Risk.

11 Capítulo IX - Quando for, onde for


Casa de Virgem – Santuário, Grécia. 00h17, Quinta-feira.

Shaka não conseguia mais meditar, estava cansado de tentar e se perder em pensamentos. Resolveu ir comer algo e fazer alguma outra coisa, não estava num bom dia para meditar. Andou até a cozinha, abriu a geladeira, observou os alimentos, não queria nada daquilo. Ficou pensando sobre o que gostaria comer. Abriu o congelador e viu uma lasanha vegetariana, aquelas de microondas. Se não queria comer lasanha antes, era o que queria comer agora, colocou a mesma no aparelho, ligando-o. Demoraria uns quinze minutos, então resolveu ir para a sala, colocar alguma música que lhe agradasse para se distrair enquanto seu alimento não ficava pronto.

Na sala, não havia televisão ou qualquer aparelho eletrônico, apenas um pequeno som e alguns CDs ao lado dele. A maioria de música relaxante, sons de natureza, música clássica e tradicional oriental, e alguns mantras budistas. Mas havia um compartimento secreto, escondido embaixo da pilha de CDs. Era lá onde o Cavaleiro de Virgem guardava uns de seus CDs favoritos, e um grande segredo também.

Aproveitando que era madrugada, com a certeza que ninguém iria aparecer por lá, colocou um CD no aparelho, ligando o som num volume relativamente alto. Sabia que o Santuário era grande, e as paredes de mármore de sua casa abafariam o som, até porque todas as janelas estavam fechadas. Foi até seu quarto, e vestiu uma roupa mais confortável, voltando para a sala.

~

Mu ainda jazia em sua cama, pensando em Shaka. Rolava de um lado para o outro, procurando uma posição que lhe agradasse, não a encontrava porque não conseguia, nem queria dormir. Não sentia sono, apenas pensava no virginiano. Respirou fundo, tomou coragem para levantar e ir para a cozinha, preparar um chá. Acreditava que isso iria lhe tranquilizar e trazer algum sono. Era camomila, mas não parecia estar ajudando muito.

Estava sentado na bancada, quase terminando seu chá quando decidiu; iria ver Shaka. Não importava se era de madrugada, ele precisava ficar perto do loiro.

Então resolveu seguir para a sexta casa. Pensou em ir a pé, mas estava muito tarde, e não queria que ninguém o visse vagando por ali àquelas horas, resolveu teletransportar-se. Colocou o dedo indicador e médio da mão direita sobre as manchinhas que possuía na testa, fechou os olhos e apareceu em menos de um segundo na porta da Casa de Virgem.

Iria bater na porta, mas quando chegou bem perto, pôde ouviu um grito esganiçado vindo de dentro da casa, Mu tinha uma audição bem aguçada. E aquele grito, seguido de uma cantoria, era no mínimo estranho. Muito estranho. Sabia que Shaka não possuía o costume de trancar a porta, então abriu uma fresta da mesma, olhando o que estava acontecendo lá dentro. Seu coração falhou uma batida.

Não, não podia acreditar. Aquilo era... Não sabia descrever o que era. Ele poderia esperar tudo, absolutamente tudo do virginiano, menos aquilo. Era uma cena inacreditável. O ariano estava abismado, abriu mais a porta, entrando no ambiente sem ser notado. Continuou observando, sem reação.

A casa do indiano não possuía sofá, apenas algumas almofadas bordô no chão, em cima de um tapete felpudo. A música soava alta no ambiente. Shaka estava vestindo um short vermelho, bem curto – que mais parecia uma boxer –, apenas isso. Em mãos, tinha um lenço de seda alaranjado, bem comprido. Ele passava o lenço sobre os músculos definidos de seu corpo sensualmente, fazia movimentos esguios, alguma mistura de dança do ventre com alguma outra dança indiana que Mu desconhecia.

Então, o Cavaleiro de Virgem desceu até o chão, e colocou as costas para trás, com o lenço no rosto, e cantando em alto e bom som. – AND I’M CRAZY BUT YOU LIKE IT, LOCA LOCA LOCA! YOU LIKE THAT IT AIN’T EASY, LOCA LOCA LOCA! AY PAPI! – A voz soava desafinada, Shaka estava completamente empolgado e concentrado na música.

I need help, I’m in love with a crazy girl! – Mu falou alto, seguindo o ritmo da música, ao mesmo tempo em que o cantor falou a mesma coisa.

– QUÊ?! – A voz do indiano falhou, por alguns instantes, sentiu que seu coração iria parar. Virou-se, vendo o ariano parado perto da porta, com os braços semi-cruzados, sua mão estava em sua boca. Tentava segurar o riso. Na mesma hora, Shaka desligou o som e levantou o dedo indicador da mão direita, falando com a costumeira voz calma e séria, como se nada tivesse acontecido. – Para qual dos Seis Mundos...?

Mu já estava corado de tanto tentar segurar o riso. – Calma, não vou falar pra ninguém... Pff... – Disse entre uma gargalhada, não se aguentando mais, começou a rir histericamente.

– Acho bom... Mas e agora, escolha o sentido que você deseja perder primeiro. Que tal começarmos pela visão? – Disse, ainda mais sério.

– Todos menos a visão, seus quadris não mentem. – Parou de rir, mas continuou com a mesma expressão risonha. – Pode continuar dançando, Shakira.

– Para com isso, Mu! – Ordenou o virginiano. – Se você contar para alguém, eu acabo contigo!

– Pode deixar, eu não contarei pra ninguém – Retomou a compostura, tentava recuperar o fôlego. – Você acha que eu iria querer compartilhar essa cena maravilhosa que acabei de presenciar? – Caminhou até o indiano, enlaçando sua cintura. – O jeito que você mexe seu corpo, me deixa loco loco loco. – Sussurrou no ouvido do virginiano, fazendo-o arrepiar-se.

– MU! – O indiano disse irritado, se desvencilhando dos braços do tibetano. Empurrou-o para longe, e foi para a cozinha pegar sua comida.

– Poxa, não faz isso comigo. Me gusta mucho de su locura, my pretty girl. – Disse rindo. – Acho que preciso aprender espanhol, o que acha de me dar umas aulinhas dessa língua, Shakira?

– Acho que perdi a fome... – Shaka disse, largando a lasanha em cima do balcão de granito. Saiu da cozinha e foi para o quarto.

O Cavaleiro de Áries seguiu-o, puxando-o pelo braço. – Desculpe, não fique irritado. Você sabe que eu te amo, né, Shakira?

– EU VOU ACABAR COM A TUA RAÇA! – Shaka cerrou o punho, mas não fez menção de atacar o outro cavaleiro. Baixou o rosto e ficou fitando o chão, irritado.

Mu largou o braço do loiro, afastando-se. Ficaram um bom tempo, parados, sem dizer nada.

– Perdoe-me... – Disse baixinho. A voz do ariano soava bastante arrependida. Shaka passava a maior parte de seu tempo meditando, que direito Mu tinha de rir de um de seus poucos momentos de diversão? Claro que era cômico vê-lo dançar e cantar Shakira. Mas isso não era da conta do ariano, ele jamais deveria ter descoberto esse segredo do virginiano. – Eu sinto muito, eu jamais deveria ter rido de você.

Shaka levantou o rosto, iria falar alguma coisa, mas o outro cavaleiro já havia sumido.

~

Passava da meia-noite quando Shiryu chegou ao hospital, foi à recepção e entregou alguns documentos que indicavam que a guarda do Hyoga era da Fundação GRAAD. Então voltou-se para a sala de espera, encontrando Shun. O virginiano estava acabado, seu rosto estava inchado e os olhos e nariz vermelhos de tanto chorar. O chinês se sentou ao seu lado, abraçando-o. Permaneceu ao lado do japonês, até um médico entrar na sala, perguntando quem estava acompanhando o russo. Então Shiryu teve de levantar-se.

O médico era bastante jovem, mas tinha uma expressão séria, usava um óculos e cabelos curtos penteados para trás com gel. O libriano se aproximou, encarando o médico de modo questionador, mas triste.

– O garoto está bem. – Disse o mais velho, para amenizar a preocupação do rapaz. – Vocês podem ficar no quarto com ele, é permitida a entrada de dois acompanhantes. – Lançou um olhar para Shun, deixando escapar um breve suspiro. – Hoje de manhã ele será liberado, já peguei os exames e eles não indicam nenhuma patologia, exceto...

– Exceto...?

– Vocês são amigos, não é? – Perguntou, sem esperar a resposta, voltou a falar. – Imagino que saiba que ele está viciado em algumas coisas.

Coisas? Tipo a bebida e o pó de diamante? Claro..., pensou o chinês.

– Bom, ele exagerou na dose e desmaiou. – O médico encarava Shiryu de um modo estranho, provavelmente acreditava que o chinês fosse mais um drogado. – Eu recomendo que vocês o mandem fazer algum tratamento, antes que aconteça algo irremediável com ele... Posso até recomendar algumas clínicas que fazem reabilitação.

– Ah, eu gostaria sim, obrigado.

– Vou deixar as indicações junto com os exames. – Ele passou a mão no ombro do rapaz, então saiu.

– Obrigado. – Respondeu Shiryu. Então caminhou até Shun, parando a sua frente, inclinou-se, apoiando as mãos nas coxas. – Ele está bem, Shun. – Quando o menor levantou a cabeça, ele sorriu. – Podemos entrar, agora.

O Cavaleiro de Andrômeda se levantou, indo junto do outro para o quarto de Hyoga. Shiryu entrou na frente, mas parou ao avistar o russo.Ele estava péssimo, pálido e magro, poderia muito bem ser confundido com um cadáver. Shun espiou por cima do ombro do libriano, levando o mesmo susto. Este voltou a caminhar, sentando-se em uma cadeira ao lado da cama do aquariano. O virginiano continuou parado na porta, imóvel.

Shiryu segurou na mão do amigo, perguntava-se como Hyoga deixou as coisas chegarem a aquele ponto. Então apertou-a, fazendo-o acordar.

Hyoga abriu os olhos com certa dificuldade, encarou o chinês por alguns instantes, franzindo o cenho. – Shiryu...? O-onde estamos? O que aconteceu...? – Perguntou ainda sonolento, tentou levar a mão ao rosto, mas estava sem forças para fazê-lo.

– Estamos no hospital. – Respondeu, ficava feliz por ele estar são. – Shun encontrou você desmaiado na rua.

– Caralho, desculpa. Eu não... – Parou de falar, quando viu o libriano desviar o olhar para a porta. Virou o rosto também, reconhecendo o Cavaleiro de Andrômeda, que estava parado na porta, com uma típica expressão de choro, mas um pequeno sorriso nos lábios. Hyoga sentiu que iria chorar também. – O-obrigado, Shun...

Ele não respondeu, apenas saiu correndo.

Hyoga olhou assustado para o outro cavaleiro, Shiryu apenas suspirou.

– Quando amanhecer, nós iremos para casa. – Soltou a mão do russo, passando nos cabelos negros, afastando-os da própria face. – Você vai ficar em Libra comigo.

– O-ok...

~

Eram mais ou menos sete horas quando chegaram em Libra. Nenhuma palavra fora trocada durante o trajeto, Hyoga ainda estava atordoado, e o chinês, aborrecido. Shiryu abriu a porta, conduziu o russo até sala, deixando-o lá. Foi tomar um banho rápido, e dez minutos depois, voltou vestindo apenas uma calça branca. Hyoga continuava onde ele o havia deixado. O chinês lhe entregou um pijama, mandando-o tomar banho, enquanto isso, ele prepararia o café.

Mais alguns minutos, e o aquariano voltou vestindo a regata e a calça preta que havia pegado emprestado do chinês. Ambos sentaram-se à mesa, comendo silenciosamente, que começava a incomodar o loiro, mas mesmo assim, ele não demonstrara nada. Não havia muito para ser dito.

– Eu vou dormir um pouco. – Falou pela primeira vez em horas, segurou no braço do loiro, fazendo com que se levantasse, conduziu-o até seu quarto. – Pode ficar aqui, eu vou para o quarto do Dohko. – Então saiu.

– Não! – Hyoga segurou em sua mão. – Fica aqui... Por favor... Não quero ficar sozinho. – Algumas lágrimas começaram a rolar pelo seu rosto, então ele abaixou a cabeça.

O chinês apenas consentiu com a cabeça, encostou a porta e deitou-se na cama. As cortinas estavam fechadas, o que deixava o ambiente escuro. O russo deitou-se ao lado do moreno, abraçando seu peitoral nu, chorava como uma criança perdida. Sentiu os braços fortes do libriano envolvendo-lhe num terno abraço, que o fez chorar mais ainda. Não sabia por que estava chorando, talvez fosse por vergonha, raiva de si mesmo, carência ou qualquer outra sensação ruim que possuía. Não podia acreditar que havia chegado àquele ponto. Em meio a esses pensamentos, começou a divagar sobre o moreno que o abraçava.

Era algo estranho, sentia uma atração muito forte pelo libriano, como se toda vez que o visse, quisesse agarrá-lo até perder o fôlego. Mas não o amava, isso era coisa do passado. Admitia, já havia gostado – e muito – do chinês, porém, havia deixado esse sentimento de lado fazia um bom tempo. De certo, a atração se devia ao fato daquele rapaz ser realmente bonito, óbvio. Estavam ali, abraçados e sozinhos em um quarto. A tentação era grande, mas não havia o menor clima para isso.

– Shiryu... – Hyoga o chamou baixo, havia parado de chorar um pouco, tentava se recompor.

– Diga.

Não houve uma resposta, o aquariano puxou o chinês para um beijo lento e carente, um beijo de amigos. O libriano não pensou muito, apenas correspondeu ao beijo, que durou algum tempo. Pararam, encarando-se por alguns instantes, o loiro baixou o olhar, voltando a aconchegar-se no peitoral do moreno, adormecendo rapidamente. Shiryu passou a mão nos cabelos do outro cavaleiro, distraído, enrolou os dedos nas mechas loiras até adormecer.

Notas finais
SHAKIRA, SHAKIRA. ~♪