Risk.
2 Capítulo I - Casa de Libra.
Rozan, China. 17h45, Domingo.
Era um belo fim de tarde de um domingo ensolarado, Shiryu estava em Rozan, tomava um chá tranquilamente, na companhia de Shunrei. A jovem estava, provavelmente, preparando um bolo. A estadia do chinês naquela velha casa nos picos distantes de Rozan havia se estendido de dias para meses. As batalhas já haviam acabado, e era uma época de descanso e paz para todos os cavaleiros – exatamente todos, Athena concedera uma nova vida aos seus cavaleiros mortos durante a última Guerra Santa. Então, exatamente naquele momento de sublime paz e tranquilidade, Dohko, não mais o pacato Mestre Ancião, mas sim o jovem e escandaloso Dohko de Libra, entrou na cozinha de maneira estabanada e apressada.
– O que foi Mestre? – Perguntou Shiryu, sem tirar os olhos do chá, a fumaça subia, fazendo pequenos desenhos no ar.
– Eu preciso que você me faça um favor enorme, Shiryu! – Falou esbaforido, soava com se tivesse acabado de correr numa maratona.
Lá vem merda..., pensou. Normalmente os favores que Dohko lhe pedia não eram nada simplórios. – Diga.
– Eu vou fazer uma viagem muito importante com o Shion pelo mundo, estamos envolvidos numa pesquisa sobre a criminalidade mundial e os fatores econômico-sociais. E, envolvidos nessa busca pelo mal, garantiremos a segurança de todos aqueles que amamos; nossos amigos, você e os outros cavaleiros do Santuário e todas as pessoas que vivem nesse mundo que estão com sua luz e esperança apagados por aqueles que não se importam mais com a vida e com o calor humano, mas sim com esse capitalismo absurdo que está impregnado nas almas dos inocentes, a maldade que-
– VÁ DIRETO AO ASSUNTO! – A melhor coisa a fazer seria interrompê-lo, senão ele começaria um enorme discurso sobre a existência humana e tudo o que ele aprendeu em mais de duzentos e cinquenta anos de vida. Shiryu sorriu então, para que ele não se ofendesse e continuasse. – Mestre...
– Como você é impaciente, nem parece aquele garoto calmo que respeitava seu Mestre e ouvia tudo atentamente, que eu treinei enquanto estava sobre o efeito do Misopheta-menos, naquelas águas calmas da cachoeira dos Cinco Picos Antigos e-
– Mestre! – Shiryu interrompeu-o mais uma vez, estava começando a perder a paciência com a prolixidade que seu Mestre possuía. Era incrível, Dohko sempre fora tão sábio, mas quando retomou a antiga convivência com seu aprendiz, o Cavaleiro de Libra já não era mais o mesmo. Não só seu corpo havia voltado a ser jovem, mas seu cérebro também regredira aqueles duzentos e quarenta e três anos de tanta sabedoria. Ele poderia ter muitos anos de vida pela frente, mas não precisava gastar dias falando.
– Eu preciso que você cuide da Casa de Libra por mim, enquanto eu estiver fora. – Disse rapidamente, antes que fosse mais uma vez interrompido.
– Mas se durante duzentos e quarenta e três anos a casa ficou vazia, por que agora eu tenho que ficar lá por você?
– Vazia não! Eu a protegi com meu cosmo durante todos os dias e noites, mas agor-
– Mestre! – Desta vez era a voz de Shunrei interrompendo-o. – Shiryu já esteve em tantas batalhas, agora ele vai descansar, ficar aqui comigo...
Ambos olharam para Shunrei, como se as coisas que ela dissesse não fizessem o menor sentido. Então Dohko a ignorou e continuou a explicar-se.
– Mas agora meu cosmo estará empregado e empenhado nessa pesquisa perigosa que estarei executando junto com meu grande amigo e parceiro de lutas, o grandioso Shion de Áries e-
– Se você parar de falar, eu vou.
– Não fará nada além de sua obrigação, Sr. Excalibur. Mas mesmo assim, obrigado. Você é um anjo. – Retrucou irônico.
– Vou arrumar minhas coisas, partirei pela noite. – Suspirou, pensando se era o certo aceitar aquele pedido. – Está bem assim?
– Perfeito! – A disposição de seu discípulo o deixou ainda mais animado. – Eu tenho que ir agora, Shion está me esperando no carro. Até mais, e respeite as ordens de Athena. – Falou alegremente, enquanto dirigia-se para a porta.
– Carro...? Agora vocês têm um carro?
Não recebeu uma resposta, Dohko saiu às pressas, como se sua existência dependesse da companhia do antigo Cavaleiro de Áries. Resignado, Shiryu terminou seu chá, evitando, ao máximo, conversas desnecessárias com Shunrei. Ela provavelmente iria começar a chorar, e não pararia durante alguns dias. Por isso, era bom que arrumasse suas coisas e partisse o mais breve possível.
~
Quando Shiryu chegou ao Santuário, a madrugada de segunda-feira estava para dar o seu lugar a uma belíssima manhã. Esperava que Dohko tivesse avisado os outros cavaleiros sobre sua viagem a negócios. Aliás, perguntava-se se alguém acreditaria naquela história; era absurda demais. Pensativo, praticamente se arrastou pelas escadarias que precediam a entrada da primeira das Doze Casas. Carregava consigo duas malas de viagem grandes, a armadura nas costas e uma pequena mochila com coisas menores. Estava desesperado para chegar à Sétima Casa, e rezava para que aquele lugar estivesse habitável. Nunca conseguiria dormir em um lugar cheio de insetos, ratos e poeira – era deste modo que imaginava a Casa de Libra –. Sabia que seu Mestre era desorganizado, mas esperava que houvesse algum empregado que limpasse as casas enquanto não havia cavaleiros as habitando. E que pelo menos tivesse uma cama.
– Ah, finalmente, cheguei à Primeira Casa. Agora é só procurar o Mu, e esperar que ele não esteja dormindo... – Seus pensamentos transformaram-se em palavras quando encontrou as portas da Casa de Áries.
Estava um pouco ansioso. Fazia um bom tempo que não passava por ali. Não conversara com os Cavaleiros de Ouro nem uma vez depois das batalhas na Guerra Santa, limitara-se a voltar para China e permanecer lá, descansando, longe dos demais cavaleiros. Deixou suas malas no chão e bateu na porta. Aguardou. Mas sem resposta, bateu novamente.
– Onde diabos o Mu está? Será que voltou para Jamiel? – Perguntou-se, recebendo apenas um vento gelado como resposta. Contornaria a casa, num caminho alternativo que quase nunca era utilizado.
Segunda Casa, Touro. Ouviu um som grosseiro de roncos vindo da janela aberta, Aldebaran estava dormindo. Deveria estar cansado, decidiu-se por não incomodá-lo.
Terceira Casa, Gêmeos. Tudo apagado. Talvez algum dos gêmeos estivesse no Santuário, mas a casa estava realmente vazia. Poderiam estar dormindo em algum outro lugar, quem sabe a Sala do Mestre? Não havia nenhum sinal de vida inteligente dali, então resolveu prosseguir.
Quarta Casa, Câncer. Não queria se meter em confusão numa hora daquelas, sabia que Deathmask não gostava de ser incomodado. Além do mais, sabia que o Cavaleiro de Câncer não era lá muito sociável. Sem contar que Shiryu o havia matado uma vez, o que não fazia dos dois amigos, nem nada parecido. A verdade era que Deathmask não gostava de ninguém, com exceção do Cavaleiro de Peixes, Aphrodite... Riu-se pensando na amizade daqueles dois, decidindo-se por continuar a subir.
– Para que tantas escadas? Eles não poderiam instalar uma escada rolante, um elevador, ou simplesmente mudar a arquitetura deste local? Que cansativo, depois de quase nove horas de viagem, ter que ficar subindo essas escadarias de madrugada, só para um cavaleiro mesmo... – Resmungava enquanto subia rumo à Quinta Casa. – Leão... Duvido que o Aiolia esteja acordado, mas enfim... – Shiryu passou em frente à Casa de Leão, tudo apagado, com certeza o cavaleiro que residia ali já havia dormido. Não iria incomodá-lo, pela manhã conversaria com todos eles e lhes explicaria sua situação.
Perfeito, só faltava passar pela Casa de Virgem e já chegaria à sua casa.
Sexta Casa, Virgem. Shaka provavelmente deveria estar dormindo, ou então meditando, claro que incomodá-lo não chegava nem a ser uma opção.
Andava em passos rápidos ao seu destino, quando estranhou algo; luzes vindas da Casa de Virgem. – Que estranho... Shaka nunca abre os olhos, logo, nunca acende as luzes. Muito menos essas horas da madrugada. Vou ver o que está acontecendo, aproveito e já aviso a alguém que estou por aqui. – Continuava a falar consigo mesmo, como se precisasse informar a si próprio, em voz alta, as próprias decisões.
Viu a janela aberta, não resistindo a própria curiosidade; aproximou-se sorrateiramente, esgueirando-se para ter uma visão do interior da casa. Shaka estava acompanhado de alguém, mas quem seria? O virginiano era tão antissocial quanto uma pessoa que passa a vida inteira meditando poderia ser, ou seja, completamente. Pensou em não atrapalhá-los, mas agora que espiou a privacidade do Cavaleiro de Virgem, o mais educado era anunciar-se.
– HÁ! PERDEU A RAINHA! VAI PAGAR PELO QUE FEZ ANTES! – A pessoa que gritara em vitória tinha uma voz estranhamente familiar.
– Vamos ver quanto tempo você vai aguentar, Mu. – Shaka retrucou, sua voz soava calma enquanto desafiava o ariano.
Shiryu deu duas batidas na porta. As vozes cessaram e o único som que pôde ouvir era o de passos, a porta abriu-se um mínimo, deixando a mostra metade do rosto de Shaka, que olhava desconfiado para fora à procura da pessoa intrometida que batia a sua porta numa hora daquelas.
– Shiryu? O que você está fazendo aqui?! Já viu que horas são?! Qual o seu problema, rapaz? – Despejou um monte de perguntas, irritadiço pela intromissão.
– Er, desculpe-me, eu vi a luz acesa e achei que estivesse acordado. Eu vim a pedido do Dohko para cuidar da Casa de Libra enquanto ele faz uma viagem a negócios com o Shion... – Disse meio sem graça, respirando fundo antes de continuar. – Como não tinha certeza se ele havia avisado alguém, preferi vir avisar, antes que achassem que eu era um intruso e me atacassem, ou coisa parecida.
– Ah, Shiryu! Há quanto tempo! – Mu parou ao lado de Shaka, escancarando a porta antes de continuar a falar. – Dohko me avisou que você viria! Aproveitei e mandei uma empregada hoje cedo dar uma ajeitada em Libra, aquele lugar parecia abandonado e fiquei com pena de você. Sabia que o Dohko poderia querer te enfiar lá sem mais nem menos. – Disse um pouco ofegante e rápido, tentava parecer hospitaleiro, fazendo uma pequena ruga na testa de Shaka aparecer por causa daquela atitude impulsiva.
Shiryu tentou não reparar, mas era impossível. Mu estava sem camiseta, com uma naturalidade digna do Cavaleiro de Libra. Até aí seria uma cena normal, dois amigos fazendo algum programa de madrugada, se Shaka não estivesse usando apenas sua roupa íntima e tivesse alguns arranhões pela pele clara, e pela sua irritação, ele sabia que estava numa situação constrangedoramente suspeita.
– Ah, ele te avisou antes de perguntar para mim se eu aceitava? – Resmungou Shiryu.
– Quê?
– Então, isso é ótimo! Eu estava bastante preocupado por causa disso, muito obrigado, Mu. – Disse tentando fingir que realmente não havia reparado. Sentia-se mal pela péssima hora em que escolheu para apresentar-se, deveria ter viajado pela manhã, assim teria chegado à tarde e não precisaria passar por tais situações. Continuou, um pouco sem graça. – Enfim, eu vou indo, já está tarde e eu não quero continuar atrapalhando vocês... – Foi abaixando o tom de voz ao final da frase, receoso por ter interrompido o momento de intimidade dos outros dois cavaleiros.
– Mais tarde eu dou uma passada em Libra, para ver se está tudo bem. Até mais, Shiryu! – Mu respondeu animado, acenando para o Cavaleiro de Dragão.
– Tchau. – Shaka disse seco, fechando a porta violentamente.
Shiryu ficou parado alguns instantes diante da porta, sentindo-se péssimo. Odiava ser inconveniente. Estava pegando suas coisas para continuar andando, quando conseguiu ouvir a voz dos dois tendo uma breve discussão.
– Shaka, você não precisava ter sido tão grosseiro! – Repreendeu o ariano. – Coitado do garoto, ele deve estar totalmente perdido, Dohko vive colocando-o em encrenca!
– Eu não o mandei chegar essa hora da madrugada, bater na minha casa, e atrapalhar meu strip-xadrez contigo... – O virginiano retrucou irritado. Mu às vezes não era tão sensato como parecia ser. – E você ainda escancarou a porta! O que ele deve estar pensando? Eu estou sem roupas, sabia?!
Mu tentou conter o riso, mas um Shaka irritado era um dos poucos privilégios que só o ariano tinha o prazer de ver. Ficava contente por ser a exceção à regra. O virginiano voltou a sua postura calma, estava juntando as roupas do chão, iria vestir-se e mandar o outro homem de volta para sua casa. Também tentaria não repetir mais as noites de strip-xadrez enquanto Shiryu estivesse no Santuário, era melhor precaver-se.
Mu o abraçou por trás, fazendo-o largar as roupas novamente.
– O que você está fazendo? – Perguntou Shaka, sabia o que o tibetano estava fazendo, mas queria um motivo para tal ato.
– Estou te abraçando, oras. – Respondeu simplório, enquanto deslizava as mãos pelo corpo do loiro, fazendo-o soltar um breve suspiro.
– Pare com isso, Mu. – Disse, tentando desvencilhar-se de seu abraço.
Mas ele não fez nem menção de parar, apenas girou o loiro em seus braços, para que pudesse beijá-lo. E o fez com toda a paixão que sentia por Shaka, ou amor. Talvez fosse um sentimento maior que qualquer outro; era algo, algo distinto, algo que existia, mesmo que não pudesse ser visto, tocado ou nomeado, um sentimento tão sublime que podia tornar todas as outras coisas do mundo efêmeras. Afastou-se do virginiano para desabotoar as calças, então retirou-as ficando tão despido quanto o próprio Shaka estava.
– Bônus por tê-lo feito passar vergonha. – Disse em meio a um sorriso repleto de malícia. – Quer terminar o jogo?
~
Shiryu entrou na Casa de Libra com a chave que Dohko havia lhe dado. Buscou o interruptor e acendeu a luz; estava arrumada. Graças aos deuses! Não, graças ao Mu! O relógio colocado numa das paredes da sala marcava mais de cinco horas da manhã, por isso, o chinês deixou a arrumação para outro dia, largou as malas ali mesmo, no meio da sala, e caminhou em direção à porta que julgava ser a do banheiro. Iria tomar um banho, de preferência, bem quente, então, com o corpo limpo, poderia dar-se ao luxo de descansar.
Havia mais coisas na casa do que havia imaginado, ou desejado. Quarto, banheiro, sala, cozinha, tudo mobilhado e em perfeita ordem. A sala era realmente muito ampla, porque era o local onde costumavam acontecer as batalhas, mas estava preenchida e decorada; era um dos privilégios que tempos de paz traziam. O banheiro era o menor cômodo, num dos extremos ficava a banheira e sobre esta, um chuveiro, obviamente havia uma pia e um vaso sanitário, todos brancos e limpíssimos.
Precisava parabenizar a faxineira pelo trabalho excepcional de limpeza.
Uma rápida ducha e saiu do banheiro, indo direto para o quarto de hóspedes – era o que acreditava ser. Jogou-se numa enorme cama de casal coberta por um manto verde, ela ficava bem no centro do cômodo, ao seu lado havia uma cômoda com um pequeno abajur, na parede a frente, o guarda-roupas, e ao lado, uma parede com janelas cobertas por uma longa cortina, também verde, mas num tom mais escuro. Cavaleiros de Ouro tinham uma vida muito boa, não entendia o porquê de seu Mestre insistir em nunca ficar na sua respectiva casa, pareceu-lhe um lugar bom para se viver.
– Se bem que viajar junto de Shion pelo mundo é bem mais interessante para você, hein, Mestre. – Deixou escapar um breve riso divertido, enquanto enrolava-se nas cobertas para dormir. – Lua de mel...
Pareceu sorrir antes de pegar completamente no sono, não por causa da relação de seu Mestre com o antigo Cavaleiro de Áries. Mas porque estava pensando em uma pessoa, alguém que há muito tempo desejava ver. Alguém que em breve poderia encontrar.
Shura...
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