Reverso

22 ♦ Capítulo 22


Notas iniciais
Mais um. Boa leitura.

Reverso

By Amanur

Capítulo 22

...

Choque é o embate de dois corpos; é um impacto ou uma colisão. É comoção; abalo. Encontro violento de forças. Antagonismo, conflito, luta, oposição. É efeito produzido pela passagem de uma corrente elétrica através de qualquer parte do corpo, o qual consiste em uma estimulação repentina dos nervos ou em uma contração convulsiva dos músculos, acompanhadas de uma sensação de concussão, e pode resultar em dano físico e até na morte. É estado agudo de fraquejamento circulatório periférico, devido a um desarranjo do controle circulatório ou perda do fluido circulatório. É uma alteração súbita do sistema nervoso causada por uma grande e inesperada emoção. Mas para Sakura, talvez, fosse muito mais do que isso. É algo transcendental. Era algo muito elevado, sublime, superior. Metafísico. Algo agudo, penetrante, perspicaz. Algo que lhe tirava a razão do seu controle.

Nem quando deu as costas para o Sasuke, sem dizer absolutamente nada, depois do beijo; nem quando passou pelo seu pai sem sequer olhar para ele; nem depois que tomou uma ducha de água gelada, e se deitou em sua cama, ela deixou de sentir aquela corrente elétrica percorrendo por todo o corpo.

E a última vez em que se sentiu assim, foi quando beijou Itachi pela primeira vez.

Ela rolou pelo colchão durante um bom tempo. Rolava para um lado, depois para o outro. Mas não conseguia se aquietar. Ainda suspirava, toda vez que se lembrava do beijo. Sakura ainda conseguia sentir os lábios meio ressecados dele sobre os seus. E tinha quase certeza de que ele tentou colocar a língua dentro da boca dela, mas hesitou. Por quê?, se perguntou.

Talvez pelo mesmo motivo que ela deveria ter impedido de aquilo ter acontecido. Pois ela beijou o irmão do namorado! Mesmo que não estivessem mais juntos — sem terem tido um rompimento formal, já que ele simplesmente aconteceu —, ainda achava que era algo errado. Ela não queria magoar o Itachi. Ele não merecia isso, apesar de tudo. Ele lhe foi um bom amigo. Talvez não o melhor, mas ainda tinha o seu valor. E ela não conseguia nem imaginar como ele ficaria ao saber que o havia trocado pelo irmão. O irmão que, talvez, ele odiasse. Mas ela acreditava que esse não era bem o caso. Eles poderiam ter suas diferenças, mas Sakura achava que Itachi fosse incapaz de odiar alguém. Um cara atencioso, carinhoso e, acima de tudo compreensivo, não tinha a capacidade para odiar alguém. Se lhe perguntassem, ela poderia dizer que Sasuke sim. Sasuke tinha um “q” de loucura. Ela lembrava bem do olhar que o moreno tinha quando cortou a própria mão para assustar o ruivo. Mas o Itachi não! O Itachi era completamente isento de crueldade e malícia.

Já era noite quando seu pai bateu na porta do seu quarto, trazendo uma bandeja com a janta. Por conta de alguns conflitos internos, como eles diziam, havia tempos que já não faziam suas refeições na mesa, como uma família unida deve fazer. Geralmente era a empregada quem levava as refeições para cada membro daquela pequena sociedade, mas o senhor Haruno aproveitou a oportunidade para confrontar a filha, que sonhava acordada na cama.

— Achei que fosse trazer seus colegas para terminarem o trabalho aqui. — ele comentou, enquanto deixava a bandeja sobre a escrivaninha dela.

Sakura sentou na cama, ajeitando os cabelos atrás da orelha, ao se dar conta de que estava na companhia dele. Estava tão distraída em seus pensamentos, que nem ouviu quando a porta foi aberta.

— Já estávamos terminando mesmo. Um dos colegas ficou de finalizar o que faltava. — mentiu.

— Humm. E quem era aquele rapaz que te trouxe? O namorado que você disse que não tem? — ele sentou-se ao lado dela, pegando em sua mão. Qualquer coisa que ela dissesse ele acreditaria por saber que sua filha não mentia. Pois achava que havia lhe ensinado perfeitamente. Mas claro que agora as coisas mudaram um pouco de cenário. Sakura havia dito que não tinha namorado, mas foi pega beijando um rapaz.

Sakura começou a temer por si própria. Estava prestes a confrontar seu pai, e não sabia bem como fazer isso. Pois seria a primeira vez. Mas sentia que estava na hora de tomar as rédeas de sua vida. Não podia deixar-se continuar submissa as vontades de seus pais. Ela já era adulta, e sabia muito bem o que era certo e errado, como também sabia que não havia feito nada de mau.

— Ele é um colega da faculdade. — apenas respondeu. Não havia ainda encontrado as palavras que deveriam ser ditas.

— E vocês estavam estudando o que? Anatomia humana? — ele indaga em tom acusatório, para deixar bem claro que havia presenciado o que aconteceu.

Sakura sentiu os dedos dos pés gelarem. Não sabia mais o que esperar dele. Mas talvez aquela fosse a oportunidade certa para dizer algo mais atrevido. Atrevido para ela, é claro. Mas seu nervosismo fez com que sua mente zerasse. Ela abriu a boca para dizer algo, mas som algum saiu de sua garganta. E sentiu o corpo todo estremecer em ansiedade. Mas ao ver que ela tentava falar alguma coisa, ele a interrompeu.

— Vamos rever nossas regras, ok? Eu pago sua faculdade para que você estude, para trabalhar comigo. Pelo menos até você conseguir abrir sua própria empresa, certo? Por tanto, para isso, você deve sempre me apresentar boas notas, e cumprir seu papel ao qual lhe foi incumbido dentro da família. É uma troca justa, não é mesmo? E para isso, você não deve se distrair, Sakura. E namorados são a pior distração de uma mulher. Já conversamos sobre isso, lembra-se? Mulheres apaixonadas tornam-se fracas, cegas, e escravas desse sentimentalismo barato. E isso tudo atrapalha a concentração. Você é jovem, ainda tem muito tempo pela frente para encontrar um bom homem. Não perca seu tempo com esses moleques.

A cada palavra que ouvia sair da boca dele, mais irritada ela se sentia. Mas suspirou, para conter-se. Assim como seu pai parecia calmo, tranqüilo, ela tentou falar com a mesmo eloqüência que ele.

— Tenho vinte anos. Nunca tirei nota baixa. Eu tenho o direito à uma folga! Tenho direito de viver a minha juventude! Não quero perdê-la trancada dentro de casa, com a cara grudada em livros, para depois me arrepender do que não fiz!

— Enquanto eu estive pagando suas despesas, enquanto você estiver sob o meu teto, você obedece às minhas regras. Não importa quanto anos você tenha! A questão é a sua dependência, Sakura. Você depende de mim. Ponto final. Ou você segue minhas regras, ou veremos... — calmamente, ele se levantou do colchão, beijou-lhe a testa, e saiu do quarto.

Sakura entendeu muito bem o recado. Ou ela seria sua escrava, ou estaria na rua. E se depender dele, não levaria nem as roupas do corpo.

Ela sequer conseguiu engolir uma garfada que fosse daquela comida. Sua garganta estava rígida demais para deixar alguma coisa passar para o estômago. E agora ela seria obrigada a passar o restante da noite ali, sem conseguir dormir.

Enquanto isso, em seu quarto, Sasuke se perguntava se tinha feito a maior cagada da sua vida. Afinal, que expressão era aquela?, ele se perguntava. A garota parecia ter visto um fantasma, logo após o beijo que lhe deu. Se pudesse voltar no tempo, não teria feito aquilo. Agora estava com medo de que tivesse aborrecido ela. Estava com medo de que ela não fosse mais querer falar com ele.

Mas como todo homem, ele também não desperdiçaria sua noite pensando em mulher. Ou pelo menos, era esse o plano. Afinal, Sasuke não era romântico, e acreditava que podia viver sem ninguém. Já era quase uma da manhã, quando ele resolveu descer até a garagem para polir sua moto. Já que estava sem sono, mataria o tempo cuidando da moto.

Itachi estava sentado no sofá da sala, mastigando algo, com papéis a sua volta. Eram documentos da empresa, que Sasuke fazia de tudo para manter-se longe. Ao ver o mais novo passar tão tranquilamente, Itachi resolveu atiçá-lo.

— Se você continuar ignorando a sua parte, vai acabar ficando no olho da rua do mesmo jeito, Sasuke.

Sasuke parou no meio da sala, cruzando os braços e olhando para o cabeludo. Ficou pensando por alguns segundos sobre o que fazer.

— Quer saber de uma coisa? Você tem razão! Está na hora de eu assumir alguma responsabilidade. Até por que, eu posso muito bem fazer duas coisas ao mesmo tempo. — o moreno disse.

Itachi ficou perplexo diante da nova postura do irmão.

— Você está zoando com a minha cara? Por que não tem a menor graça, Sasuke!

— Estou falando sério! Nunca falei tão sério em toda a minha vida.

— E o que te fez mudar de idéia? — ele ainda não conseguia acreditar naquela história.

E foi então que Sasuke sorriu.

— A Sakura. Você sabe, não é mesmo? As coisas estão esquentando entre nós. Quero mostrar a ela que também posso me comprometer com alguma coisa séria. Quem sabe algum dia nos casamos! Tudo pode acontecer, não é mesmo? Nunca se sabe quando posso encontrar a vadia certa! — Sasuke se odiou por se referir a ela daquela maneira, mas acabou deixando-se levar pela emoção do momento. Ele via que cada palavra que dizia afetava o Itachi.

E de fato, o mais velho sentiu seu sangue ferver. Era fácil para ele ignorar os dois em sala de aula, quando tinha os livros em sua frente para se focar. Afinal, ele sempre pôs a empresa do pai em primeiro plano. Mas agora era diferente. Sasuke estava esfregando a situação em sua cara, e de propósito. Além disso, ele não podia deixar que ele falasse daquela forma sobre a Sakura. Ela não merecia aquele tratamento.

Ele se levantou rapidamente, se lançando contra o mais novo. Ambos se desequilibraram, e caíram no chão. Mas Itachi era quem estava no topo, sob o comando. E então, imagens dela começaram a aparecer em sua mente. O modo como ela sorriu encabulada, com o rosto vermelho, na primeira vez em que a convidou para sair. O modo como ela ouvia seus planos para o futuro sem contestar nada, e como ela o olhava cheia de admiração. Ele se lembrou do perfume suave, da pele macia, do beijo delicado. Mas também se lembrou de como ela o olhou com mistura de fúria, constrangimento e medo, quando tentou tocá-la pela primeira vez; e pensou que, talvez, ela ainda era virgem. Ela não era como uma daquelas vadias ao qual Sasuke estava acostumado a descartar. Ela precisava ser respeitada, e Sasuke era um marginal imundo, indigno dela.

Quando o cabeludo se deu conta, Sasuke estava com os lábios levemente roxos, revirando os olhos e sem fôlego, com o pescoço entre seus dedos. Itachi apertava tanto, que Sasuke não conseguia abstrair força suficiente para se libertar. Ele tentava afrouxar os dedos do irmão com uma mão, e o empurrava com a outra. Mas claro, sem sucesso. Quando a ficha caiu, Itachi o soltou, se jogando para o outro lado. Não conseguia acreditar no que acabara de fazer. A imagem do irmão sendo degolado o atormentou mais uma vez. E então, começou a soluçar, tentando conter as malditas lágrimas que ameaçavam cair.

Sasuke cuspiu algumas gotas de sangue no tapete. Sua garganta ardia; parecia que estava em chamas. Ele respirava com dificuldade, tentando recuperar o oxigênio dos pulmões. Quando conseguiu se acalmar, viu Itachi se levantar do chão, e caminhar até as escadas. Sasuke também não conseguia acreditar que Itachi realmente tinha tentado matá-lo. Pois a força impregnada nos dedos do mais velho indicava que sim.

E Itachi queria sumir, desaparecer. A última vez que se sentiu tão atordoado foi quando viu sua mãe pela última vez. Ele subiu as escadas até seu quarto. Jogou-se sobre a cama se sentindo nada mais que uma enorme pilha de lixo amontoado. Nunca se sentiu tão podre.

Mas Sasuke resolveu deixar aquilo de lado. Pelo menos por enquanto. Fez merda ao provocar o irmão, e achou melhor não fazer de novo. Caso contrário, a situação poderia se reverter. E caso acontecesse, não sabia se teria a capacidade que Itachi teve de se impedir de deixar algo mais trágico acontecesse. O que ele fez, então, depois de beber um litro de água, foi seguir com o seu plano de cuidar da moto. Assim se distrairia bem. Pelo menos, não estava mais quebrando a cabeça pensando na Sakura.

Ele começou passando um pano úmido em toda a moto. Depois, foi passando um outro pano, mas seco. Quando pegou o frasco com a cera, ouviu ruídos do lado de fora; passos de alguém caminhando pelo jardim.

A casa dos Uchiha tinha um muro baixo. Ela achou que fosse fácil conseguir chamar atenção do Sasuke. Só precisava achar a janela do quarto dele, para atirar uma pedrinha contra o vidro. Quando estava preste a dar o seu primeiro chute, ele aparece na porta.

— Sakura? — e ela percebeu que sua voz saiu estranhamente rouca.

Mas ao olhar para ele, tudo o que lhe veio em mente foi a cena do beijo. Teve que desviar o olhar, se sentindo, de repente, estúpida por estar ali. Mas agora já era tarde para voltar a trás!, pensou. Pois já havia tomado sua decisão.

— São... — ele olhou para seu relógio de pulso — Duas e quinze da manhã. O que faz aqui? Com uma mala nas costas...?

Ela suspirou, sentindo suas pernas fraquejarem.

— Estou com medo, Sasuke. Não quero mais voltar para casa.

Talvez você não seja ninguém para o mundo, mas, talvez, você seja o mundo de alguém. Era assim que Sakura, agora, via Sasuke. Talvez estivesse sendo imprudente, por pensar assim, mas ela sentia que ele era o único quem realmente poderia entendê-la naquele momento.

Sasuke ficou surpreso. A garota parecia tremer de frio e medo, ao mesmo tempo. Sem pensar duas vezes, a convidou para entrar. Ele a levou direto para a cozinha, onde preparou uma xícara de chá para ela beber e se aquecer. Não disseram mais nada, um para o outro, durante um bom tempo.

Enquanto bebericava aquela bebida, ela repensava sua atitude— que, por acaso, foi a mais importante que já tomou em sua vida. Saiu de casa deixando apenas um bilhete sobre a cama, dizendo que não sabia quando voltaria. Pegou uma mochila maior que tinha no fundo do armário, e o encheu com roupas e mais algumas coisas — sem deixar seu caderno de poesia, é claro. Enquanto socava suas coisas para dentro daquela mochila, ela se convencia de que aquela seria a única maneira que tinha de conseguir sua liberdade. Enquanto vivesse sob as asas de seus pais, não a obtiveria. É preciso se desprender de suas origens para crescer; cortar o cordão umbilical para se desenvolver. Mas agora, ali, na cozinha do Sasuke, já não tinha mais certeza de que fizera a coisa certa. Para onde iria? E o que faria?, eram as perguntas que mais lhe martelavam em mente.

— Passei minha vida vivendo em um espécie de aquário. As paredes eram todas de vidro, para que eu pudesse ver o mundo que se passava por mim. Mas eu não podia passar daqueles muros. Eles eram o meu limite, por que me diziam que, se seu saisse dele, coisas ruins iriam acontecer. — ela não tinha prentenção de contar aquilo, mas, quando percebeu, as palavras já estavam saindo de sua boca, como se precisassem se libertar. Como se estivessem ficado presas por tempo de mais — Você consegue imaginar a angústia de uma criança, vendo outras crianças se divertirem à sua volta, e não poder fazer nada? E depois, ela cresce, e a coisa se repete. A adolecente vê outras garotas da sua idade sair com amigos, fazendo novas amizades, enquanto ela se vê cada vez mais para trás. — enquanto falava, ela olhava para a xícara, remechendo o líquido para um lado e para o outro. Não queria se arriscar a olhar para ele — Eu não tenho história alguma para contar, por que não vivenciei nem a metade da metade do que as pessoas da minha idade já viveu. Tenho mais de vinte anos, mas me sinto como uma criança idiota, inocente, que não sabe o que é viver. E há tanta coisa que eu queria ter feito. Há tanta coisa que ainda quero fazer!

As palavras dela eram palpáveis. Sasuke conseguia imaginar aquilo tudo, e até tocá-las. Mas ainda assim, eles eram diferente. Pois justamente, diferentemente dela, ele não se deixou levar pelas palavras, talvez destrutivas, do seu pai. Enquanto ela se submetia, ele se rebelava contra. Ele lutou pela liberdade que queria.

— Por que você não fugiu antes? — ele quis saber. Essa, talvez, fosse a pergunta que mais queria ter feito ao seu irmão também.

Durante um tempo, Sasuke acusava Itachi de covardia. Ele não conseguia entender por que o irmão sempre abaixava a cabeça para tudo o que seu pai lhes dizia. Achava que seu irmão ou era um estúpido fraco, ou um belo puxa sacos, sem personalidade. Mas ouvir aquela mesma história, vindo da boca dela, o fez indagar novamente aquela questão. Por que seu irmão não foi contra?

E Sakura não sabia se estava arrependida de não ter fugido antes mesmo. Se soubesse que sua vida continuaria a mesma, no passado, talvez, ela tivesse mudado de opinião. Mas como não foi o caso, teve que arcar com as concequências que lhe atingiram diretamente.

— Minha mãe teve depressão pós-parto. — ela confessou — E até hoje ela ainda sofre com isso. Fui aconselhada a ficar ao lado dela, tentando minimizar os efeitos. Mas ela desistiu do tratamento. Ela desistiu de me amar. Ela me odeia! Acho que fiquei por que ainda queria ouvir dela aquele “eu te amo”, que sempre via na tv a mãe dizer para seu filho. Mas a minha nunca disse. Mas ela tentou... acho que isso já significa alguma coisa. Às vezes, ela consegue fingir alguma coisa, sabe? Mas tem dias em que entra em crise, e me culpa por tudo... Quando descobri por que ela me tratava com descaso, foi complicado. Eu achava que escrevendo cartas para ela, e fazendo desenhos nos retratando, ela fosse se comover. Mas tudo o que eu fazia parecia causar ainda mais repudio nela. O psiquiatra dela disse que, às vezes, a mulher ama seu filho, mas apenas não sabe como expressar isso. Acho que por isso eu agüentei tudo até hoje. Mas a esperança é uma senhora cega e estúpida. E agora chegou o momento que isso não faz mais sentido!

Sasuke ouviu tudo atentamente, como se precisasse memorizar cada palavra que ela dizia. Ele entendia perfeitamente o que ela sentia, porque era como ele se sentia com relação ao seu pai. E Sakura ainda não conseguia olhar para ele. Tinha medo que, por causa de seus problemas, ele fosse mudar de opinião com relação a ela. Pois Sasuke, de fato, sempre teve aquela idéia de que ninguém precisa saber dos problemas de ninguém. Mas agora ele via o bem que fazia desabafar os problemas. Agora ele entendia por que as pessoas falam pelos cotovelos. Ninguém consegue viver sozinho. As pessoas acabam enlouquecendo com o acumulo de problemas em mente. Faz parte da natureza humana necessitar dos outros. Simplesmente por que o ser humano é uma criatura fraca, sem preparação alguma para viver na solidão. Ainda mais num mundo tão selvagem, cheio de competições.

E ouvindo sua história, seus motivos, Sasuke se perguntou se Itachi também não teria alguma forte razão para ter feito o que fez. No entanto, no momento, havia outra pergunta mais pertinente, que ele precisava fazer à ela.

— Sakura... Sua mãe bate em você?

Só então, Sakura levantou o olhar para encará-lo. De imediato, ela soube ao que ele se referia. Suas marcas. Ela já havia pensado em lhe perguntar por que ele nunca havia lhe questionado sobre elas antes. Mas por não se julgar preparada para falar sobre aquilo, pois sabia que ele iria querer respostas, resolveu não insistir.

Quando abriu a boca para dizer algo, ambos ouviram, de repente, o som alto de uma música tocar. Vinha do andar de cima. Sakura olhou para Sasuke, na dúvida.

— O que é isso? — ela se referiu à forte batida que fazia o chão vibrar.

Ele sabia o que era, mas apenas deu de ombros. Talvez estivesse na hora de ela ver com os próprios olhos. E só então, quando o olhou mais atentamente, sob a claridade da luz fosforescente da lâmpada, foi que viu as marcas no pescoço do rapaz.

Ao ver que Sakura olhava sem piscar os olhos para seu pescoço, Sasuke baixou a cabeça, tentando encontrar palavras, passando a mão sobre a marca dos dedos do Itachi.

— Ah... isso... depois que te deixei em casa, me encontrei com alguém que não vai com a minha cara. — ele achou melhor não contar sobre aquilo para ela. Há segredos que não se deve contar a ninguém mesmo. Só não sabia dizer por que estava defendendo o Itachi daquela culpa.

Só que Sakura não era idiota. Uma das coisas que mais se orgulhava da vida que teve, foi ter aprendido a observar. Isso ela sabia fazer como ninguém! E viu logo de cara que ele estava mentindo. Pois uma das coisas que não se deve fazer quando se vai contar uma mentira, é desviar o olhar. Quando se inventa algo a dizer, a pessoa deve olhar nos olhos de quem está lhe ouvindo para lhe passar a convicção de sua história. E Sasuke não conseguiu olhar para ela. Além disso, pessoas mentirosas, tem uma espécie de tique nervoso, quando mentem. Piscam os olhos, ou fazem algum gesto com a cabeça, ou com as mãos, que denunciam o nervosismo e ansiedade que sentem. O bom mentiroso não tem medo de parecer convicto ou não. O péssimo mentiroso sim. E Sasuke era péssimo.

Ela ia lhe acusar, mas o som ficou mais alto, a ponto de não conseguir ouvir a própria voz. Então, suspeitando de algo, ela se levantou da caderia e foi seguindo em direção ao som. Sasuke fez o mesmo, e foi seguindo-a. Ele se perguntava se deveria mesmo impedi-la ou não, mas resolveu não fazer nada.

A garota, então, subiu as escadas, até se deparar com uma porta entreaberta. O barulho parecia sair dali de dentro. Ela olhou de canto para o Sasuke, que apenas deu de ombros. Então, ela resolveu abrir a porta.

Itachi estava sentado no chão, com uma colher na mão e um isqueiro aceso abaixo do talher. Ele esquentava algo branco, que começava a borbulhar até se liquefazer. E ele ainda segurava uma seringa na boca, vendo aquelas bolhas explodirem. Parecia concentrado no que fazia.

Sakura ficou tão chocada com aquela imagem, quanto ficara com o beijo do Sasuke. Jamais havia suspeitado que seu namorado, ou ex-namorado, fosse usuário de drogas. Ele era tão calmo, tranquilo, centrado, que não havia como suspeitar.

E aquela era a primeira vez que Sasuke via aquela cena também. Já havia um tempo que suspeitava de algo, pois nos últimos tempos percebeu que Itachi parecia menos paciente com ele. Mas não saberia dizer desde quando seu irmão usa drogas pesadas.

Notas finais
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