Rightful - Interativa
3 Queimado
Notas iniciais
Ela ainda se lembrava de seus irmãos mais velhos- todas as noites, antes de adormecer; todos os dias antes de tomar qualquer decisão; todas as vezes que via seus filhos e netos desfilando pelos corredores da Pedra do Dragão; todas os dias santos em que entrava em um septo; todos os momentos em que olhava-se no espelho.
Não importava o quanto os anos passassem, o quanto sua memória ficasse cada vez mais confusa e que seus pais, seu primeiro amor e parte de sua infância se tornassem apenas uma vaga lembrança em sua mente. A imagem de seus irmãos se mantinha intacta. Sua figura, suas vozes, seus toques. A maneira que Daeron sorria toda vez que a via de negro, os sermões que Baelor lhe dava sobre a Fé dos Sete, como Rhaena sempre fazia tranças na mecha dourada de seus cabelos para que lhe parecessem uma coroa e a forma que Daena sempre lhe dava coragem, mesmo apenas existindo.
A maneira que morreram também estava viva em sua mente. Essas eram as lembranças que mais doíam, e Daena sempre estava lá, mesmo que a semanas de distância, para reconforta-la. Mas agora não estava mais. Sua última irmã havia partido.
Não haveriam mais sorrisos, a não ser os falsos dos membros da corte; não haveriam mais sermões, pois ninguém ousaria desafiar a rainha; não haveriam coroas a não ser aquelas pesadas que usava faziam tantos anos; não haveria coragem, não ser aquela que já lhe faltava.
E tudo o que Elaena queria fazer era gritar.
Ela já havia chorado demais em sua vida- quando soubera que Daeron havia morrido, quando fora aprisionada em sua casa, quando viu Baelor ser torturado até a morte, quando soube da decapitação de Rhaena, quando viu sua filha atira-se para a Água Negra, quando viu seu filho partir em direção ao Leste para não voltar. Chorar não poderia exprimir toda sua tristeza- tristeza não, raiva.
Raiva de seus irmãos, por terem partido, raiva de seus filhos por terem a abandonado, raiva dos membros da corte que a cercavam, dando pêsames falsos e agradecendo internamente a morte da antiga Princesa Regente.
—Que os Sete a tenham.- Disse, em voz alta, o Alto Septão, ao lado da rainha, terminando suas bênçãos.
Elaena apenas manteve os frios olhos lilases firmemente focados no corpo a sua frente, cercado de toras de madeira, ignorando o cheiro fétido que exalava. Ela não poderia ser sepultada entre o gelo e o vento do Norte., pensou, firmemente, Era uma Targaryen, uma filha de Pedra do Dragão, seria sepultada como uma.
—Você deve ir logo.- Murmurou Jaehaerys, inexpressivo.
Elaena sabia que ele lutava para conter as lágrimas. O rei era um homem sentimental, tinha sorte por ter ela a seu lado para mante-lo focado no melhor para o reino, Se Jaehaerys governasse sozinho, o reino teria sido tomado pelos bastardos antes que ele completasse vinte anos.
A rainha avançou, sentindo milhares de olhos em suas costas, e encostou delicadamente a tocha acesa nas toras que formavam a pira funerária de Daena, observando as chamas de alastrarem rapidamente, o vento empurrando-as para o norte.
O Norte, onde Daena passara os últimos anos de sua vida, depois de destituída da função de regente. O Norte onde seus filhos estavam, e não no funeral da mãe. Como os meus, querida irmã, como os meus. Pelo menos os filhos de Daena haviam estado com ela em seus últimos momentos, Elaena não cria que os seus fossem estar.
Bem, talvez Rhaenys, Rhae era a única de suas filhas que ainda escrevia para ela, mesmo que apenas poucas cartas, conforme seu mentor ordenava, mas Elaena duvidava que a garota que havia mandado para Solarestival antes dos quatro anos de idade fosse capaz de desenvolver um grande afeto por ela.
—Oh, minha pequena Elle- dissera-lhe Daena, pouco antes de seu casamento.- uma rainha deve fazer sacrifícios. Quantas pessoas prefere salvar? Dois bastardos ou milhares de westerosis?
Elaena nunca respondera aquela pergunta diretamente, mas, naqueles dias, sabia que suas ações haviam respondido. Ela havia sacrificado tudo por sua família, mesmo que eles tivessem que odiá-la para isso. Eles a chamavam de velha megera, mas ela sabia que eles estavam a salvo. E iria até o fim do mundo para manter o que havia conquistado. Mataria os bastardos Blackfyre com as próprias mãos, se preciso. Não era como se fosse a primeira vez dela.
—Volte para a Fortaleza Vermelha, Jaehaerys.- Disse.- Reúna o conselho. Daena está morta, mas nós não.
—O que espera que eu faça?- Respondeu o rei.- Os Blackfyre já sabem da morte de Daena e provavelmente já arrumaram um exército. Provavelmente também sabem o quão abalada está, por causa dessa sua atitude estúpida de trazer o corpo para Porto Real. De nada vai adiantar reunir o conselho agora. O que espera que eu faça?
—Nada, Vossa Graça, como sempre.- Elaena mantinha os olhos na pira, recusando-se a olhar diretamente para Jaehaerys.- Sor Ethon, garanta que os filhos de Baelon e Rhaenys estejam aqui para o torneiro.Ordene que Aenna venha à Porto Real, e arraste Saera até aqui se for preciso. Todos os Targaryen devem estar aqui para o torneio do rei.
—Sim, Vossa Graça.- Respondeu o membro da guarda-real.
—Quem será o grande campeão da Casa Targaryen, Elaena? Valaena?- Riu Jaehaerys.
—A Dama de Ferro, Jaehaerys,- Respondeu a rainha- Ou esperava os um dos bastardos de seu filho?
*****
Os corvos chegavam de Porto Real a todo o momento, anunciando a cremação de Daena Targaryen e ordenando que fosse ào torneio que seu pai iria oferecer à todos dos Sete Reinos. Saera ignorava todas elas, debatendo internamente as intenções de sua mãe em convocá-la a capital.
Era de conhecimento geral que a segunda filha da rainha não punha os pés lá faziam anos. Por que agora, mamãe?, perguntou-se a princesa de Pedra do Dragão, mordendo a borda do papel da carta.
—Nós vamos à Porto Real,mãe?- Questionou sua filha, sentada em uma cadeira de madeira no canto da sala, sua espada pendendo em sua cintura.
—Creio que sim, meu amor.- Respondeu Saera.- Não é uma boa ideia desafiar sua avó.
—O pai disse que ela só é paranóica.- Comentou Valaena, observando a mãe com os enormes olhos violetas-escuros.
—Seu pai não serve para nada, eu já lhe disse.- Veneno pingava das palavras de Saera, e a princesa não preocupou-se em escondê-lo. Seu ódio pelo marido e irmão também era de conhecimento geral.- A não ser fazer bastardos é claro; nisso eu tenho que admitir que ele é muito bom. Apesar deles não serem os melhores.
—Não deveria falar assim deles.- Valaena encolheu os ombros.- Eles também são meus irmãos.
—Eles são bastardos de seu pai.- Corrigiu a mais velha.- Eu preciso te contar denovo o que bastardos são capazes de fazer? Ou preciso apenas lhe mostrar a sepultura de Maelor e de Baela?
—E de Jaenara?- Sussurrou Valaena, impulsivamente.
—O que aconteceu com Jaenara não está ligado aos Blackfyre!- A voz de Saera soou mais alta do que esperava.
—E o que aconteceu com Daenerys?- Valaena ergueu-se, encarando a mãe.
—Valaena, você está confusa. Vá até os aposentos de meistre Colleman e peça que ele te examine.- Disse, entre dentes.- Depois vá para seu quarto e não saia de lá por três dias.- Valaena grunhiu e foi em direção a porta.- Deixe a espada.
Saera suspirou, deixando-se cair sobre a cadeira acolchoada a sua frente, de repente exausta. Sempre tivera um bom relacionamento com a filha, mesmo quando ela cortara os cabelos e passara a vestir-se como um homem. Fizera de tudo para não ser como a própria mãe. Onde eu errei?
A princesa perguntava-se se havia sido ela quem errara. Daeron não se importa com a filha, e ela grita comigo. O marido preferia passar seus dias na companhia dos bastardos e das amantes. Faziam anos que Saera não tinha um conversa completa com ele sem que ela terminasse em gritos, ofensas ou ameaças de morte.
Mas nem sempre foi assim, lembrou, sentindo o coração doer. Quando crianças, ela e Daeron se amavam como irmãos, e assim prosseguira depois de seu casamento, mesmo com Daeron tomando Synara de Tyrosh como amante e tendo dois filhos com ela. As coisas entre eles haviam ficado assim apenas após a morte de Daenerys.
Oh, minha doce Dany…
Estendeu a mão para tocar a pequena caixa sobre a mesa a seu lado, quase sentindo os ossos dentro dela.
—Sua filha foi vingada, Synara está morta.- As palavras de seu irmão Baelon ressoaram em sua mente- Matar bebês não irá traze-la de volta. Os sete amaldiçoam aqueles que matam crianças. E se algo acontecer as sua?
Seu filho havia nascido forte e saudável, com cabelos de prata e olhos violetas. Seu filho mais velho; seu herdeiro. Ele seria rei de sete reinos, não importava o que Daeron dissesse. Gaemon era inteligente e valente e bravo e corajoso.
Gaemon era perfeito. Já Valaena…
Saera já havia perdido uma filha, não iria deixar que outra lhe escapasse por entre as mãos; não seria como a rainha Elaena. Ergueu-se, decidida, e foi em direção ao quarto da filha.
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