poderia jurar ter deixado o Cavaleiro de Cisne trancado dentro de casa.

– Você deixou a porta aberta, animal. – A voz do russo soava arrastada, parecia estar bêbado.

– O que você fez? Onde estava?! Você bebeu? – Shiryu perguntou, preocupado. Estava também irritado, mas era algo difícil de perceber apenas pela sua voz.

– Não te interessa, seu puto. – Empurrou a porta, entrando na sala e se jogando no sofá. Hyoga havia tentado sair do Santuário enquanto o outro cavaleiro havia ido fazer compras. Sem sucesso, voltou para casa e começou a fuçar nos armários. Encontrou um pequeno estoque de bebidas – coisa do Dohko. Já estava a quase um mês surtado sem usar nada, precisava de algum alívio que não fosse sexo. Surrupiou-lhe algumas garrafas, e foi para o jardim beber. Havia uma árvore bem grande, escondeu-se atrás dela, nunca seria notado lá.

– Hyoga, respeite-me! – O moreno soou irritado, não entendia o motivo de tanta grosseria, apenas tinha a certeza de que o loiro estava embriagado.

– Respeitá-lo, por quê? Diga-me se tenho motivos para isso, seu desgraçado. – O russo se levantou do sofá, caminhou até o chinês para encará-lo de frente, enfatizando muito bem o xingamento.

– Por que você está me xingando? – O libriano tentava manter a calma, pois sabia que o problema do outro cavaleiro era sério, mas sua paciência também tinha limites.

HAHA, E VOCÊ ME PERGUNTA O PORQUÊ?! SÓ PODE ESTAR DE BRINCADEIRA! – Hyoga disse entre uma risada doentia, voltando a falar. – Eu saio por meia hora, e quando volto você já está aí, se esfregando em outro macho.

Shiryu arregalou os olhos, não podia acreditar naquilo, Hyoga fazendo aquela cena toda, bem na frente de Shura. Nunca havia visto as coisas por aquele ponto de vista, estava sim encantado pelo Cavaleiro de Capricórnio, mas não estava se esfregando nele. Aquilo era um absurdo, jamais faria tal coisa. Enquanto isso, o espanhol ficara calado, apenas observando a cena, estava pasmo com as palavras desrespeitosas do Cavaleiro de Cisne. Sabia que eles moravam juntos, mas não que estavam juntos. Era tudo muito estranho.

– Hyoga, por favor... Não quero brigar contigo. – Shiryu disse, massageando as têmporas. Estava prestes a explodir pela vergonha que estava passando.

– Por favor, você! Cansou de comer meu rabo e foi procurar outro para dar? – Hyoga cuspia as palavras, falando num tom exaltado, provavelmente os vizinhos mais próximos escutaram.

– Hyoga, tente se acalmar... – Shura sabia que Shiryu não iria tomar nenhuma atitude brusca para que o loiro parasse de falar asneiras. Então era melhor intervir, antes que o Santuário inteiro ouvisse aquela discussão ridícula. – Não estava acontecendo nada.

– Nada? Só faltava você enfiar a mão nas calças dele! – Dessa vez, falou diretamente para o capricorniano. O russo estava ensandecido, tinha um sorriso afetado nos lábios. Parecia ter sido tomado pela mágoa reprimida de anos. – Vá em frente, ele é muito bom na cama.

O espanhol franziu o cenho, não pensou duas vezes. Deu-lhe um tapa, fazendo-o cair imediatamente no chão. – Mais respeito, seu moleque!

O loiro estava abismado, não acreditava que havia sido esbofeteado. Isso era inadmissível, Shura chega, rouba seu homem, e ainda se acha no direito de encostar em alguém? Tenha santa paciência...

Shura olhou para Shiryu, que estava tão sem reação quanto o próprio Hyoga. Resolveu ir embora antes que perdesse a cabeça de vez. Pediu desculpas ao Cavaleiro de Dragão, e saiu do ambiente, fechando a porta atrás de si. Estava transtornado, mas não sabia exatamente o motivo, deveria ser a petulância daquele pirralho. Só não admitia que tratassem o chinês daquele jeito.

– Eu não acredito nisso! Porra Shiryu! Você só fode comigo!

– Eu não fiz nada, você é que está pirando aí!

– Claro, não fez nada além de se esfregar naquele cara! – Hyoga continuava histérico. – E para variar você está fazendo que nem na nossa primeira vez! Eu achei que você tinha mudado. Ou vai dizer que não se lembra?!

Shiryu baixou o olhar, é claro que se lembrava daquele dia, onde tudo começou. Era a festa de condecoração dos novos Cavaleiros de Bronze. Todos estavam lá, havia uma música dançante, comes e bebes, nada alcoólico, afinal eram todos menores de idade. Entretanto, Hyoga havia achado uma garrafa de vodka na despensa. Precisava de alguém para beber com ele, compartilhar aquela nova aventura. Mas quem? Shun não, ele era muito certinho. Ikki nem pensar. Seiya? Com certeza não, era provável que o jumento saísse contando para todo mundo. Então sobrava Shiryu.

Após alguma insistência, Hyoga convenceu o chinês a experimentar aquele conteúdo curioso que havia roubado. Como todos estavam distraídos, ninguém perceberia a ausência dos dois. Foram até o esconderijo secreto do russo – a sala de entulhos – e começaram a beber. A princípio, estavam apenas rindo mais que o normal; porém misturar álcool com hormônios nunca dava muito certo. Nenhum dos dois saberia explicar como começou, só sabiam que estava acontecendo e como iria terminar. Estavam ébrios, nus, juntos e excitados. Tinham total conhecimento do que estavam fazendo, apenas Shiryu não sabia que o Cavaleiro de Cisne, nunca havia o feito antes.

Ora, Shiryu não tinha obrigação nenhuma de saber que o loiro era virgem. E depois de descobrir, já estava com Seiya, e as possibilidades de ele terminar com o sagitariano para ficar com Hyoga eram praticamente nulas. Preferiu, então, esquecer aquele dia.

– Hyoga, você sabe que eu-

– Sei o quê?! Que você não sabia que eu era virgem? Tudo bem, não me arrependo disso. Mas você me ignorar, fingir que nada aconteceu, e em menos de um mês depois estar namorando aquele quadrúpede do Seiya, isso sim, isso acabou comigo! – O loiro tentava segurar as lágrimas, em vão, mas elas insistiam em rolar por sua face. Então, gritou mais ainda, ficando com a face vermelha de raiva. – Você sabe o que é ter falsas esperanças?! EU TE AMAVA, SEU IMBECIL, AMAVA! E o pior de tudo, era que toda vez que você brigava com aquele jumento, quem ia te oferecer um ombro pra você chorar? Eu! Era sempre o primeiro a estar ali por você, aliás, eu te oferecia um ombro pra chorar, uma bunda pra você comer e um coração pra tentar te consolar! – A voz soava cada vez mais chorosa. – Foi sempre assim! Você nunca deu valor pra porra nenhuma que eu fazia por você! – O loiro não segurava mais as lágrimas, continuava a cuspir ressentimentos, socando o peitoral do libriano.

– Hyoga, desculpa, eu... – Shiryu tentava falar, toda vez sendo interrompido pela histeria do aquariano.

DESCULPA, POR QUÊ? SEMPRE FOMOS ASSIM. EU SEMPRE FUI SEU AMIGO, SEU MELHOR AMIGO. AQUELE AMIGO QUE VOCÊ COME QUANDO ESTÁ ENJOADO DO NAMORADO OFICIAL, NÃO É? E ENTÃO, QUANDO EU FINALMENTE CONSIGO TE ESQUECER, O QUE VOCÊ FAZ? – O loiro puxava o chinês pela gola da camisa, soluçando em desespero, enquanto o Cavaleiro de Dragão continuava sem reação. – Você aparece do nada, vem todo cheio de amizades e qual a primeira coisa que você faz? Vem me comer, é claro!

– Você sabe que não é bem assim. – O moreno disse, se desvencilhando das mãos do outro, caminhando para o outro lado da sala.

– Não é bem assim? Puta merda! Imagina se fosse... – Sua voz era um misto de soluços, risadas e choro, o libriano ficava atordoado apenas de ouvir, mas não podia fazer nada. Não queria remexer no passado. – Quando eu finalmente consigo te esquecer, você chega cheio de chamego, é todo carinhoso comigo, e fica aqui, me iludindo de novo! Eu larguei minha vida toda e passei esse mês aqui, só contigo. E o que você me faz? VAI SE ESFREGAR NUM CARA QUALQUER.

O SHURA NÃO É UM CARA QUALQUER! – Finalmente o chinês perdeu sua paciência. Hyoga podia xingá-lo por décadas, mas que não falasse nada de Shura, que era muito mais honrado que ele e não merecia ouvir esse tipo de acusação.

– Ah, agora tá protegendo o machinho, é?! Que maravilha! O amor é lindo! – Disse irônico, derrubando o outro cavaleiro no chão, sentando-se em cima dele. – Se você queria um cara pra comer você, era só ter me pedido que eu faria! Ou você acha que eu não sou capaz? – Abaixou o tom de voz na última frase, falando perto do ouvido do moreno, causando-lhe um leve arrepio, mesmo que sem querer. – Aliás, eu faria qualquer coisa que você me pedisse. – Mordia de leve o pescoço do libriano, roçando seu corpo com força no do outro.

– Hyoga... Para... Você sabe que não faz sentido... – Deu um gemido baixo entre os dentes, não queria demonstrar reação alguma, mas o russo sabia onde tocá-lo e como fazê-lo, coisa que frustrava muito Shiryu. – Isso que você... Está dizendo...

– Você gosta né, seu puto! – Puxou com força os longos cabelos do chinês. – Essa é a única coisa que você gosta em mim.