Risk.

10 Capítulo VIII – Memórias


Notas iniciais
Divagações...

Casa de Áries – Santuário, Grécia. 23h51, Quarta-feira.

Mu estava sentado em sua cama, voltou para esta depois de atender Shiryu, o garoto estava aflito, contou-lhe o que houve com Hyoga, e o tibetano disse que daria um jeito de avisar Camus. Tentou contatá-lo com a ajuda de seu poderoso cosmo, mas o aquariano parecia fora do ar.

Então voltou para o seu quarto, pretendendo dormir após um pouco de leitura. Tentava ler O Ferreiro Sobrenatural, mas sua mente estava distante demais para prestar atenção naquele monte de palavras. Pensava em Shaka, porém, mantinha o livro aberto em seu colo. Há alguns dias não via o Cavaleiro de Virgem, não haviam brigado, nem cortado relações, mas também não precisavam ficar todos os dias grudados. Desde segunda-feira, quando finalmente ganhou uma partida de strip-xadrez, não falara mais com o virginiano. Talvez ele estivesse bravo, mas esse tipo de coisa não combinava nem um pouco com o estilo do indiano.

Pensou em falar com ele, mas ainda sentia que não era um bom momento. O Cavaleiro de Áries sempre fora um dos mais reservados entre os Doze Cavaleiros de Ouro, talvez perdendo para Camus e Shaka, mas nada tão além. Talvez por isso, preferisse ficar em casa, cuidando da própria vida, ao invés de incomodar os outros com pensamentos um tanto estúpidos. Não tinha motivos para estar brigado com Shaka, então não estava.

Mesmo assim, continuou pensando na tórrida amizade que mantinha com o Cavaleiro de Virgem. Aquele romance era recente, porém intenso e diferente. Não sabia explicar os motivos dessa diferença, talvez por parecer algo puro. Não havia espaço para ciúmes, briguinhas e essas coisas desnecessárias que sempre existem em um relacionamento. Na verdade, eles não possuíam um título oficial de relacionamento, eles estavam juntos, apenas. Não precisava de nada mais, nem nada menos. Era amor, em sua melhor forma. Sentiam-se completos juntos, e era isso que importava. Começou a se lembrar de como tudo isso começara.

Hades despertara. Saga, Camus e Shura haviam invadido o Santuário, tivera de lutar contra Deathmask e Afrodite, venceu-os, então teve de encarar seu Mestre, Shion. Obviamente não poderia fazê-lo. A tensão e o desespero ali eram grandes, mas ele se manteve firme. Primeiro, seu melhor amigo, Aldebaran, morrera. Não conseguira aceitar sua morte, mas nada se comparava ao que aconteceria quatro casas depois.

Desde a infância, sempre fora um bom amigo do virginiano marrento. Talvez pelos dois compartilharem algumas poucas manias, eles se identificavam. Essa amizade se manteve por todos os anos que se passavam, apesar do Cavaleiro de Virgem ser muito recluso, sempre arrumava um tempo para algum jogo de raciocínio, ou algum passeio por lugares calmos junto do ariano.

Nunca haviam tido nada de mais, nada além da amizade. Até porque seria muito estranho, uma pessoa querer se relacionar com a reencarnação de Buda, que deveria abster-se da vida material em busca da iluminação. Mesmo que pensasse em Shaka de outro modo – o que já era muito errado –, nunca poderiam ser felizes juntos. Era um fato e deveria aceitá-lo.

Mas, quando o indiano morreu, Mu não conseguira esconder o desespero que lhe assolava. Não era tão amigo de Shaka quanto de Aldebaran. Então por que a dor era tão maior? Simplesmente não fazia sentido, e não conseguia segurar as lágrimas, os soluços e a dor que lhe invadiam.

Encostou-se na porta que dava para o Jardim das Twin Sal, e chorou, chorou mais do que jamais havia chorado em toda sua vida, chorou mais do que aguentaria. Não precisava de um motivo, apenas queria ficar ali, tentando entender, sem precisar pensar em todo o resto. Entretanto, havia mais pessoas junto dele, cavaleiros que também haviam acabado de perder um companheiro no campo de batalha. E mesmo assim, Mu não conseguia parar, não conseguia se recompor.

– Mu, você está bem? – Perguntou Aiolia, estava preocupado com o ariano.

– Eu pareço bem? – Respondeu entre soluços, visivelmente irritado com a pergunta imbecil do outro cavaleiro.

– Você precisa se acalmar, o Shaka vai ficar bem, esqueceu quem ele é?

– Não, eu sei, mas não. ISSO NÃO PODE, É ERRADO, POR QUE ELE?!

– Ele é um Cavaleiro de Atena, do mesmo jeito que todos nós somos. Sempre estivemos preparados para morrer e ver nossos amigos morrerem, você sabe disso. – Fez uma pausa, dando um leve suspiro antes de continuar. – Todos nós estamos tristes, Mu. Sei que você era mais próximo dele do que qualquer um de nós, mas não é motivo para tanto.

– O SHAKA MORRE E VOCÊ DIZ QUE NÃO É MOTIVO PARA TANTO? VOCÊ TEM NOÇÃO DO ABSURDO QUE ESTÁ DIZENDO, AIOLIA?!

– Eu sei que é difícil, mas você se mostrou tão sóbrio e contido quando Aldebaran morreu, e todos nós sabemos que ele era seu melhor amigo, por isso não entendo esse escândalo por causa do Shaka. Tem algum motivo especial para isso?

– Não... Não sei, eu não consigo, eu não posso, não tem motivos, nunca, nada, mas, ele era meu amigo, eu... Eu não sei, por favor, Aiolia, pare, eu não posso... Eu não, eu nunca... Eu... Eu, Shaka, por que... – O ariano balbuciava palavras sem sentido, não conseguia completar uma frase sem soluçar.

O Cavaleiro de Leão desistiu, apenas abraçou o ariano, que parecia uma criança perdida chorando desesperadamente. Aquilo era muito estranho, o Cavaleiro de Áries sempre fora um homem calmo e contido. Nunca demonstrou muitas emoções, muito menos nenhuma fraqueza, era quase tão calmo quanto o próprio Cavaleiro de Virgem, e vê-lo perder essa calma era algo no mínimo perturbador.

Depois desse ocorrido, não sabia explicar nem para si mesmo os motivos de seu desespero naquele momento. E quando foram para o inferno, pôde sentir o cosmo de seu amigo, vivo, uma paz e ansiedade tomaram seu espírito. Não conseguia se concentrar nas lutas, o que rendeu muitos problemas para seus companheiros.

Quando chegou à Giudecca, e avistou Shaka, possuía apenas uma certeza: Não conseguiria viver sem a presença daquele loiro arrogante de novo. Precisava dele por perto, mesmo que fosse apenas numa casa próxima. O virginiano estava quase se matando novamente, Mu o impediu antes disto ocorrer. Simplesmente não poderia, não poderia vê-lo morrer mais uma vez.

Segurou sua mão e olhou em seus olhos, naquele momento, nenhuma palavra precisou ser dita, e nenhuma ação precisou ser feita. Eles sabiam. Eles sentiam. Tudo foi compartilhado, tudo entrou em perfeita harmonia. Parecia que, com apenas um olhar, eles podiam se completar.

~

Naquela mesma noite, Shaka viu-se pensando em Mu também. Claro, o ariano também estava pensando nele, podia senti-lo claramente. Estava tarde, e mesmo que o virginiano tentasse se concentrar para sua típica meditação, ele não conseguia. Simples lembranças invadiam sua mente, desconcentrando-o. O indiano sempre fora muito recluso, e a única pessoa que se aproximava dele sem receios, era o Cavaleiro de Áries, sempre, desde a infância. Ambos nutriam uma amizade muito forte, apesar de nunca falarem muito sobre si mesmos. Era silenciosa, mas fiel. Sabia que podiam contar um com o outro.

Pouco antes de se tornarem adolescentes, foram separados para treinamento, não eram tão grudados ao ponto de se desesperarem com isso, sentiam a falta um do outro, mas nada muito grande. E quando se reencontraram, eram jovens, estavam na melhor e mais complicada fase da vida, a adolescência. Nenhum dos dois havia mudado muito seu jeito de ser, continuavam calados, discretos e fechados.

Nessa época, começaram a passar bastante tempo juntos, não tanto quanto passavam na infância, mas o suficiente para restabelecerem aquela duradoura amizade.

Porém, naquele momento, muitos sentimentos começam a mudar, e muita confusão interna começava a acontecer. Shaka sentia isso na própria pele. Sabia de seu destino, sabia que deveria abster-se de todas essas coisas que fazem os humanos serem humanos. Materialismo, desejo, sentimentalismo. E sabia que o que nutria pelo seu amigo era errado, que deveria esquecê-lo, que deveria parar de ter pensamentos impuros com ele. O que possuíam era apenas uma bela amizade, nada mais. E o sentimento do ariano pelo virginiano era o mesmo. O Cavaleiro de Virgem nunca havia sentido nada, muito menos se relacionado com ninguém. E pretendia manter sua castidade pelo resto de sua vida.

Horas de meditação, e se afastar um pouco de seu amigo era o melhor remédio. Simplesmente não podia sucumbir a esses desejos. Muitas vezes sentia-se mal, sentia que tudo isso era apenas uma conspiração do universo para lhe destruir, às vezes sentia raiva, dor. Mas sempre conseguia controlá-las, e nunca demonstrar nada que sentia, principalmente na frente da pessoa a quem esses sentimentos eram destinados.

Muitas vezes, após uma partida de xadrez, ficava observando o ariano voltar para sua casa, tarde da noite. Gostaria de poder detê-lo dentro de si, trancá-lo dentro de seu coração apenas para poder senti-lo mais perto. Mas ele não poderia, ele não poderia ir para o mundo exterior. Tinha medo. Ele também não poderia vagar dentro de si mesmo.

Às vezes pensava que tipo de vida era aquela. Sempre preso dentro de um limbo emocional. Mas se segurava, se forçava. Até o dia de sua morte.

Sabia que era capaz de despertar o oitavo sentido, e voltar do mundo dos mortos. Mas nunca havia vagado por lá. Nunca havia entrado no Inferno, visto o sofrimento das pessoas, visto tudo aquilo que era capaz de acontecer. Pensava se o seu amigo estava bem, em meio aquela batalha. Mas se mantinha concentrado, forte e seguro, protegendo Atena. Porém, quando estava frente a frente com o Muro das Lamentações, viu que tudo havia mudado. Apenas aquele toque, aquele aperto de mãos, aquele olhar. Sabia que o ariano correspondia tudo que sempre havia guardado dentro de si. Tinha certeza, estava tudo claro como a água mais pura e cristalina que poderia haver no mundo. E mesmo assim, possuía dúvidas se poderia fazer isso. O Cavaleiro de Áries nunca o forçaria, nunca tomaria frente a nada; sempre o esperaria ver, entender e aceitar. Sempre deixava as decisões para si, talvez por respeito, talvez por medo, talvez por não saber o que fazer.

Tornaram-se mais próximos ainda, quando ressuscitaram. Mesmo sem palavras, nada sobre aquilo que ambos guardavam dentro de seus corações havia sido dito. Ainda. Mas ambos sabiam o que acontecia ali. Apenas não tomavam a frente, não se precipitavam. Aguardavam o momento perfeito. Sem afobações.

Havia pouco tempo que Atena os havia devolvido a vida, eles estavam no Santuário, que pouco a pouco estava sendo reconstruído. Shaka decidiu que iria fazer uma viagem, para um lugar bem longe e calmo. Mas não queria ir sozinho, gostaria de levar Mu. O Cavaleiro de Áries aceitou sem piscar, sabia que os dois precisavam de um tempo juntos, sozinhos. Para fortalecer seus laços fraternais, e resolver os sentimentos que bailavam em confusão dentro de seus corações.

Era um lugar totalmente deserto, não saberia dizer exatamente onde ficava, Shaka sempre sabia dos lugares mais belos e inóspitos possíveis. Deveria ficar perto do Mediterrâneo, não tinha certeza. Mas que era um lugar perfeito, isso com certeza era.

Era uma pequena casa de madeira, em meio a um deserto. Não havia nada em volta, apenas algumas árvores próximas. A casa dava de frente para um mar, não sabia se era realmente uma bacia oceânica, ou algum lago, só sabia que era grande o suficiente para que sua visão não alcançasse o outro lado, via-se apenas o horizonte. O tom da água era de um azul escuro forte, e pelo cheiro, dava para perceber que era mais salgada do que as águas de uma praia qualquer.

Adentraram o chalé, deixando a pequena mala que cada um levava lá dentro. Era tudo muito simples; não possuía energia elétrica, mas havia vários lampiões espalhados pelos cômodos. Havia uma pequena sala com um tapete fofo e algumas almofadas no chão, que ficavam de frente para uma lareira feita em pedras rústicas. A cozinha possuía apenas um armário, um fogão à lenha e uma pequena pia em pedra. O banheiro com uma daquelas banheiras com carvão embaixo e dois quartos, ambos com cama de casal baixa, feitas em madeira entalhadas à mão. A princípio, deixaram as bolsas na sala, mais tarde decidiriam em que quarto cada um ficaria. Mesmo que desejassem compartilhar o mesmo.

Havia uma pequena bancada de madeira na sala, dentro dela havia alguns jogos de tabuleiro, Shaka os mostrou, dizendo que poderiam jogar mais tarde. Afinal, jogos de raciocínio eram praticamente um vício para os dois. Desde que se conheciam por gente, viviam jogando juntos esse tipo de jogo, que pra maioria das pessoas é entediante, eles sempre viram como algo muito excitante.

Logo que deixaram suas coisas, resolveram dar uma volta na praia que havia em frente da casa. O clima estava ameno, nem quente, nem frio. Uma pequena brisa afagava-lhes os cabelos, e o pôr-do-sol era um espetáculo à parte.

Sentaram se próximos à água, e ficaram apenas observando a beleza do fim da tarde e a paz e tranquilidade que exalava daquele lugar. O ar puro, com um cheiro quase imperceptível de maresia invadia-lhes os pulmões, como se levassem embora qualquer rastro de energia negativa que se encontrasse dentro de si.

Mu estava com uma calça curta de algodão cru tingido em um tom de marrom, ela ia até um pouco abaixo de seus joelhos e uma camiseta estilo túnica de mangas curtas bege com a gola um pouco alta e alguns detalhes em um vermelho quase bordô, provavelmente do mesmo material que a calça. Já o virginiano, vestia uma calça comprida de algodão, branca e folgada, confortável como todas as roupas que costumava vestir, junto com uma bata masculina de mangas longas, com a gola bem decotada. Dava para enxergar perfeitamente a pele branca, e os músculos definidos do peitoral do cavaleiro.

Ambos estavam perfeitos ao olhar do outro. Sóbrios, confortáveis, distintos, à sua maneira.

O ariano deu a idéia de irem molhar os pés na água, o indiano pensou um pouco antes de aceitar. Ele iria se abaixar para dobrar as pernas de sua calça, mas o Cavaleiro de Áries o fez primeiro.

Estava com o joelho direito apoiado na areia, e dobrava a calça como se ela fosse do tecido mais delicado do mundo, como se adornasse a mais divina das criaturas, com uma calma e perfeição dignas de um pintor de quadros angelicais. Primeiro uma perna, depois a outra. Dobrou-as até a altura dos joelhos, levantando-se calmamente em seguida. Olhou para o virginiano e sorriu, ambos andaram tranquilamente com os pés descalços até a beira da água.

Ao contrário do que imaginavam; a água estava morna, na temperatura ideal. Andaram lentamente alguns metros em direção ao horizonte. Mu observava o indiano, seu rosto calmo e belo, com reflexos do tom alaranjado do sol, contrastando com seus longos cabelos dourados, o deixava ainda mais belo. As cores combinavam, era harmonioso, lindo. Não conseguia parar de admirá-lo. Parecia o quadro de um anjo, pintado pelo artista mais apaixonado, com as melhores tintas que poderiam existir. Não tinha como descrever, mas se tivesse que designar uma palavra para tal tarefa, essa seria a perfeição.

Porém, no caminho que Shaka trilhava, havia uma pedra, e ele tropeçou na mesma, caindo dentro da água, segurando no braço do ariano, levando-o junto. Os dois começaram a rir, pareciam duas crianças brincando no mar.

Momentos depois pararam de rir, ainda estavam ajoelhados, perigosamente perto um do outro. Mu só conseguia pensar no quanto o virginiano ficara ainda mais belo molhado. Ficou admirando-o, sem se preocupar com o que o outro pensaria, ele apenas não podia evitar. Saiu de seu transe quando o outro cavaleiro começou a falar.

– Sabe... – Começou sem jeito, parecia não estar muito seguro do que estava falando. Mu nunca havia visto o indiano falar daquela maneira, mas não o interromperia, apenas aguardaria o que ele tinha a lhe dizer.

– Hm...

– Eu sou tão santo quanto eu poderia ser, mas... – Desviou o olhar dos do tibetano, olhando para a água e suspirando, antes de continuar. – Eu tenho medo. Às vezes é difícil lidar com esse tipo de coisa, com esse tipo de vida. – Olhou para o sol que sumia no horizonte, continuou. – Eu sempre fugi, sempre busquei o melhor para meu destino, sempre me privando de tudo. Mas quando eu... Morri, pude ver muitas coisas que nunca havia visto antes. Eu olhei para dentro de mim mesmo, e vi que havia algo que não deveria ser contido. -– Voltou a olhar nos profundos olhos verdes do ariano, analisando todos os detalhes de seu rosto antes de prosseguir. – Às vezes eu queria apenas poder sentir o que pode ser sentido, tocar o que pode ser tocado, fazer o que pode ser feito, como uma pessoa normal. Viver, experimentar, amar como uma pessoa normal, sem o peso da santidade em suas costas...

Apoiou a mão direita na face do homem à sua frente, acariciou seu rosto, descendo os outros dedos ao seu pescoço, arranhou levemente com as unhas um pouco compridas. Mu sentiu um arrepio subir por todo o seu corpo. Shaka o havia feito sem malícia, sem perceber. A pele pálida do tibetano era tão macia e quente, os fios cor de lavanda de seus longos cabelos pareciam finos fios de seda. O virginiano sentia como se acariciasse a mais bela flor que poderia haver no mundo, delicada, bela e misteriosa. Sorriu levemente com o próprio pensamento.

Então voltou a falar. – Mas eu descobri, que para ser o que quero, preciso ser correto e verdadeiro, mas não preciso ser solitário. Existem coisas que não são apenas mundanas, e, quando algo é além de seu poder, além desse mundo, que não podemos ver ou tocar, apenas sentir. Não adianta lutar, não adianta nadar contra a correnteza. Devemos apenas abrir nosso coração, e aceitar nossa condição. Eu havia me esquecido, de que acima de tudo, eu ainda sou apenas um humano. – Soltou um leve suspiro, um sorriso fez-se e desfez-se rapidamente em seu rosto. – E apesar de possuir grandes poderes, não posso lutar contra uma coisa que está além do físico, além do espiritual. Não posso lutar contra o amor, em seu modo mais puro e inocente.

Silenciou, abaixando o rosto, para fitar a água azul escuro, como se ela pudesse lhe consolar, e levar embora os últimos restos de angústia que poderiam haver em sua alma.

O ariano estremeceu ao ouvir aquelas palavras, nunca havia imaginado que o virginiano o correspondia de uma forma tão sincera, e forte. Nunca esperaria um surto de sinceridade daquele tamanho, aquela uma revelação tão simples, mas que era tão difícil de ser descrita. Palavras tão singelas, um sentimento tão sublime. Era apenas amor, de todas as formas possíveis, sem maldade ou luxúria. Era o sentimento mais puro que poderia existir.

Um sentimento de felicidade e paz o preencheu por dentro, a vida pulsava em seu coração de um jeito novo. Não saberia, e provavelmente nunca conseguiria explicar o que sentia. Sorriu, levou a mão ao rosto do virginiano, levantando-o para si. Ficou alguns instantes hipnotizado pelos olhos azuis do loiro, eram praticamente um reflexo do maravilhoso tom azul em que o céu se encontrava. O sol já havia se posto, mas não importava. O crepúsculo e a grande estrela D’alva que apareciam no céu deixavam a cena ainda mais perfeita. Mu retirou os cabelos dourados do rosto angelical do outro cavaleiro, apoiando alguns fios atrás de sua orelha. Respirou fundo e se aproximou. O olhar que trocavam eram palavras sem som. Não havia mais nada a ser dito.

Selou os lábios de Shaka, quase sem tocá-los. Sentiu o virginiano abri-los, sentindo o ar caloroso que vinha de sua boca, estava convidando-o a entrar. Abriu a sua e encostaram suas línguas lentamente, se conhecendo. O toque de uma pessoa que nunca fora beijada na vida, descobrindo. Acariciavam-se vagarosamente, do jeito mais delicado que poderia ser. Era algo mágico, fora da compreensão do resto do mundo. O gosto suave e fresco que ambos compartilhavam, o amor que nutriam há muitas vidas sendo demonstrado. Eram tão lentos que pareciam estar parados. Aquele pequeno contato poderia durar eternamente, poderiam morrer ali, pois estavam unidos, completos. Naquele momento, era como se o mundo todo estivesse em paz por um minuto, nenhuma pessoa possuía trevas em seu coração, estava tudo em perfeita sintonia, perfeita harmonia. Com certeza aquilo não era algo humano. Apenas comprovava a santidade do virginiano. Não precisavam de mais nada desse mundo, dessa vida.

Notas finais
Por motivos de força maior, o Ferreiro Paranormal, virou o Ferreiro Sobrenatural. E o Shaka sabe até onde fica aquele lugarzinho no meio do nada, com sabor de chocolate e cheiro de terra molhada. Ele é incrível.