Risk.

4 Capítulo III - Perdendo o controle.


Num bar qualquer, Grécia. 21:37, Segunda-feira.

Pela demora de Hyoga, Shiryu decidiu pedir outra coisa para beber, olhou o pequeno cardápio que havia na bancada e chamou o barman. Pediu-lhe um whisky com energético. Não era de beber, e sua última lembrança com álcool e Hyoga não era lá das melhores. Mas, ele de vez em quando experimentava alguma bebida, entretanto nada que o deixasse embriagado, gostava de manter o controle. Estava reencontrando um velho amigo, por isso era um dia especial, queria se divertir, iria beber. Só hoje, só um pouco. Voltou a prestar atenção na música, enquanto o barman preparava seu pedido.

I'll find a way.

Eu vou achar um jeito.

I'll confuse them.

Eu os confundirei.

But think I can try.

Mas eu acho que posso tentar.

I will save your life.

Eu salvarei sua vida.

I'll try for you.

Eu vou tentar por você.

[...]

I know what to say to take you.

Eu sei o que dizer para levar você.

Higher, higher.

Mais alto, mais alto.

No one else can take you higher.

Ninguém pode te levar mais alto.

But I will try.

Mas eu tentarei.

Ele estremeceu; tudo que passou com o capricorniano na batalha voltara à sua mente. Aquele sorriso mais uma vez o confundindo. O que eu estou fazendo?, perguntou-se, enquanto passava a mão no rosto irritado. Estava ali para esquecê-lo, e era isso que iria fazer. Tentou convencer-se de que a música não significava nada. Pegou o copo que o barman lhe entregou, bebeu praticamente metade do líquido de uma vez só, pigarreou após engolir, definitivamente não estava acostumado a beber.

O loiro voltou a sentar-se ao lado do chinês, parecia normal, um pouco agitado talvez. Mas era algo praticamente imperceptível aos olhos alheios.

Hey! – Chamou o barman, fazendo um aceno com a mão. – Me veja duas doses de tequila e mais uma garrafa de cerveja, que hoje eu estou pro crime! – Falou com um largo sorriso estampado no rosto, batendo a mão no balcão com um pouco de força.

– Hyoga... Você não acha que é muita bebida forte pra uma pessoa só? – Perguntou Shiryu, estava um pouco assustado com a animação do aquariano.

– Que nada, eu estou acostumado! Além do mais, você vai me ajudar a degustar tudo isso... – Respondeu, lançando um olhar malicioso ao chinês.

Shiryu acabava de terminar seu copo de whisky com energético, quando o pedido que o Cavaleiro de Cisne fez, chegou.

– Vou te ensinar como se toma isso aqui, parceiro. – Hyoga falou forçando a voz para ficar mais grossa, adicionando um tom ironicamente sério. – Faça que nem eu, primeiro, coloque o sal nessa junta entre o polegar e o indicador, depois você come, vira a tequila e chupa o limão, entendeu? – Continuou, logo após executando o que acabara de falar, fazendo uma cara feia e, em seguida, sorrindo para o moreno. – Vai, sua vez agora.

– Não sei por que ainda vou na tua onda... – Shiryu falou sério, repetindo os atos do russo, executando o típico ritual mexicano.

Quando terminou de chupar o limão, o loiro balançou sua cabeça, rindo. Shiryu sentiu-se um tanto enjoado, e a bebida parecia subir-lhe à cabeça, começara a ficar tonto, logo esboçando um largo sorriso. Estava visivelmente embriagado.

Hyoga bebeu sua cerveja tão rápido que parecia estar desidratado, ou não via um líquido na sua frente há dias, chamou o garçom e pediu mais dois shots de tequila e mais duas cervejas.

O chinês não se preocupou, já estava perdendo a noção das coisas, e virou mais uma dose de tequila junto com o amigo tranquilamente. Ambos abriram a cerveja e se levantaram, indo para a pista de dança. Lá, dançaram um pouco, de um jeito terrivelmente torto, mais pareciam dois loucos em algum ritual tribal africano, do que pessoas normais dançando.

Voltaram para o bar depois de alguns minutos de dança frenética. Pediram mais duas cervejas, e seguiram para o banheiro. O loiro puxava o chinês, que já estava trocando as pernas. Trancou a porta, retirou o mesmo pacote que havia em seu bolso interno, e começou a fazer a mesma preparação anterior. Shiryu estranhou o que era aquilo, nunca havia visto tal coisa antes. Mas estava sem nenhum pudor mesmo...

– O que é isso? – Perguntou, tomando um gole da cerveja, prestando atenção no trabalho que o russo realizava.

– Bom... Isso se chama Pó de Diamante. Uso apenas para me divertir quando saio. Mestre Cristal me dava alguns quando eu estava cansado ou deprimido, é muito bom. Quer experimentar?

Aquilo parecia suspeito, mas Shiryu estava bêbado demais para desconfiar do amigo. Que mal havia? Se o próprio Mestre Cristal dava para ele, não deveria ser algo ruim, certo?

– Pode ser... Como faço?

– Seguinte, coloquei duas linhas aqui para mim e duas para você, coloca essa nota no nariz e inspira o mais rápido que puder, com força, como se estivesse puxando catarro mesmo. Vou te mostrar. – Shiryu fez uma careta ao ouvir o loiro falando o que deveria fazer, mas continuou atento às explicações e viu como ele fazia. – Sua vez, manda essa menor aqui. Cuidado para não assoprar, que isso custa caro.

– Certo. – Shiryu pegou a nota enrolada de Hyoga, respirou fundo e tentou puxar, espirrando em seguida. Pela expressão do russo, ele fez algo errado.

– Segura o espirro e puxa com mais força, vou fazer de novo e depois você repete. Não desperdiça que essa é a última que tenho. – Hyoga falou extremamente rápido, parecendo inquieto, antes de fazer de novo. – Pronto. Tenta de novo, última chance do dia.

Shiryu preparou-se mentalmente, deu mais um gole na cerveja que jazia em suas mãos e a entregou para Hyoga, pegou a nota e cheirou a linha como se fosse o último ar do mundo. Segurou o espirro, começava a sentir seu céu da boca formigar e seu nariz arder.

– Muito bom, você já é quase um profissional. – Hyoga disse, rindo. Guardou a nota em seu bolso e virou a garrafa de cerveja, observando o chinês fez o mesmo.

O libriano estava tonto, o mundo girava, e não havia nada em sua cabeça. Um sorriso estampava sua face, não conseguia pensar nem fazer nada. Hyoga estava parado na sua frente, olhando-o nos olhos. Tremia, mexia os dedos freneticamente, não conseguia ficar parado. Estava fazendo um barulho com a língua inquieta, que seria terrivelmente irritante para qualquer pessoa sóbria. Incomodado com o silêncio, começou a falar rápido, quase desesperado.

– Eu já disse que você está muito bonito hoje? Está realmente lindo... – Disse entre um riso, balançava a perna freneticamente, sem reparar que estava fazendo isso. Começou a olhar pros lados, sem ouvir uma resposta rápida, continuou falando. – Desculpe-me, você ficou sem graça com isso? Eu só... Só queria elogiar, você sabe que é bonito, né? Pelo menos eu te acho muito atraente, mas nada de mais, você sabe que somos apenas amigos e- – Parou e respirou um pouco. – Sério, sinto muito por ter dito isso, sabe, eu não sei não ser sincero, principalmente contigo, que já lutou diversas batalhas comigo, mas isso não significa que eu queira algo contigo, você sabe, passado é passado, desculpe-me e-

– Cale a boca. – Shiryu estava de olhos fechados, encostado na parede com os braços encostados nesta, como se estivesse tentando se segurar. Abriu os olhos, vendo o russo inquieto rodar, parecia surtado olhando para ele, achou as caras e bocas que o loiro fazia engraçadas e soltou um leve riso.

Hyoga continuou olhando para a face atordoada do chinês. Já não estava pensando direito, simplesmente avançou e começou a beijá-lo com força, enroscando os dedos nos fios de seus cabelos, empurrando seu corpo ainda mais contra a parede.

O libriano demorou um pouco para processar o que estava ocorrendo, mas correspondeu ao beijo do aquariano, agarrando-se em sua cintura. Nem sabia mais o que estava fazendo.

E Hyoga beijava o chinês como se sua vida dependesse disso, com um desespero e voracidade que ninguém jamais imaginaria o ver fazendo. Ele tremia, e roçava cada vez mais no corpo do libriano, mordendo seus lábios de forma luxuriosa. Provavelmente aquilo iria doer no dia seguinte, mas nenhum dos dois se importava. Apenas o momento importava.

Estavam empenhados em se agarrar como dois gatos no cio, quando algum imbecil resolveu bater na porta. – Hey! Vocês morreram aí dentro? Estão há meia hora trancados aí! Tem mais gente que quer usar o banheiro aqui, sabiam? Vão transar em outro lugar, viados do caralho! – Um homem gritou, esmurrando a porta.

Os dois saíram um pouco assustados, mas com cara de poucos amigos, visivelmente irritados. O lugar parecia mais abafado, quase sufocante, precisavam sair dali. Hyoga passou no bar, pagou a conta e saiu de mãos dadas com o moreno que mal conseguia parar em pé.

Ao sair do estabelecimento, o loiro acendeu um cigarro, oferecendo-o ao chinês, que recusou sem pestanejar.

– Não sabia que você fumava... – Comentou o libriano com a voz arrastada.

– Há muitas coisas sobre mim que você não sabe, bonitão. – Respondeu num tom irônico.

O loiro prendeu o cigarro entre os lábios, retirando as chaves que estavam presas ao passa-cinto de sua calça, montando no veículo, aguardando o outro subir para dar a partida.

– Para onde vamos agora, patinho? – Shiryu disse em tom de brincadeira, agarrando-se com força na cintura do amigo.

– Conheço um lugar bem bonito e vazio, não muito longe daqui... – Respondeu o outro num tom maldoso, cuspindo o cigarro que jazia em sua boca na rua.

A moto andava numa velocidade bem alta, provavelmente quase o dobro da velocidade permitida para aquela estrada. Hyoga parou em um posto de gasolina, entrou na loja de conveniências e comprou mais um pack de cervejas, sentia sede, muita sede. Tirou uma cerveja da caixinha e a bebeu em praticamente um gole só, guardando o resto da caixa embaixo do banco da moto, voltando a montar nela e seguir seu caminho, acompanhado do amigo.

Em pouco tempo – por causa da alta velocidade –, chegaram numa praia entre um rochedo, uma típica falésia grega. Os dois desmontaram da moto, o russo puxou-a para a areia, estacionando-a ao lado. O lugar era lindo e estava completamente vazio. Uma brisa fresca afagava seus corpos, com apenas a luz do luar iluminando-os, era realmente um lugar muito calmo.

Hyoga pegou as cervejas que estavam na moto, e ambos começaram a beber, sem conversar muito.

Mas o loiro continuava inquieto. Terrivelmente inquieto. Mexia na garrafa, brincava com a areia, levantava, sentava, olhava a moto, olhava o mar, ia e voltava, ficava mexendo as mãos e fazendo aquele típico barulho irritante com a língua. Sua sorte era que o chinês não se incomodava com aquilo.

Rapidamente acabaram com todas as cervejas, Hyoga ainda estava inquieto, mas sentado ao lado do moreno, olhando para ele enquanto balançava sua perna.

Shiryu observou o loiro um pouco, então resolveu perguntar. – Você está bem? – Tentava parecer calmo, mas só conseguia parecer mais bêbado ainda.

– Não. – O loiro disse sem mudar sua expressão, subindo rapidamente para o colo do chinês, colocando uma perna de cada lado de seu corpo, entrelaçando os braços em volta do pescoço do outro, entretinha-se com os longos fios negros agora.

Shiryu não se preocupou com a posição que o russo estava, apenas o puxou, segurando em sua nuca, e tomou seus lábios como se não houvesse amanhã. Naquele momento, ambos haviam esquecido que eram melhores amigos, e eles deixaram de ser melhores amigos no passado por causa de uma noite parecida. A promessa de que aquilo jamais iria acontecer novamente foi para o inferno, junto com toda a sensatez e sobriedade que o libriano possuía. A verdade é que ele estava ali, sozinho, com um homem; um homem belo, forte, honesto e inteligente. Não precisava preocupar-se com outras coisas. Não agora.

Enquanto ainda vagava por alguns de seus pensamentos distorcidos, sentiu o loiro retirar a camisa que estava usando, e puxar sua regata. O moreno deixou o amigo o despir, nem havia reparado que Hyoga havia tirado a jaqueta que usava tempos antes. O loiro retirou a própria camiseta, rapidamente voltando a colar-se no corpo forte do moreno que estava embaixo de si.

Beijou-o novamente, enquanto desabotoava suas calças. Colocou a mão entre suas pernas e começou a tocá-lo. Shiryu segurou em seu braço, talvez devesse pará-lo, mas não o fez, Hyoga sorria maliciosamente, mas parecia divagar. Trocaram olhares, então o moreno retirou as calças do amigo – assim como sua boxer –, fazendo-o sentar-se novamente em seu colo, agora completamente despido.

Hyoga fazia movimentos que forçavam as investidas do amigo, estava completamente insano, gemia coisas incoerentes, enquanto Shiryu aumentava suas estocadas, acariciando o membro do amigo, murmurando seu nome. Com as mãos livres, o russo deslizava os dedos pelas costas do moreno, arranhando-as então, ou segurava com força em seus cabelos para tomar seus lábios novamente, parando apenas quando não conseguiam mais respirar, ou quando alguém gemia.

Então Shiryu parou, a princípio, pareceu desfazer-se dentro do loiro. Mas algo parecia subir pela sua garganta, algo inevitável. Ele arregalou os olhos, então empurrou o amigo para longe de si. Hyoga praticamente rolou na areia, enquanto o chinês vomitava até o último gole de álcool em cima de suas roupas.

O olhar do russo não era um dos melhores. Shiryu estava tonto demais para envergonhar-se, apenas estendeu a mão para o loiro, que o ajudou a levantar. Olhou para as roupas sujas de vômito na areia, mas não disse nada. Hyoga agachou-se para pegar a carteira e as chaves, por sorte sua calça não foi atingida pelo vômito. Vestiu-a e andou para a moto, observando o amigo arrumando porcamente a calça que vestia.

– Venha, vamos embora.