Rising Sun
2 | Welcome Back
Dar um sentido à nossa vida pode terminar em loucura,
mas uma vida sem sentido é um flagelo
de desassossego e de vago desejo –
é como um barco que suspira pelo mar e não se atreve.
Edgard Lee Masters
BEM-VINDA DE VOLTA
— ⚜︎ —
Não havia ninguém. Os melhores bosques em Sherbrooke eram sempre os mais remotos. Além dos ursos, alces e cervos-de-cauda-branca, não havia mais nada que passasse por aqui. Naturalmente, era um lugar bonito, mas de certa forma, era similar a todos os outros que já tinha passado antes.
Por causa da minha condição, eu nunca estive em um lugar por tempo o suficiente para poder chamá-lo de lar. Nos últimos 6 anos, minha família e eu tínhamos precisado nos mudar constantemente para evitar alavancar as suspeitas do meu assustador e rápido desenvolvimento. Foram mais casas do que todos os aniversários que já tive até então. Minha vida inteira parecia ter sido norteada por essa espécie de mantra, mas agora eu sabia que não precisava mais ser assim.
— Está mesmo certa que é isso o que quer? — Perguntou uma voz familiar, me puxando dos meus devaneios.
Um sorriso involuntário se formou no canto da minha boca, mas eu não me virei para encarar o meu pai. Ao invés disso, ele se sentou ao meu lado. Nós dois olhamos adiante, encarando as grandes montanhas que se formavam no horizonte do monte Dufresne em silêncio.
— Sim — eu disse, recostando minha cabeça em seu ombro — É o que eu quero. Você entende, não é?
Desta vez, eu ergui meu olhar para ele. A pele pálida brilhava fracamente sob os raios finos que atravessam as nuvens, mas não havia ninguém mais que pudesse ver. Éramos os únicos em um raio de 40 metros.
— Precisa conversar com sua mãe — respondeu ele com um sorriso sutil. Ele sempre sorria quando pensava nela — Ela vai apoiar sua decisão.
— Eu sei — respondi com suavidade — Ela sempre apoia.
***
Meus pais me acompanharam até o aeroporto. A BMW esportiva deslizava perfeitamente pela autoestrada a 80 km/h, o que até podia ser considerada uma velocidade extremamente baixa para o meu pai. Contudo, eu sabia que ele não ultrapassaria esse limite, especialmente por eu estar no banco de trás.
Talvez, explicar a forma como as pessoas que realmente me conheciam me viam fosse mais fácil de entender através da metáfora do copo meio cheio ou meio vazio. Alguns acreditavam que existir na fronteira entre duas espécies era algo bom, enquanto outros achavam que isso era apenas diminuir as duas coisas.
Eu me mantinha do lado das pessoas positivas, mesmo sabendo que nunca poderia equiparar minhas habilidades à força total de um vampiro. Essa era uma das premissas que dividia opiniões, e eu tendia a culpar a dicotomia da personalidade protetora do meu pai por fazê-lo ser levemente mais inclinado ao lado das pessoas negativas. Ainda assim, era bom poder ver o quanto ele tentava lutar contra esse lado só para me agradar.
O dom que ele tinha naturalmente o tornava uma pessoa mais compreensiva. Para ele era fácil se colocar no lugar dos demais, sobretudo daqueles que eram mais próximos a ele, e eu não era uma exceção à essa regra. Desde o primeiro momento, foi ele quem conseguiu compreender inteiramente minha forma de pensar. Eu formulava frases antes mesmo de conseguir falar, porque meu corpo biológico simplesmente nunca acompanhava meu cognitivo. Por mais rápido que meu crescimento houvesse sido, a verdade é que ele jamais tinha conseguido se igualar ao meu estado de consciência até então.
Acho que era inevitável, de qualquer modo, que meu pai também fosse o primeiro a descobrir sobre meus planos para depois da graduação. Escondê-los teria sido uma tarefa árdua. Quase impossível. Meus pensamentos tinham divagado sobre isso durante muito tempo, e eu repassei esse momento diversas vezes na minha cabeça: o momento em que meu corpo e minha mente finalmente pareceriam alinhados, tocando no mesmo ritmo, e eu pudesse enfim olhar para algum lugar sem o medo de precisar ir embora. Eu tinha até mesmo uma lista de cidades separadas só para esse propósito, mas havia apenas uma na qual eu gostaria de começar.
A simples e chuvosa cidadezinha que tinha sido meu primeiro e único lar.
Eu dei uma boa última olhada para paisagem que se abria do outro lado da janela do carro. A vegetação estava marrom e alaranjada. Poucas coisas simbolizavam mais o Canadá do que suas grandes folhas secas desbotando no outono. Eu fechei os olhos, deixando a brisa fresca mordiscar meu rosto, mas senti os olhares atentos que minha mãe me lançava pelo retrovisor. Ela tinha os olhos dourados igual ao restante da minha família. Brilhantes como exóticas pedras cor de âmbar.
Os meus, inevitavelmente, eram a única exceção. Redondos e cor de avelã. Algo que herdei da sua vida mortal. No entanto, meu cabelo formava uma cascata ondulada na mesma tonalidade acobreada dos fios ruivos do meu pai. Carlisle sempre dizia que eu tinha saído numa exata mistura entre os dois, e eu concordava com ele.
— Está ansiosa? — Minha mãe perguntou quando saímos do carro.
Podia ver que suas mãos estavam fechadas em punhos. Provavelmente ela estava ainda mais ansiosa do que eu, mas eu sabia que ela jamais me impediria de ir atrás do que eu achasse que fosse certo.
— Um pouco — respondi francamente antes de abraçá-la — Eu ainda não sei exatamente o que esperar.
— Em Forks? — Meu pai falou com um sorriso irônico, pegando minhas malas com facilidade — Muita chuva e sapatos enlameados.
Eu abafei uma risada e o abracei sem perceber. É claro que eu sentiria falta deles.
Eles haviam sido os melhores pais que alguém poderia ter pensado em pedir. Mas mesmo que eu fosse feliz na companhia dos dois, eu simplesmente não podia viver sob a asa protetora deles para todo o sempre.
— Amo vocês — eu disse singelamente, consciente demais da atenção que poderíamos chamar.
As outras pessoas provavelmente viam apenas três amigos da mesma idade se despedindo. E era exatamente isso que deveriam ver.
— Nós também te amamos — minha mãe respondeu baixinho — Mande lembranças à Charlie.
— Estaremos sempre aqui por você — meu pai acrescentou, calmamente, apertando meu ombro com delicadeza.
"Obrigada", eu respondi em pensamentos antes de me virar, sabendo que ele continuaria acompanhando minha linha de raciocínios até que eu embarcasse seguramente no avião.
A viagem do Canadá para Washington não era realmente penosa, mas também não foi necessariamente rápida. Primeiro, decolei de Montreal até Seattle, e em seguida, embarquei no avião que me deixaria em Port Angeles. Quando aterrissei, Charlie já estava me esperando, e não foi difícil reconhecer seu tradicional carro-patrulha estacionado do outro lado da rua ao passar pela porta automática do aeroporto.
Diferentemente de mim, ele não tinha mudado tanto assim. Com exceção de alguns novos fios grisalhos em seus cachos castanhos e as linhas de expressão mais acentuadas na testa, Charlie continuava praticamente o mesmo. Era engraçado como, apesar da aparência física, minha mãe e ele ainda se pareciam em tantos aspectos. Ambos tinham expressões muito transparentes e, apesar de não serem as pessoas mais comunicativas do mundo, não era preciso realmente muito esforço para saber o que estavam pensando.
Charlie claramente tinha se preparado o máximo que pôde – para uma mente humana – e estava fazendo o seu melhor para tentar expressar naturalidade com esse tipo de situação. Ele possivelmente tinha deixado todo seu ceticismo de lado só para ver sua neta aparentar ter ao menos dez anos a mais do que deveria e, ainda assim, continuar com um grande sorriso no rosto. Eu simplesmente não pude evitar sorrir de volta, e retribuir seu afeto com um abraço apertado.
Ele pareceu genuinamente feliz com isso, e eu também estava.
— Então — pigarreou ele, constrangido, quando deslizamos para dentro do carro — Faculdade, hein?
— Justiça criminal na Faculdade da Península — eu disse — Parece que a maçã não cai mesmo muito longe da árvore, não é?
Charlie gargalhou, concordando, e as maçãs do seu rosto se tingiram levemente. Parte disso se devia às risadas, mas eu achava que ele também parecia meio orgulhoso.
— Quem sabe Forks não ganha uma especial chefe de polícia quando eu me aposentar — ele comentou, ainda sorrindo — Pronta para ir?
— Acho que empaquei casacos o suficiente – eu disse, olhando para o banco de trás, que Charlie tinha usado para colocar o resto das minhas coisas.
Ele sacudiu a cabeça e girou a chave na ignição. O caminho passou rápido enquanto eu o deixava a par das cidades que havíamos estado nos últimos anos. Fairbanks, Nome, e claro, mais recentemente, a região leste do Canadá.
— Bom, aqui não é tão requintado como alguns desses lugares — admitiu Charlie parecendo um pouco envergonhado — Mas espero que goste da cidade.
— Tenho a sensação que sim – falei, olhando para as altas árvores que beiravam o asfalto.
E isso também pareceu deixá-lo contente.
Charlie estacionou o carro na entrada de uma casa de madeira que ficava entre a reserva e o centro da cidade. Há dois anos, ele e Sue haviam comprado uma nova casa, e se mudaram assim que decidiram que já passava da hora de viverem juntos.
Eu ainda podia me lembrar de Sue, mesmo tendo-a conhecido com pouca idade. Ela era uma mulher determinada e leal, apesar da vida não ter colaborado facilmente com isso.
Sue saiu à porta sorrindo. Seu cabelo preto estava preso em um rabo de cavalo e seus olhos escuros brilhavam lindamente.
— Renesmee! – exclamou ela, parecendo feliz em me ver — Você está linda! Uma mulher deslumbrante!
Eu sorri em resposta, sem conseguir evitar olhar para baixo.
— Venha conhecer a casa — continuou ela, segurando minha mão e me guiando para dentro — Charlie e eu queríamos que conhecesse esse lugar desde que nos mudamos.
Eu olhei para Charlie, e ele me incentivou a entrar sutilmente com um aceno de cabeça.
Quando passei pela porta, meus olhos se arregalaram levemente em surpresa. O lugar era bem maior do que eu estava esperando, e definitivamente era mais iluminado também. Suas paredes eram claras, e o chão montado com madeira polida. Havia uma escada que levava para o quarto principal e dividia a casa em dois corredores: à direita estava um pequeno cômodo que Charlie tinha transformado em uma espécie de escritório particular, e à esquerda, o corredor dava lugar ao restante da casa. A sala não era tão grande, mas tinha uma nova TV acoplada à estante da parede e um bonito sofá cinza, que havia sido decorado com almofadas bordadas.
— É uma linda casa, Sue — eu disse, sabendo que era ela a responsável por agregar os pequenos detalhes que tratavam de deixar o espaço mais reconfortante — Nem acredito que conseguiu convencer Charlie a se livrar daquele quadro com o peixe.
— Oh, quem me dera — ela riu, cobrindo a boca com a mão — Está logo ali no escritório, mas pelo menos eu o fiz pendurá-lo atrás da porta.
Eu abafei uma risada, e ouvi Charlie bufar atrás de nós.
— Ei, um homem também pode gostar de decorar a própria casa.
— Claro — disse Sue, se virando para ele — Mas isso não garante nenhum bom gosto.
Charlie deixou a cabeça cair, mas passou o braço carinhosamente sob os ombros de Sue, e então voltou a olhar para mim.
— Você sabe que pode ficar aqui se quiser, não é criança? — ele perguntou, coçando o final do cabelo na altura da nuca — Temos o quarto de hóspedes vazio. Bom, tecnicamente não completamente vazio, mas posso tirar todas as tralhas de lá se quiser. Ele também é bastante reservado e sempre fica numa temperatura agradável por causa do aquecedor. Talvez você não goste muito do papel de parede, mas podemos trocá-lo ou escolher uma cor nova, faz tempo que Sue me fala dar um jeito naquelas paredes…
— Vovô — eu disse, sem conseguir evitar sorrir — Eu já fechei um contrato para pegar a casa perto da faculdade, mas vou ficar mais que feliz de passar por aqui nos finais de semana… Além do mais, não vejo o porquê de não separarmos um tempo para as paredes. Você ficaria mais que surpreso se descobrisse tudo o que passei aprendendo sobre pintura com Esme nos últimos anos.
A boca de Charlie se contraiu em um sorriso e seus olhos castanhos brilharam gentilmente. Eu sabia que além de Sue, meu avô só tinha se casado uma vez antes: com Renée, minha avó. Pelo que minha mãe tinha me contado, a vida matrimonial não chegou a durar muito entre os dois, e aparentemente Charlie tinha vivido sozinho desde o divórcio até pouco tempo antes de eu nascer, quando minha mãe se mudou para cá.
Eu não conhecia o Charlie que morava sozinho. Para mim era apenas natural pensar em ele com Sue ao seu lado. Eu passei o restante da tarde com eles, e poderia facilmente passar um par de horas a mais conversando com ambos. Sue tinha excelentes recomendações dos lugares que poderia visitar na região e meu avô pareceu gostar de me ouvir falar sobre minha nova grade curricular. Entretanto, eu ainda precisava organizar todo o restante das coisas da mudança, e Charlie se ofereceu prontamente para me levar até a minha mais nova casa.
Ela ficava próxima ao coração da cidade, na estreita rua ao lado da faculdade. No entanto, era preciso seguir todo o caminho asfaltado apenas para conseguir vê-la. Era uma construção de apenas um andar que tinha uma varanda pequena, mas ainda possuía um certo charme inigualável. Seu exterior tinha sido pintado com as cores que lembravam a minha estação do ano favorita, o outono, e à sua volta cresciam resistentes árvores de pinho, que emolduravam o redor e formavam as bonitas florestas das montanhas ao fundo.
— Oh — Charlie exclamou baixinho, quando deixou o motor da viatura morrer em frente à porta — Essa casa é um verdadeiro achado, é bem bonita, e também parece novinha em folha…
— Ela é mesmo nova. Esme ainda mantêm contato com alguns bons corretores da área.
Charlie assoviou, erguendo as sobrancelhas.
— Os melhores entre os melhores, eu suponho.
— Isso também.
Nós rimos e deixamos o carro ao mesmo tempo, mas Charlie não me deixou ajudar com as malas. Ele me fez esperar de braços cruzados enquanto o via levar todas as minhas coisas para dentro. Felizmente, a casa já vinha com a mobília essencial: cama, sofá, geladeira… Eu só precisava cuidar da decoração e do resto dos utensílios secundários.
— Você deve estar cansada da viagem — Charlie disse, parando na varanda depois de já ter descarregado tudo do carro — Vou deixar que se ajeite criança, mas ligue caso precise de alguma coisa.
— Está bem vovô, vou ligar! Muito obrigada, por tudo!
Charlie sorriu e caminhou até a viatura, mas logo voltou a virar, como se tivesse esquecido de dizer algo importante.
— Ah, e bem-vinda de volta, Nessie.
Seu olhar foi tão sincero e suas palavras tão genuínas que eu não poderia ter tido outra reação além de sorrir. Balancei a cabeça, sorrindo de volta, até vê-lo partir. Mas tão pronto o carro foi embora, o meu sorriso se desmantelou também.
Fechei a porta e me deixei cair no sofá, olhando para a grossa camada de névoa que cobria a copa das árvores através das janelas. Uma habilidade especial podia ser rara até mesmo entre os vampiros, e em mestiços, metade humanos e metade imortais, essa probabilidade era ainda mais baixa, próxima a nada.
No entanto, cá estava eu.
Talvez essa fosse a ironia de desafiar o improvável. Dentre as sutilezas de dons tão raros, o meu consistia justamente em lembrar cada detalhe da minha breve existência e, caso desejasse, compartilhar minhas memórias e pensamentos com alguém através de um único toque.
Nessie.
Esse era o nome pelo qual todos me conheciam. Eu nunca me esqueci da pessoa que me deu esse apelido, e duvidava que um dia seria capaz de me esquecer de Jacob Black.
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