Reverso
3 ♦ Capítulo 3
Notas iniciais
Bom, esse cap é dedicado à ele mesmo. Espero que gostem.
Boa leitura!
Reverso
By Amanur
Capítulo 3
...
Sasuke achava muito engraçado como a mente das pessoas funciona. Alguns passam o tempo inteiro fingindo que não se importam com nada, nem com ninguém, mas quando algo acontece é como se o mundo inteiro estivesse desabando aos seus pés. Bando de cu frouxo!, dizia para si mesmo. Desesperam-se e, até mesmo, são capazes de se rebaixar por pouco. E aí recorrem a quem eles menos esperavam precisar de ajuda.
Ele tentava com todas as forças não deixar que isso acontecesse consigo. Ou, pelo menos, tentava não deixar transparecer que suas emoções também podem ser abaladas. Afinal, não era de ferro. Mas ele já tinha problemas suficientes na cabeça para se preocupar com os problemas do outros. E isso inclui sua família mesquinha.
No Sábado pela manhã, seu pai o ligou para dizer que resolveu lhe dar uma milionésima chance. Uma piada!, pensou. Só não o fez rir por que as piadas do seu pai são sempre acompanhadas de chantagens e ameaças nada engraçadas.
— Volte para casa, Sasuke. Eu estou seriamente doente. O câncer está se espalhando cada vez mais rápido...
— Bom... Desejo que faça uma boa viajem para o outro lado da vida. Quem sabe, agente se encontra no inferno, hum? — bocejou. E ainda teve o desprazer de ouvir seu pai suspirar do outro lado da linha.
— Se você não voltar para concluir seu curso, como seu irmão está fazendo, não vou deixar nada para você quando eu morrer. Você ficará absolutamente sem nada, está claro? Não vou deixar tostão para filho vagabundo. — nem perto da morte, aquele homem tinha piedade.
Normal. Nada que o deixasse surpreso, na verdade. Ele tinha pena do irmão, que acatava com todas as vontades daquele velho de boca fechada. Aquele homem era mais carrasco do que qualquer algoz dando chibatadas em escravos. Mas era acatar ao seu último pedido de vida, ou morar embaixo de uma ponte. Afinal, ele tinha que admitir que dependesse do pai para viver. Achou que, desta vez, ele realmente não tinha outra escolha. Sabia mesmo que seu velho estava beirando a morte e, aquela, provavelmente, seria a última chance que ele tinha para conseguir se virar. Mas Sasuke sequer lhe respondeu. Desligou o telefone, e juntou suas coisas numa mochila. Pegou o seu capacete, e deixou o pequeno apartamento que alugava na cidade vizinha da capital. Levou mais tempo do que deveria até chegar em casa, graças à maldita chuva que caía no país inteiro, pois o asfalto ainda estava úmido em alguns trechos. Só estava voltando mesmo, por que não estava disposto a perder sua preciosa moto! Era a única coisa que fazia sua vida valer à pena. Era a única coisa que conseguia lhe trazer algum ânimo no espírito. Além de mulheres, é claro. E cigarro. E álcool.
Quando chegou, parecia não haver mais ninguém naquela casa. Sentiu-se estranho naquele casarão enorme, sozinho. Quando eram pequenos, a casa vivia cheia de gente. As esposas anteriores de seu pai adoravam encher a sala de visitas.
Como as coisas mudam!, pensou. Seu pai já não tinha mais aquele vigor de antigamente para sair pelos cômodos reclamando de tudo, e nem ele ficava mais assustado pelos cantos da casa, se perguntando até quando se sentiria encurralado. Naquela época, ele era apenas um menino inocente. Hoje, Sasuke era um homem experiente.
Se trancou em seu quarto, largou sua mala no canto, e se deitou para relaxar a bunda. Percebeu como seu quarto não se parecia em nada com o que ele tinha na lembrança, quando meio que fugiu de casa da ultima vez. Provavelmente, aquela mudança estúpida era obra de sua atual madrasta — típica megera com mania compulsiva por se manter na liderança.
Ele acabou pegando no sono, pois não viu quando o Itachi chegou. Ao constar que tinha apenas mais duas horas de sol, resolveu ir ao hospital, para poder tirar alguma satisfação da cara de defunto daquele velho estúpido. Quando saiu do quarto, seu irmão ouvia música alta, no volume máximo. Deu alguns chutes na porta apenas para lhe avisar que havia chegado, sem ter certeza de que ele ouvira ou não — aquele volume era absurdo até mesmo para o próprio Sasuke, o rei da baderna! — mas, provavelmente, ele fazia alguma coisa a mais. Deu de ombros, e seguiu seu caminho em sua moto. Mas acabou se perdendo no meio do trajeto. Afinal, morava do outro lado da cidade, e nunca precisara ir a um hospital. Geralmente ele freqüentava prontos-socorros por ter quebrado uma perna ou um braço, em brigas e corridas.
Por sorte, encontrou duas garotas no caminho. Na medida em que se aproximava, foi reconhecendo uma delas. A Karin. Ele não fazia idéia sobre o que aquela garota realmente pensava sobre ele, mas achava que isso, no fim, não lhe faria diferença alguma para conseguir tê-la embaixo de si, numa cama. Mas, infelizmente, naquele momento, ele não estava com paciência para discutir nada com ela. Pois uma das coisas que mais gostava nela era o seu pavio curto. Adorava atiçá-la para entreter-se.
Resolveu olhar somente para a sua amiga estranha. Parecia um urubu do pescoço aos pés. Ela não está velhinha demais para pintar os cabelos em cor de rosa, não?, pensou. Sem falar que ela não tinha o mínimo jeito de metaleira, gótica, ou seja lá o que ela queria ser com aquelas roupas pretas de marca. O único adjetivo que conseguia pensar para ela era: ri.dí.cu.la. Pena que não estava com humor, nem tempo, para tirar sarro dela.
Ela desenhou um mapinha tosco, com linhas completamente tortas. Mas, pelo menos, estava compreensível. Agradeceu a gentileza, e se foi para o hospital a toda velocidade, já louco para voltar para casa.
— Odeio hospitais. — praguejou para si mesmo, enquanto desviava de alguns carros na rua.
Pessoas doentes o deixam doente. Todos com aquela cara de moribundos. E muitos estavam ali por pouca coisa. Um homem havia esmagado um dedo, não sabe como, e fazia cara e coitado como se estivesse para morrer. Ele achava profundamente irritante. Há muita gente que passa por coisas piores! Pessoas fracas, que olham somente para si mesmas, o irritam.
Sasuke quase cuspiu no chão depois de dar o nome do velho à recepcionista, para que ela o deixasse passar. E assim que conseguiu ter acesso, resolveu pegar as escadas só para não ter que ficar olhando para a cara de bunda mal lavada de ninguém. Na medida em que seus pés se aproximavam daquele quarto, ele ia considerando a possibilidade de dar a meia volta.
Só não sabe dizer por que não fez isso. Ele parecia tão frágil e enfermo em seu leito, que chegava a ser patético. Desprezível. Sequer deu para rir.
— Eu sabia que você não iria querer deixar suas regalias de lado. — o homem lhe disse em tom acusatório, assim que o viu passar pela porta.
— E de quem é a culpa por eu ter tantas regalias? — Sasuke se encostou na porta, cruzando os braços. Não estava a fim de se aproximar mais do que o necessário dele. Aquela distância era suficiente para ouvi-lo.
— E de quem é a culpa por estar prestes a perdê-las? Eu te dei tudo, e assim mesmo você continua sendo esse filho ingrato e miserável.
— Oh, então, me deixe agradecer agora pelos anos de submissão com infância perdida, cheia de mentiras, culpas e acusações e mais um monte de obrigações para com uma família tão cheia de frescuras estúpidas. Antes que seja tarde demais, é claro... Se não fosse por você, eu não seria o que hoje sou. Muito obrigado, papai! — desta vez, Sasuke cuspiu no chão mesmo, com nojo das próprias palavras.
— Tolices! Seu irmão não é como você. — Sasuke revirou os olhos — E fique sabendo que ele já renovou sua matricula na faculdade.
— Ele fez o que? Desde quando? Eu não disse que eu iria voltar às aulas! Saco! — chutou a porta — LÁ VEM VOCÊ DE NOVO CONTROLANDO A MINHA VIDA! NEM QUANDO ESTÁ PRESTES A MORRER, NÃO É MESMO?! É claro que não! Tsc!
— ENTÃO VOCÊ VEIO PARA QUE, SASUKE? — o velho começou a tossir, como se estivesse prestes a cuspir os pulmões, por ter se alterado.
Ele queria poder dizer para o velho morrer logo de uma vez, e deixá-lo logo em paz, mas não conseguia. Alguma coisa impedia que aquelas palavras saíssem de sua boca. Mas o problema é que isso lhe deixava com um gosto terrivelmente amargo na língua.
— Sei lá, cuspir na sua cara, talvez! — o rapaz respondeu, em tom mais moderado.
— Não se faça de engraçado!
— Estou falando sério! — Sasuke resmungou.
O moreno deu a meia volta e saiu daquele quarto bufando, se perguntando por que resolveu ir ali mesmo?! Poderia ter evitado todo aquele desgaste se tivesse permanecido em sua cama. Talvez devesse ter seguido o exemplo do irmão, e ter deixado seu aparelho de som em volume máximo também, para abafar qualquer ruído irritante. Como aquela voz, no fundo de sua mente, que insistia lhe dizer para fazer a coisa certa quando ele menos queria.
Ao passar pela recepção, Sasuke tirou aquele mapa do bolso da jaqueta para jogá-lo na cesta de lixo. Queria se livrar de qualquer resquício de quaisquer que tenha sido suas intenções ao pisar naquele hospital. Mas hesitou ao ver que havia algo escrito atrás daquela folha.
“Ei...
E agora como você está?
Traído por uma história acabada?
E na tua frente mais uma subida?
Se sente um pouco só?
Não há ninguém que possa te ouvir?
Que possa dividir com você os problemas?
Nunca! Nunca desista!
Seja como você é!
Siga o teu destino!
Porque toda a dor que você tem aí dentro
Nunca poderá apagar teu caminho.
Então você descobrirá que a história de cada um dos nossos minutos
Pertence somente a nós mesmos.
Mas, se você ainda ficar perdido sem uma razão
Em um mar de porquês
Dentro de você, ouça o seu silêncio
E você achará as palavras.
É difícil entender.
O que fazer ao certo?
Se aparece na cabeça uma emoção,
O orgulho te domina!
Há noites em que o remorso te acorda
Pelo medo de errar...
Mas se você se encontrar, sem as estrelas para te guiar,
Nunca desista”
Ficou olhando para aquele poema escrito à mão em uma caligrafia perfeita, típica de quem escreve bastante. Cada letra tão bem desenhada, como se fosse uma bela ilustração. Aquelas palavras pareciam falar diretamente com ele. Pareciam sussurrar ao ouvido tudo o que ele já sabia, mas nunca quis aceitar. Era tão surpreendente quanto irritante. Era quase como se a garota tivesse lhe entregado aquele papel de propósito.
E, então, uma mulher, com seus quarenta e tantos anos de rugas na cara, o empurrou para o lado resmungando coisas e o encarando com raiva nos olhos, obrigando-o a desviar sua atenção. Ele mostrou seu dedo do meio àquela mulher estúpida, enfiou o papel de volta na jaqueta, pôs seu capacete e correu para o estacionamento onde havia deixado sua moto.
Um novo suspiro o encheu de energia. E o início daquela noite estava perfeito para uma corrida em alta velocidade. Ele sempre preferiu a luz da lua, fria e solitária, para sair para respirar. O ar gélido parecia lhe penetrar com mais facilidade pelos pulmões.
Notas finais
Esse "poema" não é bem um poema.. na verdade é a tradução de uma musica da Laura Pausini, com algumas leves modificações feita por mim, só para que ficasse mais de acordo com a história... infelizmente eu perdi o link de qual musica é, mas assim que eu achar, eu aviso..
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