Reverso
15 ♦ Capítulo 15
Notas iniciais
Reverso
By Amanur
Capítulo 15
...
Sakura ia pensando em como é engraçado como quando estamos ocupados, fazendo algo que gostamos, o tempo passa num piscar de olhos. Mas quando queremos que o tempo passe mais rápido, ele parece levar uma eternidade para se passar. Por que será?, se perguntava.
E ela não estava se divertindo. Não estava achando graça nenhuma naquilo, para dizer a verdade. Mas para o Sasuke, provavelmente, o tempo passaria rápido demais!, pensou. Engraçado isso, por que, para ela, o tempo corre exatamente na mesma velocidade que corre para qualquer outra pessoa.
Seja como for, ela se agarrou com força a minha mochila, prestando atenção ao seu celular no bolso da calça. Se ele ligasse, ela estaria mais do que pronta para sair correndo. Pelo menos em corrida a pé ela era boa. Mas claro que ela sabia que esse detalhe não lhe seria muito útil ali.
Meia hora se passou, e ninguém via sinal algum dos motoqueiros. As mulheres que foram deixadas para trás se divertiam conversando, como se não se preocupasse por seus homens estar correndo a toda velocidade pelas ruas, violando as leis de trânsito. Sem mencionar o trecho de terra que ela sabia que eles iriam passar, cheio de pedregulhos, terra úmida, e sabe-se lá o que mais. Aquela corrida era perigosa, e até a Sakura sabia disso.
Não que o Sasuke fosse o seu homem, isto é!, pensou consigo mesma, para deixar bem claro que estava ali por apenas um único propósito. Apesar de não ter mais certeza de qual era esse propósito — já que Sasuke não falou muito sobre o Itachi em si — ela estava preocupada por que se preocupa com qualquer pessoa mesmo.
Ela já caminhava de um lado para outro, prestes a abrir um buraco na terra, quando viu aquele amigo grandalhão do Sasuke se aproximar novamente.
— Você sabe como é ter algo exclusivamente seu correndo no sangue, e nunca poder usar a força que essa coisa te dá para coisa alguma? — ele lhe perguntou.
Sakura olhou para os lados, antes de responder que “não”, se perguntando há quanto tempo ele a observava. Além disso, não entendeu sobre o que ele falava.
— Bom, isso meio que o deixava louco. Geralmente, o Sasuke é bem mais irritadiço. Mas basta ele sentar a bunda na moto para se acalmar. Aquele cara tem gasolina nas veias, como eu tinha! — Juugo apontou para o joelho problemático.
Ela poderia perguntar a ele o que aconteceu, como ele se recuperou, quais são as chances de ele voltar às pistas, e fazer mais um monte de questões do tipo, mas achou que houvesse algo mais importante a saber.
— Como você se sente agora, longe das rodas?
O grandalhão sorriu de canto, sem humor nos olhos.
— É como se tivesse arrancado parte da minha alma. Somos aquilo que somos, e ponto final. Não adianta tentar fingir ser outra coisa. Ou somos seres livres, fazendo aquilo que gosta, ou somos aprisionados.
O pior é que ela entendia essa parte. Graças ao seu caderno de poemas, ela diria. Sakura não conseguia se imaginar sem seus dedos! Não poder expressar o que vê, o que sente, o que quer sonhar e criar, é como lhe trancar em uma solitária e lhe deixar sem cores, sem vida, sem movimentos, sem oxigênio. Se bem que ela até poderia continuar a criar as palavras apenas com a mente. O problema é que é preciso registrá-las em algum lugar para exercitar o cérebro. Para saber quando ainda está no seu mundo de fantasia, e quanto deve sair dele para encarar a realidade. É necessário escrever para não enlouquecer.
Alguém havia, sabiamente, levado um lençol para sentar na areia. Mas como ela estava agitada demais, não conseguiu se manter no chão por muito. E ela até tinha pensando em escrever alguma coisa para matar o tempo, no caderno que sempre carrega, mas não deu certo. Aí, teve que guardar suas coisas de volta na mochila, e voltar a cavar um buraco no chão com os pés. E para aumentar seu sufoco, ela via as nuvens cada vez se aglomerarem, trazendo o tempo abafado, quente, prova de que estava prestes a cair um temporal. Ela já estava roendo as unhas, imaginando mil e uma coisas que poderia ter acontecido. Como alguém bater em sua moto, ou ele se desequilibrar, ele derrapar, bater contra um poste ou, pior, atropelar algum pedestre que estivesse voltando para casa de madrugada.
Faltavam dez minutos para aquela hora acabar, quando alguém berrou dizendo que lá vinha uma moto. Sakura se agarrou com força total à sua mochila, com as mãos trêmulas e coração na boca, olhando para aquele pequeno ponto negro no horizonte. E logo, outros pontos foram surgindo, um por um, trazendo uma onda sonora de motores rosnando ferozmente. Todos ali se levantaram, em silêncio, focando naquela imagem. Na medida em que eles se aproximavam, o amigo grandalhão do Sasuke ia ficando cada vez mais agitado também. E então, ele berrou erguendo os braços para o céu.
— AAAAHHHHHHHHH! O FILHO DA PUTA CONSEGUIU! ELE CONSEGUIU! — e então, Juugo olhou para a garota, todo sorridente, enquanto ela tentava encontrar o Sasuke no meio de toda aquela adrenalina e nervosismo, como se fosse uma barata tonta.
Ela ainda não tinha se tocado que a moto bem da frente era ele. Mas apenas o Juugo parecia feliz com aquele resultado. E, por isso, a rosada até sentiu um tanto de remorso por estar ansiosa demais para comemorar com ele. Mas se sentia grata e aliviada por ver que ele havia sobrevivido àquela loucura. Se algo tivesse acontecido, ela se sentiria culpada por não ter se esforçado mais em impedi-lo. Afinal, só ela sabia que era suicídio fazer aquilo, estando tão febril quanto ele estava.
Mas foi então que a loucura mesmo começou. E Sakura nem fazia idéia do que estava prestes a enfrentar. Quando Sasuke ficou a poucos quilômetros de distância, o rapaz se pôs de pé na moto, fazendo algum sinal com a mão que ela desconhecia. Parecia que ele estava abanando.
Aí, o amigo dele lhe deu um empurrão para frente.
— CORRE, MULHER, CORRE! ELE ESTÁ TE CHAMANDO!
— CORRER? CORRER PARA ONDE? — perguntou nervosa.
Na verdade, ficou tão nervosa que nem pensou direito. Apenas foi seguindo em direção à moto do Sasuke, jogando sua mochila nas costas, já que foi o caminho que seu amigo lhe empurrou. E percebeu que o Sasuke diminuiu a velocidade, mas não parou a moto. Ele vinha em sua direção com uma velocidade bastante razoável para fazer algum estrago em seu corpo, caso ela fosse atropelada pelo cretino. Mas na hora do pânico, ela mal pensou. Socou o capacete na cabeça, que ela segurava, e apenas pulou quando ele esticou o braço para lhe alcançar.
Foi um golpe ninja!, ela diria. Coisa que jamais pensou ser capaz de fazer. Mal podia acreditar, na verdade. Quando se deu conta, ela já estava agarrada ao idiota que berrava feito galinha, enquanto passava pelo amigo.
— UUUUUHHHUUUUUULLLLLLLLLL — ele brandia!
Mas ele estava feliz, ela percebeu. Se pudesse, ele, até mesmo, pularia de felicidade. Tão feliz que ela poderia apalpar aquele sentimento com as mãos, se quisesse. E só depois, quando se viam bem longe daquele ponto, foi que ela se deu conta de que duas motos atrás deles os perseguiam, buzinando sem parar. Só que o Sasuke não parou. Pelo contrário! Ele se calou, sentou, e acelerou a moto como Sakura nunca tinha visto antes. De repente, aquela agitação toda se foi com o vento. De repente, o chão parecia deslizar aos pés, como se tivessem sabão nas solas.
Mas essa sensação foi só até ele fazer uma curva brusca e arriscada. Ele quase encostou o joelho no chão. Ela fechou os olhos e se agarrou com todas as forças a ele. Mas o mais incrível mesmo era perceber que estava tão atordoada com toda aquela troca de cenários, com toda aquela adrenalina percorrendo pelo corpo inteiro, que nem conseguiu se lembrar de berrar. Ela apenas enterrou a cara das costas dele e fechou os olhos, ouvindo gente gritar em volta. Deveria se os outros dois motoqueiros berrando para o Sasuke!, pensou. Mas ela nem se atinou em prestar atenção ao que diziam.
Mas Sasuke, no entanto, entendeu cada palavrinha proferida por aqueles dois. Mas resolveu que deixaria para lidar com ele em outra em ocasião. Agora, sua prioridade era fugir deles apenas.
E então, a moto começou a pular, por causa da estrada de terra em que, de repente, Sasuke se meteu. Foi então que o medo atingiu Sakura como um soco no estômago. Ela sentia folhas e pedrinhas lhe atingir, enquanto uma voz em sua mente dizia que ela iria morrer. E para ela era isso o que iria acontecer a qualquer momento. Sasuke desviou do caminho, entrando na mata. Mas logo os sons das outras motos foram ficando para trás, se distanciando, como se tivessem desistido de persegui-los. Mas ela só conseguiu abrir os olhos quando ele parou. E ainda precisou se certificar de que realmente estavam parados, e não apenas sendo levados pela inércia.
Que loucura!, pensou. E ela nem havia prendido o capacete na cabeça. Só não entendeu por que aquilo tudo parecia ter passado rápido demais. Será que havia gostado da sensação?, se perguntou.
Seu coração ainda batia forte contra o peito, mas ela não queria sair do banco daquela moto, por que sabia que assim que seus pés tocassem o chão, ela desabaria. Era como se a terra tivesse lhe sugado completamente suas forças. Mas de qualquer forma, ela achou que qualquer esforço fosse valido por ver aquele sorriso no rosto dele de vez em quando. Era um sorriso honesto, cheio de vontade, cheio de força. Algo que raramente ele demonstrava. Geralmente ele exibia caretas forçadas, fingidas.
— Vamos, sorria! — ele lhe diz, batendo em sua perna, enquanto a olhava por cima do ombro — Você parece que viu um fantasma, garota!
Sakura ainda se sentia atordoada, é claro. Mal acreditava que tinha andado em uma moto naquela velocidade estúpida, correndo todos os riscos que correu. Por isso, seu cérebro ainda estava embaralhado, e ela não conseguiu dizer absolutamente nada. Apenas sorriu de volta, entendendo melhor as palavras do grandalhão, amigo dele.
Sasuke é um louco sádico, que nasceu para ser esse louco sádico. Um louco sádico sorridente!, pensou.
Depois que as emoções se acalmaram um pouco, ela conseguiu virar o pescoço para olhar para os lados. Estavam em uma rua asfaltada, no centro de alguma cidade, parados na calçada em frente a um belo prédio residencial. Um homem vestido em um terno preto se aproximou, pegando as chaves da moto do Sasuke. E só quando ele desceu da moto, foi que viu o estado lamentável em que ele estava. Toda sua roupa estava embarrada, e a calça jeans ainda estava rasgada na canela esquerda. Havia mancha de sangue nela, inclusive. E quando tirou o capacete, só faltou jorrar água dali, com tanto suor escorrendo pelo rosto que ele tinha. Além disso, seus olhos estavam completamente vermelhos.
Ele tirou o capuz ensopado, a jaqueta e a camisa cinza igualmente molhadas, ficando apenas com a segunda pele colada ao corpo. Ele dobrou aquilo tudo e jogou num cesto de lixo no outro lado da rua. Lamentando profundamente a perda de sua jaqueta favorita, é claro. Quando voltou para o lado da moto, deu uma rápida ajeitada nos cabelos, e a puxou para dentro do prédio, sem dizer nada. Enquanto se afastavam, ela deu uma olhada para a moto, só na curiosidade. E foi aí que percebeu também que nem ela estava inteira. A moto estava toda amassada e arranhada.
Alguma coisa aconteceu naquela corrida!, suspeitou.
Sasuke cumprimentou o recepcionista, e entraram no elevador. Ele mancava e fedia a barro e suor como Sakura nunca pensou que fosse capaz. Mas mesmo assim, não disse nada. O cretino ainda parecia feliz. De um jeito mórbido, mas feliz. Então, esperou para abrir a boca só quando entraram num apartamento no décimo andar.
Ela deu uma olhada geral no lugar. Era amplo, sem muitos móveis. Tinha uma vista incrível pela janela enorme da sala. Quando o viu tirar a segunda pele, indo por um corredor, ela foi atrás.
— Onde estamos? — perguntou, quando entraram num quarto com cama de casal.
— Era aqui que eu me refugiava, quando queria ficar longe de casa. — ele, começou a se despir, jogando as peças sujas no chão. E Sakura, imediatamente, se virou de costas, sentindo o rosto esquentar — Se quiser usar o banheiro, sugiro que faça agora, por que acho que vou me demorar no banho... — ele ainda diz.
— Ok. — apenas respondeu.
Ela jogou sua mochila e o capacete na cama, e correu para a suíte, fechando a porta em seguida. Vendo-se diante do espelho, se perguntou se aquilo estava mesmo acontecendo. Jamais tinha saído de casa para fazer algo assim. No máximo, quando era pequena, ela ia dormir na casa de alguma vizinha. E olhe lá! No entanto, cá estava, com o coração ainda na boca, mãos e pernas trêmulas com a aventura que sempre quis ter. Só não esperava que fosse acontecer com o cunhado. E o pior, agora estava em um quarto, sozinha, com ele.
Seu coração bateu mais forte, em nervosismo. Suspirou para tentar se acalmar. Abriu a torneira para jogar um pouco de água fresca no rosto. Seus cabelos estavam completamente emaranhados e bagunçados. Seu rabo-de-cavalo estava terrivelmente frouxo.
Depois de dar uma ajeitada na aparência, lembrou que Sasuke estava doente, e se perguntou se não teria que, pelo menos, ligar para o Itachi avisando algo. Mas antes precisava ligar para casa, mesmo àquela hora. Precisava se enrolar em mais uma mentira para conseguir se safar. Diria algo sobre ter pegado no sono na casa da Karin, pois o trabalho Gestão de Produção se mostrou mais complicado e cansativo do que haviam pensado.
Enquanto isso, Sasuke ia pensando não ser de hoje, nem à toa, que se faz a analogia comparando a vida a um carrossel. Por que ela sempre foi cheia de altos e baixos.
Frustrações e satisfações. Duas palavrinhas que são tão opostas, mas que sempre andam juntas. Afinal, as pessoas não teriam frustrações se não houvesse as satisfações. Enquanto uma vive da expectativa de enganar, iludir, falhar, tornar inútil... O outro alimenta a sensação de realização, saciedade, suficiência.
Pena que é a frustração quem fica mais marcada no corpo e mente!, lamentou-se. Por que a frustração é o que ficou para trás, na idealização ou nos planos levados pela poeira do tempo. No seu caso, foi na poeira da estrada mesmo.
E então, lá estava ele, rolando para fora da estrada, comendo poeira. E Sasuke não sabia o que era pior! Se deixar os babacas ganharem, ou deixá-los pensar que ele tinha caído fora por méritos deles — o que não era! Mas o que poderia ter feito, estando com o corpo todo errado, todo podre? Maldita gripe!, praguejou.
Mas, felizmente, ele teve um estalo antes que fosse tarde demais. Bom, na verdade, o que estalou mesmo foi o seu celular. Ele não pretendia levá-lo consigo — geralmente deixa seus pertences sob a supervisão do Juugo —, mas como a Sakura estava preocupada, nem se incomodou em contestar nada. Se ela resolvesse abrir a boca para dizer que estava mal, até o seu amigo o teria impedido de correr. E aí sim, ele teria se considerado lascado.
Mas como ele ia se lembrando... Seu celular estalou. E foi quando lembrou que a Sakura estaria lhe esperando lá. Caso ela não estivesse fantasiando com o seu irmão, é claro. Ele sabia bem, graças à Ino, o quanto mulheres gostam de fantasiar com motoqueiros. E isso o irritava às vezes, por que se sentia como um manequim em vitrine de loja para exibição — coisa que não era e estava longe de ser.
E então, sem bem saber o porquê, seu corpo resolveu se mover. Seus pés e bunda estavam cansados, mas ele ainda precisava buscar outros caminhos, saídas, portas trancadas, chaves, senhas e revelações. Qualquer coisa que servisse. Seu rosto já exibia algumas linhas que mostravam seus erros cometidos, mas não poderia se permitir acrescentar àquelas marcas as desistências também! Precisava seguir em frente, como sempre fez.
Então, ele deu uma boa olhada em volta para se localizar. Estava quase na metade do percurso, na rua do seu pior pesadelo, bem no centro da cidade. Sentiu o peito apertar ao lembrar o que aconteceu há um ano. Suspirou, levantou-se e correu atravessando a rua. O bom do mês de Agosto, lembrou-se, é que poucos se aventuram para sair de suas casas quentes para enfrentar o frio e a chuva. Então, com determinação renovada, ele ergueu sua moto, cujas rodas ainda giravam feito loucas no ar, e se meteu no caminho outra vez. Só que agora, ele acelerava fundo para alcançar a velocidade máxima que o motor da sua moto era capaz.
Seu “bebê” estava todo fodido, lascado, amassado e torto, graças às várias voltas que deu contra o chão. Sasuke nem sabia explicar como continuava vivo, por ter caído da velocidade em que estava — a quase cem por hora. Não fazia idéia de como conseguiu se safar apenas com alguns esfolamentos e um ferimento na canela. Ele deveria estar todo quebrado, isso sim. Mas que seja!,pensou. Se era para jogar sujo, então vamos jogar sujo!, disse a si mesmo.
Aquela era a quinta vez que ele corria por aquele percurso estabelecido. Por tanto, ele já conhecia um atalho. Não era o que costumava fazer, pois gostava de jogar limpo. Afinal, nem apostador ele não era. Mas foi o que fez , desta vez. Cortou metade do caminho, a toda velocidade. Quase trezentos por hora. O único “porém” era que aquele atalho adentrava um matagal meio isolado do centro da cidade. Aquela era uma área meio excluída pelos cidadãos por ser o ponto de encontro de traficantes. Por se rodeado por mato alto, facilitava a discrição dos criminosos. Além disso, com a chuvarada que caia no mês de Agosto, a grama ficava escorregadia pra cacete! Sem mencionar o chão cheio de buracos e pedras. Por vezes, sentia prestes a cair com tudo no chão, quando sua moto dava pulos. Às vezes as rodas derrapavam também, já que ele estava indo com a velocidade quase máxima do seu motor. E ele ainda teve que passar por cima de algum animal morto. Era uma merda mesmo! Mas conseguiu.
Afinal, eu sou o melhor agora!, ele repetiu para si mesmo, cheio de convicção. E conseguiu chegar bem a tempo, saindo daquele sufoco para se meter de volta à rua, vendo a moto do Deidara e Hidan se aproximando atrás dele. Agora, tudo o que lhe restava era manter a concentração na rua, voltar para o caminho da fábrica, e torcer para que nada dê errado antes que o alcancem.
Sasuke apenas lamentou por Hidan e o loiro não terem se surpreendido com a sua aparição repentina, de volta à pista. Ele tinha feito uma entrada belíssima, pulando no ar como um tigre e pousando como uma pluma na terra, mas elevando a poeira que suas rodas ainda carregavam para eles comerem.
E foi assim que venceu aquela corrida. Ele poderia não ter tido a satisfação de jogar limpo, mas com certeza teve a satisfação de fazê-los perder aquela bolada que estavam tão confiantes de ganhar. Teve satisfação também ao ver a cara de feliz que o Juugo fazia, e quando puxou a Sakura para trás de si. Suas costas pareciam leves demais sem seu corpo agarrado ali. Mas ainda bem que ela conseguiu pular!, pensou. Por que teria dado em uma merda ainda maior se algo tivesse acontecido. Ou até mesmo se ele tivesse parado para deixá-la subir, pois Sasuke sabia que havia queimado seu filme com o Deidara e o Hidan. E se eles os pegassem, estariam mortos.
Eles sempre faziam piadinhas e gracinhas para que ele sempre perdesse, mas Sasuke sabia que daquela vez eles estavam falando à sério mesmo. A coisa era para valer. Aquela foi a corrida mais arriscada que já fez. Mas, pelo menos, pensou, tinha alguém lá para o ver ganhar.
Foi bacana.
O que não foi bacana, no entanto, foi perceber a mancada que deu ao levar a Sakura consigo até seu apartamento privado, no centro da cidade vizinha. Como estavam perto da estrada que levava até lá, resolveu seguir adiante, já que lhe seria mais prático descansar lá, do que ter que encarar seu irmão emburrado em casa. E como estava prestes a morrer de gripe, preferiu assim sem pensar duas vezes.
Ele imaginava que a garota tinha problemas, mas não sabia, até então, o que era. Pôde ouvir toda a sua conversa pela porta.
— Não, pai! Jamais desobedeceria ao senhor! — pelo tom e voz, Sasuke percebeu que ela parecia nervosa — Siiimmm! Assim que eu chegar em casa, mostrarei o trabalho de Gestão de Produção que estamos fazendo! A Karin tem dificuldades nessa matéria, e estou ajudando-a... Talvez eu almoce com ela também. Ok. Assim que eu chegar, passo em seu quarto.
Quando ele ouviu o som da descarga, se atirou deitando na cama. A idiota deve ter apertado o dispositivo apenas para disfarçar. Mas, puta merda!, pensou. Ele poderia ter morrido naquele instante. Não tinha se dado conta do quão cansado estava. Achou que até seus cabelos doíam. Sasuke tinha bolhas nos pés e, além da canela rasgada, estava com os braços esfolados. Sua cabeça pesava como uma bigorna deve pesar, mas ele precisava urgentemente de um banho. E se deu conta de que deveria estar fedendo a carniça. Ou pelo menos era como se sentia: um animal morto.
— Prontinho. É todo seu. — ela lhe diz, saindo do banheiro. Mas Sakura tinha outro brilho nos olhos. Algo mais apagado, sem vida. Afinal, ela se sentia péssima por tudo e, agora, se questionava se realmente teria valido a pena ter vivenciado aquilo tudo para se sentir mal daquele jeito. Detestava com todas as forças decepcionar seu pai. E desta vez, ela sentiu bem o peso da voz daquele homem em seu ouvido.
Mas Sasuke mal conseguiu virar a cabeça para olhá-la. Tudo o que queria era dormir ali. Se deixar apagar completamente para nunca mais levantar. Mas ela se aproximou, lhe perguntando se ele estava bem. Pois o mal estar dele era quase palpável também.
— Fique longe! — ele avisou — Estou toxicamente fedorento!
— Você deveria ter me dito isso dentro do elevador, isso sim. Quase morri asfixiada lá.
— Hunf... Consegue me ajudar a levantar? — afinal, ele precisava levá-la de volta o quanto antes. E não podia cometer mais essa mancada também.
— Consigo tentar... — ela respondeu, puxando seu braço por cima do ombro.
Com esforço, conseguiram chegar à banheira. Geralmente, ele toma uma ducha rápida no chuveiro, antes de entrar na banheira. Mas como estava um bagaço, nem se importou com nada. Atirou-se dentro do recipiente sem nem tirar o boxer. Se estivesse com ânimo, teria feito alguma piadinha ou convidado-a se juntar a ele, quem sabe... Mas como estava semimorto, se sentindo um bagaço, nem conseguiu pensar em nada. Mal conseguia sequer abrir os olhos. Então, apenas pediu para que ela abrisse a torneira, e se deixou afogar ali, enquanto ela o olhava de braços cruzados, se perguntando se deveria mesmo ligar para o Itachi. Afinal ela não poderia passar a noite ali com seu cunhado. Mas o que diria ao namorado? Que havia ia parar no apartamento particular do Sasuke acidentalmente? Ela sabia que ele não acreditaria.
Até que, sem querer, acabou pensando alto demais.
—... E o que eu vou fazer? Ligo, ou não ligo pro Itachi? Alguém precisa se responsabilizar por você! — ela resmungou.
Mas Sasuke tomou aquilo como uma faca no peito. No que é que ela estava pensando?, ele se perguntou. Por acaso eu era um fardo para ela? A última coisa que ele precisava era de uma babá. Se fosse uma babá peituda, ainda vá! Mas não o Itachi!
Na raiva, o ser humano é capaz de mover montanhas. Mas um semimorto conseguia apenas um montinho de poeira.
Droga!, vociferou internamente. Aí, Sasuke se obrigou a se acomodar, enquanto a água ia preenchendo a banheira, resmungando e xingando tudo quando é palavrão que conhecia.
— Escute aqui: você não vai ligar para ninguém! Tem dinheiro na minha carteira! Pegue o que quiser e apenas vá embora! Não preciso de ninguém me criticando agora!
Ela ficou ali parada, do lado de fora da banheira, com as mãos na cintura e olhando para ele. Em seguida, começou a bufar, caminhando de um lado para o outro, resmungando mais coisas enquanto pensava em algo. Ela também não poderia deixá-lo ali, naquele estado terrível em que estava. Ele parecia ter envelhecido uns cinco anos, de tão acabado que estava.
Aí, de repente, sem saber como, ou por que, teve uma idéia. Talvez a mais louca de sua vida.
Sakura parou em frente à banheira, tirou seus tênis, a calça jeans, e a blusa preta. Ficou só de calcinha e sutiã, que também eram pretos. E se enfiou dentro da banheira com Sasuke. Só que ficou sentada na ponta oposta a ele, encolhida, abraçando as próprias pernas. Mas o olhava com a mesma intensidade que ele a olhava, sem entender nada.
Mas o que essa idiota estava pensando?, ele se perguntou. Ele quis desviar os olhos dela, mas a quem queria enganar? Ele viu, novamente, as marcas no corpo dela. Sakura estava olhando diretamente nos seus olhos, mas ele não conseguia decifrar aquele olhar. E achou que estava tão confuso, quanto ela estava nervosa. Ela estremecia, apesar dos olhos bem abertos direcionados diretamente a ele, como se quisesse demonstrar alguma segurança no que fazia. Mas estava claro para Sasuke que não. Que ela estava se borrando de medo de algum comentário maldoso dele. O que ele não faria. Não agora, depois de tudo. Não teria mais graça.
Sasuke lembrou ainda da expressão de horror que ela fez, quando chorou naquela noite em que vomitou nas rodas da sua moto. Ah! Mas havia também aquele olhar frio, que ele viu de relance, que ela lançou ao Deidara quando o loiro fez aquela piadinha mencionando “comê-la”.
Acho que deixei alguma coisa escapar sobre ela!, ele pensou. Havia mais alguma coisa que ele não estava entendendo bem. Ele tinha as suspeitas nas mãos, mas não tinhas as certezas nos pés para se firmar ao chão, diante dela. Mas tudo o que fez, foi jogar a cabeça para trás, e relaxar. Não iria forçá-la dizer nada. Iria lhe dar o tempo que necessitava para dizer o que estava visivelmente trancando na garganta dela.
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