Reverso
14 ♦ Capítulo 14
Notas iniciais
Reverso
By Amanur
Capítulo 14
...
A definição de mal é bastante clara no dicionário. Refere-se a tudo o que se opõe ao bem, tudo o que prejudica, fere ou incomoda tudo o que se desvia do que é honesto e moral. E a palavra maligno, que vem de mal, é tudo o que tem propensão para o prejudicial.
O Sasuke só pensa que a engana. De fato, ela não encontrou ainda um bom motivo que lhe esclarecesse o porquê de ele fazer isso, mas Sakura tinha certeza de que havia algum.
— Acho que, no fundo, você não tinha a intenção de ferir ninguém. Tudo o que você queria era aliviar a pressão que sentia. Por que tudo isso o que você passou o consumia, Sasuke. Acho que ainda o consome. Mas você quer se culpar pela morte dele por que, talvez, você ache que assim terá feito alguma coisa por você mesmo, para compensar o tempo de submissão que passou com seu pai... Como se isso fosse recompensá-lo.
— Tsc! O que você sabe? Desde quando é psicóloga? — ele cruzou os braços, a olhando com a sobrancelha erguida.
— Sei que você chorou pela perda do seu pai, por que vi seus olhos vermelho quando me chamou para acompanhá-lo em sua moto. E sei que você estava lamentando o tempo inteiro. E era por isso que você queria correr de moto! Para fazer com que a adrenalina aliviasse o peso que sentia nas costas.
Ele bufou, mas não disse mais nada. Apenas forçou um sorriso sem humor, revirando os olhos, para tentar lhe fazer acreditar que ele realmente estivesse desdenhando a sua teoria falsamente falsa. Mas ele sabia que aquilo era verdade, tanto quanto Sakura sabia. Estava escrito ali, na cara abatida dele.
Ele sentou em sua moto, girando o acelerador. Mas antes de sentar na garupa, Sakura lembrou de olhar o corte em sua palma da mão mais uma vez. Só por curiosidade, ela queria ver como estava o ferimento, já que ele não estava usando proteção alguma. Não havia nenhum curativo, nenhuma gase, nenhuma luva. Mas se surpreendou ao constar que a pele dele estava quase borbulhando, de tão quente que estava. Então, rapidamente, Sakura levantou o visor de seu capacete, e meteu a mão na testa dele. Além de encharcada de suor, estava ainda mais quente.
— Sasuke, você esta queimando de febre!
— É só uma gripesinha mal curada. Logo passa. — ele lhe deu um tapa em sua mão, para que parasse de ser intrometida. Além disso, pensava ele, aquela não era a primeira vez que ficava gripado, e sempre se safou sem precisar de conselho de ninguém.
— Não creio que seja apenas uma gripe qualquer! Não estaria com tanta febre se fosse. Você pode pegar uma pneumonia!
— Não importa! Suba logo!
— Deveríamos voltar! Você precisa se deitar e tomar remédios.
— Olha bem para a minha cara, e me diga que você acha mesmo que eu vou fazer isso!
E assim, Sakura fez. Ela olhou para ele, e, não!, ele não parecia nem um pouco disposto a fazer o que ela sugeria. A garota revirou os olhos, e subiu após vestir o capacete na cabeça. Achou melhor deixá-lo na dele, do que sair provocando-o.
E em seguida, Sasuke pegou uma pequena estrada de terra. O dia estava bem ensolarado e atipicamente quente para a época. E agora, à tarde, fazia ainda mais calor. Se não fosse pelo vento contra o rosto, ela também teria passado mal. Pois roupas pretas, ainda por cima, eram piores por absorver toda a luz e calor.
Depois de uns quinze minutos, a moto parou. Havia um pequeno grupo de motoqueiros aglomerado no meio daquela estrada, conversando. Sasuke fez um sinal para que ela descesse, e foi arrastando a moto até o grupo, enquanto Sakura foi caminhando logo atrás. Havia em torno de quinze homens, e sete mulheres. De longe Sasuke reconheceu o cara alto, grandalhão, de cabelos castanhos claros que se aproximou deles com uma perna manca.
— Só faltava você, cara! Estávamos esperando. — Juugo lhe disse. Eles trocaram um rápido cumprimento com as mãos, enquanto um loiro cabeludo se aproximou para cumprimentá-lo também.
— Mas que infelicidade... Você veio! — o rapaz disse para Sasuke, que o olhou em desdém.
— Putz... Bateu a vontade de cagar, só por olhar para a tua cara! — Sasuke lhe diz, finalmente tirando sua jaqueta de couro. Sakura revirou os olhos, enquanto o loiro forçava um sorriso amistoso.
— O que é isso? — o loiro apontou com a cabeça para a garota, enquanto ela se mantinha meio afastada do grupo — Você trouxe um lanchinho para... Comermos? — ele a olhou da cabeça aos pés, sorrindo.
E Sasuke olhou para Sakura de um modo que lhe pareceu estranho, de forma que ela não conseguiu compreender o que estaria se passando na cabeça dele.
— O único lanche que estou vendo por aqui, é o seu fígado. — o moreno resmungou entre os dentes e cerrando o punho, se afastando.
Ele foi até o grupo maior, enquanto Sakura se encostou na moto dele. Eles ficaram conversando sobre as apostas, ela suspeitou — ouviu alguém mencionar alguns mil. Olhando em volta, pareciam que estavam no meio do nada. Só havia alguns morros e a estrada de terra. Quando olhou novamente para o Sasuke, percebeu que sua camisa cinza estava completamente encharcada além do cabelo molhado, grudado no pescoço.
Ele ia acabar se matando, se continuasse com aquilo!, ela pensou.
Alguns minutos se passaram, e Sakura ficou tão perdida em seus pensamentos, tirando o resto do esmalte preto que havia pintado as unhas para a festa, e que agora estavam todos lascados, que nem viu quando o grandalhão se aproximou dela. Sequer viu que ele havia se afastado do grupo.
— Você corre também? — Juugo perguntou. Ela balançou a cabeça em negação.
— Sequer sei dirigir.
— Oh. Hehe. Mas... Você sabe que o que fazemos é meio ilegal, certo?
— Rachas seguros são legais...
— Pois é... Mas acontece que este não é bem seguro. Corremos no meio das ruas sem autorização da prefeitura. Além disso, as apostas são feitas com... Trocadas de favores, digamos assim.
Ela engoliu a seco. Não fazia a menor idéia. Ela sabia que há alguns rachas permitidos pelas autoridades, mas não fazia a menor idéia de que Sasuke fizesse parte de alguma gangue que corresse alucinadamente entre pedestres.
Mas foi aí, que viu mais uma oportunidade de vivenciar algo novo.
— Não se preocupe. Não pretendo contar nada a ninguém. — ela disse, por fim.
— Ah, eu sei que não... O Sasuke não traria alguém que não fosse de confiança. Quero dizer... Ele nunca trouxe ninguém, nesses sete anos que o conheço...
— Hum... Ninguém... — ela comentou para si mesma, pensativa.
Depois de uns quinze minutos, Sasuke voltou para pegar sua moto, enquanto seu amigo se afastava dela.
— Vamos voltar pra capital. A corrida acontecerá às três da manhã. — ele diz.
— Três da manhã? — ela perguntou, para confirmar. E ele apenas balançou a cabeça afirmativamente.
— Sempre nos reunimos aqui, algumas horas antes, para combinarmos os detalhes da rota e etc.. — e Sakura suspeitou do que poderia ser esse “etc” ao qual ele se referiu — Depois nos dispersamos. Geralmente eu fico dando voltas por aí, até a hora.
— Dando voltas? Você não vai se cansar assim?
— Eu te disse que sou bom em corridas!
Ele sabia que corria o risco de perder e cansaria se passasse o restante do tempo andando por aí. Mas Sasuke não queria voltar para casa. Tinha medo de que a sombra do pai, dentro de casa, voltasse a atormentá-lo e, com aquelas dores no corpo, ele acabaria deixando se derrotar pela gripe.
E Sakura não só estava preocupada com a saúde dele, como com seu horário. Droga!, ela praguejou. Não queria ter que contar que precisava da autorização dos seus pais para estar tarde na rua, como se fosse uma criança. O que ele pensaria dela?, se perguntou.
— Você deveria ter me dito que seria de madrugada, essa corrida. — ela resmungou.
— Foi mal... Você tem algum compromisso? — ele desconfiou, ao vê-la roer a unha como se estivesse nervosa.
— Não... É só que...
— Que...? — ele queria insentivá-la a dizer o que quer que tivesse em mente, mas não obteve êxito..
— Nada não... Eu apenas tinha me programado para ver um filme. Mas posso fazer isso outra hora!
— Hum... Tem certeza? — ele pôs as mãos nos bolsos da calça jeans, suspeitando da resposta fajuta que ela tinha dado. Afinal, ele percebeu, ninguém ficaria nervoso por causa de um filme.
— Tenho.
— Então, tá. — ele disse, não muito convencido daquela resposta.
Ele subiu na moto, chamando-a. Eram cinco e meia da tarde quando deixaram o local. Sasuke ia dirigindo em uma velocidade razoável, por uma bela estrada verde. Mas passaram o tempo todo em silêncio, sem trocar palavras. Enquanto andavam pelas ruas, ele sentia seu celular vibrar no bolso da calça, mas não fez questão de, sequer, verificar quem o ligava. E fizeram mais uma parada para jantar em outro restaurante, já de volta à capital, mas também não trocaram conversa. Sakura via que ele estava cansado, e se perguntava por que, assim mesmo, ele iria fazer aquilo. Depois, ele diminuiu a velocidade. Andavam pelas ruas acompanhando o passo de um pedestre.
À meia noite, no entanto, Sasuke resolveu levá-la a um dos seus pontos preferidos da capital. No alto de um morro, onde ficavam as instalações de antenas de transmissão da rede de televisão local. Ele estacionou, em uma área isolada cheia de grama alta. Como temia, ele estava se sentindo exausto. Podre!, diria. Assim que desligou o motor e desceu da moto, se jogou de costas na grama, olhando para o céu razoavelmente estrelado. Algumas nuvens escuras cobriam boa parte do cenário.
E ela entendeu logo que ele estivesse fatigado. Era fácil de perceber isso só olhando para o rosto dele relaxar na grama. Mas diferentemente dele, ela ficou apenas sentada, ao lado dele, abraçando as pernas. A vista dali era incrível. Se via, praticamente, a cidade inteira iluminada.
— Eu morei num prédio alto, com a minha avó, durante um tempo. Da janela do meu quarto se tinha um vista parecida com essa. Só que não tão ampla, é claro. — ela olhou de canto para ele, para ter certeza de que ele estaria lhe ouvindo. Ao constar que Sasuke a olhava atentamente, resolveu continuar — Às vezes, eu me sentava no parapeito da janela, olhando para as luzes da cidade, e ficava inventando histórias para cada luz que via. Havia outro prédio um pouco afastado do prédio da minha avó, mas que dava para ver bem as salas dos apartamentos. Era engraçado ver que, enquanto eu me isolava no escuro, no meu quarto, alguém via televisão, outro conversava ao telefone, ou fumava na janela. Olhando para as luzes assim, sempre me pergunto o que as pessoas estão fazendo nesse exato momento. É quando agente se dá conta de que há um mundo inteiro a sua volta, e que você não está tão só quanto parece, entende? Enquanto estamos aqui, alguém, em algum lugar, está festejando.
— Tem gente festejando, trapaceando, transando, assaltando, assassinando... Tem gente morrendo de fome, morrendo por doenças... — ele comentou, concordando com ela.
E Sakura o olhou fazendo careta pelas escolhas dele, mas sabia que, no fundo, ele tinha razão. As pessoas não cometem apenas boas ações. E o mundo não girava apenas em torno de bons atos.
Ela se encolheu, sentindo o vento frio bater em seus braços.
— Você não se sente estranho, por estar aqui, sem fazer nada? Às vezes, sinto que deveria fazer algo...
— Viver a minha vida, é tudo o que posso fazer! Você queria o que? Salvar o mundo? Deixe isso para os super-heróis e políticos. Não é todo mundo que tem o dom de dedicar sua vida para outra pessoa. — ele jogou os braços para trás da cabeça, voltando a olhar para o alto.
Ela voltou a olhar para as pequenas luzes no horizonte, que pareciam piscar. Viver em um relacionamento já não é uma forma de dedicar sua vida para outra pessoa?, se perguntou. Ter uma família já implica isso também. Mas Sakura sabia que a situação era outra, é claro. A proporção era muito maior. Mas ela sentia necessidade de fazer algo para mudar alguma coisa. Só não sabia exatamente o que. Entretanto, sabia que isso era apenas fruto de sua vontade de viver. Ela queria fazer algo para si mesma. Queria mudar algo dentro dela. Mas ela sabia também que ele tinha razão. Não tinha como salvar o mundo. E talvez, essa, na verdade, nem fosse sua verdadeira vontade. A garota apenas queria sair da rotina ao qual vivia presa.
E ela nunca havia pensado daquela maneira. Que fosse preciso um dom, para se dedicar a alguém. E ficou se perguntando se essa seria mesmo a palavra mais adequada para isso.
Enquanto isso, Sasuke a olhava viajar na maionese, olhando adiante, percebendo o quão ingênua ela era. E se perguntou o que aconteceu para que a garota fosse assim. Afinal, ele sabia muito bem que o conhecimento vem da experiência.
O tempo passou ali, em cima daquele morro, sem que eles trocassem mais palavras, novamente. Quando viu que o horário se aproximava, Sasuke se levantou. Mas se sentia ainda pior.
— Vamos! — ele disse, tentando soar normal. Mas até sua garganta doía, e fazia com que sua voz saísse meio rouca — Vou te deixar no local de chegada. Não damos partida no mesmo lugar por questões de segurança.
— Vai me deixar no local de chegada? Achei que tinha vindo para vivenciar toda a coisa! — ela diz, sem entender os motivos dele.
— Eu poderia te levar comigo na corrida sim, mas é arriscado demais. Você fica.
Ela nem disse nada. Sabia que ele tinha razão, e até se sentiu mais aliviada por perceber que ele era mais sensato. Apesar de ainda não gostar da idéia dele correr sozinho também. Mas ele não iria desistir, mesmo que estivesse prestes a morrer. A determinação do rapaz estava bem estampada na cara dele. Então, apenas subiu de volta na garupa, com ele. E em seguida, ele deu a partida, seguindo para um posto de gasolina para abastecer. Depois de tudo checado, Sasuke seguiu para o local.
Os dois perceberam como as ruas pareciam abandonadas naquele horário. Apenas algumas casas noturnas estariam abertas no centro da cidade, ele sabia. Mas de qualquer forma, ainda seria o melhor horário, já que às três horas era o auge das danceterias e afins.
Ele a deixou em um terreno baldio, atrás de uma fábrica de automóveis. As mesmas pessoas que vira antes, naquela estrada, já estavam ali quando chegaram.
— Certo. Você espera com eles! — ele diz, apontando para as mulheres que acompanhavam os outros homens, e mais dois caras gordos, os únicos que não vestiam jaqueta de couro — Vamos levar uma hora, mais ou menos.
— Uma hora? — perguntou, tirando da sua mochila a garrafa com água que havia comprado no restaurante, onde jantaram.
— Sim, vamos dar a volta na cidade, saindo do centro.
— Ok. Mas beba isso, Sasuke. E me dê o seu celular.
— Hãn?
Ela estendeu a mão, esperando que ele lhe entregasse logo o aparelho. Relutante, ele o tirou do bolso da calça jeans. Sakura, então, abriu a tampa. Viu que tinha nove mensagens não lidas da Ino, e ficou muito tentada a ler aquilo. Mas não fez isso. Apenas adicionou a lista telefônica o número do seu celular.
— Se alguma coisa acontecer, me ligue. — e então, lhe devolveu o aparelho. Ele revirou os olhos, enfiando o celular de volta ao bolso, mas sorriu de canto, a deixando meio nervosa. Mais nervosa do que já estava, na verdade.
Se algo acontecesse, o que ela deveria fazer? Correr até ele, no meio daquele fim de mundo?, se perguntou. E o pior ainda poderia acontecer! Ele poderia cair no meio da estrada, sem que ninguém o visse e perder a consciência, ficando sozinho e à deriva. Ele só pode ser louco!, disse a si mesma.
Pelo menos, ele bebeu toda a garrafa, resmungando que teria que fazer uma parada para urinar no meio do caminho graças a ela. Mas, pelo menos, ele estaria mais hidratado!, pensou.
Depois, ele lhe pediu para pegar a sacola que havia socado dentro da mochila dela, quando saíram de casa. Sasuke tirou a camisa ali, e vestiu uma espécie de segunda pele, preta, que estava dentro da sacola. E depois, vestiu de volta sua camisa cinza, que já cheirava a suor, e ainda pôs de volta a jaqueta de couro. Enquanto se arrumava, ele ia lhe explicando que todo motoqueiro que se preze sempre as usa, faça chuva ou faça sol. Pelo couro ser um material mais resistente do que uma jaqueta jeans, por exemplo, ele o protege melhor dos pedregulhos que às vezes voam ou quando eles caem da moto. Só de ouvir falar em queda, ela já sentiu suas pernas bambas. Mas ela sabia que não iria adiantar nada tentar convencê-lo a desistir daquilo. Até mesmo por que o sorriso que ele mostrava, enquanto falava sobre essas coisas, era inegavelmente bonito. Qualquer cego poderia dizer que ele realmente gostava daquilo. Não precisava nem olhar para a cara de bobo dele. Bastava ouvir o novo tom de voz que ele reproduzia ao falar sobre o assunto. Ele parecia bem mais animado, mesmo rouco, do que estava há pouco tempo enquanto descansavam no morro.
Sasuke ainda tirou umas luvas de couro de dentro da sacola e mais uma espécie de capuz, que deixava apenas os olhos expostos. Era para proteger o rosto de eventuais pedrinhas que poderia entrar por baixo do capacete. Pois como correriam por uma parte da estrada, que era de terra, isso acontecia bastante.
Dando uma rápida olhava pelos outros homens, ela viu que eles faziam o mesmo. Cada um se protegia com o que tinha. E logo os motoqueiros foram se posicionando em suas motos, um ao lado do outro, como se preparassem para dar a largada. Uma das mulheres, vestida com uma mini saia e um top que mostrava seu piercing no umbigo exibindo metade de seus enormes seios, se posicionou na garupa de uma das motos. Sakura percebeu que a ela tinha um revolver na mão.
— É só uma corrida idiota que fazemos até o local. — ele explicou — E aquela mulher só está indo para dar a largada oficial também.
Assim que se julgou pronto, Sasuke ainda tirou a placa de sua moto que era estrategicamente encaixada, e entregou para a moça. Depois, ele deu um soco leve no ombro dela, como um cumprimento. Sakura lhe desejou sorte, mesmo duvidando que ele fosse conseguir. E ele sorriu em agradecimento com os olhos, já que era tudo o que ela conseguia ver dele.
Enquanto a mulher berrava os números em ordem decrescente, o som dos motores rugiu em um coral. Pareciam animais vorazes, loucos para correrem. O coração de Sakura já pulsava forte, de acordo com as acelerações que eles faziam. Começou a se sentir nervosa com aquilo tudo. Alguns já giravam a roda dianteira no ar, cuspindo terra. E quando a bala foi disparada para o alto, uma poeira enorme cobriu por completo a visão de todo mundo. Foi horrível!, ela diria mais tarde. A sensação de perigo se fez maior dentro do corpo dela, e sentiu os ossos vibrar. Sentiu o cheiro de terra meio seca, meio molhada, e tudo entrando pelos olhos e nariz... Mas quando aquele pó se acalmou e desceu, percebeu que já não havia mais nem sombra dos motoqueiros.
Enquanto isso, Sasuke ia se lembrando que a adrenalina é um hormônio derivado da modificação de um aminoácido secretado pelas glândulas supra-renais — são chamadas assim por estarem acima dos rins. Em momentos de estresse, as supra-renais secretam quantidades abundantes deste hormônio que prepara o organismo para grandes esforços físicos, estimula o coração, eleva a tensão arterial, relaxa certos músculos e contraem outros. Ela funciona mais ou menos assim: quando lançada na corrente sanguínea, devido a quaisquer condições do meio ambiente que ameacem a integridade física do corpo (fisicamente ou psicologicamente), a adrenalina aumenta a frequência dos batimentos cardíacos e o volume de sangue por batimento cardíaco. Ao mesmo tempo, ela eleva o nível de açúcar no sangue, minimiza o fluxo sanguíneo nos vasos e no sistema intestinal. E enquanto maximiza o tal fluxo para os músculos voluntários nas pernas e nos braços, ela ainda "queima" a gordura contida nas células adiposas. E isto tudo faz com que o corpo esteja preparado para uma reação, como reagir agressivamente ou fugir, por exemplo.
Dizem que adrenalina não vicia. O que acontece, na verdade, é que nos tornamos dependentes psicológicos da sensação de perigo. O Itachi dizia que Sasuke é louco. Mas o que ele poderia fazer? O corpo ainda colabora com essa loucura, pois as descargas de adrenalina tendem a aumentar com a frequência. O problema dela é que, a longo prazo, pode causar até diabetes e hipertensão em quem tem predisposição a essas doenças.
Mas quem se importa com isso?, se perguntava. Enquanto vivesse, aquilo era tudo o que pretendia fazer.
Bastou ele pôr as rodas da moto naquela terra para se sentir em casa. Fazia alguns meses que não participada de uma corrida assim e estava precisando daquilo. Pena que a maldita gripe ainda o incomodava. Mas havia alguém para lhe derrubar, não seria ela!
Naquela hora, em que combinavam os preparativos para a corrida, à tarde, Deidara o puxou de canto, levando Sasuke em direção à aglomeração, para discutir a aposta da vez. Só de olhar para o loiro, seu estômago já revirava. Ele era o maior trapaceiro entre todos os competidores. Da última vez que correram numa mesma pista, Deidara conseguiu se igualar a Sasuke, e lhe derrubar. O moreno quebrou uma costela, graças ao desgraçado. E era justamente por ele estar ali que Sasuke queria competir a todo custo. Ele e o Juugo já haviam arquitetado tudo. Essa seria a corrida mais desonesta de todos os tempos.
— Vamos dar só duas voltas. O Hidan veio pela pista e viu que há alguns trechos de terra molhada. — o loiro lhe disse. — Mas talvez, até à noite, tudo seque.
— É mesmo?
— Hehe, o que foi? Não me diga que você ainda está ressentido por nossa ultima vez juntos, Sasa? — Sasuke odiava quando ele o chama assim. Já não suportava a Ino lhe chamando de “Susu”, mas detestava ainda mais quando Deidara o chama de Sasa. Ou de qualquer outro apelido. Que de preferência que nem pronunciasse seu nome!
— Claro que não, Barbie. Aquilo já são águas passadas. Eu nem sinto mais as dores nas costas quando preciso levantar peso. — lhe diz em sarcasmo. Filho da puta!, praguejou.
De repente, Sasuke viu Hidan se aproximando com aquele seu sorriso sádico no rosto, passando a mãos naqueles cabelos ridículos pintados de branco. Ele parou ao lado do moreno, passando o braço por cima dos seus ombros, como se tivessem intimidade suficiente para isso. Como se fossem velhos amigos de infância — coisa que Sasuke não tinha um sequer!
Suspirou fundo, contando até três, enquanto ele falava qualquer merda sem que desse ouvidos a ele. Até que não Sasuke não agüentou, e teve que começar a prestar atenção para não prolongar mais do que o necessário aquele momento hiper desagradável.
— Hidan, eu abraço somente mulher! Ou por acaso você trocou de sexo, e eu não soube? — Sasuke tirou o braço do outro de cima dele.
— Ele não ouviu o que eu disse! — Hidan resmungou, olhando para o loiro — Preste atenção, Sasuke! Está vendo aqueles dois caras ali de jaqueta jeans? Eles apostaram quatro quilos de pó em mim e no Deidara. Nós queremos muito ganhar esses quatro quilos para vender para um magnata turco que comprará pelo dobro do valor, entendeu? A grana é estupidamente alta!
— E se eu não quiser colaborar?
Aí, o loiro voltou a falar.
— Deixe-me fazer um único comentário, meu chapa. Adorei a sua amiga! — e o filho da mãe do loiro sorriu.
Sasuke estreitou os olhos, enquanto os dois lhe davam as costas. Só estando doente mesmo para ter tido a idéia estúpida de trazer alguém consigo num racha em que esses dois são seus competidores!, pensou. Olhou por cima do ombro, só por impulso. A idiota estava despreocupada, completamente distraída olhando para as unhas, e nem via que Juugo mancava em sua direção.
Ele se aproximou do grupo novamente, ouvindo que eles voltavam a falar de dinheiro. Deidara acertava com o restante do pessoal uma quantia de seis mil. O moreno apenas cruzou os braços. Ele não era apostador. Corria apenas pelo prazer de sentir as rodas no chão, o vento no rosto e a adrenalina nas veias. Claro que ele estava ali, naquele dia em particular, por mais um motivo.
Fazer os dois imbecis comerem pedra.
E agora, às três da manhã, enquanto esperava a mulher dar o tiro ao alto, ele viu a Sakura do outro lado abraçada em sua mochila, como se sua vida dependesse daquilo. Ela estava preocupada comigo?, se perguntou. Ou será que ela imaginava o Itachi no meu lugar?
Assim que a bala disparou, a moto voou. Por causa da chuva dos últimos dias e do sol forte que fez à tarde, a terra estava seca apenas superficialmente. Abaixo da poeira se escondia uma terra molhada, mas dura. E isso é meio ruim por que em determinadas partes, principalmente onde ervas daninha crescem, o chão se torna escorregadio. Em alguns trechos, a roda traseira derrapou. Mas Sasuke estava tranqüilo. Deixou a metade dos competidores passarem. Enquanto voltava para as ruas, ia olhando para os lados, vendo que ninguém caminhava pelas calçadas.
E então, ele foi o último a chegar ao local de partida, no centro. Estar ali não lhe trazia boas lembranças, mas resolveu deixar as emoções de lado. E então, ele viu a vadia desfilar entre as motos, apontando o revolver para o alto, novamente, fazendo a contagem regressiva. As motos rugiam com mais fervor. Quando a partida foi acionada, as motos voaram pelo asfalto.
Amadores!, pensou. O ideal é apenas usar a energia quando se está perto da final. Dar uma largada daquelas no início só queima gasolina à toa, e cansa o motor e freios para a final. Pena que o Deidara e o Hidan conheciam essa regra, e vinham lado a lado com ele. E era só por isso Sasuke os consideram amigos de racha... Por serem os únicos que valem a pena competir. O Juugo, infelizmente, não corria mais. E tudo graças ao corno infeliz do Hidan, que beijou a roda traseira do Juugo, em certa ocasião. Sasuke jamais se esquecerá daquela cena. O coitado rolando no chão como se fosse panqueca no molho. Ele quebrou o joelho de tal forma, que nunca mais poderá sequer dobrar a perna. Uma lástima!, lamentou. Ele era o melhor de todos.
Só que eu sou o segundo melhor!, Sasuke pensou.
Sasuke empinou levemente a roda dianteira só para levantar a pouca poeira que tinha no asfalto nos olhos deles, e ainda deixou a roda queimar, para levantar fumaça, e se mandou. Só que eles o alcançaram em seguida. Quando tentou empinar de novo, se desequilibrou, perdendo a força, por que estava com os músculos das costas, braços e pernas doloridos graças a gripe.
Merda!, praguejou. Eles o fizeram comer poeira outra vez.
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