Ribellarsi
1 Capítulo I
Notas iniciais
Gostaria de ter sido mais civilizada e ter pensado nas meninas antes de qualquer atitude que eu fosse tomar, mas somos seres humanos, certo? E erramos!
Agora me encontro aqui no meio do calçadão de Curitiba com mil pessoas a nossa volta, uma Julia chorosa e Mia faminta e hiperativa na minha barriga. Eu não conseguia pensar direito, estava apavorada, não sabia o que fazer.
O calçadão estava lindo, não tinha como não reparar, todo iluminado, os adolescentes rindo e brincando, pessoas fazendo compras pelas lojas, os senhores de idade sentados nos bancos de madeira na frente dos canteiros de flores coloridos... Eu amava essa cidade!
Olhei para todo os lados vendo se encontrava alguma coisa que pudéssemos comer sem morrer por intoxicação. Vi um subwey e não pensei duas vezes em ir até lá. Caminhei com toda paciência do mundo entre os adolescentes até chegar em frente a lanchonete, como estava um dia normal de quente e abafado, mas com um vendo para lá de agradável. Sendo assim, preferi sentar na rua com Julia, ela estava muito calada e isso estava me matando. Fiquei lhe observando e analisando suas atitudes, não precisava de muito para eu saber o que estava lhe incomodando. Ela é o meu anjo, o meu solzinho e eu lhe conhecia como ninguém, assim como ela me conhecia e nada passava despercebido por seus lindos olhos chocolates. Julia notou que eu estava lhe olhando e ergueu seus lindos olhos e me encarou, naquele momento antes mesmo dela pronunciar suas palavras eu já sabia o que viria a seguir.
Julia – O que iremos fazer agora, mia Bella? – Seus olhos se encheram de lagrimas e aquilo quebrou mais um pouquinho do meu coração. Acredito que nesse exato momento até Mia exigiu a minha resposta pelo grande chute que a mesma me deu. Ofeguei e Julia percebeu.
Tentando distrair minhas princesas, chamei Julia com os dedos para se sentar ao meu lado e disse:
— Principessa, Mia está querendo conversar. O que acha de conversar com ela enquanto la tua bella faz os pedidos?
Julia olhou dentro dos meus olhos e eu sabia tanto quanto ela que aquela desculpa dela conversar com a Mia não iria durar muito tempo, pois seus olhos me suplicavam por respostas. Da mesma maneira que ela sabia que quando eu tivesse todas as respostas eu lhe daria sem mentiras, sem omissões, sem meia verdade, uma vez que entre nós nunca houve isso.
Julia se abaixou e deitou sua cabeça em minha barriga e começou a murmurar palavras para Mia, era instantâneo e engraçado o poder que a voz de Julia tinha sobre nosso bebê.
Observei uma atendente jovem e simpática vir até as mesas da rua para recolher os lixos que os adolescentes haviam deixado. Levantei minha mão e lhe chamei suavemente:
— Boa noite, Luíza. –Lhe comprimente após ler seu crachá –sei que vocês não fazem pedidos nas mesas, mas eu poderia lhe solicitar dos sanduíches de salame e peperoni de 15 cm e duas águas com gás, por favor?
— Claro senhora, ambos completos? –Perguntou sorrindo e olhando para Julia e para minha barriga.
— Ambos com o dobro de queijo suíço, alface, tomate e maionese, por favor!
Luíza sorriu assentindo com a cabeça – Em alguns instantes já irei trazer os lanches. – Saiu e foi retornando para dentro da lanchonete.
Abaixei meus olhos e sorri, Julia tinha pegado no sono agarrada na minha barriga e pela calmaria que Mia se encontrava deveria estar no mesmo estado. Suspirei e olhei para o céu, peguei meu celular dentro da bolsa e olhei mais uma vez para a foto que se encontrava como minha proteção de tela e sorri. O que será que vocês devem estar fazendo agora? O quanto de magoa vocês devem estar sentindo de mim? O quanto vocês ainda me amam para compreenderem minhas atitudes? O quando vocês irão conseguir me perdoar por ter mantidos vocês no escuro? O quanto a vida de vocês mudou nesses anos?
Quando percebi lagrimas escorriam por minhas bochechas, eu jamais iria me arrepender das minhas escolhas, mas a saudade era tão, mas tão grande que não consegui segurar o soluço que se formou na minha garganta e quando olhei novamente para a foto e vi minha família, meus amigos, meus alicerces naquela foto eu já possuía a resposta de Julia.
Ainda distraída, mas já recomposta e segura da minha decisão, pois não sou uma mulher indecisa e muito menos fraca, sei que sou capaz de tudo e por elas vou até o fim do mundo. Nem tinha percebido que os lanches já se encontravam na bandeja a minha frente, assim como a conta. Peguei minha carteira retirei uma nota de R$ 50,00 reais e entreguei para Luíza. – O troco é teu pelo favor que me fizeste. – A mesma agradeceu e saiu sorrindo.
Com toda suavidade fui aos poucos acordando minha principessa, fiquei morrendo de dó, mas era necessário, ela precisava se alimentar.
— Meu amor, vamos comer? – Julia resmungou, mas assim que levantou seus olhos e me viu, abriu o sorriso mais bonito do mundo. A aquele sorriso, ele possuía o poder de me derreter em apenas alguns segundos e ela sabia dos efeitos que possuía sobre mim, ela sabia que me tinha na palma da sua mão.
— Sweet, não me olhe assim! – tentei fazer uma cara de séria, mas não deu muito certo – Vamos comer minha garota esperta.. – ela riu, a risada gostosa, que mais parecia um canto aos meus ouvidos e foi impossível não rir junto.
— Minha Bella, isso está bem gostoso, sabia? – Me perguntou enquanto saboreava seu sanduíche. Era óbvio que eu sabia, minha pequena menina esperta adorava comer uma frescura. Com o rosto todo lambuzado de maionese ficou me investigando com o olhar enquanto eu comia e tomava um pouco de água. Eu já sabia o que aquela pequena cabeça esperta estava pensando, mas iria lhe dar espaço para que a mesma me perguntasse.
Quando terminamos de comer, peguei minha bolsa e olhei novamente para o meu celular, já estava tarde e não podia ser irresponsável de ficar com duas crianças dentro de um aeroporto até conseguir uma passagem.
— Principessa, o que acha de comprarmos uma roupa nova para nós e irmos dormir em um hotel muito legal que eu conheço? – Minha menina me sorriu e concordou com a cabeça, ela era tão Alice as vezes. Sorri com esse pensamento e peguei sua delicada mão e fui com ela até a C&A, comprei uma muda de roupa quente e outra mais leve para Julia e o mesmo para mim. Paguei tudo em dinheiro, não queria deixar nada para traz.
Fomos caminhando até a rua Barão do Rio Branco e nos hospedamos lá mesmo. O quarto era simples, mas agradável e limpo. Julia queria ficar na recepção brincando com os peixes, foi engraçado ver algo tão natural para os adultos e que aos olhos de uma criança se torna tão encantador e divertido.
Após dar um banho em Julia e tomar o meu, liguei a televisão e ajustei o ar condicionado, lhe deixei vendo desenhos até pegar no sono. Como já de costume Julia dormiu com a cabeça entre meus seios e com sua mão sobre minha barriga. Eu não cansava de ver aquela cena, era um sentimento de satisfação, proteção, e amor, que me possuíam.
Depois de Julia pegar no sono, peguei meu celular entrei no site da companhia de viagem e comprei duas passagens. Não me importava o valor que paguei, dinheiro nunca foi o problema na nossa família, mas sim a falta de honestidade e foi pensando neles que peguei nosso sono agarrada nas minhas meninas.
"notas sobre ela:
ela aprendeu o que é liberdade
quando descobriu quais eram as
suas prisões." (Zack Magiezi)
Fale com o autor