Risk.
20 Capítulo XVI – O que nós somos.
Casa de Escorpião – Santuário, Grécia. 20h27, Segunda-feira.
Havia se passado três dias desde aquele acontecimento que deixara Milo sentimentalmente abalado. Não apenas o fato do homem que ele ama estar com outra pessoa. Mas o simples fato de esta pessoa ser Saga, irmão gêmeo de Kanon, com quem o escorpiano estava, tecnicamente, namorando. Afinal, estavam há mais de um mês morando juntos, beijavam-se, e faziam sexo praticamente todos os dias. Se aquilo não era um namoro, Milo não saberia dizer o que era. Aliás, o geminiano havia ficado com ciúme do mais novo naquele dia, desde então, mal se falaram durante os dias que se seguiram.
Naquela noite, Milo estava cozinhando; preparava a carne, temperando-a com algumas ervas, iria fazê-la grelhada. O arroz estava quase pronto, e em meio àquele monte de coisas, ele conseguira lavar uma salada. Também fritava algumas batatas, porque era do gosto do geminiano. Kanon estava sentado no chão da sala, encostado no sofá, lia algum livro de suspense, estava bastante compenetrado. O escorpiano não conseguira conversar direito com ele. O mais velho se esquivava; sumia durante os dias, aparecia de noite, dizia um olá, então isolava-se de algum modo. Mas não parecia estar fugindo, fugir não era algo que Kanon faria. Milo desligou o fogo, limpou as mãos num pano de prato e despejou as batatas fritas numa vasilha. Foi até a sala e deixou as batatas na mesa de centro, então agachou-se diante do outro cavaleiro, retirando o livro de seu colo com cuidado.
Kanon encarou-lhe do mesmo jeito sério, as sobrancelhas arqueadas, como se estivesse preparado para algo muito ruim. Mas aquilo era costumeiro, e não assustava o Cavaleiro de Escorpião. Ficaram durante uns instantes trocando olhares, até que o mais velho desistiu.
– Que foi? – Perguntou. Não soou irritado, parecia cansado talvez.
– Desculpe-me. – Disse repentinamente depois de ficar em silêncio durante mais de um minuto – minuto eterno para o geminiano. O mais novo baixou o olhar, a voz soava realmente arrependida.
– Pelo quê?
Os olhares voltaram a se encontrar. Kanon era de certo modo, muito enigmático. Sempre fora um mistério para Milo; o modo como ele lidava com as coisas, seus pensamentos, suas ações. Seus sentimentos. Ele era fechado para o mundo de um jeito bastante complexo.
– Eu te magoei com aquilo, não é? – Perguntou. Queria que o mais velho soubesse que ele estava, pelo menos um pouco, ciente de seus sentimentos.
– Não... – O geminiano soltou um suspiro pesado. – Eu sei o que o Camus representa para você, fui infantil, admito. Mas... Ah, você sabe.
Milo franziu o cenho, mas logo o rosto se suavizou, os lábios curvaram-se num breve sorriso. – Eu não sei! Você é misterioso demais para mim. Nem imagino como é para os outros! – Encarou mais um pouco o mais velho; o sorriso se desfez. – Eu gosto muito de você, Kanon. Sempre gostei. Não importa a merda que você fizesse, no fim, você foi sempre a minha luz. – Parou para analisar o outro cavaleiro, ele parecia surpreso. Então continuou. – Esse mês com você tem sido maravilhoso, e eu quero que continue assim. – Aproximou os rostos, as mãos tocaram de leve na face do geminiano. – Eu só faço merda também, eu sei. Perdoe-me por isso.
Kanon sorriu, beijando o mais novo então. Na verdade, nunca precisara de um pedido de desculpas. Aquilo era apenas birra da parte do geminiano, e mesmo que Milo soubesse, iria desculpar-se de qualquer modo. O mais velho gostava do Cavaleiro de Escorpião, gostava muito dele, e se pudesse amá-lo e dar-lhe o que lhe era merecido, realmente o faria. Mas no fundo sabia que eles não poderiam ir muito além com aquele romance.
– Tsc. – Kanon abraçou o mais novo, fazendo com que perdesse o equilíbrio e caísse em seu colo por completo. Permaneceu com ele nos braços durante um bom tempo, sentia-se feliz com aquilo. Sentia-se muito feliz com Milo.
– Kanon... – Milo tentou separar-se dele, sem muito sucesso. – Kanon, a porta!
– Onde?
O mais novo riu, mas não disse nada, era provável que o geminiano estivesse divagando tanto naquele abraço que nem ouviu as batidas na porta. Seja lá quem fosse, não iria ver a mesma coisa que Camus viu, quando chegou com o pudim. O escorpiano se levantou, ajeitou as roupas e os cabelos, e foi atender a porta. A pessoa já estava indo embora, e se Kanon não estivesse dentro de casa, Milo teria chamado por ele.
O que diabos ele está fazendo aqui?, pensou, decidindo chamar-lhe. – Ei, Saga...
O Cavaleiro de Gêmeos se virou novamente, havia desistido pela demora, não gostava de insistir nesse tipo de coisa, apesar de saber que ambos estavam em casa. Ouvira as vozes. – Olá... – Disse meio sem jeito, aproximou-se, logo avistando seu irmão sentado no chão da sala. Kanon não parecia se importar com quem estava na porta, talvez nem tivesse ouvido o nome do irmão mais velho, ou estava apenas ignorando-o.
– O que você quer? – Milo realmente não queria ser grosseiro, mas estava com raiva de Saga, aquilo era inevitável.
Desviou o olhar do irmão, fitando o escorpiano. – Eu queria lhe pedir algo. – Respondeu de modo natural, ignorando a grosseria.
Por Athena, você não tem direito de me pedir nada!, pensou. Então fez um sinal para que continuasse.
– É sobre o Camus. – Saga parecia meio deslocado ali, na verdade, não queria estar ali, pedindo coisa alguma ao namorado de seu irmão. Era horrível. Mas o sentimento que nutria pelo aquariano era o suficiente para fazê-lo passar por isso. – Ele não tem falado direito comigo e-
– Achei que você conseguisse resolver qualquer coisa... – O escorpiano interrompeu-o, murmurando aquelas palavras, pensando que Saga não iria ouvi-lo.
Encararam-se durante alguns instantes. Aquela expressão séria era bem mais forte em Saga do que em Kanon. Aliás, se Milo o analisasse bem, começaria a perceber outras singelas diferenças que existiam entre aqueles gêmeos. O modo como falavam, por exemplo.
– Ele não tem comido direito e fica a maior parte do tempo deitado. Eu estou preocupado... – Continuou a falar, ignorando também o outro infeliz comentário do Cavaleiro de Escorpião. – Escute, eu sei que você não tem obrigação nenhuma de me ajudar. Mas o Camus é seu melhor amigo, achei que poderia, ao menos, ajudá-lo.
Milo estava pronto para dar mais uma resposta grosseira e infantil. Mas Saga tinha razão; Camus era o seu melhor amigo, e nada mudaria aquilo, jamais. Sentia-se na obrigação de falar com ele, na verdade, sentia-se um imbecil por não ter ido visitá-lo antes. Engoliu o orgulho e o ciúme, apenas assentindo com a cabeça. É claro que iria.
Virou-se, chamando o parceiro. – Kanon! Termine a janta, eu já volto. – Fechou a porta, mas abriu-a novamente. – Fiz batatas fritas para você, está em cima da mesa. – Sorriu então, rindo da expressão abobada com que este ficou, fechando a porta novamente.
Saga seguiu andando mais a frente, era como se mostrasse o caminho para Aquário, apesar de Milo já conhecê-lo muito bem. Pensava. O escorpiano continuou a subir as escadarias em silêncio, imaginava se Saga já havia falado com o irmão, era estranho que ele não tivesse nem cumprimentado Kanon. Aliás, o Cavaleiro de Gêmeos era bastante estranho. Também ficava imaginando-o junto de Camus, o que será que viam um no outro? Estariam juntos há muito tempo? Fez uma careta, não gostava nem um pouco daquilo. O geminiano parou, e Milo acabou por esbarrar nele.
– Ande ao meu lado. – Disse bastante sério. – Não gosto quando andam atrás de mim.
O escorpiano fez uma careta mais feia ainda, mas também ficara rubro – desconhecia o motivo daquilo. Já estavam bem próximos da Décima primeira Casa, então Milo tomou coragem e perguntou. – Vocês estão juntos há muito tempo?
O mais velho, virou o rosto para encará-lo durante alguns instantes, voltou a olhar para frente, indo para a entrada da Casa de Aquário. – Estávamos juntos em Paris. – Respondeu, ainda sem ter certeza se realmente deveria ter dito aquilo.
Abriu a porta, deixando que Milo entrasse primeiro, este parou e observou o interior da casa de Camus; nada havia mudado, continuava extremamente limpo e bem organizado, com a decoração discreta, mas de bom gosto. Saga seguiu pelo corredor, até o quarto do francês. Bateu na porta, esperando alguns segundos para abri-la. Estava bastante escuro, então demorou para encontrar o aquariano. Ele estava sentado num canto, apoiava os braços nos joelhos, a cabeça erguida encostada a parede. Observava o céu e não fez questão alguma de olhar para quem batera a sua porta.
O geminiano suspirou; odiava aquilo. – O Milo veio te ver. – Disse, então saiu do quarto, convidando o Cavaleiro de Escorpião a entrar.
Milo entrou no quarto, acendendo a luz. Analisou o outro cavaleiro então; Camus parecia bem abatido, estava pálido, e provavelmente mais magro. Os longos cabelos verde-azulados estavam despenteados. Usava uma camisa preta um tanto amassada, e uma calça do mesmo tom, bastante justa e de um tecido que parecia brilhar, estava descalço. De qualquer modo, continuava estonteantemente belo. Em uma de suas mãos, jazia uma taça de vinho, e bem ao seu lado, uma garrafa pela metade. Ele havia baixado o olhar por causa da claridade, então Milo decidiu apagar a luz, deixando o ambiente escuro de novo. Caminhou até o francês, agachando-se a sua frente, do mesmo modo que havia feito com Kanon, minutos antes.
– Oi... – Disse meio baixo, esperando que o outro cavaleiro o respondesse, mas este limitou-se a lançar-lhe um olhar, desviando-o rapidamente. Milo respirou fundo, voltando a falar. – Camus, você não pode ficar assim. – Sua voz soava um tanto temerosa. – Eu sei que é difícil para você, mas-
– Você sabe que é difícil? – Interrompeu-o, soando bastante rude.
– E-eu...
– Você não sabe, Milo. – Estava irritado, mas a voz estava habitualmente calma, contida. – Nenhum de vocês sabe.
– Então me diga. – Retrucou. – Diga-me o que eu não sei, Camus. Eu preciso saber...
O francês ficou calado durante alguns instantes. Realmente, havia muitas coisas que Milo desconhecia, muitas coisas que Camus desejava contar-lhe. Mas ele não poderia fazê-lo, não conseguiria arriscar aquela preciosa amizade que tinha com o escorpiano.
– Eu fracassei. – Disse, a voz soava mais pesada. – Fracassei como mestre. Eu... – Fez uma pausa, como se tomasse coragem verbalizar o que estava em sua mente, repetindo incansavelmente. – Eu sou um fracasso. – Baixou a cabeça então, como se pensasse mais no que acabara de declarar.
Milo socou o chão com força. – Não seja imbecil! Você não é um fracasso, pare de dizer coisas estúpidas. – Desequilibrou-se então, acabando por sentar-se.
– Eu disse que você não sabe, você não entende...
– Mas isso não foi culpa sua! – Milo continuava a protestar, tentando convencer o aquariano de algo que até ele desconhecia. Colocou-se de joelhos, sentando-se em cima das próprias pernas. – É normal um adolescente fazer esse tipo de coisa. Nós também fazíamos...
– Nós tínhamos limites, Milo. – Disse calmo. – Nós fazíamos coisas erradas, claro. E sabíamos o quão errado elas eram, por isso sabíamos onde parar.
Novamente, encarou o Cavaleiro de Escorpião, tinha certeza de que ele se lembrara daquela noite. Milo havia aparecido com uma garrafa de whisky que havia surrupiado de seu mestre. Ora, nunca haviam ficado bêbados, era algo que deveriam tentar. O grego demoraria a convencer o amigo a embarcar naquela aventura, então decidiu-se por usar daquela velha técnica; o desafio. Sabia que Camus era capaz de fazer qualquer coisa e que por isso, não sentia vontade de provar nada a ninguém. Ninguém com exceção a Milo. O francês aceitava seus desafios, gostava de provar as coisas para ele, isto sem motivo aparente. Então esconderam-se num lugar abandonado e prometeram que seria a única vez que fariam tal coisa, e só tornariam a fazê-lo depois que se tornassem maiores de idade – promessa que cumpriram fielmente.
Milo sorriu ao lembrar-se daquele dia, lembrar-se da adolescência com Camus. Da época que eram bastante despreocupados. Aquela época em que não se separavam por nada.
– Eu sei que a culpa não é minha, jamais me culpei pelo que aconteceu ao... – Parou de falar, não queria pronunciar o nome do antigo aprendiz. – Sabe, eu ensinei a ele, tudo o que um dia foi-me ensinado pelo meu Mestre. – A voz do francês soava mais triste, como num lamento. – Eu ensinei sobre valores, sobre a honra que era tornar-se um Cavaleiro de Athena, e todas as responsabilidades que isso implicava. – Suspirou, lembrando-se daquela época na Sibéria, quando teve de abandonar o Santuário, afastar-se de Milo. – Fiquei orgulhoso quando ele conseguiu sua armadura, quando ele invadiu o Santuário e venceu a nós dois. Quando... – Sua voz sumiu, ele fitou o outro cavaleiro de modo bastante inexpressivo, como se a emoção daqueles momentos não passasse de uma completa farsa.
– Mas Camus, eu tenho certeza de que ele vai se recuperar, voltar a ser quem era! – O grego continuava a tentar arranjar justificativas para aqueles atos do Cavaleiro de Cisne.
– Não importa mais. – Completou, então levou a taça aos lábios, finalizando o líquido que ainda havia nesta. – Decepciono-me com este fracasso, mas não me importo com ele.
O escorpiano levou algum tempo para processar aquelas informações, era bastante cruel, de certo modo. Milo sabia a facilidade que Camus tinha para excluir as pessoas de sua vida; era como queimar papel e jogar as cinzas ao vento. Seria ele capaz de fazer tal coisa com o escorpiano? Com certeza era algo que Milo temia com todas as suas forças, apenas por desconhecer o fato de ele ser a única pessoa que Camus jamais esqueceria, abandonaria. Ou deixaria de amar.
– Fiquei sabendo que você não tem comido direito... – Disse subitamente. – Não deveria estar bebendo, mocinho! – Então levantou-se, puxando o aquariano pelo braço. Com a luz do luar, pôde ver seu rosto com clareza. E Camus parecia ficar a cada instante mais belo, mais perfeito. – Não me importo com o que você vai decidir em relação a ele. – Aproximou os rostos, acariciando a face do francês carinhosamente com as mãos. E conforme se aproximava, o sorriso se desfazia, tornando-se cada vez maior. – De qualquer modo, eu estarei aqui para você, como sempre estive. – Então envolveu-o num abraço, murmurando em seu ouvido. – E sempre estarei.
Se pudesse, o teria beijado, teria dito que o amava. Mas limitou-se àquele abraço de amigo, esperando que pudesse demonstrar o quão importante Camus era para si daquela forma. Uma lágrima escorreu por seu rosto, mas Milo limpou-a rapidamente. Afastou-se do francês, novamente com um sorriso nos lábios.
– Vocês vão jantar lá em casa! – Foi uma ideia que acabara de ter, achou-a digna e ideal. – Bem, eu deixei o Kanon cuidando da janta, acho que ele sabe fazê-lo. – Sorriu brincalhão ao ver uma expressão desaprovadora formar-se na face do aquariano. – Vamos lá, não me faça uma desfeita!
Camus hesitou um pouco antes de aceitar. Ainda precisava desculpar-se por ter sumido sem avisar, e aquele era um bom começo. – Está bem.
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