Reverso
23 ♦ Capítulo 23
Notas iniciais
Boa leitura!
Reverso
By Amanur
Capítulo 23
...
Sakura se perguntava se existe uma única pessoa no mundo que não tem problemas. Quando não é a família, é o trabalho, são os amigos, a saúde, o dinheiro, ou, no pior dos casos, é você mesmo. E é tudo inevitável. E, ainda por cima, um problema nunca está sozinho. Ele anda de mão dada com outro trás. Por que não se pode viver sozinho.
Quando os viu na porta, Itachi derrubou tudo no chão. Tratou de se levantar, rapidamente, chutando tudo para baixo da cama, mesmo sabendo que eles tinha visto tudo, e correu para desligar seu aparelho de som. Estava tão atordoado com o que fizera à Sasuke, que nem se prestou a certificar de que havia deixado a porta trancada ou não. E se amaldiçoou por seu descuido. Mas agora, tudo o que lhe restou fazer foi os olhar numa mistura de culpa assumida, raiva e frustração. Se sentia idiota por fazer aquilo, mas foi a única válvula de escape que encontrou. No fundo ele sabia que havia outras maneiras de lidar com seus próprios demônios, mas ele era ogulhoso demais para pedir ajuda. Sempre viu Sasuke lidar com seus próprios dilemas sem ajuda de ninguém, e achava que deveria fazer o mesmo.
— O que está fazendo aqui, Sakura? — foi a única coisa que ele conseguiu pensar em dizer.
— Desde quando você faz isso? — ela respondeu, ignorando a pergunta dele.
Itachi olhou para Sasuke, como se o acusasse por ela estar ali. Mas o mais novo nada fez, apenas encarava o irmão seriamente. Pois ele também queria saber a resposta para aquela dúvida que a garota havia lançado.
— Me deixem a sós. — foi tudo o que disse, em um tom de derrota.
Mas Sakura estava decidida a fazer o contrário. Agora que encontrou a oportunidade que queria, não iria largá-la até receber algum resultado satisfatório. Afinal, ela mesma já havia pensado naquela saída, como solução para os próprios problemas. Mas, diferentemente dele, preferiu enfrentar tudo de rosto erguido a se rebaixar aquilo. E agora ela queria saber por que ele não fizera o mesmo.
— Você está viciado nisso? Por que nunca contou nada? Por que faz isso? Foi você quem enforcou o Sasuke? Você odeia mesmo o proprio irmão a ponto de fazer isso? Qual é o problema de vocês que não possa ser resolvido com o diálogo? Vocês são adultos! As coisas não precisam ser assim! — quanto mais falava, mais nervosa ela ia se sentindo.
Itachi apenas pensava consigo mesmo, o quão ingênua ela era por achar que todos os problemas podem ser resolvidos com um simples diálogo. Quem o dera que fosse! Quantas vezes ele havia tentando se aproximar de Sasuke, mas tudo o que recebera foram patadas. As farpas eram tantas, que, no final, restou apenas devolvê-las quando se falavam. E agora, havia um enorme emaranhado de problemas acumulados, para serem desfeitos.
Mas essa era uma das coisas que ela mais tinha convicção. O diálogo era a melhor forma de comunicação entre os seres humanos. Nada se resolve se ninguém disser nada. Ela jamais poderá ajudá-lo se ele não lhe disser o que o incomoda. E isso era tudo o que ela mais quis dele; que se abrisse e confiasse nela. Mas Itachi nunca conseguiu fazer isso.
E Sasuke percebeu que a tremedeira dela havia voltado, e achou melhor afastá-la. Talvez, ela tivesse, afinal de contas, problemas demais para lidar com os dos outros, como sempre pensou.
— Podemos falar sobre isso depois, Sakura. Você deveria dormir. — lhe disse.
Ela concordava que estivesse cansada. O estresse com a decisão de fugir de casa lhe cansou. Mas ficou tão atordoada com aquela cena do Itachi que não sabia mais se conseguiria pegar no sono. Itachi sempre lhe passou a imagem de figura masculina inabalável. Sempre tão calmo, paciente e decidido em suas ações, que ela achava que nada poderia atingi-lo. Mas, mais uma vez, ela via que errara em suas suposições. E não era por culpa dele. Afinal, Itachi nunca disse ser inabalável, homem de ferro. E nem ele, nunca se julgou a pessoa mais forte do mundo.
A garota deixou Sasuke levá-la dali, mas não deu aquela conversa por encerrada. Cedo ou tarde, ela voltaria para empurrar o cabeludo contra a parede.
Assim sendo, Sasuke a levou para o quarto de hóspedes, que ficava ao lado do seu quarto. Era o quarto onde ele escondia o seu piano, que, antes, fora uma sala só para a sua prática, que seu pai havia construído. Da primeira vez em que a trouxe, preferiu deixá-la em seu próprio quarto, por que não gostava de mostrar aquele piano a ninguém. Aquele instrumento representava todo o seu fracasso, fúria e frustração. Mas agora, não via por que não mostrá-lo a ela.
E ao se deparar com o enorme piano de cauda, em marfim escuro, Sakura logo se lembrou da história que o rapaz lhe contou naquele dia de chuva em que esperava um ônibus na parada e acabou aceitado carona dele. Mas ela não fez comentário algum. Tinha medo que até mesmo um elogio ao instrumento fosse capaz de ofendê-lo.
Ele lhe entregou lençóis e um travesseiro que tirou de um enorme armário, e lhe indicou o sofá-cama. Depois de vê-la deitada, ele sentou ao seu lado, no colchão.
— Eu te disse que o Itachi me culpa pela perda de nossa mãe. Se eu estivesse no lugar dele, talvez teria feito o mesmo. Acho que para ele a perda foi maior, por que ele ainda a teve. Eu sequer a conheci. — deu de ombro, tentando se convencer daquilo.
— Tenho certeza de que não é esse o problema. Você não teve culpa de nascer. Não foi você quem pediu para ela deixá-los. Se pudesse ter feito algo, tenho certeza de que teria feito o contrário. Terias feito de tudo para que ela ficasse. Talvez ele se culpe por não ter feito isso. Não sei... Mas não ouse se culpar pelo que não fez, Sasuke. — ela pegou sua mão, passando os dedos frios nas cicatrizes esbranquiçadas que ele tinha nos dedos. Sentiu a textura de cada um delas.
Sakura sabia que o Itachi não era estúpido a ponto de fazer uma acusação tão incoerente daquelas, ainda mais por tanto tempo. Até por que, nas poucas vezes em que ele mencionara o nome do irmão, Itachi nunca demonstrou tanto menosprezo. Talvez algum ressentimento, mas nada comparado ao ódio. Ela tinha certeza de que não poderia ser aquilo a causa do desentendimento dos dois.
Mas Sasuke suspirou pesado, se perguntando por que diabos tinha que ter crescido. A vida é muito mais bonita quando se é criança.
Ele a observou por alguns instantes tocar sua mão com delicadeza.
— Você não está brava comigo? — ele perguntou.
— Por que estaria?
— Já beijei tanta garota que não esperava de modo algum aquele tipo de reação, que você teve. — comentou numa mistura de sarcasmo e divertimento, com um sorriso de canto, para minimizar a tensão. Além disso, ele estava louco para lhe dar outro beijo.
Mas Sakura se sentiu estranha com o comentário. Meio sem jeito, sem graça. Até precisou desviar o olhar.
— Eu beijei apenas dois caras. — murmurou.
— Você, como é que, o que? — ele enrolou a língua, surpreso. Mas ela apenas deu de ombros.
— Eu estava preocupada, achando que você fosse achar estranho, por eu ter namorado o seu irmão. Eu beijei somente você e o seu irmão, Sasuke.
— Hum. Não. Não tem problema algum! Talvez por que eu nunca vi vocês juntos. Eu é quem deveria me preocupar com você pensar no Itachi quando me beijar... ou sei lá o que...
Ela sorriu.
— Impossível. Vocês são completamente diferentes.
— Hummm. Se você está dizendo.... Então.... posso te beijar outra vez?
— Eu deixo.
— Hum. Acho bom, mesmo.
Ele sorriu, enquanto se aproximava dela, pouco a pouco. Seu hálito quente encontrou o rosto dela, até tocarem as pontas dos narizes. Ele virou a cabeça um pouquinho para o lado, e desceu até seus lábios para um beijo terno. Apoiou uma das mãos na nuca da garota, enquanto ia acomodando o corpo no colchão, para deitar-se ao lado dela. Quanto mais o tempo passava, mais intenso o beijo ia ficando, até perderem o fôlego. Sasuke não queria desrespeitá-la, mas não se conteve. Passou a mão em seu ombro, descendo para o seio. Mas ao se dar conta que ele lhe acariciava, mesmo que por cima da roupa, Sakura o empurrou de repente. E fingiu estar com uma tosse para disfarçar que o fez. Olhou de canto para ele, e sorriu meio torto, sem jeito. E em seguida, forçou um bocejo.
— Acho que o cansaço está me derrubando, afinal de contas. — ela comentou, sem mais olhar para ele.
Sasuke também se sentiu meio estranho, acanhado. E temeu novamente por ter feito besteira. Mas não disse nada; apenas concordou em deixá-la a sós, e lhe deu um beijo de boa noite. No entanto, quando saiu do quarto, encontrou Itachi sentado no chão, ao lado da porta. Ele teria ouvido toda a conversa deles.
Sasuke fechou a porta, sem dizer nada. Passou por ele, e sentou ao seu lado. Os dois ficaram em silêncio por um tempo, encostados na parede, olhando para o chão de madeira encerada. Nenhum deles se sentiam a vontade com as palavras. Mas Sasuke viu o arrependimento estampado na cara do irmão.
— A história é diferente, Sasuke. — Itachi resolveu quebrar o silêncio, após ter se decidido contar a verdade.
Sasuke o olhou com o cenho franzido, sem entender ao que ele se referia.
— Como assim?
— O pai não exatamente expulsou nossa mãe de casa. Ele a internou num hospital psiquiátrico, por que ela era esquizofrênica.
— Hein?
— Quando a conheceu, ele não sabia. Ela fazia tratamento, e parecia curada. Mas depois que me teve, o problema se agravou. Eles brigavam o tempo inteiro, e ela voltou a ter surtos. Mas depois pareceu ter melhora, outra vez. Foi aí que ela ficou grávida de você. — quanto mais avançava naquela história, mais ele sentia as mãos estremecerem. Ele até cerrou o punho, encravando as unhas nas palmas para que a dor o contesse, mas aquilo não parecia ser suficiente —... Mas quando nasceu, ela voltou a piorar. Quatro meses depois, a coisa ficou ainda mais feia. Ela achava que todo mundo estava contra ela. Incluindo você, que era apenas um bebê. Um dia, então, ela tentou te matar, te enforcando. E teria conseguido, se eu não tivesse chegado a tempo. Tive que bater nela, Sasuke. Bater para valer, para que ela não te matasse. — e então, Itachi precisou olhar nos olhos do irmão, para que ele visse o que sentia — Só que eu não consegui aplicar toda a minha força contra ela. Ela era minha mãe, afinal. E então, ela veio me enforcar. Mas as empregadas que trabalhavam na casa, naquela época, conseguiram apartá-la de cima de mim. Foi aí que o pai a levou embora, por que viu que ela representava esse perigo para a familia. Ele não te odiava, Sasuke. Ele apenas não queria te contar a verdade, por que você era pequeno e imaturo demais.
O coração de Sasuke batia com força total contra o peito. Nem em mil vidas teria imaginado aquela história. Sua mãe era esquizofrênica! Parecia absurdo demais para ser verdade. Estava tão acostumado a pensar que ela apenas os abandonou, para depois ser regeitada pelo pai, que qualquer outra história não poderia ser verídica. Só que aquilo explicava por que Itachi era como era. O rapaz baixava a cabeça para o pai por culpa, e medo de ficar sozinho outra vez. Coisa que Sasuke jamais sentiu.
— Você está fodendo com a minha cara?
— Bem que eu queria que fosse assim. Teria sido muito mais fácil se ela apenas tivesse nos abandonado, ou que ele tivesse expulsado ela. Mas ela tentou matar os dois filhos! E eu a vejo nos matar quase todas as noites, Sasuke. Eu te invejo por não se lembrar de nada.
— Mas por que você me acusou de todas aquelas coisas? Se eu não tive porra de culpa alguma?
— Eu pensei que se voce não tivesse nascido, ela não teria piorado outra vez. Mas como Sakura disse, você não teve nada a ver.
— Tsc! Filho da puta. Você tem alguma idéia de como me fez sentir com todas as acusações?
— Você está mesmo me perguntando isso? — Itachi achava que o único que pudesse ter sofrido mais do que ele com essa historia, teria sido seu pai.
Sasuke bufou, revirando os olhos. Se lavantou do chão, rapidamente, lhe dando as costas.
— Não quero sequer mais olhar para a sua cara, Itachi! Voce não tinha o direito de fazer o que fez.
— Eu nunca disse que tinha.
— ENTÃO POR QUE VOCÊ FEZ? — berrou.
— EU NÃO SEI! Mas ainda tem mais, Sasuke! Ah, se tem! Você sabe por que o pai te mandou para a Italia? Você o odiava tanto por isso... Você acha mesmo que ele apenas queria te empurrar para umas aulinhas de piano? Pois saiba que não!
— Apenas desembucha, Itachi!
— Ele te mandou para a Itália, por que foi naquela época em que nossa mãe se suicidou no hospital psiquiatrico. Foi pouco depois do pai ter recebido aquela carta, em que ela pedia para voltar. Mas como os médicos diziam que ela não estava em condições para assumir a maternidade outra vez, o pai a deixou lá. Algumas semanas depois, ela se matou. Eu tive que ficar, para cuidar do maldito funeral, por que nosso pai queria lhe proteger disso. Como eu já sofria com todos os pesadelos, e não haveria como me esquecer do que aconteceu, fui obrigado a ficar, enquanto voce foi viajar. Enquanto você esteve na Itália, eu estive num consultório psiquiatra fazendo tratamentos, por que eu sempre carreguei a porra do fardo, enquanto você se lamentava por nada!
— Ele me deixou na Itália, sozinho, por dez anos!
— Nosso pai era o homem mais influente no país! O que você acha que aconteceu quando todos ficaram sabendo que ele era casado com uma louca que tentou matar os próprios filhos? A merda da mídia ficou um ano inteiro falando disso, Sasuke! Quando não era um jornal, era outro. A empresa sofreu com perda de lucros por causa disso. Ele quis ter certeza de que tudo estaria esquecido para te trazer de volta.
— E como é que você me explica isso? — Sasuke não conseguia se convencer de que seu pai não fosse tão intragável quanto Itachi fazia parecer. Então, mostrou as marcas nos dedos causadas pelo homem, como prova de que aquilo tudo era mentira.
Mas Itachi deu de ombros, sem ter certeza do que responder.
— Ele era um homem estressado. Todo mundo comete erros. Ou talvez ele quisesse que você o odiasse mesmo, para nunca querer saber nada sobre nada. O plano parecia dar certo!
— Tsc! Inacreditável, Itachi. Isso é inacreditável! Por que está me contando isso agora? — Sasuke rangia os dentes, para conter a raiva que sentia.
O mais velho desviou o olhar, dando de ombros, novamente.
— Por que você está tomando de mim a única coisa boa que eu tive.
— Tsc! Vai à merda, Itachi! — e então, Sasuke desceu as escadas correndo até a garagem. Sentia-se furioso. Só não sabia bem com o que.
Com tudo, talvez. Até mesmo consigo, por ter se deixado enganar por tanto tempo.
Pegou sua moto, e saiu a toda velocidade pelas ruas. Não sabia mais o que pensar. Seus pensamentos estavam todos confusos, e não sabia se deveria odiar o irmão, ou seja lá o que mais sobraria para sentir com relação ao Itachi. Tudo o que sabia era que queria distância dele. Ele tinha o direito de saber sobre sua mãe, e achava que tudo o que fizeram apenas piorava a situação.
Sakura também ouviu toda a conversa, pois os dois falavam alto o suficiente para compreender o que diziam. E então, ela se lembrou de ter dito que não poderia ficar com nenhum dos dois, e, agora, depois de tudo o que ouviu, tinha mais certeza disso. Como poderia ficar entre dois irmãos cuja história pesaria tanto em seus ombros?
Ela ainda ouviu a moto do Sasuke saindo da garagem. Pensou em sair do quarto para falar com o Itachi, mas achou melhor deixá-lo a sós.
No dia seguinte, ela acordou cedo. Não se sentiu à vontade para ficar naquela casa — sentia-se uma intrusa. Então, a garota pegou sua mochila, e saiu pela porta da frente. Mas precisou pular o muro baixo, no entanto. Enquanto caminhava pelas ruas, ia pensando no que dizer à Karin. Sua única alternativa agora era pedir conselhos à amiga. Perguntava-se onde estava sua cabeça quando pensou em ir até a casa dos irmãos. O que ela esperava? Que eles a salvasse? Quanta inocência! Liberdade não significa depender dos outros, lembrou-se. E então, a cada passo que dava, sentia-se mais patética e desajeitada. Talvez devesse agüentar um pouco mais seus pais até se formar, e conseguir um bom emprego para sair de casa. Mas pensar em voltar lhe tirava todo o ânimo, e espírito aventureiro que sentiu lhe tomar, quando decidiu tomar o controle de si mesma. Mas que outra opção tinha? Essa foi a decisão mais patética que tomou.
Ela caminhou por mais algumas ruas, até chegar a uma avenida movimentada. Fez sinal para o primeiro taxi que viu se aproximar, e entrou no automóvel.
Neste exato instante, Sasuke voltava para casa. Por questões de segundo, teria visto Sakura entrar no carro. Ele havia passado o resto da noite em seu outro apartamento, pensando no que havia acontecido durante a noite. Vendo que não iria adiantar nada ficar fugindo, resolveu voltar em seguida. Quando chegou em casa, eram oito da manhã. Itachi estava na cozinha tomando uma xícara de café, vestindo sua calça social, com a gravata enroscada no pescoço; precisava ir a empresa para dar continuidade no trabalho. Ele baixou os olhos, quando viu Sasuke passar as pressas, subindo as escadas. Mas ao constar que Sakura não estava em parte alguma, Sasuke retornou.
— Ela falou com você? — perguntou.
— Quando levantei, ela já tinha ido embora.
Sasuke saiu correndo, praguejando. O único lugar que podia imaginar para onde ela tinha ido era a casa da Karin. Ele não tinha o número do telefone da ruiva, sem mencionar que seu próprio celular estava estragado e não havia adquirido outro, mas sabia onde ela morava. Foi até lá a toda velocidade. Apertou a campainha da casa até alguém atender.
Enquanto isso, Sakura desceu em frete à sua casa. Pagou o taxista com o pouco dinheiro que lhe restava na carteira, e entrou. Seus pais deveriam ainda estar dormindo, pois tudo parecia calmo demais. Ela carregava a mochila na mão, quando deu alguns passos, até seu pai aparecer no corredor, vestido com seu velho roupão e com um jornal embaixo do braço. Imediatamente, ela deixou a mochila cair no chão. De onde estava, seu pai não a via graças ao sofá que estava na frente.
— Você saiu? — perguntou, ao perceber que ela estava vestida.
— Acordei cedo, e fui me sentar um pouco no jardim. Eu estava pensando em comprar um cachorro. — mentiu.
— Hum. Ok, podemos sair mais tarde para ver isso. — ele seguiu caminho até a cozinha, olhando para seu jornal. Assim que ele desapareceu do campo de visão, ela pegou a mochila, e correu para o seu quarto. Mas poucos segundos antes de tocar a maçaneta, sua mãe sai do quarto do casal, que ficava bem em frente ao dela.
Sakura sentiu os ossos gelar, quando a senhora Haruno a olhou dos pés a cabeça, com aquele seu habitual olhar indiferente.
— Você deveria ter ido. — a mulher tirou o bilhete que a garota havia deixado sobre a cama, do bolso da calça que vestia, jogando o papel aos pés de Sakura. Em seguida, deu-lhe as costas.
Sakura não sabia se aquele tom significava algum tipo de encorajamento, ou se a mulher apenas queria se ver livre dela.
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