Naquele rosto, um olhar psicopático que ele bem conhecia das vezes que se olhara no espelho, e nós lábios um sorriso macabro, que poderia ser ameaçador até a quem estivesse a certa distância dele e ainda sim conseguisse vê-lo. Aquilo era um passatempo para Jack, fazer as pessoas sentirem medo.

Não importa o quanto seus sentimentos parecessem reais, somente ele sabia que havia um vazio dentro de si, que o impedia de ter qualquer emoção positiva sobre alguém. Não ficou feliz ao saber que Harley havia saído viva do incêndio, ele apenas ficou aliviado. Pois, apesar de tudo, ela era seu fantoche mais precioso.

Já Harvey fora mal-educado. Tentara falar por si próprio e acabou se queimando com seu criador. O loirinho não era uma pessoa seca, ele tinha emoções; tanto positivas quanto negativas. Ele podia ficar irritado por qualquer coisa banal, ou ficar feliz por um simples gesto.

Jack não era assim.

Ele não tinha sentimentos, pelo menos não verdadeiros.

Estava parado em sua varanda, deixando sua mente se focar em qualquer coisa que estivesse ao alcance de sua visão, até que encontrou, ao longe, na rua deserta em frente sua casa, Jonathan Crane e Salvatori Marony.

Sim, ele conhecia Marony. Eles andavam juntos quando o menino estudava com ele. Mas, aparentemente, ele não era tão legal e descolado quanto pensava que fosse. Era só um ‘maconheirinho’ sem escrúpulos.

Jack percebeu que eles o haviam visto. Ficaram trocando olhares de longe.

Quando ficou sabendo detalhes sobre o incêndio que ele mesmo causou, ficou realmente muito surpreso quando soube que Bruce Wayne preferira salvar Jonathan e não Rachel.

Será que Bruce Wayne tinha algum tipo de sentimento pelo menino dos óculos fundo de garrafa?

Ainda bem que Jack era provido desses tipos de sensações, como... Ficar apaixonado.

Decidiu que iria lá se encontrar com seu velho amigo e com seu mais novo inimigo.

Desceu as escadas passando por sua mãe, que dormia tranquilamente no sofá. Ela sempre ficava entediada com filmes e acabava dormindo. Sua mãe era a única pessoa que ele poderia considerar ter algum sentimento, por mais que fosse mínimo.

Cada vez que se aproximava dos dois, parecia até que podia sentir, como um cão, o medo crescer dentro deles.

*

- Ele tá vindo pra cá. – Apavorou-se Jonathan, ao perceber que o menino que quase tirara sua vida estava andando em sua direção. Numa rua deserta, no meio da noite.

Parecia um filme de terror! E o pior é que tinha medo de tentar fugir e acabar mais perdido do que já estava! Então apenas resolveu ficar parado ali, e esperar pelo pior.

Ou pelo melhor, não sabia direito o que esperar de Jack Napier!

- Marony, vamos sair daqui enquanto temos tempo – Jonathan puxou o braço do primo mais velho, que o ignorou. Ah, talvez Jack não o matasse, já que Marony estava ali perto...

Até que enfim uma utilidade para aquele imprestável!

- Jack! – Marony se levantou bruscamente acenando para o menino que se aproximava cada vez mais deles. Jonathan não tinha certeza se ele estava sorrindo, já que eles estavam numa rua deserta... No meio da noite...

Quanto tempo será que Bruce demoraria até achar eles?

- Olá Marony – Jack sorria de um jeito esquisito, Jonathan engoliu em seco – Oi Johnny. Vejo que você está ótimo... Tirando o braço e a sua cabeça... Tem um arranhão ali.

Jonathan tentou esconder o braço machucado atrás das costas, sem sucesso. Jack era incrivelmente assustador à noite!

*

Bruce colocara um casaco qualquer e já se dirigia até o carro de seu pai, seguido por todos os seus amigos. Pediu para que eles ficassem esperando por ele, mas decidiram se esmagar um pouco nos bancos traseiros do carro de luxo do pai do menino.

Blake tentou ligar novamente para Johnny, pedindo a localização exata deles, mas uma vozinha bem conhecida disse que o celular chamado estava desligado ou fora da área de cobertura.

O grupinho foi brincando de pedra, papel e tesoura, até Thomas parar o carro perto do Asylum Arkham.

- Minha mãe sempre me conta histórias desse lugar – Anthony falou com um brilho nos olhos – Ela diz que lá só tem gente que já matou alguém, como uma prisão.

- Não só presos, mas tem também gente com doenças mentais. – Thomas disse aos meninos, que ficaram ainda mais curiosos.

- Que tipo de doenças mentais, Sr. Wayne? – Gambol perguntou com sua voz grave.

- Pessoas que ouvem vozes, ou que tem alucinações. – Thomas informou, em seguida deu uma cutucada no GPS, que havia parado de funcionar – Que estranho.

- O que foi pai? – Bruce perguntou percebendo que o aparelho estava falhando.

- Não sei. Meninos, soltem os cintos, vamos procurar por eles a pé mesmo. – Thomas falou animado. Assim que todos eles já estavam do lado de fora, ele ativou o alarme e certificou-se que o carro estava bem trancado.

Bruce ia à frente com Lau e Eddie, que tentavam, sem sucesso, algum contato com Jonathan.

- Não acredito que nós desligamos o jogo na melhor parte pra procurar por esses dois burros! – Gambol revirou os olhos atrás deles – Conheço bem o Marony, aposto como se perderam só por que ele não quis parar pra perguntar.

Bruce teve um arrepio ao pensar que Jonathan estava perdido em algum lugar, naquele frio, e sozinho.

Ok, ele estava com Marony, mas ele e nada eram a mesma a coisa.

*

Isso lá era hora para seu celular ficar sem bateria?! Não tinha carregado aquela coisa antes de sair?!

Que filme de terror em que se metera!

- Ei, Jonathan – Marony chamou ao perceber que ele ainda encarava Jack como se ele fosse uma assombração – Vamos até a casa dele, podemos esperar por Bruce lá!

- De jeito nenhum que vou entrar na casa desse doido. – Jonathan falou rudemente, recebendo uma olhar divertido de Jack – Sabe-se lá que tipo de animais ele cria!

- Fica calmo Jonathan – Jack revirou os olhos ao comportamento infantil do menino – Eu só tenho dois pitt bulls, o Serial e o Killer.

Que gracinha! Jack tinha dois cachorros que se chamavam Serial e Killer! Deviam ser dóceis iguais ao dono!

- Agora mesmo é que eu não ponho meus pés lá! – Jonathan se afastou dos meninos e se sentou na calçada.

- Pode ficar ai então esperando pelo riquinho, eu vou pra casa do Jack. – Eles já estavam caminhando, mas Marony virou-se pra trás pra dar mais um último aviso – Ah, e eu não vou para essa festa do pijama, deve ser uma coisa bem infantil vinda de Bruce Wayne. Vou ficar por aqui mesmo!

Infantil. Como se ele fosse a pessoa mais adulta do mundo!

- Mas e o tio?! – Jonathan perguntou irritado pelo menino insistir em desafiar Falcone.

- Esquece aquele velho caquético. Se divirta na sua festa! – E foram, deixando Jonathan ali, sozinho.

Que reconfortante. Seu primo querido havia deixado ele ali para os lobos!

*

- Você podia ter me deixado em casa ao invés de me trazer nesse lugar imundo! – Xingou Miranda, brava por ter que ir junto do pai ao Beco do Narrows que ela tanto odiava, sem falar que era nojento!

- Tem ideia de quanto custa uma babá?!

Miranda revirou os olhos e soltou a mão do pai.

Andaram mais um pouco por aquele lugar que fedia a um cheiro que ela não conhecia, mas impregnava em seu nariz e a deixava tonta.

Puxou sua echarpe e enrolou em volta de seu nariz. Ah, bem melhor!

O cheiro de loja a fazia lembrar-se das compras que ela costumava fazer antes de seu pai virar um homem paranoico.

Quando chegou a um galpão – aparentemente abandonado – ela se surpreendeu ao ver Bane lá. Um velho e um homem gordo também estavam no local, junto de mais e mais homens. O que seu pai queria se metendo com aquele tipo de gente? E por que diabos Bane estava lá?!

- E então, Falcone? – Seu pai cumprimentou o homem grisalho com um aperto sutil de mãos – Tudo acertado?

- Com certeza. – Que cara de buldogue aquele cara tinha, até lembrava a falecida Rachel! Miranda riu baixinho com a comparação – Vamos explodir a escola na festa de bem-vindos.