VISITA

— ⚜︎ —


A ideia de poder voltar para Forks sempre tinha parecido ambígua. As florestas densas, o cheiro da terra constantemente molhada e o alvorecer presunçoso das suas manhãs nebulosas me atraiam por sua estranha familiaridade. Contudo, eu ainda podia reconhecer que havia algo a mais por trás da minha permanente vontade em querer voltar. Era quase como uma intuição, ou um pressentimento. Eu não sabia se isso estava necessariamente ligado à impressão que existia, mas de alguma forma, eu simplesmente sabia que estava relacionado a ele.

Eu me forcei a levantar do sofá, e caminhei lentamente até o banheiro que ficava entre a sala e o quarto. Talvez um banho gelado fosse o que eu precisava, mas era meramente impossível tomar uma ducha fria em Forks. Eu voltei a me agasalhar com um suéter de lã e meias felpudas depois de um demorado banho quente que tratou de deixar minhas bochechas ainda mais coradas. Eu não queria ter que lidar com nenhuma arrumação no momento, então simplesmente empurrei minhas malas para o canto do quarto e me joguei de bom grado na cama.

O entardecer era rápido. Tudo parecia mais disposto a ficar graciosamente acobertado pela escuridão silenciosa da noite por aqui. Rolei para o lado, deixando meu cabelo molhado umedecer ligeiramente a fronha do travesseiro. Sabia que minha escova de cabelo estava guardada em alguma parte muito funda da mala, mas eu não tinha nenhum impulso forte o suficiente que quisesse me fazer levantar. Fechei os olhos, deixando que a brisa fresca que entrava pela janela acariciasse meu nariz e modelasse as ondas acobreadas do meu cabelo.

Eu não percebi que estava realmente caindo no sono até que algo fez meu instinto despertar por completo. Algo grande e veloz subitamente passou muito próximo do parapeito da janela. Eu me levantei agitada, num inconsciente estado de alerta. A noite de lua nova não ajudava a deixar as coisas mais claras, mas minha visão ainda era melhor que a de um humano, e mesmo a distância, pude enxergar o movimento irregular que rodeava os galhos das árvores.

Havia algo na floresta. E parecia estar se aproximando da casa.

Sem perceber, prendi minha respiração e corri até a janela, fechando-a com um estrondo. Girei nos calcanhares apressada e estava prestes a alcançar a fechadura da porta principal quando ouvi as batidas do outro lado.

— Olá, Nessie – disse uma voz simpática, abafada pela porta, e que tinha um timbre surpreendentemente reconhecível. — Ouvi o barulho de passos vindos aí de dentro. Somos Seth e Leah Clearwater.

Eu espiei através do olho mágico e reconheci os dois irmãos imediatamente. É claro que eu me lembrava deles. Ambos estiveram constantemente presentes nos primeiros meses da minha existência. Os únicos que passei inteiramente aqui, em Forks. Eu respirei aliviada, e abri a porta sem esforço.

— Nessie! — Seth exclamou com evidente animação ao ver.

Ele abriu os braços para me envolver num abraço saudoso, e me levantou do chão sem muitas dificuldades

— Oi, Seth — eu respondi, sorrindo.

— Wow, você se lembra! Incrível, Nessie! Se bem que você sempre foi especial…

Meu sorriso se alargou involuntariamente, quase se transformando em uma risada. E então meus olhos caíram na garota ao seu lado. Ela era bonita, mas não deixava isso transparecer facilmente, como se ficasse constantemente na defensiva.

— Oi, Leah — acrescentei num tom amplo.

— Renesmee — respondeu ela com um aceno de cabeça, que eu supus, deveria passar animosidade — Vejo que chegou bem. E em segurança.

Algo na forma como ela disse essa última palavra me passou uma sensação estranha.

— Porque eu não estaria segura?

— Não ligue para ela — falou Seth descontraidamente, mas pude notar o rápido olhar que eles trocaram entre si quando eu os deixei passar.

— Desculpem — falei enquanto fechava a porta — A casa ainda não tem nada que possa oferecer para vocês… Só água. Querem?

Leah se sentou na ponta do único sofá disponível, negando com a cabeça.

— Estamos bem — ela disse, calmamente — Só queríamos dar um oi e ver como estava. Passamos na casa da mamãe antes, mas ela disse que você já tinha ido.

Seth continuou de pé em meio a minha sala vazia, mas concordou com ela.

— É, Charlie apareceu bem quando já estávamos saindo. Foi ele que nos passou seu novo endereço — o típico sorriso amigável de Seth continuou preso em seu rosto mesmo enquanto ele virava a cabeça para dar uma olhada em volta — É um bom lugar que você conseguiu aqui, Nessie! Bem perto da faculdade!

Meu sorriso cresceu com a ideia de poder encontrar rostos familiares na faculdade.

— Você também estuda lá?

— Ah, não — ele respondeu, rindo — Não acho que a vida acadêmica seja pra mim, mas nossa Leah aqui... já está terminando um curso lá!

— Isso é ótimo! Qual?

— Hotelaria e Ecoturismo — Leah disse, parecendo satisfeita com a escolha — Você?

— Justiça criminal.

— Legal! — exclamou Seth — Não é à toa que Charlie parece orgulhoso!

Eu ri, compartilhando da mesma impressão. Tecnicamente, eu estava seguindo os passos dele.

— Então — Seth continuou, alegremente — Como foi a viagem?

— Cansativa — eu disse — Oito horas só para chegar a Seattle.

— Viagem longa — concordou ele, assoviando.

Leah levantou, dando um tapinha no braço do irmão.

— Não queremos te incomodar — ela disse.

Eu me movi para frente instintivamente.

— Vocês já estão indo?

Eu estava cansada, isso era verdade. Mas a visita deles tinha me revigorado minimamente. Como se estar perto deles me deixasse instantaneamente mais próxima da pessoa que eu realmente queria poder ver.

— Não se preocupa — informou Seth, com um grande sorriso no rosto — Podemos nos ver amanhã se quiser. Vamos fazer uma celebração no fim da tarde e você é mais que bem-vinda.

Sem conseguir evitar, meu coração acelerou um pouco. Será que ele estaria lá também?

— Claro — concordei, mantendo meu tom ameno — Onde vai ser?

— Fica tranquila — respondeu Leah, mas ela tinha um sorriso difícil de desvendar — Podemos passar para te buscar. Só fique pronta às cinco.

— Tchau, Nessie — Seth acrescentou gentilmente — Bom te ver.

— Tchau, Seth. Tchau, Leah. É bom ver vocês também.

Eu acompanhei os dois até a porta, e uma dúvida iminente cruzou meus pensamentos enquanto os via se afastar da varanda.

— Sobre o que é a celebração? – Eu perguntei, persuasivamente, elevando um pouco meu tom de voz.

Ambos pararam para olhar para mim.

— É uma espécie de homenagem — explicou Seth — Para celebrar o constante comprometimento do Alpha em liderar a alcatéia e mantê-la vitoriosa.

Leah assentiu, mas sorriu discretamente antes de voltar a se virar.

— Mas, neste caso, acho que temos mais de um Alpha para celebrar, não é?

Eu senti o sangue passar mais fervorosamente sob as maçãs do meu rosto, e a ponta dos meus lábios inevitavelmente se contraiu em um sorriso. Então ele definitivamente estaria lá.

***

Foi o feixe de luz passando pelo vidro que me acordou. Eu tinha esquecido de fechar as cortinas na noite anterior, mas isso não me incomodou. O sonho que tive ainda estava vívido em minha mente.

Sabia que parte dele era imaginação, mera fantasia, mas isso não me impediu de me agarrar a ele. Porque apesar da inconsciência onírica, o sonho ainda guardava resquícios de uma memória longínqua.

O solo estava coberto pela neve, assim como as árvores, e todo o restante da clareira. Os flocos caíam em um ritmo lento, como bailarinas de algodão ao som de uma doce melodia. Eu podia saltar sob os flocos, um a um, até chegar no mais alto. A vista era surpreendente lá de cima, mas ao mesmo tempo parecia ameaçadora.

Ao olhar em volta, tudo o que se podia ver era a avassaladora imensidão alva.

Mas então eu olhei para baixo. E lá estava meu ponto norteador. O lobo gigante em meio a clareira. A companhia solidária que estava sempre ao meu lado. Seu pêlo marrom-avermelhado vibrava como o fogo, iluminando tudo à sua volta. Eu olhei para os lados, escolhendo rapidamente um dos flocos que caíam, cristalinos e reluzentes, e o guardei na palma da mão antes de voltar ao chão.

Eu me juntei a ele num pouso suave, como se a neve sob meus pés fosse um mero trampolín, feito para amortecer meu balanço. Então eu estiquei meu braço e depositei o floco na ponta do seu nariz, só para ver como derretia.

A diversão do meu sonho se juntou ao meu bom-humor ao acordar. O clima continuava frio e acinzentado do lado de fora, mas não era nada que eu já não estivesse esperando. Levantei da cama para abrir a janela e inspirar o ar matinal. Ainda era cedo. Eu não estava particularmente com fome, mas o horário parecia propício para a caça.

Depois de lavar o rosto, me vesti com jeans e uma grossa camisa xadrez, que logo seria substituída. Não me importei em passar pela porta, preferindo deslizar mais facilmente pela janela. Eu dei alguns passos curtos até ganhar velocidade, e então corri decididamente em direção à floresta.

Não precisei ir muito longe, nem alcançar o rebanho, para ter um grande cervo cruzando o meu caminho. Ele estava sozinho, mas para mim, uma única presa era o suficiente.

Quando voltei, passei o restante do dia arrumando minhas coisas. Organizei os produtos de higiene nas prateleiras do banheiro e dobrei minhas roupas para caberem ordenadamente nas gavetas da cômoda. O guarda-roupa que vinha com a casa tinha um tamanho mediano, e preferi colocar apenas as peças que mais gostava, e também as mais delicadas, nos cabides.

Apenas um vestido ficou do lado de fora. Ele era preto e sutil, mas eu gostava do seu corte. Ficava alguns palmos acima do joelho e tinha mangas compridas. Eu o combinei com uma bota e adicionei uma grossa meia-calça que tratou de unificar o conjunto. No final da tarde, a chuva constante tinha cessado, deixando o fim de tarde mais ameno.

O orvalho fresco se acumulou nas folhas e no gramado. O céu estava púrpura e azul e levemente rosado.

Eu podia sentir o cheiro revigorante da natureza mesmo estando dentro de casa, e esse era um dos aromas que eu mais gostava. Então, ouvi o som próximo de pneus deslizando sobre o asfalto, e algo me surpreendeu. Não foi a velocidade do veículo, mas sim o número de rodas.

Eu estava esperando ouvir quatro, e não duas.

À medida que me aproximava da entrada, pude sentir o ritmo do meu coração se elevar. Uma batida após a outra. Estava estranhamente descompassado, e eu evidentemente não estava acostumada a tê-lo batendo dessa forma.

Algo se embolou na boca do meu estômago quando alcancei a maçaneta.

Eu abri a porta. E lá estava ele.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.