Risk.
21 Capítulo XVII – Uma Promessa.
Casa de Libra – Santuário, Grécia. 20h38, Segunda-feira.
Quantos dias haviam se passado, dois ou três? A verdade era que Shura havia perdido um pouco de sua noção de tempo. Na verdade, desde o fatídico acontecimento em sua própria casa – o qual envolvia o Cavaleiro de Sagitário –, estava na Casa de Libra. Por pura insistência do Cavaleiro de Dragão, claro, mas uma parte de si também queria estar lá – aquela parte que desejava estar longe de tudo o que poderia fazê-lo recordar-se de Aioros.
Havia outro ponto; Shiryu. Sim, o chinês era extremamente atencioso. Atencioso ao ponto de ser possessivo, tanto que durante aqueles três dias – sábado, domingo e segunda –, Shura não havia colocado os pés para fora da Sétima Casa. Shiryu não o deixara sair. Não que o capricorniano se importasse com tal coisa, achava uma graça o modo como o libriano o tratava.
Estava próximo das vinte e uma horas, os dois cavaleiros haviam feito um lanche umas duas horas atrás, e nenhum dos dois sentia necessidade de um jantar. A temperatura havia caído bastante e as primeiras gostas d’água caíam do céu cinzento. Shiryu estava na cozinha preparando um chocolate-quente, estava passando dias ótimos na companhia do Cavaleiro de Capricórnio, aliás, continuava sem frequentar o colégio, Mu havia desaparecido! Depois de bater o leite quentíssimo com uma barra de chocolate e mais alguma outra coisa, para deixar a bebida cremosa, encheu duas canecas e foi para a sala. Shura estava sentado no sofá, as pernas cruzadas na posição de índio e cobertas com uma manta. Shiryu sentou-se do lado do mais velho, entregando-lhe uma das canecas, então pegou um livro e começou a estudar.
O espanhol bebericou um tanto do chocolate-quente, estava muito bom. Lançou um olhar para o chinês, curioso em relação ao livro. – O que você tanto estuda? – Perguntou, aproximando-se do mais novo.
Shiryu deixou que ele lesse um pouco do conteúdo de seu livro; algo que envolvia sociologia, questões de violência, etc. – Sociologia é a matéria do dia.
– Você já não deveria estar frequentando as aulas?
– Bem, eu estava estudando na China, né. – Respondeu-lhe, logo suspirou, realmente, Dohko só o metia em encrencas e complicava sua vida. – O Dohko me matriculou em algum colégio daqui, mas você tem noção de como ele é; ele some com o Shion! – Soava bastante incomodado. – Então deixa o Mu responsável... E o que acontece? O Mu também some!
Shura soltou uma leve gargalhada. – Acalme-se, tenho certeza que logo algum dos dois vai lhe deixar a par da sua situação.
– Tsc. – Sabia que algum deles iria informar-lhe, mas quando? Era de sua vida que estavam falando, e era muito fácil sumir e deixá-lo sozinho com os problemas. Respirou fundo, olhou para o outro cavaleiro de relance, percebendo que ele já havia terminado de beber. – Estava bom?
– Estava ótim-
A voz do capricorniano foi entrecortada pelo som de uma trovoada. Olhou para a janela, podia ver claramente as milhares de gotas de chuva, caindo rapidamente. Então tornou a olhar para o chinês; ele estava atônito, o livro havia caído de suas mãos e uma clara expressão assustada havia preenchido sua face, que normalmente era muito tranquila.
Ora, aquilo era engraçado. E Shura não pôde conter a gargalhada que se sucedera. – O poderoso Cavaleiro de Dragão, aquele que lutou contra os Cavaleiros de Ouro, enfrentou deuses, e voltou diversas vezes dos Portões do Inferno... Com medo de trovões? – Zombou-lhe, rindo novamente.
A expressão do chinês logo mudou de assustada para emburrada. Encarou o mais velho que ainda ria, mas logo desviou o olhar, enrubescendo. Shura havia parado de rir, encarava o mais novo agora.
– Vem cá. – Sua voz tornou-se gentil, como sempre fora. Então ergueu o braço, passando-o em volta do mais novo. Puxou-o para perto de si, o envolvendo num abraço.
Com certeza o ar não havia chegado aos pulmões do chinês, tampouco seu coração bombeara o sangue devidamente, sentira-o falhar, sentira tudo falhar. Estava há três dias na companhia de Shura, e em toda a sua vida, jamais havia ficado próximo dele – não de um modo tão espontâneo. Ergueu um pouco rosto, sentia a face esquentando cada vez mais. E sentira algo mais; o ar quente que vinha da respiração do mais velho, o odor de seu perfume, tão discreto quanto o mais velho poderia ser. Fechara os olhos; sentir, precisava apenas sentir.
Sentir os lábios dele de encontro aos seus.
Um segundo, dois segundos? Talvez nem o tempo suficiente entre uma batida e outra de seu coração. Shura recuou, agora era ele quem estava com uma expressão assustada. Afinal, por que diabos havia feito aquilo? No que diabos estava pensando ao fazê-lo? Levantou-se, cambaleando um pouco. Pensou em dizer algo, mas nada saíra de seus lábios, então correu em direção da porta, abandonando a Casa de Libra. E correu mais ainda, subindo as escadarias, distanciando-se o máximo que podia.
~
Camus seguiu descendo as escadarias de mãos dadas com Saga, estavam indo à Casa de Escorpião, para um repentino jantar. Milo andava um pouco mais a frente, a verdade era que o geminiano não havia gostado nem um pouco da ideia, e o Cavaleiro de Escorpião estava tentando dar-lhes algum espaço para que o aquariano o convencesse a aceitar o jantar. Apesar de Camus não estar tentando fazê-lo. Seu coração ainda estava disparado e apesar da aparente calma, ele estava nervoso e confuso por dentro. Ah, Milo confundia sua cabeça, confundia-o com aquele belo sorriso, com aquelas palavras: Eu estarei aqui para você, como sempre estive. E sempre estarei. Levou a mão a região do coração, como se pedisse para que ele se acalmasse.
– Vamos voltar para Aquário. – Saga disse baixo, havia parado de andar ao ver aquele gesto do francês.
– Tsc. – Camus puxou-o, forçando-o a caminhar. – Você disse para mim que havia falado com Kanon. – Falou baixo também.
– E daí? – Como de costume, o geminiano já estava começando a ficar histérico. Não importava o que ele disse ou deixou de dizer, apenas não queria ir jantar na casa de Milo.
O francês lançou-lhe um olhar desaprovador, já estavam bem próximos de seu destino. – Não seja cagão, Saga.
O Cavaleiro de Gêmeos estava pronto para dar-lhe uma resposta, mas acabou sendo interrompido. Alguém havia esbarrado nele. Pessoa que provavelmente estava com muita pressa, ninguém subia aquelas escadarias correndo; gerava muito empenho.
– Shura!
– A-ah, desculpe... – O capricorniano rapidamente se desculpou. Parecia bastante perturbado.
– Por que tanta pressa? – Perguntou o geminiano, já estava achando o outro cavaleiro muito estranho.
Shura demorou-se um pouco para responder, obviamente não iria contar-lhes o que acontecera. – É que... A chuva!
– Exatamente por isso você não deveria ficar correndo. – Disse Camus, estava claro que o Cavaleiro de Capricórnio estava mentindo, mas sua vida não dizia a respeito de nenhum dos três, Shura não lhes devia explicações. – Isso aqui fica bem perigoso quando molhado, você não quer levar um tombo e rolar escadaria abaixo. – Sua voz tinha o mesmo tom, mas soava como uma bronca. Afinal, Camus era sempre a voz da razão.
O espanhol apenas coçou a cabeça, levar uma bronca do francês era um tanto constrangedor.
– Ei, Shura! – Dessa vez era a voz de Milo. – Estávamos indo jantar lá em casa, quer vir conosco?
Ele analisou um pouco os três, logo concluindo o intuito do jantar. – Eu deveria levar um namorado também?
O Cavaleiro de Escorpião soltou uma gargalhada sonora, e também fora o único a achar graça.
– Melhor não. – Voltou a falar. – De qualquer forma, obrigado pelo convite, Milo. – Então despediu-se dos três e voltou a subir – agora com mais calma – para Capricórnio.
Estava realmente começando a chover, e mesmo que estivessem bem próximos de Escorpião, era melhor se apressarem. Chegando à entrada, Milo abriu a porta, entrando com um sorriso vitorioso. – Querido, cheguei! – Sorriu ainda mais ao ver o mais velho retribuir-lhe o sorriso. – Ah, trouxe o Camus e o Saga para jantar.
O sorriso do geminiano morreu ao ouvir o nome do casal vinte do Santuário, ele passou rapidamente pelo namorado, largando um pano de prato e uma colher de pau em suas mãos. – Termine isto aqui, eu vou me trocar. – Disse, indo para o quarto vestir uma roupa mais adequada que a atual bermuda surrada.
Entrou no cômodo e fechou a porta atrás de si. Deu um soco na parede, não suficientemente forte para quebrá-la, apenas um pouco para descontar sua raiva. Substituiu a mão pela sua testa, ficou algum tempo com a cabeça encostada na parede fria. Merda, por que o imbecil do Milo tinha que trazer aqueles dois para cá?, perguntou-se. Sei que ele não fez por mal, mas continua sendo uma mula... Justo o Camus? E ainda tinha que trazer o Saga junto?
Desencostou-se da parede e abriu o armário, pegou uma boxer preta, uma calça jeans e uma blusa de manga-comprida verde escuro. Tirou a bermuda que usava e vestiu a roupa íntima e a calça. Dirigiu-se ao banheiro da suíte então. Olhou-se no espelho, até que não estava tão mal visualmente falando, seus cabelos estavam um pouco desalinhados e a expressão cansada, mas continuava muito bonito, como sempre fora. Incrível como só a menção do nome do próprio irmão o desgastava mais do que horas de treinamento. Lavou o rosto com água gelada e ficou olhando para si mesmo.
Iguais, mas completamente diferentes.
Secou o rosto e foi terminar de se vestir. Saiu do quarto exibindo um sorriso simpático e completamente falso – mas ninguém perceberia isso. – Então, garotos, querem um vinho? Ou preferem outra coisa? – Perguntou, juntando as mãos e falando da forma mais alegre que pudesse fingir.
– Pode ser vinho. – Respondeu Camus, ele havia se sentado no sofá, junto do companheiro, ambos ficaram fitando o nada, completamente deslocados.
Kanon surgiu com uma garrafa de vinho tinto seco – uma que havia encontrado no armário – e depois pegou taças para o casal, para si mesmo e também para o parceiro. Serviu Milo primeiro, já que ele estava na cozinha, terminando o jantar. Então entregou as taças para o casal, sentando-se ao lado do francês e degustando a própria bebida. Bebia para não ter que conversar, pois sabia que não possuíam nenhum assunto em comum.
– O jantar está quase pronto, creio que não demora mais do que quinze minutos! – Milo disse, encostado no batente da porta da cozinha observando o trio – sem perceber o quão deslocados os três estavam. – Camus, você não quer fazer uma sobremesa?
Camus rapidamente se levantou, era uma ótima ideia – vinda de Milo então. Queria fazer alguma coisa, não aguentaria ficar muito tempo no meio daquela tensão fraternal que exalava dos gêmeos. Aliás, os dois precisavam conversar um pouco.
– Tem material para mousse ou pudim, o que prefere? – Perguntou, visivelmente animado com a ideia de uma sobremesa feita pelo aquariano.
– Mousse é mais rápido. – Disse, entrando na cozinha, praticamente esbarrando no outro cavaleiro, que permanecia encostado na porta.
Encararam-se durante uns poucos instantes; também havia uma tensão entre eles, algo que estavam tentando ignorar. – Bom, vou voltar a fazer as coisas aqui. – Milo disse, voltando-se para as panelas.
O francês agia como se estivesse em casa, abria os armários e pegava os materiais ajeitando-os em cima da bancada. Era natural para ambos agir assim, Milo fazia a mesma coisa quando estava em Aquário.
– Milo, onde está o liquidificador? – Não estava conseguindo encontrar o aparelho, mesmo que houvesse aberto todos os armários várias vezes.
– Ele está aqui... Ou deveria estar. – O escorpiano agachou-se ao lado do francês, que inclinou-se também, para ver o que havia dentro do armário. Milo remexeu tudo, procurando o aparelho sem sucesso. – Ah, lembrei! – Levantou-se de supetão, esbarrando no amigo, fazendo-o escorregar no piso molhado da cozinha e cair no chão. O grego não sabia cozinhar sem fazer bagunça. Foi tentar ajudá-lo a levantar-se, mas acabou por cair também.
Cair exatamente em cima de Camus.
Ambos ficaram parados naquela posição estranha – um sobre o outro –, encarando-se. Era uma situação, no mínimo, constrangedora para os dois, mas ao mesmo tempo, gostavam do contato corporal que estavam tendo.
Milo sabia que deveria se levantar, mas não conseguia desviar o olhar dos olhos do francês. Aquela profundidade; era como um ímã. O corpo dele colado ao seu, era a melhor sensação do mundo. Poderia ficar ali para sempre, apenas sentindo aquele calor que emanava do suposto homem mais frio do Santuário. Aproximou mais seus rostos, podia sentir a respiração entrecortada do aquariano. Não conseguia pensar em nada além de beijá-lo, e estava se controlando ao máximo para não fazê-lo, tentando organizar seus pensamentos e citando mentalmente mil motivos para não beijar o francês. Mesmo que Camus fosse completamente irresistível.
Foi retirado de seu transe pela campainha do fogão, avisando que a carne já estava no ponto. Arregalou os olhos, vendo o que estava prestes a fazer. Levantou-se sem graça, oferecendo a mão para ajudar o outro cavaleiro a fazer o mesmo. Estava rubro, por isso virou-se para mexer no forno. Não queria que Camus lhe visse assim.
Enquanto isso, Kanon ligara a televisão; brincava com o controle, mudando de canal freneticamente, ou desbravando o menu e todas as opções inúteis tanto da TV, quanto da TV à cabo – acabando por deixar num filme pornô, mudo e legendado. Lançou um olhar de esguelha para o irmão; este estava sentado de um modo bastante resignado, a postura ereta e as pernas cruzadas, fitando o desconhecido. Saga vestia uma calça xadrez escura, uma regata e um moletom aberto – ambos pretos – por cima, além de tênis; estava despojado, e suas vestes não combinavam com aquela postura séria. Ele soltou um breve suspiro ao ver o filme que o mais novo escolhera.
– Adoro os pornôs desse canal. – Disse ironicamente. – Esses morenos grandalhões se pegando de jeito e-
– Tire disso, Kanon. – Interrompeu-o, ordenando que mudasse de canal.
– Você deve ter algum problema, Saga. – Falou, jogando o controle para trás do sofá. – Até parece que nunca comeu um macho na vida...
– Você me enoja. – A voz soou baixa e rude, odiava aquele jeito imbecil do mais novo.
Kanon fez uma cara feia, torcendo o rosto. Ficou em silêncio durante uns poucos instantes, voltando a falar do mesmo modo despreocupado e sacana. – Camus surtou, né? – Lançou um olhar para a cozinha, logo avistando os outros dois se divertindo enquanto cozinhavam. Aquilo o irritou. – Acho que é a convivência contigo, qualquer um acaba enlouquecendo.
Saga bufou de raiva – já era fácil tirá-lo do sério, mas Kanon era especialista nisso –, ergueu o punho, acertando rapidamente a face do irmão. O mais novo recuou, levou a mão à face, apesar de não estar surpreso, conhecia tão bem o irmão mais velho, que já esperava esta atitude dele. Então praticamente pulou em cima de Saga, rolando junto dele para fora do sofá. Caíram no chão, não pareciam estar brigando, e sim se embolando, rolando de um lado para o outro.
Milo avistou-os da cozinha, achara engraçada a brincadeira, então chamou Camus dizendo. – Olha que bonitinho, eles estão brincando de lutinha. – Apontou para os dois sorrindo, como se aquela cena fosse a coisa mais fofa do mundo. O aquariano apenas soltou um suspiro, cobrindo a face com a mão.
Kanon parou em cima do irmão, com uma perna de cada lado de seu corpo, segurando seus pulsos acima de sua cabeça, praticamente imobilizando-o. Sangue escorria de sua boca, e Saga virava o rosto, como se não quisesse ser atingindo. Debatia-se tentando soltar-se – coisa que só fazia o mais novo rir mais. Então Kanon abriu a boca, aproximou os rostos, deixando fios de sangue e baba escorrerem.
– Ai, que nojo, Kanon! – O mais velho tentou conter a voz, mas não conseguiu. – Saia, saia de cima de mim!
O gêmeo mais novo limitou-se a rir – e a continuar babando sangue no irmão.
– Saia de cima dele, Kanon. – Dessa vez era a voz de Camus, estava passando segurando alguns pratos, iria arrumar a mesa.
A contragosto, Kanon obedeceu a ordem do aquariano. Levantou-se, limpando a baba em seu rosto, e foi para a cozinha à procura do namorado. Camus deixou os pratos na mesa e foi ajudar o outro geminiano a se levantar. A expressão de Saga estava péssima, e com certeza estava prestes a ter um surto. O francês poderia jurar que seus cabelos estavam com um tom prateado nada costumeiro.
– Desfaça essa cara, Saga. – Ordenou-lhe, pelo bem da humanidade.
O Cavaleiro de Gêmeos bufou de raiva, mas não disse nada, apenas cruzou os braços e ficou torcendo para que o jantar fosse o mais breve o possível. Acabou por ir ajudar o aquariano a arrumar a mesa. Enquanto Milo e Kanon colocavam as comidas no centro da mesa. Todos sentaram-se ao lado de seus respectivos parceiros. O escorpiano cortou a carne e serviu a todos, enquanto o geminiano mais novo tornava a servir o vinho. E, apesar da bagunça, a comida de Milo era muito saborosa.
– Então... – Como sempre, era a voz de Kanon, soando habitualmente sacana. – Há quanto tempo vocês estão se aguentando... Digo, estão juntos? – Perguntou, sorrindo de um modo bastante cínico para o irmão, que estava a sua frente.
Antes que Saga pulasse em cima do mais novo e o matasse, Camus respondeu-lhe. – Estamos nos aguentando há mais de quatro meses, Kanon. – Lançou um olhar para o geminiano ao seu lado; parecia mais calmo. Então olhou para Milo, arrependendo-se do que havia dito.
– Quatro meses? – Repetiu, fingindo ser uma grande surpresa – e talvez fosse. – Se eu estivesse vivo há mais tempo, com certeza estaria mais de quatro anos com o Milo. – Virou-se, beijando o namorado na boca. – Camus sabe, né? Milo é maravilhoso.
O escorpiano ficou visivelmente rubro, ria do mais velho. – Você exagera.
Continuaram a jantar, e mesmo que o geminiano mais novo fizesse alguns comentários desagradáveis, Milo soltava algumas piadinhas que amenizavam toda aquela tensão, conversando animadamente. E depois de finalizarem a segunda garrafa de vinho e acabarem de jantar, alguém teve a brilhante ideia de abrir uma garrafa de whisky. É claro que Camus e Saga não pretendiam ficar para beber mais, o problema era que a chuva não cooperava, estava aumentando cada vez mais, assim como os raios e trovões.
Um Cavaleiro de Ouro certamente poderia enfrentar uma tempestade com muita facilidade, mas era um risco que não valia a pena. Então, antes que o casal convidado pudesse se pronunciar, aconteceu algo inesperado, mas muito previsível, devido a chuva; a energia acabou. O Santuário era um tanto afastado da capital, além de ser uma instalação muito antiga, provavelmente levariam mais de um dia para fixar o problema dos cabos elétricos. Se o fizessem.
Durante uns poucos instantes, os quatro cavaleiros ficaram em completo silêncio, com o som da chuva e das trovoadas acompanhando suas respirações.
– Deve ter uma vela em algum lugar. – A voz do escorpiano soou bastante pensativa. Levantou-se, esbarrando na mesa e logo em seguida, tropeçando em algo. Tateando as paredes, chegou até o móvel da sala, encontrando velas e fósforos numa das gavetas. – Eu disse! – Acendeu uma das velas, logo iluminando o local, com um sorriso vitorioso nos lábios.
Kanon bateu palmas. – Ótimo, agora teremos um jantar à luz de velas.
Milo riu. Aliás, ele era o único que via graça nas piadas que o geminiano mais novo contava. Virou o rosto analisando o outro casal; os Cavaleiros de Aquário e Gêmeos continuavam extremamente sérios e quietos – deslocados seria a melhor palavra. O francês estava batendo na mesa com as pontas dos dedos, de um modo freneticamente sincronizado. Logo o grego ao seu lado, colocou a mão sobre a dele, lançando-lhe um olhar que o próprio Milo não conseguiria descrever. E Camus retribuiu o olhar de um modo delicado, apertando a mão do mais velho entre a sua.
Realmente, eles fazem um belo casal.
Perdido nesses pensamentos, o escorpiano foi surpreendido por Kanon, que o abraçou murmurando algo em seu ouvido. Não havia compreendido de primeira, mas o mais velho parecia um tanto preocupado. Ele beijou o menor no rosto, então largou-o e foi para a cozinha, voltou com uma vasilha cheia de cubos de gelo e uma garrafa de whisky em mãos.
– Vamos abri-lo! – Disse bastante animado, mostrou a garrafa para o parceiro, como se pedisse permissão. Milo sorriu de um modo aprovador.
– A gente deveria deixar isto para outra hora... – Murmurou Saga.
– Não seja estraga-prazeres, Saga! – Retrucou o irmão.
Camus fitou a garrafa – agora nas mãos do escorpiano –, reconhecendo-a de imediato. O whisky escocês, envelhecido trinta anos em barris de carvalho Jerez, que provavelmente lhe dava um sabor suave e marcante. – Você tem certeza? – Perguntou, havia colocado a mão sobre a de Milo automaticamente, não eram apenas aquelas características singulares que tornavam a bebida especial.
Lembrava-se de uma noite, anos atrás, quando Milo completara seus dezoito anos. Ele havia contado ao seu Mestre sobre a noite em que pegou uma de suas garrafas de bebida, e tomado-a junto de seu melhor amigo em um canto qualquer. Esperava uma levar uma bronca, mas seu Mestre apenas riu, afastou-se, então pegou algo num dos armários e entregou ao aprendiz.
– Agora você é um homem. – Disse-lhe do mesmo modo sério que costumava falar, ele sempre havia sido muito rígido. – E está livre para fazer o que bem entender. – Colocou a mão no ombro de Milo, observando sua expressão bastante assustada, ele fitava surpreso a garrafa de whisky que acabara de ganhar. – Como um Sagrado Cavaleiro de Athena deverá privar-se de muitas coisas, terá seus deveres e responsabilidades... Decisões a tomar. – Suspirou, esboçando um leve sorriso, que deixava as linhas de seu rosto marcadas. Estava velho. – Mas nunca se esqueça que antes de ser um cavaleiro, você é um ser humano. Ame o mundo, ame tudo o que há nele. – Afastou-se, abrindo os braços de maneira grandiosa. – Nunca recue, nunca abandone suas obrigações, seus sonhos ou aqueles que você ama. E viva plenamente cada um de seus dias, experimentando de tudo que o ato de viver pode lhe proporcionar. – Parou de falar, analisando o aprendiz, como se pela última vez. – Prometa-me.
Era uma promessa. E depois de todas aquelas palavras, Milo não o vira mais. Aquele foi seu último, e mais sábio ensinamento.
– Meu mestre me presenteou com isto antes de ir embora. – Disse com um meio sorriso nos lábios. – Ele me deixou esta casa, e a Armadura de Escorpião... – Sua voz soou bastante triste. – E deixou-me estes ensinamentos. – Voltou a sorrir. Precisava cumprir aquela promessa que fizera anos antes. – Bem, nós estamos aqui. E estamos vivos novamente. – Abriu a garrafa e despejou o líquido em cada um dos quatro copos. – Estou feliz por tê-los comigo aqui, esta noite. – Passou o braço em volta do namorado, beijando-lhe a face. Então ergueu o copo. – Isso merece uma comemoração, um brinde com algo especial!
Todos os outros três fizeram o mesmo, ergueram seus copos ao alto e brindaram. Brindaram os simples fato de estarem vivos.
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