Risk.

15 Capítulo XII – Reviravoltas.


Santuário – Grécia. 18h12, Sexta-feira.

Quando Shura chegou em casa, encontrou uma carta em sua porta. Curioso, não recebia cartas de ninguém. Pegou-a para ler. Era uma convocação para uma reunião dos Doze Cavaleiros de Ouro, um chamado de Athena para aquele mesmo dia, às dezoito horas na Sala do Mestre. Obviamente, estava atrasado. Correu para dentro de casa, vestir sua armadura, e depois correu mais ainda para chegar ao local da reunião. Parou uns dois metros da porta, avistando outro cavaleiro que também estava atrasado. Estava escuro, mas mesmo assim pôde reconhecer a Armadura de Gêmeos.

– Kanon...? – Perguntou, aproximando-se. Estranho ver um Cavaleiro de Gêmeos, afinal, Kanon só usara aquela armadura uma vez, depois da morte do irmão mais velho. Agora, ambos estavam vivos, e só o gêmeo mais novo estava no Santuário, mas ele não deveria trajar aquela armadura, ela ainda pertencia a Saga.

– Shura? – Saga rapidamente reconheceu a voz do amigo, virando-se para vê-lo. – Por que está me chamando de Kanon? – Perguntou, largando a porta entreaberta.

O espanhol surpreendeu-se ao ver que chamou o gêmeo errado. – Saga! – Sorriu ao ver o rosto do amigo, estava com saudades do geminiano. Então correu para abraçá-lo. – Muito bom vê-lo...! Agora vamos entrar que estamos atrasados.

– Mas-

Queria saber por que havia sido chamado de Kanon, mas foi empurrado para dentro da Sala do Mestre. Imediatamente, Shura se ajoelhou e pediu desculpas pelo atraso, explicando seus motivos. Saga teve de fazer o mesmo, mas nada disse sobre seu atraso. Athena não pareceu incomodar-se, pediu para que eles se sentassem. Ela estava passando um vídeo para os outros cavaleiros. O capricorniano olhou para a televisão e riu, o vídeo estava pausado numa careta de Dohko, enquanto outro homem estava correndo desesperado atrás deste, provável que fosse Shion. Camus acenou para os dois cavaleiros atrasados, logo Saga sentou-se ao seu lado, e Shura ao lado do geminiano. O francês parecia um pouco inquieto, discretamente, puxou o grego para perto de si, cochichando algo.

– Eu vi o Kanon na casa do Milo. – Disse sem pressa. Queria contar para Saga, antes que ele topasse com o irmão junto de Milo em algum lugar do Santuário, e tivesse um ataque do coração. – Eles estavam juntos...

– Puta piada sem graça. – Cochichou também, arqueando ainda mais as sobrancelhas.

Camus suspirou. – E eu lá tenho cara de quem faz piadas? – Perguntou, a voz soou mais baixa, menos preocupada. – Eles realmente estavam juntos. – Frisou bem aquela palavra, então fez um gesto obsceno com a mão; deixou-a perto da sua região íntima, movimentando-a como se estivesse masturbando-se. Mas continuou sério, como se não estivesse fazendo nada, completamente concentrado no vídeo.

ELES ESTAVAM FAZENDO O QUÊ? – O geminiano se ergueu, gritou visivelmente alterado. Os cabelos azuis por alguns instantes pareceram ficar acinzentados.

Todos olharam para ele, perguntando-se o que havia acontecido, apesar de não ser nada incomum, Saga surtando sem motivo. O francês puxou seu braço, fazendo-o sentar-se novamente. Era inacreditável. O Cavaleiro de Gêmeos estava completamente incrédulo. Kanon estava vivo? Estava com Milo? Sentia vontade de ir até Athena e agradecê-la milhares de vezes, mas provavelmente se visse o irmão mais novo, iria fazê-lo voltar para o Inferno. Ficou divagando sobre isso durante o vídeo, não prestou atenção em nada, até porque era um monte de besteira mesmo.

Então Athena lhes entregou as cópias resumidas dos relatórios, discursou um pouco sobre a relevância do que Dohko e Shion descobriram, finalmente falando sobre o tal Pó de Diamante. Pediu para que os Cavaleiros de Ouro ficassem sempre atentos, afinal, havia muitas crianças e adolescentes treinando no Santuário, e era fácil levá-los para um mau caminho. O caminho das drogas. Finalmente dispensou a todos.

– Camus! – Chamou o Cavaleiro de Aquário, quando ele estava prestes a sair. – Preciso falar com você. – O francês concordou, pedindo para que Saga o esperasse do lado de fora. Ajoelhou-se novamente a frente da deusa, pedindo para que ela continuasse. Athena se sentou, voltando a falar. – Eu preciso lhe contar algo, antes que você saiba disso de modo errôneo, por outra pessoa.

O francês permaneceu em silêncio, esperando que ela continuasse.

– É sobre Hyoga, seu discípulo. – Ela parecia incomodada ao falar, mas precisava contar ao aquariano o que estava acontecendo. – Camus, ele está se envolvendo com drogas. – Disse rápido, antes que desistisse. Parou, analisando o cavaleiro; ele continuava inexpressivo, sem reação. – Um mês atrás, ele foi encontrado na rua, desmaiado. Foi levado ao hospital, mas o médico o liberou e agora ele está na Casa de Libra com Shiryu. – Suspirou, tinha certeza de que Camus não lhe diria nada, por isso continuava a falar. – Eu sei que é complicado, mas se você quiser ir vê-lo, ele precisa de apoio para voltar a ser quem era antes...

Silêncio. Minutos que pareceram eternos para Athena. Então o aquariano se levantou, ainda sem dizer nenhuma palavra, e caminhou calmamente até a porta. Retirando-se da Sala do Mestre, passou por Saga, ignorando-o e seguiu até a Casa de Libra, passando pelos outros cavaleiros que desciam tranquilamente as escadarias. Havia alguma coisa estranha no ar, estava ficando mais frio, o chão parecia estremecer a cada passo do francês. Chegando à Sétima Casa, ele ergueu a mão, tocando na porta, esta congelou e em questão de segundos, despedaçou-se por completo.

Não se surpreendeu muito com a cena. Ao contrário dos dois Cavaleiros de Bronze, que ficaram visivelmente assustados. Hyoga estava em cima de Shiryu, o moreno estava praticamente pelado e o loiro estava sem camisa, com as calças abertas, mas ambos estavam visivelmente eretos, antes da chegada do Cavaleiro de Aquário, tocavam-se intensamente. Mas, ao ver o seu Mestre, o russo praticamente pulou para longe do chinês. Alguma coisa estava errada, deveria estar feliz por ver Camus, mas estava simplesmente... Aterrorizado.

– C-camus, M-mestre. E-eu...

Antes que pudesse formular uma frase completa sem gaguejar, e explicar o motivo de estar bêbado, seminu, quase trepando com o Cavaleiro de Dragão. Sentiu uma das mãos de seu mestre agarrar seu pescoço. Foi rapidamente atirado para fora da Casa de Libra, caiu então, destruindo alguns degraus da escadaria. O Cavaleiro de Aquário, sem muita pressa, caminhou até seu discípulo. Uma camada de gelo estendia-se sobre o chão a cada passo que o francês dava.

VOCÊ, SEU MONTE DE LIXO... – Gritou pela primeira vez em muitos anos. A voz alterada, carregada de ódio como ninguém jamais havia visto. Ele se curvou, erguendo o loiro pelos cabelos. – COMO OUSA PISAR NESTE SOLO SAGRADO COM ESTES PÉS IMUNDOS?!

Com uma força descomunal, afundou o rosto do loiro no chão, depois ergueu-o novamente, socando-lhe a face com o punho cerrado. Acertou-lhe outro soco enquanto ele ainda estava no ar, fazendo-o chocar-se contra uma das pilastras, destruindo-a por completo. Com uma velocidade digna de um Cavaleiro de Ouro, voltou a socá-lo inúmeras vezes, incansavelmente. Hyoga não tinha tempo para revidar, muito menos para defender-se, não lutava mais como antigamente. A verdade é que nunca chegara nem aos pés de seu Mestre. Camus era muito mais poderoso; sempre fora.

E cada golpe que recebia do grandioso Cavaleiro de Aquário, sentia-se como se sua vida estivesse esvaindo-se. Sentia-se um verdadeiro monte de lixo.

Novamente ao chão. O russo mal respirava, sentia uma dor descomunal, rapidamente uma poça de sangue se formara em volta de seu corpo. Estava morrendo? Seria morto pelo próprio Mestre? Nunca vira Camus bater em alguém assim, nem em um inimigo. Nunca o vira alterar-se, abandonar a típica postura séria. Ele nunca perdia a calma, e mesmo parecendo frio e insensível era uma das pessoas mais gentis e cuidadosas que Hyoga já conhecera. Fitou o francês, sua vista estava embaçada, turva, mas mesmo assim pôde ver seu olhar carregado de ódio.

– Você é uma vergonha como um cavaleiro! – Gritou novamente, estava insano de raiva. O chão de todo o Santuário estava coberto por gelo, e dos céus, caíam pequenos e brilhantes flocos de neve. – Agora, se lhe restar alguma dignidade, aceite a morte para recuperar a honra que você jogou no lixo...

Hyoga fechou os olhos. Não queria a morte, recusava-se a pensar que acabaria daquele jeito, mas não tinha como defender-se, estava acabado. E mesmo desonrado, continuava sendo um cavaleiro, jamais fugiria. E se era aquilo que lhe restava, o mínimo de honra, então teria de aceitar a morte para mantê-la. Camus ergueu os braços, as mãos unidas acima da cabeça, na posição da ânfora de Aquário. Preparava-se para lançar seu golpe mais poderoso.

Silêncio, ou talvez o som da morte. Era a voz do Cavaleiro de Aquário ecoando por todo o Santuário. – AURORA EXECUTION!

Uma enorme rajada de ar frio fora lançada contra Hyoga, não era necessário chegar ao Zero Absoluto, apenas o ar congelante bastava para aniquilá-lo. Mas ao contrário do esperado, seu golpe desfez-se no ar. Havia se chocado com outra poderosa cosmo energia, espalhando-se, fazendo uma grande nuvem de fumaça subiu aos céus.

GREAT HORN! – Foi possível ouvir a voz do Cavaleiro de Touro durante o momento da explosão. Ele havia se prostrado a frente do russo, lançando o seu golpe mais poderoso para defendê-lo.

– Saia do meu caminho, Aldebaran! – Gritou Camus. – Eu vou matar esse infeliz!

– Terá de me matar primeiro. – O taurino cruzou os braços, não tinha a menor intenção de sair dali. E se o aquariano insistisse com aquela tolice, eles teriam uma longa Guerra de Mil Dias pela frente.

O francês bufou de raiva, iria tirar Aldebaran de seu caminho, então terminaria o que começou. Os outros Cavaleiros de Ouro assistiam a distância aquela luta, ninguém além do brasileiro fez questão de impedir aquilo – não se deve interferir num combate entre cavaleiros, eles são sempre um contra um. Além do mais, estavam todos muito impressionados, pasmos, perplexos. Tão sem reação quanto o próprio Hyoga. Jamais ninguém vira Camus perder a calma, descontrolar-se, gritar e espancar alguém daquele jeito. Era inacreditável.

Novamente o francês se preparou para lançar o golpe. Mas antes que pudesse movimentar os braços, sentiu alguém abraçá-lo por trás, imobilizando-o.

– Camus, pare com isso. – Disse com calma.

– Solte-me, Saga! – Ordenou, tentando desvencilhar-se de seus braços. – Eu vou matá-lo!

O geminiano com certa dificuldade fez com que o Cavaleiro de Aquário virasse para si. Não tinha a menor intenção de soltá-lo, pelo menos não até que ele se acalmasse. Camus fitou o outro cavaleiro com raiva, debateu-se um pouco, mas naquele momento, Saga lhe pareceu bem mais forte. Mesmo que o aquariano estivesse completamente fora de si, também estava fraco. Estava magoado.

– Não estou te reconhecendo. – A voz do grego soava serena. Era tranquilizadora, mas também muito forte. – O verdadeiro Camus jamais perderia a calma. Jamais espancaria alguém assim ou ergueria a voz para falar esse tipo de coisa.

Saga facilmente poderia dominar alguém com palavras. Apenas palavras. E Camus estava completamente inofensivo agora, estava trêmulo, e quando sentiu as primeiras lágrimas escorrerem por seu rosto, baixou a cabeça. Não queria que o geminiano o visse chorando.

– Olhe para mim. – Saga levou as mãos ao rosto do mais novo, sua pele estava muito gelada, Pôde até sentir as lágrimas que escorriam.

– Não... – Sua voz soou chorosa.

– Camus, olhe para mim. – Tornou a dizer.

O francês ergueu o olhar, fitando o outro cavaleiro. – S-saga, e-eu, eu... – Murmurou entre soluços, estava chorando, e mesmo que tentasse conter as lágrimas, só conseguia fazê-las aumentarem. – E-eu, eu não... – Teria desabado no chão se o grego não o estivesse segurando.

Ssh, tudo bem... Está tudo bem. – Falou baixinho no ouvido do francês, envolveu-lhe com os braços, num abraço terno e confortante. Permaneceu alguns minutos abraçando-o, então separou-se dele, selando seus lábios com um breve beijo. – Vamos para casa, agora.

Em silencio, Camus concordou, continuava chorando e soluçando e mal conseguia sustentar-se. Deixou que Saga passasse o braço em sua cintura, dando-lhe apoio para andar. Então juntos, seguiram para a Casa de Aquário. Passaram pelos outros cavaleiros que faziam comentários em voz baixa, mas só um olhar do Cavaleiro de Gêmeos fez com que todos silenciassem.

Vendo que o aquariano havia ido embora, Shiryu correu até Hyoga. Pôde ouvir o Cavaleiro de Touro murmurar algo como; Tire-o daqui, rápido! O chinês agachou-se, pegando o corpo do loiro no colo. Tentou não olhar para ele, Hyoga estava completamente acabado, havia feridas e hematomas em todas regiões possíveis de seu corpo, estava perdendo muito sangue também. Não sabia se ele estava acordado, desmaiado ou delirando. Mas pelo menos ainda estava vivo.


~


Naquele mesmo dia, Shun havia combinado de ir jantar em Libra, talvez jogar algo e passar um tempo com os amigos, jogando conversa fora. Olhou no relógio de pulso; eram quase seis e meia da tarde. Ainda estava cedo, mas ele pretendia ajudá-los a preparar a comida e não queria chegar tarde em casa. Decidiu partir para o Santuário. Chegou, e quando acabara de pagar e descer do táxi, viu alguém descendo as escadarias com um corpo nos braços.

Era Shiryu. O Cavaleiro Andrômeda correu até ele, logo reconhecendo o corpo em seus braços.

– O que aconteceu? – Perguntou num grito, esbaforido.

– O Camus... Ele... – O chinês falava pausado, visivelmente nervoso. – Fez isso.

– Como é? – Perguntou espantado. Por que diabos Camus faria isso? – Por quê? Como você deixou isso acontecer?! – Continuou com as perguntas, como se o libriano tivesse realmente culpa de algo.

– Bem eu estava... – Pensou um pouco antes de continuar. Era melhor não dizer o que eles realmente estavam fazendo. – Estava com o Hyoga em Libra, e ele chegou destruindo a porta, arrancou o Hyoga de lá e só não o matou porque Aldebaran não deixou. – Enquanto Shiryu terminava de falar, o japonês tirou o russo de seu colo.

– Mas você não podia ter impedido isso? – O virginiano continuava a culpá-lo, achara tudo aquilo muito estranho e já estava com bastante raiva do chinês, coisas ruins aconteciam quando ele estava por perto. – O Camus perder a paciência, isso é muito estranho...

– Eu... Eu não fiz nada. Não dava... Era uma situação... – Tentava explicar-se, mas não havia o que explicar. Tudo aconteceu muito rápido e mesmo que Shiryu quisesse defender o russo, seria, no mínimo, espancado junto dele – pelo estado de Camus, com certeza.

– Shiryu. – Shun disse sério, o moreno não conseguia enxergar a face do outro, mas imaginava qual era sua expressão. – Você poderia ter feito algo. – Pausou mais uma vez, refletindo sobre o que poderia ter realmente acontecido. Continuando antes de deixar o outro cavaleiro responder. – Hyoga poderia ter morrido. Já não bastam todos os problemas que você causou a ele, e ainda permite que o Camus faça isso? – O japonês segurava as lágrimas enquanto voltava a caminhar com o russo no colo. – Não chegue mais perto dele. Eu cuido disso a partir de agora. Não quero que você se meta mais.

Shiryu estava embasbacado com a atitude do outro cavaleiro, como assim? Não poderia mais ver Hyoga? E do que Shun estava falando? Ele tinha conhecimento da relação que o chinês tinha com o Cavaleiro de Cisne, ou estava culpando-o pelas drogas, pelo vício? E agora, além de Camus, Shun tomando esse tipo de atitude atípica, atitude que não combinava nem um pouco com sua personalidade doce e gentil. Todos os cavaleiros estavam ficando loucos, era a única explicação.

– Shun, nós precisamos lavá-lo para um hospital... – Ignorou o que lhe fora dito, tentando parecer calmo ao falar.

– Se o levarmos ao hospital, isto vai tornar a acontecer; vão mandá-lo de volta para o Santuário. E eu não quero que ele volte, não sei o que pode acontecer com ele aqui. – Shun havia percebido que o táxi que ele havia pegado ainda estava ali, parado. O taxista parecia estar tentando descobrir o que estava acontecendo, olhando pela janela a conversa dos dois. O japonês aproveitou aquela oportunidade, e voltou para o automóvel, pedindo a ajuda do motorista para deitar Hyoga no banco traseiro. O chinês estava próximo, mas não fez nada, apenas ficou olhando. – Shiryu, eu vou dar meu jeito. Não se preocupe com ele. – Falou frio, de um jeito que soava muito estranho aos ouvidos do Cavaleiro de Dragão, Shun jamais havia sido frio com alguém.

Vendo que nada podia fazer e antes de o carro partir, correu até o mesmo, batendo levemente no vidro do assento da frente, onde o Cavaleiro de Andrômeda estava sentado. Aguardou o vidro ser abaixado.

– Shun, o endereço dele... – Tirou um pequeno papel da carteira, onde havia o endereço do russo anotado. – Ele me deu isso esses dias para eu ir à casa dele pegar um negócio, tenho as chaves também... – Pegou um pequeno chaveiro com algumas chaves de seu bolso, retirando duas delas que estavam presas e as entregando para o outro cavaleiro. – Cuide bem dele. – O chinês se afastou do carro, observando-o partir.