Risk.
3 Capítulo II - A brisa grega.
Casa de Libra – Santuário, Grécia. 11:30, Segunda-feira.
Havia dormido um pouco mais que cinco horas, tinha acordado tarde, mas merecia, afinal, a viagem fora bastante cansativa. Levantou-se, arrumou a cama, fez sua higiene matinal, vestiu-se e foi procurar comida, deveria haver alguma coisa naquela casa que o mantesse em pé tempo suficiente para comprar mais alimento. E, para sua surpresa, a geladeira e os armários estavam cheios, provavelmente era coisa do Mu, deveria lembrar-se de agradecer-lhe até a alma por isso.
Fez um chá de maçã com canela e tomou-o junto com alguns bolinhos recheados que encontrara no armário. Ajeitando as coisas logo em seguida – sempre com seu perfeccionismo doentio – antes de sair.
– Ah, o refrescante ar grego! – Exclamou ao abrir a porta e se deparar com uma leve brisa, descendo as escadarias de Libra. Era quase hora do almoço, iria caminhar um pouco e depois voltar para sua casa, almoçar, claro.
O Santuário era realmente um lugar enorme, além das Doze Casas, da Sala do Mestre, estavam os extensos campos de treinamento e os vários vilarejos que os rodeavam. Era um lugar muito bonito, a arquitetura grega era maravilhosa. Quando percebeu, estava caminhando sem rumo por um gramado, num tom magnífico de verde, a brisa estava ótima, sentou-se em alguns rochedos e ficou a observar o céu. Estava, novamente, pensando em Shura. Por que diabos ele não sai de minha cabeça?, pensou inquieto.
Shiryu parecia estar em outro mundo, tanto que não percebeu a chegada de outro homem. Este sentou-se ao seu lado. Sorrindo ao ver o modo como o vento batia nos longos fios negros do cabelo do chinês, ele parecia tão calmo, estava mais bonito do que da última vez. Atreveu-se deslizar os dedos pelas mechas de seu cabelo, sem esperar uma reação negativa deste. Shiryu, com seu ótimo reflexo, segurou a mão do homem, atirando-o ao chão e imobilizando.
Até perceber quem era.
– S-shura? – Perguntou espantado. – Por favor, d-desculpe-me... – Continuou a falar desajeito, no momento, pareceu um pouco trêmulo. Ajudou o Cavaleiro de Capricórnio a levantar-se, novamente se desculpando. – E-eu sinto muito.
Quando finalmente viu o rosto de Shura, sentiu uma sensação maravilhosa passar por todo o seu corpo. Ele estava sorrindo.
– Da próxima vez, eu irei anunciar-me. – Disse entre um breve riso. – Shura, o Cavaleiro de Capricórnio, chegou!
Shiryu sentiu o calor tomar conta de seu rosto. Estava completamente sem palavras. E muito, muito feliz.
– Como você está? – Perguntou o capricorniano.
– E-eu estou bem, sim. – Disse, ainda tentando recuperar a fala. – Vim cuidar da Casa de Libra enquanto meu Mestre, Dohko, está em viagem...
– Dohko está em viagem? – Riu novamente. – Aposto que é mais uma desculpa para ficar o Shion em algum canto.
Ah, era exatamente isso!, pensou Shiryu.
– Você não quer passar em minha casa? Estão preparando o almoço, não vai demorar muito, enquanto isso nós poderíamos beber algo e conversar...
Ele está me convidando para ir na casa dele?, o coração de Shiryu estava disparado. – Claro, seria um prazer. – Respondeu, retribuindo o sorriso.
O caminho para a Casa de Capricórnio foi feito em pleno silêncio, volta e meia eles se depararam com jovens cavaleiros que cumprimentavam o Cavaleiro de Capricórnio, sempre com muito respeito e entusiasmo, afinal, era uma honra. Mas, sem demora, chegaram a sua respectiva casa. Ao contrário de Dohko, Shura havia contratado alguns criados. Uma jovem saudou-lhes com alegria, convidando Shiryu para sentar, enquanto ela preparava alguma bebida, entretanto Shura a dispensou. O capricorniano voltou-se a Shiryu segurando dois copos com whisky e gelo.
Durante alguns instantes olhou fixamente para o menor, meio que desconfiado. Então levou um dos copos a boca, bebendo pelo menos metade do líquido. – Você é menor de idade, não é?
– S-sou.
O maior soltou uma leve gargalhada, fazendo o outro corar novamente.
– Desculpe-me, vou buscar algo para você. – Terminou de beber o líquido de um dos copos e depositou o outro sobre a mesa de centro da sala. Então foi à cozinha buscar um copo de suco gelado. Voltou-se para Shiryu, entregando-lhe o copo de suco de laranja, levou a outra mão ao topo de sua cabeça e bagunçou-lhe os cabelos.
– Criança. – Disse num sorriso.
Shura sentou-se ao lado de Shiryu, pediu a uma das criadas que lhe trouxesse a garrafa de whisky e o gelo. Ele parecia tomar um copo seguido de outro, era tão rápido que o libriano não percebeu o momento que ele passou de sóbrio para levemente embriagado. O capricorniano falava de coisas mais aleatórias que o próprio Dohko, contou-lhe algumas histórias, assim como ouviu outras de Shiryu.
– Como foi a volta para o Santuário? – Perguntou Shiryu, estava um pouco curioso, porque os Cavaleiros de Ouro tinham muitas desavenças, queria saber como Shura lidava com isso. – Quer dizer, vocês-
Neste momento, a expressão alegre de Shura se desfez. – Aioros... – Ele murmurou o nome do Cavaleiro de Sagitário, exatamente do mesmo modo que Shiryu murmurava o nome do capricorniano. Ele voltou o olhar para o chinês, como se tivesse esquecido sua pergunta, assim como a resposta que havia dado. – Acho que o almoço já está pronto. – Voltou a sorrir, levantando-se tão repentina e rapidamente, que pareceu que poderia cair a qualquer momento.
– Desculpe-me, Shura. E-eu preciso ir... – Outro sorriso forçado.
– Mas já está pront-
– Eu venho outro dia.
O libriano se levantou, saiu rapidamente da Casa de Capricórnio, tinha de sair dali. Precisava sair dali. Correu um pouco, mas foi desacelerando gradativamente, até andar normalmente, como se nada tivesse acontecido, disfarçando a tristeza que lhe assolava o coração, ignorando qualquer um que passasse por si. E apesar do desespero que lhe tomava o interior, sua face aparentava a habitual calma.
– Por que... Por quê? Eu sou um imbecil mesmo! – Resmungava de um modo que era ininteligível para qualquer um que ouvisse, mas ele mesmo sabia bem do que falava.
Finalmente chegou à Casa de Libra, fechou a porta, tentava segurar as lágrimas, mas de qualquer modo, elas rolaram por sua face. Tirou os sapatos e foi preparar um chá, precisava se acalmar.
Desde o começo soube que essa não era uma boa ideia, Shura não era um homem, um companheiro para Shiryu. E Aioros, este com certeza era um parceiro ideal para o capricorniano. Ora, um homem mais velho, mais experiente e mais bonito. Era óbvio que Shura iria preferi-lo a uma... Criança. Então era isso que ele representava para o capricorniano, mesmo sendo um cavaleiro, um igual, era considerado uma mera criança. Apenas isso, nada mais.
– Ai, que mer- droga. – Shiryu xingou, havia queimado a mão na chaleira enquanto se perdia em pensamentos, esquentando a água para seu chá.
Suspirou, acalmando-se. Terminou o chá e caminhou vagarosamente até o banheiro, enchendo a banheira com água bem quente, colocou uns sais de flores de maracujá e lavanda, ótimos calmantes. Precisava esquecer aquele capricorniano imbecil. Lindo, porém imbecil, gentil, justo, com um sorriso capaz de desarmar um tanque de guerra, mas imbecil. Aioros era realmente melhor que si, afinal, era o grande herói de Sagitário – coisa que pouco importava para Shiryu. E era um caso antigo, todos supunham haver algo entre eles.
Mas as coisas sempre poderia mudar, certo?
Não. O que seu Mestre diria se visse isso, o grande Cavaleiro de Dragão, apaixonado pelo Cavaleiro de Capricórnio? Um homem com pouca diferença de idade, mas mesmo assim, mais velho. Aliás, Dohko era o único que não teria o direito de falar nada.
Caminhou até a cozinha, pegando a caneca em que havia feito o chá de ervas calmantes, por sinal, uma caneca horrorosa. Nunca que compraria uma caneca com a cabeça de um tigrinho, gostava das coisas simples, sóbrias. Mau gosto era a cara do dono daquela casa mesmo.
Foi até o banheiro com a caneca na mão, apoiou-a em uma banqueta que havia lá, despiu-se e entrou na banheira, quase esquecendo-se de tudo que havia acontecido. Precisava planejar sua noite, e até sabia para quem ligar. Nunca fora muito de sair, mas Hyoga sempre tinha as melhores ideias e o levava para lugares ótimos, era uma ótima companhia para tirar aqueles pensamentos estúpidos da mente.
Algumas horas mais tarde, depois de ajeitar suas coisas no armário, assistir um pouco de televisão e perambular pela casa. Resolveu ligar para Hyoga, ver o que ele faria durante a noite. Pegou o telefone que havia na casa, testou antes para ter certeza de que a linha estava funcionando. E estava, então discou o número do celular de Hyoga, que após algumas chamadas atendeu.
– Alô? – A voz de Hyoga soava sonolenta.
– Hyoga? É o Shiryu, há quanto tempo. Estava dormindo?
– Sim, estava... – Ele não pareceu incomodado. – Aconteceu alguma coisa?
– Não, está tudo bem. – Sorriu, sentia falta de seus amigos, Cavaleiros de Bronze. Achara uma graça a preocupação de Hyoga. – Eu queria saber se você vai fazer algo hoje à noite... Cheguei hoje de madrugada no Santuário e pensei em te ver. Atualizar a conversa, compartilhar novidades, ir a algum lugar. Enfim, o que acha?
– Perfeito! Faz tempo que não nos falamos mesmo, você vive enfurnado naquele fim de mundo com aquela chatinha da Shunrei, não sei como aguenta... Enfim, eu tenho uma ótima ideia de um lugar para irmos, se quiser eu passo aí perto para te buscar.
Eram praticamente dezoito horas a última vez em que viu o relógio. – Pode ser às vinte e uma?
– Feito, até mais.
– Até.
~
Shiryu decidiu usar vestes normais, ao contrário das chinesas que gostava de vestir. Colocou uma calça jeans preta, uma regata branca e uma camisa grafite de manga longa por cima. Olhou-se no espelho, ficava estranho em roupas ocidentais, mas era mais estranho ainda sair por aí com roupa tradicional.
Desceu as escadarias do Santuário, não havia praticamente ninguém por ali – pelo menos, nenhum conhecido –, menos mal, odiava ter que dar explicações para as pessoas. Não chegou a esperar nem cinco minutos, e logo Hyoga chegou, em sua moto preta com detalhes alaranjados, era bem bonita e arrojada.
– Há quanto tempo, Shiryu! – Disse Hyoga. Ele se levantou da moto e tirou o capacete, passou a mão nos cabelos loiros, bagunçando-os um pouco. Caminhou até Shiryu e o abraçou com força, fazendo o libriano perder o fôlego.
– Você está me esmagando, calma. – Falou rindo, desvencilhando-se do abraço do loiro.
– Você está bonitão sem aquelas suas roupas estranhas de chinês. – Hyoga disse, rindo da expressão que Shiryu fez.
– E essa moto aí, hein? Você tem idade para dirigir isso? Ou melhor, sabe dirigir? – Perguntou, ignorando o comentário do loiro.
– A idade legal para se dirigir motos na Grécia é de dezesseis anos. Só carro que é dezoito. E sim, eu sei dirigir sim, muito bem, obrigado.
Hyoga abriu o porta-malas da moto, pegando outro capacete e entregando-o a Shiryu, logo colocando o seu e montando na moto. Shiryu montou atrás do outro cavaleiro, agarrando-se a cintura dele.
Não demoraram muito a chegar ao local planejado, apesar do Santuário ser um pouco afastado da cidade, as ruas estavam vazias e Hyoga seguia em alta velocidade. Parecia que aquele garoto não tinha noção do perigo, nem por medo de um acidente, pois eram fortes, mas de aparecer algum policial e querer multá-lo ou tirar sua carteira. Isso nem mesmo um Cavaleiro de Athena poderia impedir. Apesar de que haviam boatos de que os policiais gregos não eram lá muito rígidos, e faziam vista grossa para a maioria das infrações rodoviárias que aconteciam.
Hyoga estacionou sua moto, e os dois entraram no estabelecimento. Tocava uma música agitada, era um local pequeno, não chegava a ser sufocante, era até aconchegante. Havia um bar, umas mesas e uma pista de dança entre elas, um corredor mais iluminado que deveria dar no banheiro. A luz estava baixa, o suficiente para enxergar por onde se ia, mas com alguns holofotes piscando dando aqueles efeitos atordoantes.
O russo seguiu diretamente para o bar, pedindo duas cervejas, o barman parecia conhecê-lo. Deveria ser um frequentador assíduo do local.
– Hyoga... – O chinês falou no ouvido do loiro, devido ao barulho que estava no local. – A gente é menor de idade, você não pode comprar bebida assim! Imagine se alguém vê, a encrenca que iria dar.
– Deixa de ser chato, eu venho aqui sempre e nunca deu nada, até sou conhecido dos barmans. Sou quase um cliente VIP. – Respondeu, rindo de como o libriano era metido a certinho.
As cervejas foram postas no balcão, os dois estavam bebendo tranquilos, após terminar a primeira garrafa, Hyoga disse que precisava ir ao banheiro e saiu, deixando Shiryu sozinho no bar.
O aquariano entrou no banheiro e trancou a porta. Retirou um pacotinho que estava guardado no bolso interno de sua jaqueta, observando o conteúdo do mesmo. Retirou do bolso traseiro da calça sua carteira, pegando um cartão que havia ali. Passou alguns papéis na bancada da pia, para ter certeza de que a mesma estava seca. Colocou um pouco do pó branco que havia no pacote em cima da pia e o ajeitou, formando duas linhas de mais ou menos cinco centímetros. Puxou uma nota de sua carteira e a enrolou, colocando-a dentro do nariz. Respirou fundo e cheirou uma linha.
Shiryu estava incomodado com a demora do amigo, mas nada que o desesperasse. Começou a prestar atenção nas músicas que tocavam. Um rock calmo, porém com guitarras pesadas se iniciou, o cavaleiro prestava atenção na letra da música.
You can't talk.
Você não pode falar.
I'm anxious.
Eu estou ansioso.
I’m off the walls.
Eu estou fora dos muros.
I'm right here.
Eu estou bem aqui.
Just come outside and see it.
Basta chegar lá fora e vê-lo.
But pack your heart, you might need it.
Mas empacote seu coração, você pode precisar dele.
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