Risk.

16 Capítulo XIII – Confusões.


Santuário, Grécia. 18h40, Sexta-feira.

A maior parte dos Cavaleiros de Ouro havia se decidido por não interferir naquela suposta luta de Camus com Hyoga. E mesmo que todos tivessem ido interferir, as coisas teriam acabado rapidamente daquela mesma forma. Ignorando o que aconteceu, todos se dispersaram e acabaram por ir voltando para suas respectivas casas calmamente. Shura estava perto de sua casa quando Saga passou, praticamente carregando Camus em direção à Aquário. O capricorniano até pensou em dizer algo, mas era melhor deixar o geminiano resolver aquilo, outra hora iria conversar com os dois. Olhou para Saga, e naquele momento soube que ele iria cuidar muito bem do francês, então fez um sinal com a cabeça para que continuasse. Virou-se, e teria seguido em frente se não tivesse alguém em seu caminho.

– Posso falar com você agora?

Shura arregalou os olhos ao vê-lo, não falara com ninguém na reunião, porque chegara atrasado. Depois houve toda aquela confusão. E mesmo assim, isso não era desculpa. Aioros estava ali, parado a sua frente. Não haviam se falado nenhuma vez há mais de quatro meses. Shura fugia, evitava-o o máximo que podia e quando este batia a sua porta, mandava alguém dizer que não estava. Infantil? Com certeza. Mas o espanhol não tinha ideia de como faria, o que falaria, quando tivesse de encarar o Cavaleiro de Sagitário, não depois de tudo o que fez.

E adiava esse momento o máximo que podia.

– N-não, Aioros, eu não... – Murmurou aquelas palavras, tentou passar pelo grego, sentindo a mão dele em seu braço. – Não! – Gritou, empurrando-o para longe.

Aioros caiu sentado no chão, o Cavaleiro de Capricórnio entrou em casa antes que o sagitariano pudesse reagir. O grego não entendia o que estava havendo. Se tinha feito algo de errado, não sabia. Gostava muito de Shura, queria vê-lo, conversar com ele, mas tudo que o capricorniano fazia era fugir. Atitudes que não só entristeciam o sagitariano, mas que o irritavam de uma forma descomunal.

– Desista. – Disse Aiolia, estendendo a mão para o irmão se levantar.

– O que...? – Pegou na mão do irmão e se levantou.

– Eu estou há mais de quatro meses vendo você correr atrás do Shura, Aioros. – Ele cruzou os braços, indicando a Casa de Capricórnio com a cabeça. – E, na boa, você está se fazendo de otário. – Suspirou ao ver a careta que o mais velho tinha feito. Aquela péssima mania do leonino de ser extremamente sincero em momentos inoportunos fazia Aioros torcer o nariz. – Ficar de um lado para o outro atrás do seu próprio assassino é, no mínimo, uma coisa muito imbecil.

– Não se meta nisso, Aiolia. – Retrucou bastante ríspido.

– Aioros, pelo amor de Athena, ele não te merece! – Insistiu ao vê-lo afastar-se.

– Eu resolvo isso sozinho, Aiolia. Não se meta! – Ordenou, continuando a descer as escadarias, logo estaria em Sagitário. – Eu resolvo isso sozinho...


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Milo não conseguiu controlar sua fúria ao entrar em casa. Não abriu a porta, socou-a violentamente, fazendo-a voltar em sua direção, batendo em seu rosto com a mesma força. O escorpiano xingou algo, que soou abafado, afinal, havia se machucado, estava com a mão no nariz, cobrindo também a boca. Olhou para dentro da casa, logo avistando o geminiano que assistia à televisão tranquilamente. Kanon virou o rosto, olhou rapidamente para a porta, depois para o dono da casa, então, voltou-se para o aparelho, como se ele não estivesse ali.

– Se a casa fosse minha, certamente não ficaria tentando destruir as portas. – Disse um tanto baixo, não tinha certeza se Milo o escutara. – E se fosse você, não ficaria tentando quebrar meu próprio nariz.

Certamente Kanon havia ouvido uns gritos junto de outros barulhos estranhos lá fora, mas os barracos do Santuário não eram de seu interesse. Não achava necessário descobrir o que se passava, então, manteve-se em casa, ocupado com coisas que também julgava inúteis, mas que lhe interessavam mais. Sabia que Milo iria lhe contar o que aconteceu, mas estranhava o fato de ele estar nervoso e completamente calado. Voltou o olhar para o mais novo, mesmo com ele cobrindo o rosto com a mão, Kanon pôde ver que ele estava vermelho, ao julgar pelos movimentos de seu peito, respirava com dificuldade. Parecia bem mais irritado, entretanto, estava lacrimejando.

O geminiano levantou, soltando um suspiro pesado, havia alguma coisa muito errada. Sabia que havia. Foi até o banheiro e pegou algodão e antisséptico. Voltou-se para o mais novo, afastando a mão dele, limpou o sangue que estava escorrendo.

– Segure isso. – Ordenou. Este obedeceu rapidamente, então Kanon voltou a falar. – O que você tem?

Milo mordeu o lábio inferior, arqueando as sobrancelhas, o que lhe deu uma aparência frustrada. – O Camus surtou lá fora, começou a bater no moleque e de repente estava gritando e quebrando tudo e... – Parou de falar, meio engasgado, o sangue pareceu lhe subir rapidamente. – E O SEU IRMÃO...! – De repente ergueu a voz. – ELE BEIJOU O CAMUS! – Disse, como se um beijo fosse uma catástrofe do nível de uma Guerra Santa. – COMO ELE PÔDE FAZER ISSO? QUEM ELE PENSA QUE É?! – Continuou esperneando, enquanto o mais velho lhe observava com uma calma e indiferença impressionante. – O CAMUS NÃO É UM HOMEM PARA ELE! ESSE SAGA É MUITO ABUSAD-

– Você é um bunda-mole mesmo! – O mais velho se afastou, começando a andar pelo cômodo, parecendo um pouco mais perturbado. – O Camus é homem para quem, então? Para você? Deveria ter dito antes para ele, que o amava! Ao invés disso fica aí se lamentando, esperando a merda do mundo girar, como se muita coisa fosse acontecer! – Respirou fundo, passando a mão de leve nos cabelos. – Pelo menos meu irmão não é um mané que nem você!

O escorpiano ficou visivelmente chocado. Não tinha resposta para aquilo. Kanon simplesmente tinha razão; Milo nunca chegou nem perto de dizer para o aquariano o quanto o amava. Talvez, se tivesse mencionado esse amor antes, Saga não estaria com o francês agora. Talvez, Milo estivesse o acalmando, beijando-lhe e lhe dando o apoio e o carinho necessário. Talvez. E talvez era sempre muito incerto. Voltou a si, percebendo que Kanon estava calçando os tênis, ele se ergueu, pegando um casaco.

– Aonde você vai? – Perguntou, largando o algodão. Deixando o sangue voltar a escorrer.

– Segure isso direito, está sangrando! – Ordenou novamente, vendo o mais novo obedecê-lo da mesma forma. Tentou sorrir, mas parecia decepcionado. – Eu vou caminhar um pouco. – Passou pelo mais novo rapidamente, quase esbarrando nele, então abriu a porta. – Sabe, eu gosto de você. Eu sei que você ama o Camus, mas... – Baixou a cabeça, como se pensasse se realmente deveria dizer mais. – Pega leve comigo, certo? – Fez aquele pedido, então saiu, fechando a porta cuidadosamente.


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Passava das dezenove horas quando Shun chegou ao apartamento de Hyoga, havia passado com dificuldade pelas velhas escadas e o corredor sujo e estreito, mas nada se comparava com a moradia do russo. Inabitável era a palavra correta. Não tinha ideia de quanto tempo aquele lugar não recebia uma boa limpeza; ao começar pelas janelas engorduradas – não era possível ver através do vidro –, o chão era um mistura de pó, gordura e lixo, restos de comida e embalagens velhas, sem contar as roupas espalhadas – meias e cuecas, principalmente –, bitucas de cigarro e garrafas de bebida. Aquilo sim era um muquifo.

O virginiano respirou fundo, já estava começando a ficar histérico – sujeira o irritava muito, mas devido a situação do homem em seus braços, era melhor tentar ignorar. Com calma, foi até o banheiro, precisava dar-lhe um banho. Livrá-lo de todo aquele sangue, suor, terra e pó. Errou a primeira porta, encontrando a correta no final do corredor, próximo ao quarto. Despiu o loiro e enfiou-o dentro do boxe. Não havia banheira, então a missão seria mais complicada do que imaginara. Shun tirou os sapatos arregaçou as calças e retirou a camiseta – não queria molhar as roupas. Então abriu o chuveiro, pôde ouvir o russo resmungar algo ao sentir a água em seu corpo, mas depois ele continuou quieto, de olhos fechados. Estava mole, e muito machucado, o que dificultava ainda mais o trabalho de Shun.

Mais de quarenta minutos de banho depois, Shun conseguiu secá-lo, enrolou-o numa toalha e levou-o para o quarto – que estava tão nojento quanto à sala, por sinal. Receoso, deitou o russo na cama, os lençóis brancos estavam amarelados já. Mas não podia arrumar tudo agora, precisava chamar um médico com urgência. Utilizando da internet em seu celular, encontrou um que atendesse em casa, discou o número e quando o doutor atendeu, explicou-lhe a situação, dizendo que era urgente. Levaria pelo menos uma hora para o médico chegar, enquanto isso, o japonês colocaria a casa em ordem.

Começou tentando juntar o lixo, quando se deu por conta, já havia enchido três sacos. Ao entrar na cozinha, teve um infarto. Havia mais louça suja do que jamais vira em toda a sua vida. Surpreendia-se com o fato de não ter visto nenhuma barata ou rato... Limpou os armários, então começou a lavar os pratos, secando-os e guardando-os, logo passou para os talheres e copos. O fogão estava intacto, ao contrário do micro-ondas que estava um completo lixo. Estava terminando de limpar a cozinha quando ouviu algumas batidas na porta.

Com certeza era o médico, correu para atendê-lo. Não sabia onde enfiar a cara, porque o apartamento continuava imundo, mas um médico também não deveria se importar com essas coisas. Eles se cumprimentaram cordialmente, o doutor aparentava uns cinquenta anos, mas parecia muito saudável, o bigode e as sobrancelhas grossas lhe davam um ar extremamente sério. Shun conduziu-o pelo corredor, levando-o para o quarto.

– O que houve com ele? – Perguntou, espantado com o estado do loiro.

– E-ele se envolveu em uma briga. – Shun respondeu meio sem jeito.

– Imagino que seja por causa de drogas. – O médico falava enquanto examinava Hyoga. – Vocês jovens... – Sentiu o pulso e a respiração. – Só aprendem quando chegam à situações extremas como esta. – Ele estava visivelmente aborrecido, mais alguns minutos de análise e a constatação. – Ele quebrou o braço, vou engessá-lo. – Começou a tirar alguns materiais da bolsa. – Os outros hematomas são superficiais. – Fez um sinal de aspas com os dedos na última palavra. Pegou uma caneta e um papel, começando a escrever algo. – Vou passar algo para a dor...

Shun ficou quieto, observava o médico atentamente enquanto ele trabalhava, engessando o braço e depois fazendo curativos nas outras feridas. Então, o homem guardou suas coisas de volta na bolsa, ajeitou a camisa. Entregou o papel ao japonês e saiu do quarto.

– Mas doutor...! – Disse indo atrás do médico. – Você não vai receber o dinheiro da consulta?

Ele parou furioso. – Eu não quero seu dinheiro que vem sujo do tráfico de drogas! – Cuspia enquanto falava. – Jovens como vocês não têm respeito pela vida! Não tem respeito por coisa alguma! – Suspirou, escolhendo bem as últimas palavras. – Eu faço isso, porque fiz um juramento. Se não, preferia vê-los apodrecer.

Então saiu, batendo a porta, deixando o Cavaleiro de Andrômeda pasmo. Como as pessoas eram preconceituosas, como poderiam julgar alguém que eles nem ao menos conheciam? Aquilo era um desaforo.

– Mas agora tudo vai ficar bem...


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Passava das vinte horas quando o telefone da Casa de Libra tocou. Shiryu estava lendo um livro, fazia algumas anotações num caderno. Na verdade, parecia estar estudando – mesmo falhando miseravelmente. Não que não entendesse a matéria, apenas havia acontecido tantas coisas naquele dia, que, mesmo se quisesse ou tentasse concentrar-se em algo útil – como estudar – não conseguiria. Já havia preparado um chá e tomado um banho. Mas não estava calmo. Estava preocupado com Hyoga e incomodado com Shun. E também tinha a porta! Ou o que restara dela... Precisava concertar aquilo logo, mesmo que fosse uma regra manter as portas destrancadas – como se convidassem o inimigo para entrar –, ele detestava aquele buraco na entrada.

Ele se levantou, espalhando as coisas pelo sofá, então atendeu o telefone. – Alô?

Shiryu? – Aquela voz, era impossível não reconhecê-la; a voz de seu Mestre. – É o Dohko, tudo bem?

– Dohko? Pelo amor de Athena, já passou mais de um mês...! – Era, no mínimo, cômico dar uma bronca no próprio Mestre. – Eu tenho que voltar a estudar! E você sabe disso.

Relaxa aí, moleque. – Dohko havia dito outra coisa, mas longe do telefone, então soltou uma leve risada. – Eu mudei você de colégio, o Mu não te avisou? Já deveria estar estudando inclusive.

– Mas por que eu sou sempre o último a saber?! – Perguntou irritado.

Eu sei lá. – O Cavaleiro de Libra não parecia muito preocupado, mas, no fim, cuidava muito bem de seu aprendiz. – Escute, eu ficarei fora durante mais um tempo. – Shiryu ouviu a voz de Shion, eles discutiram um pouco, então Dohko pigarreou, voltando a falar. – Você não está se metendo com nada indevido, está?

– Eu? O quê? – Pensou um pouco, era melhor não contar aquele infeliz episódio junto de Hyoga. – É claro que não! Por que está perguntando isso?

É bom mesmo! – Ele suspirou, pareceu aliviado. – Estamos investigando umas coisas sérias aqui, e eu quero que você se cuide muito bem e estude muito, porque esse ano é muito importante, depois tem vestibular e essas coisas aí, então... – Novamente a voz do antigo Cavaleiro de Áries, dizendo para o outro cavaleiro desligar. – Ouviu? Agora eu vou desligar, vamos pegar o avião... Até!

– Investigando um ao outro, só pode.

Não sabia se Dohko havia ouvido aquelas últimas palavras, mas ficava aliviado por ter resolvido pelo menos um de seus problemas. Pegou uma nova xícara de chá, então voltou para o sofá e seus livros. Mais tarde falaria com Mu – se o encontrasse, esse era outro que havia sumido faz mais de um mês.