Revolting Child
14 O Milagre
A conversa entre a Srta. Beauregarde e o Dr. River foi na semana seguinte, num momento em que Violet estava na escola e a mulher conseguiu tirar folga do trabalho. Quando o doutor disse que a escola da menina era o principal assunto sobre o qual queria falar, a mulher respondeu:
— Deixa eu adivinhar: ela te implorou pra me convencer a trocá-la de escola dizendo que só assim ela vai se comportar, parar de roubar...
Ele respondeu que Violet não fez nada disso e contou tudo o que a menina falou na última sessão.
— O que ela te contou sobre a escola que a senhorita não acreditou? — Perguntou o doutor após o relato.
— Ah, isso... É que toda vez que a Violet fala que quer mudar de escola, ela inventa um monte de historinhas esquisitas pra tentar me convencer...
— A senhorita se importa de me contar o que ela disse? Eu gostaria de ter ouvido da própria Violet, mas ela não teve coragem de me contar...
— Ela não teve coragem porque sabia que o senhor ia perceber que ela tava mentindo.
— Não foi o que pareceu... Por que você acha que as "histórias" dela são inventadas?
— Porque não tem como não serem, são absurdas demais!
— Mesmo se elas realmente forem inventadas, as histórias que as crianças contam podem revelar muito sobre elas ou sobre o que acontece com elas, tanto que uma das estratégias que eu uso na terapia é o faz-de-conta. E a Violet geralmente inventa histórias bem violentas nessas brincadeiras...
Entendendo que realmente as historinhas de Violet seriam importantes para a análise do doutor, Scarlett contou (não com muitos detalhes, já que não se lembrava direito) sobre o Sufoco no dia do cabelo azul e o braço quebrado pela diretora na Educação Física. Depois de ouvir atentamente, o terapeuta perguntou, só para confirmar, com quantos anos a menina tinha começado a estudar na Crunchem Hall. Como ele lembrava, tinha sido com 7, a mesma idade com que ela tinha chorado pela última vez.
— Não tem como nenhum de nós saber exatamente o que acontece naquela escola — disse o doutor —, mas eu não acho que seja coincidência ela ter desenvolvido o transtorno de estresse pós-traumático com a mesma idade em que começou a estudar lá. E também não foi normal essa mudança repentina de comportamento que ela teve logo que as férias acabaram...
A Srta. Beauregarde não estava gostando do rumo que aquela conversa estava tomando. Parecia que o doutor estava querendo colocar toda a culpa do mau comportamento da menina na escola, agora com o argumento de que devia ser a causa do trauma dela. Mas, pensando bem, a mulher acabou se lembrando que Violet contou que foi pela primeira vez pro Sufoco aos 7 anos mesmo... Só que isso não era o suficiente pra Scarlett mudar de ideia. Ela não ia novamente cometer o erro de fazer a vontade da filha ao invés de confiar no que, como mãe, sabia que era melhor pra ela. Não estava se convencendo de que a escola era responsável por um trauma sério e por fazer sua filha se comportar mal e até roubar. Isso era muito contraditório! A escola é justamente o lugar onde as crianças aprendem. E aprendem o que é certo. A Srta. Beauregarde usou esses argumentos para dizer ao Dr. River que não iria tirar a menina da escola e que não adiantava ele tentar convencê-la do contrário.
— Tudo bem. — Respondeu ele, compreensivo. — Eu não vou tentar te convencer. Me lembro bem do que você disse na última vez que eu te dei um conselho que ia de encontro ao que você pensava e acabou dando tudo errado...
Scarlett pareceu satisfeita com essa resposta, até deu sorrisinho. Que sumiu assim que o doutor continuou:
— Mas eu precisava dizer o que pensava. E que não concordei com a sua decisão de rematricular a Violet nessa escola, só não disse antes porque... achei que você ia querer procurar outro terapeuta pra ela. Mas então eu percebi que não ia adiantar de nada se eu continuasse com o tratamento da menina e não dissesse à mãe dela as conclusões a que eu chego pelo que observo. Na verdade, seria bem anti-profissional da minha parte...
Scarlett não gostava de ser contrariada, então foi um pouco difícil pra ela ouvir essas coisas. A vontade que teve de imediato foi dizer que ia mesmo procurar por outro terapeuta, mas ficou calada. Ficou encarando ele por um tempo, então disse:
— O senhor pode dizer as suas conclusões... ou teorias. Afinal, é pra isso que eu tô te pagando, né? Mas você não tem como provar que a escola faz mal pra minha filha e, como eu não acredito nisso, não vou tirar ela de lá. Porém... eu tô preocupada de verdade com ela e, se você achar que tem alguma outra coisa que eu possa fazer pra ela melhorar desse trauma que faz ela não chorar ou pra ela se comportar melhor, eu vou ficar feliz em ouvir.
O doutor ficou positivamente surpreso, mas, sinceramente, não tinha certeza se a Srta. Beauregarde ficaria feliz em ouvir os outros conselhos dele, que eram: conversar mais com a filha, tentar entender o lado dela... e fazer terapia ela própria também. Mas disse tudo mesmo assim. De maneira delicada, é claro. Sobre fazer terapia, Scarlett realmente tinha esquecido desse conselho que ele deu no dia em que se conheceram, mas, depois de tudo que havia passado naquele ano, ela reconhecia que não era só sua filha que não estava bem. Então o doutor indicou uma terapeuta que trabalhava com adultos naquela mesma clínica e a Srta. Beauregarde concordou em começar a se consultar com ela. Sobre conversar mais com a filha, Scarlett relatou que estava sendo impossível, assim como no começo do ano. Mas tá, ela ia tentar...
Depois, o Dr. River acabou se lembrando de outro assunto importante que queria tratar com a Srta. Beauregarde: o fato de Violet não ter amigos.
— Ah — suspirou a mãe da menina. — Eu não entendo o porquê disso, ela vai pra escola todo dia, tem um monte de crianças lá! E a Violet nunca foi tímida, sempre fala pelos cotovelos com qualquer pessoa que vê... Mas parece que ninguém na escola é interessante o suficiente pra ela, então ela simplesmente não quer ser amiga de ninguém.
— É verdade, ela não quer fazer amigos, mas eu acho que o motivo pra isso é maior do que achar que as pessoas não são interessantes. Fazer amizade é mais do que só falar com as pessoas e, pelo que ela conta nas sessões, eu sei que ela fala com os colegas. A Violet costuma dizer que não quer ou que não precisa de amigos, mas eu acho que ela não consegue fazer amigos, e talvez nem ela mesma perceba ou saiba o motivo disso.
— E... o senhor imagina qual seja esse motivo?
— Bom... ela brincou com outras crianças nas férias, não foi?
— Sim... Espera... você acha que a escola também tem culpa por ela não ter amigos? — Perguntou a mulher, cética.
— Não exatamente, até porque, eu imagino que as outras crianças da escola dela sejam amigas, mas eu acho que... se ela tiver mesmo ficado traumatizada com algum evento ocorrido na escola, ela pode estar inconscientemente associando os alunos de lá a esse evento. Ou talvez o fato de estar naquele ambiente faça ela se sentir vulnerável e ficar com a guarda levantada o tempo todo. Bom, mesmo que a senhorita não acredite nisso, nós já sabemos que na escola ela não faz amizades, não é? Mas é preciso fazer alguma coisa pra que isso mude... Eu lembro que você disse que essas crianças moram longe e que não tem crianças na vizinhança, mas é muito necessário que ela passe mais tempo com alguma criança que tenha uma idade mais próxima à dela, apesar de que estar com uma de 2 anos nas férias tenha sido um grande avanço...
Scarlett reconheceu que precisava se esforçar mais em relação à socialização de Violet. Talvez devesse, apesar da falta de vontade da menina, tentar entrar em contato com pais de alunos e chamar alguém da escola pra passar um fim de semana com elas como tinha pensado no começo do ano... Ah! De repente, a mulher se lembrou da ligação que havia recebido da Sra. Bucket. Nessa ligação, a mãe do ganhador da Fantástica Fábrica de Chocolate havia dito que ele queria ver a Violet e perguntado se eles (o menino, a Sra. Bucket e o marido) poderiam visitá-las em Atlanta.
Por achar tudo muito estranho, Scarlett não concordou de imediato. Ela ainda não havia superado o que havia acontecido com sua filha naquela fábrica e achava que nunca ia superar, então queria evitar qualquer coisa relacionada àquele doido do Willy Wonka. Mas, por outro lado, Charlie Bucket parecia ser um bom menino, e os Bucket eram simples e deviam ser bons também apesar de estarem morando naquele lugar... Sendo assim, a Srta. Beauregarde ficou confusa e disse que ia pensar e depois ligar para confirmar (ou não confirmar), mas ainda não tinha feito isso.
Porém agora estava pensando que apesar de parecer loucura... Será que devia trazer o menino da Inglaterra pra ver se Violet conseguia começar a fazer amizades por ele? O Dr. River adorou a ideia, sentiu que poderia dar certo. Além disso, a própria Violet já tinha dito uma vez que achava que Charlie era muito legal.
— A Violet disse isso?! — A Srta. Beauregarde ficou incrédula, como se qualquer pessoa pudesse ter dito aquilo menos sua filha, que nunca falava bem de ninguém além de si mesma.
Mas sim, a menina tinha mesmo dito isso (só depois de ter falado muuuuito mal dele, mas isso são águas passadas). Enfim, Scarlett ainda estava com um pouco de receio em concordar com essa doideira, mas o doutor deu uma solução: antes de confirmar, ela podia perguntar aos pais do menino o porquê daquela visita, já que era realmente muito estranho, e, dependendo do motivo, ela confirmava ou não.
Ah, finalmente esse doutor teve uma ideia boa! A mulher concordou e disse que ia fazer isso. Antes de fazer a ligação, porém, ficou com receio de que eles já tivessem desistido de fazer a viagem, pois ela tinha demorado um pouco para responder, mas, felizmente, eles não tinham, estavam só esperando a confirmação, mesmo.
Bom, o medo da mãe de Violet era de que tudo se tratasse de um plano maquiavélico do Willy Wonka ou algo assim, mas, após falar com a Sra. Bucket, com o Sr. Bucket, e até com o próprio Charlie, que assumiu o telefone por um momento, entendeu que não era nada disso, ficou bem satisfeita com o real motivo da viagem e acabou concordando. Eles não iam nem precisar pagar hotel, ficariam hospedados lá na casa das Beauregarde, mesmo.

***
Violet desistiu de tentar fugir de casa. Ela ainda queria fugir, e muito! Mas toda vez que pensava nisso, percebia que não ia saber o que fazer com sua vida depois que fugisse. Mas já que não podia fugir, queria pelo menos se vingar da Dona Trunchbull pelo braço quebrado. Queria aprontar alguma coisa com ela, mas não tinha como, a mulher estava sempre de olho! Então, quando a menina tinha algum plano, acabava tendo que desistir por notar uma câmera voltada em sua direção, um delegado chato ou a própria diretora bem atrás dela.
Teve um dia que quase conseguiu: estava com uma caricatura da Trunchbull escondida sob sua boina vermelha de sempre, andando de fininho até sala da diretora enquanto esta não estava lá, até que alguém veio do nada por trás e tirou a boina de sua cabeça, deixando o desenho cair no chão. Por um momento, Violet ficou com medo que fosse a própria diretora, mas, ao se virar, viu que era só a chata da Cornelia Prinzmetal, então exclamou:
— Ei, me devolve! — Pegando a boina de volta, mas não o desenho a tempo.
A Delegada Principal havia tirado a boina da menina porque não era permitido usar nenhum tipo de chapéu nos ambientes fechados da escola, regra que Violet não seguia desde a primeira vez que havia aparecido com aquela boina lá (obviamente a mãe dela não sabia dessa regra quando sugeriu que a menina usasse a boina pra esconder o cabelo azul, que também era proibido, mas enfim). Só que quando Cornelia viu o papel que caiu no chão, ignorou a boina e deu atenção a ele, pois sabia que se tratava de alguma pegadinha pra diretora, o que era muito pior que qualquer chapéu. Por isso, ao invés de avisar pela milésima vez sobre a regra dos chapéus, resolveu desdobrar o papel. E, vendo o desenho, perguntou a Violet, em um tom ameaçador:
— O que é isso?
Cornelia realmente tinha tentado parar de falar com Violet por um tempo, mas aquela menina era tão impossível, que não tinha como não ficar repreendendo ela toda hora, mesmo sabendo que qualquer coisa que dissesse entraria por um ouvido e sairia pelo outro...
A loira, que já tinha colocado a boina de volta na cabeça, sorriu e disse:
— Vai me dizer que não ficou engraçado?
— Você é tão infantil!
Violet revirou os olhos e falou:
— Você é só 2 anos mais velha que eu e só deve ser uns 2 centímetros mais alta, para de fingir que é adulta!
— Por que você faz essas coisas, Violet? — Cornelia perguntou, ignorando o comentário da outra. — Não tem noção do perigo? Parece até que você gosta de se machucar! Será que não consegue seguir regras?
— Isso depende...
— De quê?
— Eu acho que consigo seguir regras se eu concordar com elas e com a pessoa que fez... Você concorda com tudo que a Trunchbull faz, Cornelia?
A mais velha ficou um pouco desconcertada com a pergunta. Mas logo retomou a pose de durona e disse:
— Isso não vem ao caso! A escola é dela e a gente tem que obedecer. Eu vou jogar esse troço fora — falou, se referindo ao desenho de Violet —, mas se você fizer outro desses, eu vou te dedurar e você vai pro Sufoco de novo! Agora tira essa boina e vai pra sua sala, senão você vai chegar atrasada!
Meu Deus, que menina chata! Violet foi pra sala, mas não tirou a boina, não era obrigada a nada. Enfim, não foi daquela vez... De novo! Pelo jeito, o único jeito da diretora e dos delegados saírem do pé dela era se aparecesse alguma criança mais levada do que ela na escola, mas isso era meio impossível...
Violet se sentia impotente e isso a deixava com raiva. E essa raiva era toda descontada em sua mãe, por isso o diálogo entre elas estava impossível, como Scarlett havia relatado ao doutor. Sendo assim, todas as vezes em que a mulher tentava tocar no assunto da visita dos Bucket com a menina, ela começava a agir de maneira grosseira e as duas brigavam. Mas, uma ou hora ou outra, Violet ia ter que saber que eles estariam lá e, infelizmente, Scarlett só conseguiu dizer isso em cima da hora.
Elas estavam no carro indo pra casa depois da aula da menina, quando a mãe mencionou que tinham visita. Ela tinha buscado eles no aeroporto e logo depois ido buscar Violet na escola.
— Quem? — A pequena perguntou, indiferentemente.
Ela imaginou que a visita fosse seus avós, as amigas de sua mãe ou algum namorado novo dela. Mas não estava muito a fim de ver gente, então esperava poder ficar em seu quarto até a tal visita ir embora.
— Charlie Bucket e os pais dele. — A mãe respondeu e a filha tomou um susto.
— O quê?! O que eles tão fazendo na nossa casa???
— Eles vieram nos visitar porque o Charlie queria te ver e eu concordei.
— Por que você sempre decide as coisas sem perguntar o que eu quero?
— Bom, eu até teria falado com você antes, mas foi impossível... Você reclama que eu não te ouço, mas você também nunca me ouve!
Violet cruzou os braços com raiva. Mais uma vez, sua mãe estava lá decidindo sua vida sem que ela pudesse ter direito de escolha. Mas não era só isso que estava incomodando a menina no momento, ela também estava bem intrigada com essa visita repentina:
— E por que o Charlie Bucket quer me ver, hein? A gente mal se conhece! Garoto esquisito...
— Eu acho que isso pode ser bom pra você. E ouvi dizer que ele é um menino muito legal!
— Aposto que foram os pais dele que disseram isso.
— Não, eu ouvi de outra pessoa...
Violet entendeu as intenções de sua mãe. Como Charlie era o exemplo de menino bonzinho, ele seria uma "boa influência" pra filha dela.
Depois, Scarlett disse que eles ficariam uma semana lá e, ignorando a reclamação da filha de que era tempo de mais, advertiu que a menina fosse educada com eles. Ah, com certeza Violet seria muito educada... Só que não. A mãe dela acha que é assim? Chega avisando de última hora que tem visita e ainda quer que a filha seja comportadinha? Nada disso, Violet estava com raiva e não faria a menor questão de esconder! Se sua mãe ia passar vergonha na frente das visitas, isso era problema dela...
E qual era a desse Charlie, hein? Por acaso ele tinha ido lá pra esfregar na cara de Violet que ganhou o prêmio e ela perdeu? Não, não podia ser isso... Violet não o conhecia tão bem, mas conhecia o suficiente pra saber que ele não faria isso... Esse era o tipo de coisa que ela faria se ganhasse o prêmio, isso sim!
— Ah, e a gente vai no boliche com eles hoje. — A voz da mãe interrompeu seus pensamentos.
— Boliche? — A menina perguntou, um pouco mais calma e demonstrando um pouco de interesse. — Aquele que tem karaokê e a melhor batata frita do mundo?
— Esse mesmo. A gente nunca mais foi lá, né?
Uhn... Talvez ter outra criança em casa não fosse assim tão ruim... Okay, agora a menina estava com um pouco menos de raiva. Mas continuava com raiva!
***
Quando a mãe e a filha chegaram em casa, os três visitantes estavam esperando na sala de estar. Eles estavam meio sem jeito apesar da Srta. Beauregarde ter dito para ficarem à vontade, se sentirem em casa, essas coisas. De qualquer forma, todos se cumprimentaram de maneira muito simpática, exceto Violet, que só deu um "oi" seco pras visitas.
— O que houve com o seu braço? — Perguntou Charlie.
Ele foi discretamente repreendido por sua mãe, mas Scarlett e Violet não perceberam. A menina apenas olhou pro braço esquerdo e, em seguida, lançou um olhar fuzilante pra própria mãe enquanto respondia a pergunta de Charlie:
— É uma longa história...
Scarlett, com um sorriso amarelo, disse às visitas que Violet só ia trocar de roupa e eles já iam sair. Então perguntou se eles queriam lanchar alguma coisa antes, já que não tinha nada muito saudável pra comer no boliche.
— Charlie, posso falar com você em particular? — Violet perguntou antes que todo mundo começasse a falar e ela tivesse que esperar pra matar sua curiosidade.
O menino concordou e a acompanhou em direção às escadas enquanto os adultos continuaram na sala falando sobre comida.
— Quer que eu leve a sua mochila? — Ele perguntou.
— Não precisa.
Ficaram um tempo em silêncio enquanto subiam as escadas porque Violet queria chegar até o outro andar pra perguntar o que queria a Charlie. Porém, o menino quebrou o silêncio um pouco antes de chegarem:
— Doeu muito?
— O quê? — Ela não fazia ideia do que ele estava falando.
— Quando você quebrou o braço.
— Você é muito enxerido, garoto!
Violet foi até seu quarto, abriu a porta e jogou a mochila e o casaco da escola lá dentro. Então voltou-se para Charlie, que a tinha seguido no corredor.
— Então, o que você queria falar? — Ele perguntou.
— Eu quero saber o que você veio fazer aqui. — Ela disse, com raiva. — A minha mãe disse que você queria me ver. Por quê? — Perguntou, estreitando os olhos, desconfiada.
— Ela não te contou?
— Se ela tivesse contado eu ia precisar perguntar? Ela não me contou nem que você vinha, eu só fui saber agora no caminho da escola pra cá!
— Ah... — Charlie tinha uma cara de "agora tudo faz sentido". Pelo jeito, ele tinha entendido o motivo do mal humor da menina. — Bom, eu vim aqui pra dar um recado do Sr. Wonka.
Violet não sabia o que esperava ouvir, mas definitivamente essa resposta era mais estranha do que ela esperava.
— Recado? E ele tá te usando como pombo-correio por acaso? Não podia mandar por escrito ou sei lá?
— Na verdade ele mandou uma carta. É, agora que você disse isso, parece mesmo que eu sou um pombo-correio, mas não é isso, eu que me ofereci pra vir porque queria ver como você e os outros estão.
— Outros?
— Os outros ganhadores dos convites dourados. Ele se sentiu mal por tudo que vocês passaram na fábrica e queria pedir desculpa.
— Ah... — Agora era Violet que tinha uma cara de "agora tudo faz sentido".
— Quer que eu pegue a carta?
Violet concordou e foi com ele até o quarto de hóspedes, onde estavam as coisas de Charlie e dos pais dele.
— Se ele queria pedir desculpa, por que ele mesmo não veio? — Ela perguntou, ainda confusa com tudo o que estava acontecendo, enquanto o menino procurava a carta numa mochila.
— Eu queria que ele viesse, mas ele achou que os pais de vocês não iam concordar.
— Ah, faz sentido... A minha mãe tá odiando ele depois do que aconteceu comigo!
— E você? — Ele perguntou, já com a carta na mão.
— Eu o quê?
— Também odeia ele?
Violet pegou a carta que o menino deu a ela e ficou pensativa. Ela nunca tinha parado pra pensar nisso. É verdade que já tinha dito que odiava todos os adultos uma vez, mas sempre exagerava nas palavras quando estava com raiva. Será que odiava Willy Wonka? Ela com certeza odiava o que aconteceu naquele dia, mas... Willy Wonka não devia ser tão ruim quanto a Dona Trunchbull... Depois de pensar um pouco, Violet chegou a uma conclusão, mesmo sem ler a carta:
— Eu não odeio ele. Ele me avisou que o chiclete não tava pronto, daí eu disse que não tinha medo de nada e experimentei porque quis.
Os olhos de Charlie brilharam quando ele ouviu isso. Ele estava impressionado com o quanto a menina parecia ter mudado. Ela nunca admitiria uma coisa dessas na época do concurso! Pois é, aquela conversa que teve com o Dr. River no dia que saiu a notícia do prêmio serviu muito...
— Eu trouxe mais uma coisa pra você — Charlie disse, sorrindo.
Então tirou uma barra de chocolate Wonka da mesma mochila de onde havia tirado a carta e entregou a Violet.
— Ah, ele também me deu um chocolate de desculpa? — Ela disse, estranhando.
— Não, esse é um presente meu.
— Valeu...
— Abre!
Violet não estava entendendo por que Charlie parecia tão cheio de expectativas para que ela abrisse o chocolate naquele momento, mas isso a deixou curiosa, então ela deixou a carta de lado e abriu logo o chocate. Seus olhos ficaram tão arregalados com o que viu, que quase saltaram pra fora. Junto com o chocolate tinha, nada mais nada menos, que um convite dourado com os seguintes dizeres:
Parabéns, Violet Beauregarde! Você ganhou a chance de morar na Fantástica Fábrica de Chocolate
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