RinHaru Project
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Makoto havia conseguido convencer Haru a jantar com ele e sua família na véspera de Natal. Ele chegou no início da tarde e ficaram matando o tempo no quarto de Mako, jogando videogame e falando bobagens.
– Não pode ficar me deixando ganhar toda vez. – Haru reclamou, sem tirar os olhos da televisão.
Mako riu.
– Não estou te deixando ganhar. Você que está melhor nesse jogo.
– O jogo é seu, você joga muito mais que eu. Ou está facilitando pra mim ou está muito distraído hoje...
– Eu... Acho que é porque faz tempo que você não vem aqui... Fiquei feliz quando aceitou o convite.
– Era melhor do que passar a noite sozinho com um golfinho de borracha. – Ele olhou de relance para o amigo. – Por que? Alguma coisa está te deixando nervoso?
Makoto se desconcentrou e viu as letras “K.O.” aparecerem em cima de seu personagem na tela. Ele riu, sem graça.
– Q-que nada. – Ele percebeu que Haru havia largado o controle e virado de frente para ele. – É só que você costumava viver aqui quando éramos menores, mas então você começou a ficar mais distante... É bom saber que nós dois...
Seus olhos se encontraram e Mako completou, ruborizando:
– ... Que nós dois ainda somos melhores amigos.
Haru se deitou no chão, olhando para ele.
– Estava preocupado com isso? – Ele sorriu. – Você sabe que sua amizade é importante pra mim.
– Sei disso... É que ás vezes parece que tem uma barreira entre você e o resto do mundo.
– Hm.
O assunto morreu. Makoto suspirou e se deitou também, encarando o teto. Queria poder manter Haru com ele ali ao seu lado para sempre. Não temia mesmo pela amizade dos dois, mas receava que as coisas fossem mudar dali pra frente... Não era cego de não ver o que estava acontecendo entre ele e Rin. E se Haruka preferisse passar seus dias com Rin em vez de com ele? Mako olhou para o amigo deitado. Ele era maravilhoso... O fazia se sentir tão bem, tão completo.... Tão feliz. Será que ele se sentia da mesma forma? Ele abriu a boca para falar, mas no mesmo instante, a mãe entrou no quarto, ainda com um avental de cozinha.
– Ainda estão assim, meninos? – Ela perguntou. – Arrumem-se. Mako, seus avós já estão chegando, você deveria ir falar com eles. Haruka, querido, você precisa de alguma coisa?
– Estou bem. Obrigado.
– Tão gentil. – Ela respondeu sorrindo. – Podem me chamar se precisarem de mim.
Makoto se levantou, indo até o armário pegar roupas limpas para o jantar.
– Sua mãe é muito legal.... – Haru falou.
O outro olhou para ele por cima do ombro.
– Ela considera você parte da família, sabe disso. – Mako comentou sorrindo. Ele tirou a camisa. – Posso entrar no banheiro primeiro?
– Claro.
Haru ouviu o som do chuveiro sendo ligado instantes depois. Ele observou o quarto. Passara metade de sua infância ali, mas Makoto tinha razão. Fazia tempo que não passavam um tempo juntos assim. Se sentiu culpado por preocupar o amigo. Sabia que seu jeito introvertido não ajudava na manutenção de seus relacionamentos.
Involuntariamente, se viu pensando em Rin. Tentou afastar os pensamentos da cabeça. Ele deveria falar a respeito com Mako... O amigo era bem melhor em lidar com as pessoas do que ele. Mas assim que ele saiu do banheiro, já pronto, desceu apressado. Haru começou a se arrumar também. Não tinha pressa.
Em pouco tempo, estavam sentados à mesa de jantar. Haru ficou feliz em ver que a mãe de Mako havia feito cavalinhas pensando nele. Ran e Ren ficaram fazendo brincadeiras e puxando assunto com Haru, como sempre acontecia, o que ele achava engraçadinho. O restante dos parentes passou a maior parte do tempo conversando entre si enquanto jantavam.
Terminado o jantar, todos trocaram presentes entre si, cheios de abraços e risos. Haru deu para Mako um livro que sabia que ele queria. Ele recebeu um perfume e uma camisa com gola polo azul. Alguns membros da família começaram uma conversa com os dois, mas Haru não estava particularmente interessado. Para sua felicidade, Makoto conseguiu que eles escapassem da sala cheia de gente. A essa altura, já estava de madrugada e Haru logo iria voltar para casa. A mãe de Mako sugeriu que ele dormisse ali, mas.... Eles moravam a poucos metros de distância!
– Sabe... – Haru começou a falar, sentando-se na cama de Mako, quando estavam sozinhos. – Eu queria falar pra você de uma coisa....
– Pode falar!
Haru desviou os olhos, com o rosto corado.
– Eu.... Acho que.... Estou gostando de uma pessoa.
Makoto travou. Haru estava apaixonado? Então era por isso que ele parecia tão aéreo nos últimos dias. Fazia sentido.
– Sério? Quem é?
Haru apoiou as costas na parede e enfiou a cara em um travesseiro.
– Ma.... – Foi a única coisa que se pode entender.
O mais alto arregalou os olhos. Ele... começara a dizer o seu nome? Isso queria dizer que... Haru também precisava dele, queria estar com ele e..... Se sentia da mesma forma que ele? Mas e se Haru estivesse mesmo a fim dele, o que faria? Não sabia se estava pronto para um passo como aquele...
– Tira esse travesseiro da frente pra falar! – Ele falou, se debruçando contra Haruka e afastando a almofada entre os dois.
– ... Matsuoka Rin.
“RIN?!”
– Eu.... Não sei direito. – Haru prosseguiu. Agora que tinha começado, falaria tudo. – Nunca me senti dessa forma... Mas Rin não me sai da cabeça... E, quando fico próximo dele... É como se tudo estivesse no lugar certo.... Eu sinto esse aperto no peito e.... – Ele suspirou. – Eu não sei.... Desculpe. Estou só falando bobagens...
– N-n-não! Não tem problema! – Mako falou, sem jeito, se afastando um pouco. Então completou, com um aperto no coração. – Sou seu melhor amigo, não sou? Pode contar tudo pra mim, Haru!
– Obrigada, Mako. – Ele respondeu, sorrindo. – Sabe, você sempre foi como um irmão para mim.... É muito bom poder desabafar com você.
Como. Um. Irmão.
Droga, ele estava realmente abalado com aquilo... Mas Haru esperava que ele o ouvisse e aconselhasse.... Se não podia ser nada além disso, ao menos seria o melhor amigo que pudesse.
É... Um dia a gente supera o que a vida faz com a gente...
– E-então eu estava certo! – Mako falou, esperando que o outro rapaz não notasse o gaguejar de sua fala. – Naquele dia no karaokê, havia mesmo alguma coisa entre vocês dois!
Haru levantou o rosto, completamente vermelho de vergonha. Makoto não pode deixar de pensar que ele ficava bem bonitinho daquele jeito.... Então se censurou, tentando manter a cabeça no lugar. Ele ouviu o amigo continuar:
– Não.... Não tinha nada entre a gente... E nem tem agora. Nem sei se ele poderia pensar em mim dessa forma também...
Mako sorriu. Haru, sempre tão certo no que fazia e no que queria, estava ali, confuso e inseguro. Ele sentou-se ao seu lado.
– Você não percebeu mesmo o que aconteceu ali? – Haru o olhou sem entender. Mako revirou os olhos. – Rin está totalmente a fim de você! Só que ele é um idiota lento que não consegue enxergar o quanto você é especial!
Haru se surpreendeu com o quão Makoto fora direto.
– .... É sério que acha isso?
– Como não achar? Haru, eu sei que ele sempre foi importante para você.... Ninguém consegue te sensibilizar como ele. E o mundo inteiro sabe que ele não ficou um dia sequer na Austrália sem pensar em você. Chame do que quiser, mas o que vocês têm... É bem forte.
Ele falava sério. Estava mais que na cara que Rin gostava de Haru. E ele sabia que este se importava com o ruivo também. Mas não pensava que esse sentimento evoluiria dessa forma.... Parando para pensar, não era algo tão surpreendente assim, mas ele preferia não ficar pensando em Haru fazendo coisas estranhas com outro cara.
– Então.... Você.... Me ajudaria?
Tá legal, Mako não esperava por isso. Uma coisa era abrir os olhos de Haru, esperar que ele fosse feliz, mas... Servir de cupido?! Ele riu, sem graça.
– Eu.... Posso tentar.
Haruka abriu um sorrisinho, ainda com o rosto corado.
– Obrigado.
Ficaram mais algum tempo ali. Haru contou para Mako como descobrira seus sentimentos e o amigo tentou lhe ajudar. Quando olharam no relógio, já havia passado mais de uma hora de quando Haruka pretendia voltar para casa. Makoto se ofereceu para acompanhá-lo, mas ele agradeceu e dispensou. Passaram outra vez pela sala e o garoto se despediu da alegre família.
– Sabe que pode contar comigo para qualquer coisa, não sabe? – Mako perguntou, quando Haru estava prestes a sair. – Digo, mesmo que as coisas não deem certo entre os dois.... Estou aqui para o que precisar.
Ele se virou para o amigo e lhe dirigiu um sorriso.
– Eu sei.
Haru subiu apressado os degraus que levavam a sua casa. Queria um tempo sozinho para pensar em tudo. Será que Mako estava certo? Rin também gostava dele? E, em todo caso, como falaria isso para ele? Não gostava de manter segredos... E nem pensava que conseguiria esconder isso de Rin quando se encontrassem.
Ah, Rin.... Por que gostar de alguém tinha que ser tão complicado?
***
O dia de Natal passou sem nada de muito interessante. Haru passou o dia fazendo nada. Fez uma tentativa frustrada de ir até a escola para nadar, mas os portões estavam trancados. Então ele voltou para casa e passou uma hora ou duas na banheira. Já sabia que Rin não estava na cidade, pois Nagisa havia fofocado a respeito no início da semana. De repente, o toque do celular que indicava a chegada de um e-mail o fez despertar de seus devaneios. Ele saiu da banheira e foi até onde o aparelho estava.
“ Feliz Natal, Haru! Foi mal n poder ta aí com você e os rapazes, mas qnd eu voltar vamos nos encontrar pra fazer alguma coisa ;)
– Rin”
Haru sentiu o rosto esquentar. Ele lembrara de lhe mandar uma mensagem.... Que besteira! Era uma data comemorativa, só por isso. Mas espere, Rin havia o chamado para sair? Ele sentiu o coração acelerar, ao pensamento de sair em um encontro com ele...
Ele cobriu o rosto com as mãos, frustrado. Quando havia se tornado tão sentimental? Aquele estúpido garoto com dentes de tubarão havia mexido com sua cabeça.... Recuperando a calma, pegou o celular e respondeu a mensagem.
“Feliz Natal, Rin. Avise qnd estiver de volta para podermos sair juntos. Ah, e curta a viagem. Até a próxima ;)
– Haru”
Observou o conteúdo final da mensagem. Com certeza Rin acharia estranho Haru estar sendo tão simpático, mas ele não se importou com isso. Tinha medo de escrever demais e..... Acabar se entregando…. Mas, depois de tudo o que tinha acontecido, a última coisa que queria era se distanciar de Rin de novo, então simpatia fazia parte, por mais que ele não quisesse admitir. Confirmou o envio da mensagem.
Ele olhou para a banheira ainda cheia, então entrou nela de novo.
***
Rin passou ainda mais uma semana no interior. Não podia dizer que não sentira falta da mãe e do restante da família. Gou lhe disse que pensou que ele acabaria não indo, mas ele sabia que ela não acreditava nisso de verdade. Todos os tios perguntaram como estava indo o sonho de se tornar um atleta olímpico.
– Não é um sonho. É um objetivo. – Ele respondeu, com um sorriso. Os adultos os olharam surpresos. Não era comum ver alguém tão jovem estar tão certo do que queria na vida.
– Você estava na Austrália, não é? – Alguém perguntou. – Por que voltou?
Rin pensou por um instante.
– Acho que eu ainda tinha muita coisa para fazer por aqui. Pessoas que eu queria reencontrar...
Uma tia virou-se para a mãe.
– É bom ter um filho que pense assim da família, não é?
Ela riu. Gou se aproximou de Rin e sussurrou em seu ouvido:
– Não falou de mim e da mamãe, não é?
– Que quer dizer?
– Você sabe muito bem. Você nunca responde minhas ligações e só vê a mãe uma vez em cada dois ou três meses.
Rin ficou calado e a olhou zangado. Ela o puxou para caminharem um pouco e, assim, poderem conversar em paz.
– Você voltou por causa do Haruka-senpai, né? – Ela perguntou, por fim.
– De onde tirou isso?
Ela devolveu-lhe um olhar de pouco caso.
– Jura que tá perguntando isso? Você tem uma fixação com o garoto.
– Tsc. – Ele desviou o olhar. – Eu não podia passar a vida inteira lá.... Uma hora eu passaria aqui de novo...
Gou fingiu bocejar e isso fez o irmão perder a calma.
– Tá! Você ganhou! Foi por causa do Haru que eu voltei, tá feliz? Eu queria ser capaz de vencê-lo... – Ele deixou a voz morrer.
– Ahn? O que foi?
– Eu... – Ele respondeu muito a contragosto e com a voz bem baixa. – Eu podia pensar assim quando cheguei...
– E...?
– Eu mudei de ideia, tá legal?
A garota pôs as mãos na frente do rosto se protegendo.
– Eeeei. Calma aí. Só to querendo conversar com o meu irmão, ok? – Ela falou. Rin bufou. – Você não fala comigo pelo telefone e nós quase não nos vemos. Só quero poder te entender melhor. Não quero grudar em você, mas é horrível estarmos finalmente no mesmo país de novo e você me tratar como se eu nem existisse.
– Está sentimental, irmãzinha? – Ele debochou, com um meio sorriso. – Acho que precisa de um namorado.
Ela ficou vermelha como seus cabelos.
– Pare com isso!
Ele riu.
– Só estava brincando. – Ele olhou para o céu. – Bem, agora você já está sabendo o que queria saber, não é? Terminamos?
– E-espera! Me diz mais uma coisa.
Rin revirou os olhos.
– Vá em frente.
– Você disse que derrotar Haruka-senpai era o porquê de você estar aqui, mas que não é mais, e você não parece estar indo embora. Então... O que é?
Ele suspirou.
– Sinceramente, eu não sei. Talvez eu só esteja esperando algo acontecer.... Eu estou legal na Samezuka. Não sei dizer direito o que está acontecendo entre eu e o Haru, mas acho que nossos destinos ainda estão juntos...
Gou soltou um risinho que fez o rapaz se virar para ela.
– Ei! Não ria de mim!
– D-desculpa! É.... Só bobagem minha. – Ela ainda estava com um sorrisinho travesso e muito suspeito no rosto.
– Bobagem ou não, você está com cara de que está tramando alguma coisa...
Ela pôs as mãos atrás das costas e fez carinha de inocente, olhando para canto nenhum.
– Só estou pensando nessa sua relação ainda-não-denominada com você-sabe-quem... – Ela falou, cantarolando.
– Haru?! No que está pensando?
Ela riu de novo.
– Você é um fofo! – Ele a fuzilou com o olhar pela frase. – Não acredito que não consegue ligar os pontos.
– Ei! Irmã! Vai me contar do que diabos você está falando ou não?
– Fofo e lerdo... – Ela disse, levantando uma sobrancelha. – Nem precisa falar nada. Você muitas vezes pensa em Haruka-senpai involuntariamente. Você sente um nervosismo incomum quando está com ele. Também se importa com ele e não quer machucá-lo.
– B-bem... Você está meio certa, sim....
– ... E provavelmente vocês já se encararam profundamente, e você teve a vontade de aproximar os rostos de vocês. – Ela continuou, com as mãos no rosto, os olhos fechados e um sorriso bobo estampado, ignorando a resposta dele. – Deve ter ficado observando aqueles tríceps maravilhosos.... E talvez até já tenha sentido a necessidade de unir os corpos de vocês....
Rin sentiu que estava ficando corado de vergonha só de imaginar as descrições da irmã.
– Gou! Não é nada disso!
– Ahn? Não é? – Ela o olhou surpresa, finalmente acordando de seu devaneio. – Você gosta dele, não gosta?
Ela o encarou. O garoto estava sem palavras. O que ela estava falando era de.... Mas eles dois.... Dois caras....
“O QUÊ? ”
Gou sorriu para ele e pôs a mão em seu ombro.
– Não precisa ter vergonha do que sente. Tenho certeza de que se Haruka-senpai se interessar por alguma pessoa é por você.
A cabeça de Rin dava voltas. A irmã estava insinuando que ele tinha sentimentos por outro homem?!
..... Por Haru?
Instantaneamente, ele ficou furioso. Ele pensou em sair correndo para algum lugar, mas estavam na estreita varanda de trás da casa, então o único caminho seria atravessando a sala e ele não iria passar por lá agora! Rin deixou o corpo cair em uma cadeira e olhou para Gou, morto de raiva. Para seu desespero, não estava com raiva dela, mas de si mesmo. Ele estava chateado com ela por fazer aquilo com ele, fazê-lo pensar aquelas coisas, claro, mas o que o surpreendeu foi que ele não estava.... Discordando.... Pensar em Haru seminu, próximo a ele, aqueles olhos belíssimos que o hipnotizavam fixos nele.... Por alguma razão uma certa parte de seu corpo parecia ter gostado do pensamento.
Menos para a garota do que para tentar se convencer disso, Rin resmungou:
– Eu nunca disse que me sentia assim...
Ela se sentou em uma cadeira ao seu lado.
– Rin, falando sério, você não precisava falar coisa nenhuma.
– C-como assim?
– Ora.... O que eu falei não foram só suposições. Sei que você não pensaria tanto no Haruka-senpai se não tivesse algo mais aí no meio. – Ele não respondeu, então ela continuou. – Bem, eu sou uma pessoa muito legal e vocês dois são uns lindos, então eu vou te ajudar! Considere isso o meu presente de Natal pra você!
– .... Você já me deu um presente...
– Ah, aquilo? Pfff. Foi a mãe que comprou.
Rin cobriu os olhos com uma das mãos.
– Você é impossível....
– Não importa! – Ela apontou para ele, dramaticamente. – Irmão, eu prometo que você e Haruka-senpai vão ficar juntos como um lindo casal de caras com músculos perfeitos!
...
– Eu nem consigo decidir do que reclamar primeiro da sua frase...
Gou piscou para ele. Rin apenas continuou a encarar. Ainda estava com raiva.
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