Assim que ficou sabendo pelo telefonema de uma professora que Violet havia "sofrido um acidente" na escola, Scarlett, que estava trabalhando, foi direto levar a filha para o hospital. A menina ainda estava com o uniforme da aula de Educação Física (ou melhor, a versão punk do uniforme), tentava manter o braço esquerdo imóvel desde o ocorrrido. Por mais que estivesse morrendo de dor, como sempre, não chorava. A professora levou a mochila da garota e a entregou à Srta. Beauregarde, que agradeceu e, desesperada, começou a perguntar a Violet como aquilo tinha acontecido e se ela sentia muita dor, ao mesmo tempo que entrava no carro e começava a dirigir o mais rápido possível para o hospital. Violet respondia apenas com monossílabos. Estava triste e com raiva da mãe pelo que Trunchbull havia dito sobre a conversa delas.

No hospital, fizeram um exame de raio X no antebraço esquerdo de Violet, que tinha um osso quebrado, então colocaram um gesso. A médica disse que a menina teria que ficar com o gesso no braço por algumas semanas e deu recomendações sobre o que fazer nesse período. Violet, que seguia com raiva da mãe, agora também estava com raiva daquele gesso, que ia deixar sua vida ainda pior do que já era.

— POR QUE VOCÊ NÃO ME TIROU DA ESCOLA? ISSO É TUDO CULPA SUA!

Por mais dó que sentisse da filha, Scarlett não ia deixá-la falar com ela desse jeito, ainda mais na frente de um monte de gente e, pior, gente que, ainda por cima, estava ajudando ela!

— Violet, para com isso! Você tá sendo mimada!

— MIMADA?! Eu só te pedi uma coisa! MAS VOCÊ NUNCA ME OUVE!

— Bom, agora eu acho que até quem tá do outro lado do mundo tá te ouvindo, né? Será que dá pra você parar de gritar?!

Morrendo de vergonha, Scarlett se desculpou pras pessoas ao redor que estavam presenciando a cena, agradeceu a ajuda dos médicos e achou melhor continuar essa conversa em casa.

Chegando lá, disse que entendia que a filha estava sentindo dor mas que ficar gritando não ia fazer passar, além disso, a menina não parava de dizer que a culpa era da mãe e da diretora, então Scarlett também disse que ela devia parar de ficar culpando os outros por um acidente.

— Você tava na Educação Física, né? É super normal se machucar praticando esportes, inclusive já aconteceu com você outras vezes antes!

Era verdade. Ela até já tinha quebrado o outro braço uma vez durante o treino pra um campeonato de skate no ano anterior. E, mesmo com o braço quebrado, ainda conseguiu levar uma medalha de ouro na final!* Era tão bom lembrar dessas coisas... Porém, a situação agora era totalmente diferente. Violet não estava com o braço quebrado por ter sofrido uma queda acidental. Não, ela tinha sido propositalmente agredida por uma pessoa de sangue frio.

— MAS NÃO FOI ACIDENTE! A diretora quebrou o meu braço de propósito por causa do que você disse!

— O quê?!

— Você disse pra ela que eu era nojenta e que ela tinha que me colocar no meu lugar e agora ela tá de olho em mim e... e quebrando o meu braço também! — Disse a menina, de um jeito meio confuso e embaralhado, porque estava nervosa.

Porém, o que pareceu pra Scarlett foi que a filha estava inventando. Então, ao ver a expressão de incredulidade misturada com repreensão da mãe, Violet falou:

— Você não acredita... É claro que não acredita! Você também não acreditou quando eu contei do Sufoco...

A Srta. Beauregarde, então, se lembrou da história que Violet havia "inventado" quando pediu pela primeira vez pra sair da escola e ficou com raiva. Ela realmente achava que ia convencer a mãe a fazer suas vontades inventando essas histórias mirabolantes?

Scarlett suspirou pra não perder a paciência e disse:

— Talvez você considere que a diretora quebrou o seu braço "de propósito" porque era ela que tava dando os exercícios. Eu não imgino que ela esteja de marcação com você, agora... inventar que tudo isso foi por uma coisa que eu disse? Por mais desobediente que você seja, eu nunca chamaria a minha própria filha de nojenta e nem nada parecido!

— Ela quebrou o meu braço de propósito e, se você não me chamou de nojenta, então além de quebrar o meu braço ela mentiu, porque foi exatamente isso que ela disse que você disse!

Violet não tinha pensado na possibilidade de Trunchbull ter mentido, mas até que fazia sentido... Essa possibilidade fez a menina ficar com um pouco menos de raiva.

— Ou é você que tá mentindo agora — disse a mãe.

E a raiva de Violet voltou.

— EU-NÃO-TÔ-MENTINDO! — Gritou a menina, com uma pausa entre cada palavra.

— Chega! Você tem que entender de uma vez por todas que nem sempre as coisas vão ser do jeito que você quer! Nem adianta continuar tentando me convencer a te tirar da escola!

— Eu só queria que você confiasse em mim! Mas, pelo jeito, eu é que não devia ter confiado em você...

***

No dia seguinte, na escola, muitos colegas foram falar com Violet, preocupados pra saber se ela estava bem. A menina, porém, estava de muito mal humor, então não ligava pra boa vontade deles, apenas respondia: "A diretora quebrou o meu braço, é claro que eu não tô bem!" Ou então perguntava, ironicamente: "O que é que você acha?". Como se não bastasse o braço quebrado, o gesso irritante, a mãe que não acreditava nela e a diretora monstruosa, Violet ainda tinha que ficar aguentando a inconveniência das outras crianças? Agora ela tinha mais um motivo pra ficar com raiva e pra querer sair da escola!

A menina estava odiando que sentissem pena dela, sério! Estava tão irritada com isso, que chegou até a desejar que Cornelia aparecesse pra dizer "bem feito!" como da última vez em que foi pro Sufoco, mas, infelizmente, a delegada não fez isso. Ela estava um pouco mais madura agora e achava que não valia a pena ficar desperdiçando seu tempo falando com Violet. Aliás, foi exatamente isso que os outros colegas da menina passaram a pensar depois das respostas grosseiras e dela recusar ajuda toda vez que alguém oferecia. Pois é, parece que o Dr. River estava errado quando achou que a pequena Beauregarde estava mais disposta a fazer amizade com outras crianças...

Falando nele, hoje era dia de terapia, então Scarlett achou melhor avisar logo ao doutor que a menina havia tido uma pequena "recaída" em relação ao bom comportamento por não ter mudado de escola. Ele ficou surpreso, pois, assim como a própria Violet, tinha certeza de que ela iria sair da Crunchem Hall depois das férias. Mas enfim, entendeu o porquê da decisão da mãe da menina e (por mais que não concordasse muito) ia fazer o possível pra que Violet também entendesse, aceitasse sua realidade e voltasse a se comportar como nos últimos meses. Era melhor do que correr o risco de ter que interromper o tratamento dela, afinal, depois que foi contra uma decisão de Scarlett e a favor do que Violet queria (aquela viagem pra Califórnia), tudo deu errado e a mãe da menina quase trocou de terapeuta.

Fazia um bom tempo que Violet não chegava ao consultório tão brava quanto chegou naquele dia. Na verdade, o doutor ficou com a impressão de nunca tê-la visto tão brava na vida. E ela devia mesmo estar mais brava do que quando começou as sessões... Porém, ficou ainda mais brava quando viu que, depois de reclamar das injustiças de sua vida, o psicólogo, como sempre, ficou tentando convencê-la a aceitar tudo, como se ela estivesse errada. Violet achou que ele fosse diferente, que seria a única pessoa que a entenderia, mas não, ele era exatamente igual a todos os outros adultos!

Ela sempre saía mais calma das sessões, mas desta vez não. Saiu ainda pior, porque estava com raiva de mais uma pessoa. Ela começou a desistir daquela ideia de ter o Dr. River como pai. Do que ia adiantar ter um pai e uma mãe se os dois iam ficar conspirando contra ela? Sim, era exatamente isso que ela estava pensando: que eles estavam conspirando contra ela. E que odiava todos os adultos. E que queria que a escola pegasse fogo e a diretora morresse.** Foram frases que ela disse durante a sessão e que deixaram o doutor bastante preocupado, bem como a mãe da menina quando ele contou a ela o que ouviu. Scarlett chegou a perguntar se ele achava que Violet estava pensando em tacar fogo na escola de verdade ou algo assim, mas ele achava que não, que ela só tinha dito aquelas coisas porque estava com muita raiva e não confiava em ninguém ao seu redor. Ou melhor, aparentemente, em nenhum adulto.

Violet não havia contado dos foras que tinha dado nos colegas, então o doutor não sabia como estava a relação dela com outras crianças e pensou que talvez nelas a menina pudesse confiar. Na sessão seguinte, ela apareceu com alguns desenhos no gesso do braço, então a primeira coisa que o terapeuta perguntou foi quem os tinha feito.

— Eu, né? Quem mais poderia ter sido?

Violet andava muito irritada com aquele gesso, ele era insuportável! Incomodava pra dormir, suava, coçava muito... Mas ela não podia coçar, recomendação médica. Só que às vezes não dava pra aguentar, então a menina tentava enfiar lápis e canetas pra poder coçar, o que não dava muito certo. Além disso, ele não podia molhar, então, sempre que ia tomar banho, sua mãe o enrolava com saco plástico. O que significava que elas tinham que passar um tempinho juntas, o que, devido às circunstâncias atuais, a menina estava odiando.

Apesar de tudo, aquele troço tinha um único lado bom: dava pra desenhar nele e, como Violet era destra, ficava desenhando durante os momentos de tédio. Porém, na escola era mais difícil, pois, como a vigilância da diretora sobre ela estava mais acirrada, estava bem mais complicado quebrar regras como não desenhar durante as aulas que não eram de Artes. Ah, se bem que tinha outra coisa boa: agora que ninguém mais estava com pena de Violet, a menina podia usar a história da diretora ter quebrado o braço dela pra assustar as crianças mais novas. E elas realmente ficavam muito assustadas! Não só com isso mas com todas as outras atrocidades que ouviam sobre a Trunchbull de Violet e de outros alunos mais velhos.

Enfim, voltando à sessão de terapia, o doutor contou que quebrou o braço uma vez quando era criança e todos os seus amigos assinaram seus nomes ou desenharam no gesso. E, sempre que algum amigo quebrava o braço, ele fazia a mesma coisa. Violet revirou os olhos e disse:

— Você sabe que eu não tenho amigos.

— Violet, eu sei que você odeia a escola, mas, acredite, você não ia achar tudo tão horrível se tivesse algum amigo.

— Fala sério! Não ia fazer diferença nenhuma...

— Mas qualquer coisa na vida, por mais difícil que seja, fica melhor quando a gente tem alguém com quem contar.

Violet pensou um pouco e disse:

— Eu acho que o senhor tá errado. E sabe do que mais? Eu acho que ia ser ainda mais difícil de sobreviver naquela escola se eu tivesse um amigo, porque se ele se ferrasse, eu ia acabar me ferrando junto. E vice-versa.

O que Violet disse dessa vez deixou o doutor ainda mais preocupado. O que será que acontecia naquela escola pra deixar a menina assim?... Ela não contava a ele. Do que ia adiantar? Ela sabia que ele não ia acreditar, mesmo...

***

Scarlett achava que não tinha como Violet ficar pior do que no início do ano mas estava enganada. A menina estava se comportando pior do que nunca e o diálogo com ela era impossível! A mãe não sabia mais o que fazer, agora nem a terapia tava funcionando mais...

Houve um dia, então, ou melhor, uma noite, em que Violet extrapolou todos os limites e a Srta. Beauregarde passou pelo maior susto de sua vida. A mulher acordou no meio da noite para tomar um copo d'água e resolveu passar no quarto de Violet pra ver como ela estava, já que sabia que era difícil pra menina dormir bem por causa do gesso. Porém, a pequena não estava lá. Também não estava no banheiro nem em nenhum outro lugar da casa. E a porta da frente estava destrancada. Scarlett ficou desesperada! Começou a chorar, falou com todos os vizinhos, ligou pra vários conhecidos e todo mundo começou a procurar por Violet.

Depois de algum tempo, ela foi encontrada na rodoviária pelo marido de Julie. Ele estava lá porque ia fazer uma viagem a trabalho e tinha acabado de receber uma ligação de sua mulher contando sobre o sumiço da filha de Scarlett quando avistou, entre as pessoas que estavam na fila para pegar um ônibus para Nova York, uma boina vermelha muito familiar na cabeça de alguém que tinha uma estatura bem inferior à dos outros passageiros. A pessoinha virou o rosto e ele pôde ver que era Violet, mascando chiclete como nos velhos tempos.

Assim que reconheceu o homem, a menina arregalou os olhos e começou a correr mais rápido que um furacão até ele perdê-la de vista. Ele, então, ligou pra mãe dela na mesma hora e saiu avisando pra todo mundo na rodoviária que tinha uma menina sozinha fugindo de casa e, depois que ouviam uma breve descrição da garota, as pessoas diziam se a tinham visto ou não, pra que lado ela tinha ido e algumas ajudavam a procurá-la.

Por sorte, assim que Scarlett chegou no local, a menina esbarrou nela sem querer enquanto corria. A mãe ficou tão aliviada! E as pessoas que estavam ajudando a procurar por Violet também, já que perceberam que aquela era a mãe da garotinha, o que depois foi confirmado pelo homem que avisou sobre a criança fujona. Violet, por outro lado, se sentia cercada. Não dava mais pra escapar, eram olhos por todos os lados, que nem na escola! A menina começou a mastigar o chiclete mais rápido por causa do nervosismo. Não tinha jeito, teria que voltar pra casa.

Como já foi dito, Scarlett estava aliviada e muito agradecida por todos que a ajudaram. Mas isso não quer dizer que não estivesse com raiva. Depois que chegaram em casa, Violet teve que ouvir muito da mãe!

— Como é que você faz uma coisa dessas comigo, menina? Você quase me matou do coração! Fugir de casa no meio da noite?! Graças a Deus não aconteceu nada de ruim com você, mas sabe lá o que podia ter acontecido!

— Até parece que você se importa quando acontece alguma coisa ruim comigo!

— Você acha que eu ia ficar que nem uma doida rodando a cidade se não me importasse??? Eu sou sua mãe, lembra?

Violet revirou os olhos e preferiu não dizer mais nada, apenas continuou mascando o seu chiclete. Scarlett ficou com mais raiva e ia perguntar onde a menina tinha achado aquele chiclete, mas lembrou que havia uma informação mais relevante que precisava saber:

— Por que você tava indo pra Nova York?

— Não é óbvio? Pra ficar longe de você!

Ai! Aquilo doeu! Okay, ela já imaginava que se a filha tinha saído de mala e tudo sem avisar era porque queria fugir, mas ouvi-la dizer isso em voz alta era muito pior. Na verdade, era mais da escola do que da mãe que Violet queria fugir, mas, como a mãe era a responsável por ainda estar na escola, a menina queria ficar longe dela também.

Scarlett respirou fundo e disse:

— E com que dinheiro você ia pagar a passagem?

Violet gelou. Pegou a mala, disse que ia desfazê-la e foi subindo pro quarto.

— Violet, responde a minha pergunta! Com que dinheiro você ia pagar a passagem??? — Perguntou a mulher, com a voz ainda mais firme do que já estava, seguindo a filha, que corria escada acima.

Acontece que Violet não ia pagar a passagem, ela já tinha pago. E sua mesada não era o bastante pra pagar o táxi pra rodoviária, a passagem pra Nova York e ainda comprar chiclete, até porque, naquele ano, ela só tinha ganhado mesada em janeiro e nas férias, já que passou maior parte do tempo se comportando mal. Scarlett, então, começou a desconfiar do que teria acontecido e foi olhar sua carteira. Faltava dinheiro nela.

— Não acredito que você fez isso! — Disse, agora com muito mais decepção do que raiva na voz, em frente ao quarto de Violet.

A menina, que estava de costas pra ela tirando as roupas da mala, apenas disse:

— Já sei. Tô de castigo.

— Com certeza! E joga esse chiclete fora!

Violet estava arrependida, mas não queria admitir. Só queria não ter sido vista pelo pai de Lily e estar tranquila no ônibus agora, prestes a se livrar de tudo que a sufocava. A partir daquele dia, Scarlett começou a esconder a chave da porta da frente durante a noite pra não correr o risco da filha fugir de novo.

Na primeira sessão de terapia após sua tentativa de fuga, a menina foi logo dizendo ao doutor que já tinha ouvido sermão da mãe e não precisava ouvir mais.

— Não se preocupe, eu não vou te dar sermão. Parece que você já pensou no que fez... Tá arrependida?

Violet ficou um tempo calada e depois disse:

— Eu sei que roubar é errado, mas eu queria muito ir embora e não tinha dinheiro o suficiente, era a minha única opção!

— Isso quer dizer que você se arrepende de roubar mas não de tentar fugir?

— Você disse que não ia dar sermão!

— Isso não é sermão, eu só fiz uma pergunta. Você preferia tá em Nova York agora?

— Claro!

Então o doutor continuou fazendo perguntas: onde Violet estaria morando se estivesse lá, como estaria vivendo, com que dinheiro ia comprar comida... E ela percebeu que não tinha pensado em nada dessas coisas.

— Ai, que droga! É muito difícil ser criança!

— Você já tinha tentado fugir da sua mãe uma vez e se arrependeu.

— Só porque eu percebi que não ia ficar melhor com o meu pai do que com ela...

— E agora você acha que ficar sozinha é melhor do que ficar com ela?

— Acho... Mas não faz diferença, né? Porque eu sou criança não posso ficar sozinha. Aff...

— É verdade, uma criança não pode ficar sozinha. Mas você precisa entender que os adultos não tão contra você. Principalmente a sua mãe!

— E você tá falando isso em nome de todos os adultos da Terra por acaso? — Perguntou a menina, indignada.

O doutor pensou um pouco antes de responder e disse:

— Não. Nesse mundo tem muitos adultos que fazem mal pras crianças e eu entendo a sua falta de confiança. Sei o que você já teve que passar por causa de alguns deles... Mas e quanto à sua mãe e a todos que ajudaram a te procurar quando você fugiu? Todos nós queríamos o seu bem.

— O problema é que vocês, a minha mãe e você principalmente, acham que sabem o que é melhor pra mim, mas não sabem!

— Isso é por causa da sua escola, né? Foi por causa disso que você fugiu?

— Não é a mesma coisa da primeira vez, porque a minha mãe conhecia o meu pai e sabia o que ele podia fazer, então, sim, ela tava certa e sabia o que era melhor pra mim, que eu não devia ter ido pra lá, mas agora... ela não conhece a Trunchbull como eu conheço, sou eu quem sabe o que ela pode fazer com as crianças!

— E o que ela pode fazer com as crianças?

A menina ficou calada. O doutor continuou:

— Sua mãe disse que essa diretora é muito rígida, e você também sempre reclamou dela, desde o início das sessões, mas nunca chegou a dizer o que ela faz... Ela já fez alguma coisa com você?

— Pergunta pra minha mãe. Eu contei e ela não acreditou...

O doutor estranhou.

— Ela nunca me disse isso... Por que você não me conta?

Violet ficou com uma expressão semelhante à que tinha quando o doutor perguntou sobre a última vez que ela tinha chorado. Então começou a pensar seriamente em contar. Talvez precisasse... Até então, o doutor sempre tinha levado a sério tudo que ela dizia, né? Resolveu que ia contar. Estava quase contando... Mas voltou atrás:

— Você também não vai acreditar... Vai pensar que eu enlouqueci...

A menina não quis dizer mais nada a respeito daquele assunto. O doutor, por sua vez, que já estava bastante preocupado com o que poderia estar acontecendo na escola dela, decidiu marcar um horário para conversar com a Srta. Beauregarde ao invés de apenas fazer comentários com ela após a sessão. Teria que ser uma conversa bem longa... A mulher estranhou, mas entendeu que fosse algo sério considerando as últimas atitudes de Violet, então acabou concordando.

Aliás, não era a primeira coisa estranha que ela ouvia naquele dia: enquanto a menina estava no consultório, a Srta. Beauregarde recebeu um telefonema de um número desconhecido, uma ligação internacional. Por incrível que pareça, a voz desconhecida do outro lado da linha não tinha ligado por engano, queria mesmo falar com a mãe de Violet Beauregarde. A desconhecida era a Sra. Bucket, mãe de Charlie Bucket.

Notas finais
* Essa historinha do campeonato de Skate foi inspirada no que aconteceu com a Rayssa Leal, a nossa fadinha brasileira, no Mundial de Skate Street de 2023 em Sharjah. Ela quebrou o braço nos treinos, competiu assim e ficou com ouro na final. Diva, né? 🧚🏽‍♀️💛 ** Sobre a Violet dizer que queria que a escola pegasse fogo e a diretora morresse: que fique claro que eu sou totalmente contra a violência contra as escolas! Acontece que, na Crunchem Hall, a própria diretora é violenta com as crianças, por isso seria natural que elas começassem a ter pensamentos assim. Tanto que os alunos mais velhos, como a Violet e a Cornelia, que passaram muito tempo presenciando e sofrendo situações de violência na escola, são muito mais agressivos que os mais novinhos, como os da turma da Matilda (que vão aparecer mais adiante na história).