Não podia acreditar que seu pai havia levado aquela ideia adiante. Explodir a escola de Gotham?! O que ele estava pensando?! E justo na festa em que finalmente ia realizar sua maior ambição: ser a Julieta em uma peça de teatro!

Ra’s percebeu que sua filha parecia estar em conflito interno.

– Você está se sentindo bem, minha filha? – Ele a encarou, curioso.

– Pai – Ela sorriu cinicamente e depois explodiu – VOCÊ FICOU LOUCO DE VEZ?!

– Filha... Você sabia bem das minhas intenções. – Todos na volta dos dois ficaram encarando a cena constrangedora, Ra’s parecia querer enfiar a cabeça em um buraco. – Até seu amiguinho Bane veio participar!

– Mas isso não é uma brincadeira, pai. São vidas! Você não pode brincar com vidas! – Miranda estava cada vez mais inconformada com as decisões do pai, ela sabia que não poderia fazer nada para intervir, mas sabia que alguma coisa ela poderia fazer. Como sair correndo feito uma criança birrenta.

Alguns engraçadinhos começaram a rir da cena, enquanto Carmine ficava vermelho de raiva. Tinha contratado Ra’s para lhe ajudar a explodir a escola, e tinha oferecido uma bela parte da fortuna que iria ganhar por isso, não era para aquele esquisito sair correndo atrás de uma menina mimada!

– Ra’s, volte aqui agora ou eu te mato! – Não estava blefando, se tirasse ele do acordo que fizera com os pais de Bane, teria que mata-lo.

Enquanto isso, Miranda continuava correndo, apavorada, como se fugisse de um monstro. Estava noite, e ela imaginava que se não acabasse sendo assassinada pela volta do Narrows, seu pai a assassinaria quando chegasse em casa.

Continuou correndo, olhava pra trás de minuto em minuto, para ter certeza de que ninguém a estava seguindo. E não estavam! Ela diminuiu o passo, e como estava em alta velocidade, quase tropeçara. Ela fez beicinho, emburrada. Era para seu pai ter ido atrás dela!

Várias perguntas rondavam a cabeça de Miranda enquanto ela caminhava sem rumo decidido. Talvez fosse bom caminhar, precisava emagrecer mesmo.

Ao mesmo tempo em que ia contra a ideia do pai, achava a mesma fascinante. Explodir uma escola. Colocar vidas em risco. Mas que diabos que de pensamentos eram aqueles?! Era óbvio que ela era contra! Seus amigos estudavam lá!

Balançou a cabeça tentando espantar os pensamentos, mas as hipóteses não paravam de lhe fascinar.

Caminhou de cabeça baixa, e quando a levantou novamente, percebeu uma figura bem conhecida para ela. Sentado sozinho no meio-fio, estava Jonathan Crane. Parecia assustado. Miranda riu, ele sempre parecia assustado. E ele estava com frio, estava óbvio, ele não parava de tremer. Ou estava com medo de algo.

A menina arqueou uma sobrancelha, e em vez de ir à direção do garoto, virou em outra rua.

O susto ia ser digno de vídeo da internet.

*

Jonathan encarava a casa de Jack, e em momento algum tiraria os olhos de lá. Quem lhe garantia que o menino não soltaria os cães a qualquer momento?!

Marony apareceu uma ou duas vezes na sacada, para garantir que ele ainda estava ali.

Nossa, que primo mais responsável!

Jonathan tinha tido certeza de que vira uma pessoa – pelo silhueta, parecia uma mulher – parada na rua ao lado, mas talvez fosse só seu medo que o estava fazendo ver coisas. Ou podia ser um espirito, que estava parado e agora não estava mais. Talvez estivesse vagando por ai, a procura de um menino solitário em uma rua deserta...

Sem pensamentos ruins, Johnny! Só vibe positiva agora!

Ouviu uns passos atrás de si, mas não ousou se virar. Era o medo. Havia deixado ele paralisado. Sempre fora um amante do que se passava na mente das pessoas, mas não era legal quando acontecia consigo!

Os passos estavam cada vez mais perto e quando cessou, Jonathan ouviu uma risadinha. Normalmente era esse o fim do momento assustador do filme, onde o vilão enfiava uma faca no garoto.

– PÁ!

Jonathan estava com tanto medo que nem sequer se assustou com aquele grito. Infame. Maldita. Desgraçada.

Podia quase ter certeza de que tinha feito xixi nas calças.

– Ah, seu sem graça, eu queria te dar um susto! – Ouviu o típico sotaque francês atrás de si. Logo em seguida, Miranda sentou ao seu lado. Jonathan continuava com os olhos vidrados em nada específico na sua frente.

– Não basta eu estar com frio e morrendo de medo, você tinha mesmo que me assustar? – Ele virou a cabeça lentamente para encarar Miranda. Ela apenas riu, baixinho e debochadamente.

– Eu queria ver a sua reação! – Ela se defendeu. Ah, claro, como se a reação dele sozinho já não fosse assustada o bastante. – O que faz no Narrows a essa hora da noite? Não era para estar em casa assistindo a novela?

– Eu não assisto novela. – Jonathan revirou os olhos – Mas essa pergunta eu devia fazer.

– Conte primeiro, depois eu conto. – Ela falou de um modo infantil. Tudo nela era infantil e qualquer expressão ou palavra pareciam falsas. Miranda Tate era como uma mentira ambulante. Por que tinha esse tipo de visão dela?

– Eu ia ir à festa do Bruce, mas meu primo querido fez o favor de se perder. – Jonathan falou com descaso ao primo, que estava na varanda da casa de Jack, observando ele. Instantaneamente, Jonathan mostrou-lhe o dedo do meio. Ele riu, mas o barulho ficou somente lá.

– Por que não está com ele? – Ela perguntou, seguindo a quem era dirigido o gesto obsceno.

– Por que aquela é a casa do Jack.

– Você fez bem em ficar aqui, a rua é bem menos perigosa que a casa dele. – Ela falou, parecendo reconhecer o lugar em que estava.

– Já esteve lá?

– Se estive? Já fui amiga da Harleen, queridinho. – Miranda segurou seus cabelos curtos como duas chuquinhas, imitando a loirinha irritante. – Eu tive que segurar vela enquanto eles praticamente se comiam. Era a pior cena que você pode imaginar.

– Como é a casa dele? – Jonathan perguntou, afastando o pensamento da cena horripilante que ela acabara de descrever.

– É como se fosse um labirinto cheio de armadilhas. – Ela falou – Fora os dois cachorrões que ele tem no pátio. O Psicopata e o outro lá.

– Serial e Killer – Jonathan corrigiu e ela confirmou.

– E tente imaginar a bagunça do quarto. Na porta tem vários adesivos ameaçadores, com caveiras e tudo mais. Acredito que até a mãe dele tem medo. – Ela falou debochando. Jonathan tremeu. Tinha feito bem em ficar do lado de fora!

– Ele não tem pai?

– Não sei. – Ela deu de ombros – Mas a mãe dele é bem loira, muito bonita e gentil. Diferente do filho. – Ela se levantou e olhou em volta – Quer meu casaco? – Ela esticou a veste para Jonathan, que não recusou.

– Por que você está aqui?

– Fugi do meu pai. Ele está num encontro de amigos, e estão todos bêbados. – Jonathan viu que era mentira. Ela piscava enquanto mentia.

Miranda voltou-se a se sentar. Ela parecia nervosa com algo.

– Você disse que ia à festa do Bruce...?

– Ah sim, ele ia dar uma festa do pijama. Já faz um bom tempo que eu liguei pra ele vir me buscar, mas até agora, nada. – Ele falou, se retorcendo, aquele casaco tinha pelos demais e era cor de rosa demais, e era apertado demais...

– E nem me convida!

– Era só pra homens, não leve para o lado pessoal.

Os dois ouviram um assovio e viraram o olhar.

– Esse seu primo é um nojento mesmo, fica me olhando daquele jeito. – Ela bufou. Jonathan riu enquanto observava os dois se xingarem a distância. Um elogiava e a outra mandava tomar no...

– Faz ele parar! – Miranda deu um empurrão em Jonathan que quase caiu para o lado. – Tá me irritando!

– Eu estou ficando com sono, já é tarde. Conhece alguém que pode nos abrigar e emprestar o telefone, e que more aqui perto?

– O Jack.

– Tirando o Jack.

– O Jack.

– Miranda!

– Não, o Jack não tá na sacada acenando pra mim. – Ela acenou de volta e começou a rir. – Eu não moro muito longe daqui. E eu tenho telefone e você pode dormir no sofá.

Por que toda vez que ia à casa de alguém, tinha que dormir no sofá?!

– Pra mim tudo bem. – Era melhor que nada, ou melhor que a casa do Jack.

– Vamos, então. Romeu.

Ela ainda lembrava daquele apelido infame.