Rightful - Interativa
4 Cicatrizado
Notas iniciais
Manteve-se imóvel sobre o trono de Pedra do Dragão, com a cabeça erguida e as costas eretas; mesmo que suas costas doessem e sua cabeça latejasse e pendesse para frente. Era o segundo na linha de sucessão, seu destino era o Trono de Ferro, como poderia herdar qualquer coisa senão era capaz de sentar-se adequadamente?
O acento de um rei não deve ser confortável, lembrou, movendo-se discretamente enquanto o homem à sua frente reclamava seus direitos sobre uma ovelha tosquiada e exigia uma indenização pelo prejuízo que haviam lhe causado, não importa se ele provavelmente apenas será rei depois dos quarenta anos. Ele deveria ser responsável.
Sabia que aquele acento na verdade pertencia a seu pai; também sabia que ele estava em Derivamarca, desmaiado na cama de sua nova amante, “honrando” a garota de dezessete anos. Suspirou, enquanto o homem continuava seu discurso. Naqueles momentos, queria ser o irmão mais novo ou estar na pele de Valaena.
No dia anterior, a irmã tivera uma discussão com a mãe- a qual a origem e o motivo não foram revelados a Gaemon-, e Saera tentara a todo o custo fazer as pazes com a filha. Gaemon não conseguia lembrar de nenhum momento no qual a mãe fizera aquilo com ele ou com seu irmão mais novo.
Ela ainda se machuca quando lembra da primeira filha, concluiu, condenando-se por não conseguir lembrar o nome da irmã morta., e a vê quando olha Valaena.
Aquele era um pensamento originado pelo pai, quando Gaemon ainda se dignava a falar com ele, que o revelara em uma ocasião na qual o jovem príncipe questionara-o sobre o óbvio favoritismo da mãe pela irmã. Pelo menos uma vez na vida Daeron estava certo.
—Sua ovelha está viva, não está?- Gaemon finalmente se manifestou, com a voz cansada. Haviam assuntos mais importantes para serem resolvidos do que uma ovelha roubada. Às vezes perguntava-se se aqueles camponeses não pensavam; tinha certeza de que não havia lido tantos livros para cuidar daquele tipo de questão.- Nem está mais frio. Não irá vender isso de qualquer maneira, a menos que vá para o norte. Tenho certeza que não irá, e de que sua lã crescerá até que o frio volte. Se trouxer-me o ladrão, seja lá quem ele for, ele será condenado. Não irei gastar o tesouro real e nem soldados para procurar tal infrator.
—Pensei que a função do senhor de um lugar fosse fazer com que a justiça do rei fosse feita.- Respondeu o homem, desafiadoramente.- Mas vejo que serve apenas para impor medo e arrancar o dinheiro da população.
—Acontece, senhor, que eu não sou o lorde de lugar nenhum.- A voz de Gaemon era ácida. Geralmente ele adorava ajudar os camponeses, mas havia algo fazendo ele agir daquele jeito. Estava cansado, dolorido e sem paciência. Estudara, treinara, lutara, apenas para que seu pai lhe deixasse em uma posição baixa demais para seu intelecto. Sua Alteza, o príncipe Gaemon Targaryen, Principe de Pedra do Dragão, Protetor das Ovelhas.- Eu sou o príncipe de Pedra do Dragão, não seu servo. Saia antes que eu mude de ideia e tire sua cabeça.
—Vejo que nosso Jovem Dragão está se tornando idêntico a Rainha Vermelha.- Cuspiu o homem, indo em direção a porta do salão.
Gaemon respirou profundamente, tentando manter a calma e desaquecer o sangue. O que havia feito? O homem queria apenas justiça; por uma ovelha, mas apenas isso. Deixara a frustração e o orgulho consumi-lo. Como seu pai.
—A sessão está encerrada.- Murmurou, levantando-se e indo em direção a porta lateral, que levava ao pátio externo. Precisava descansar. Esfriar. Sua irmã gritava, seu pai gritava, sua avó gritava. Ele falava calmamente. Nunca deixava que a raiva subisse a cabeça. Ainda perturbado, inalou longamente o ar salgado de Pedra do Dragão, observando o Mar Estreito a sua frente.
—O que foi aquilo?- Uma voz suave e conhecida disse. O príncipe sentiu alguém se aproximando.- O que aconteceu? Você pode me contar.
—Nada.- Respondeu, após uma longa pausa. A garota agora estava a seu lado, fitando-o com os olhos verdes.- Eu estou apenas cansado, Aly.
—Descanse então!- Alysanne sorriu.- Não pode se cansar tão facilmente quando for rei.
—Não é maravilhoso que terei você como rainha? Assim não deixará que me canse. A não ser, é claro…
—Gaemon!- A Tully saltou, corada.
—... quando cuidarmos de nossos filhos.- Completou, sorrindo. Gaemon amava sua família, sua mãe, seus irmãos e até mesmo os tios, mas ninguém tanto quanto Alysanne.- As vezes sinto como se fosse a única pessoa na qual eu posso confiar de verdade.
A garota apenas sorriu misteriosamente, seus olhos verdes como esmeraldas faiscando.
✴✴✴✴✴
—Deveríamos seguir pela Estrada da Rosa.- Concluiu a mais nova, balançando sobre o cavalo negro.
—Sabe que Ormund preferiria ir nadando até Porto Real à seguir o caminho da rosa.- Respondeu a mais velha, a seu lado.
—Ele sabe que o noivo da filha é um Tyrell, não? Ou você ainda não contou isso para ele?- Riu Artemisia, observando a tia esboçar a sombra de um sorriso.
—Você sabe que eu arranjei o casamento de Verona.- Aenna Targaryen suspirou.- Caso contrário ela e a irmã casariam com os primeiros caipiras da tempestade que pedissem, independente da posição.
—Parece que você é quem põe juízo na cabeça de Lorde Baratheon.- Disse a Dama de Ferro, sorrindo.- Tenho um desafio para você: convença-o a seguir pela Estrada da Rosa antes que eu mesma o faça. Você conhece meus métodos.
—Se encostar um dedo no meu marido, sobrinha, seja para o que quer que for, terá os outros arrancados.- Grunhiu Aenna, entredentes.
—Por isso é a minha tia favorita.- Artemisia fitou a tia.- Será que teria defendido seu marido com unhas e dentes de ele tivesse sido Daeron? Mesmo quando ele tomasse adolescentes como amantes e tivesse bastardos?
—Se meu marido fosse Daeron, como deveria ter sido, ele nunca precisaria olhar para outra mulher.- Afirmou a rainha que nunca fora.
Artemisia sabia das histórias, seu pai havia lhe contado durante seus treinos, sabia que o maior desejo de Aenna era ser rainha, que fora educada a vida toda para isso, mas suas habilidades e desejos haviam sido ignorados quando Daeron escolhera a irmã mais nova para ser sua noiva. Não era segredo que a senhora de Ponta Tempestade ainda tinha mágoas da irmã e do meio-irmão por isso, e que faria de tudo para colocar sua filha no trono ao lado do rei.
Os reflexos da educação específica da mais velha estavam lá, o tempo todo. A maneira a qual se vestia, a maneira a qual falava, até mesmo o jeito em que montava o cavalo. Um rainha, pensou Artemisia, sem coroa, nem reino.
—Onde está sua filha, aliás?- Questionou, após alguns segundos.
—Verona deve está correndo por aí, pregando peças e brincando de guerreira. Não faço ideia de como pretende casar com Tyrell com aqueles modos.- Respondeu, indiferente.- A mais velha está na carruagem, com Rhaenys.
—Não trate Verona como se fosse menos.- Repreendeu a Dama de Ferro.- Nem todas as garotas são damas perfeitas, como você ou sua filha mais velha.
—Você sabe bem disso, não?- Seus olhos focaram na espada que a morena trazia na cintura.- Mas Verona tem de se casar. Um dia ela saberá o quão importante será para a família e o quanto ajudará a irmã com esse pequeno sacrifício.
—Por que você entende muito de irmandade, não é, tia?- Zombou.- Acha mesmo que os Tyrell vão apoiar sua filhinha? Eles tem sua própria, tenho certeza que preferem produtos da Campina. E não é como se fosse fazer muita diferença, todos sabem que a próxima rainha será a garota Tully.
—Espero que não. Todos sabem o que pode acontecer quando mistura-se o sangue do dragão com o de peixes.
—Um resultado melhor do que quando com veados, certamente.- Artemisia esporeou seu cavalo, avançando em direção a estrada a sua frente.
Oh, a rainha-sem-reino pensa ser melhor que todos, gargalhou sozinha, ter sido rejeitada diversas vezes não a ensinou lição nenhuma?
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