Reverso

10 ♦ Capítulo 10


Notas iniciais
Mais um. Boa leitura!

Reverso

By Amanur

Capítulo 10

...

Às vezes, Sakura acha que há uma parede invisível cercando todos os corpos, os protegendo do mundo exterior. Afinal, que outra explicação se poderia dar para não perceber o que, muitas vezes, é tão óbvio? Por que ela tinha tanta dificuldade em admitir o que é tão claro e visível aos outros? Às vezes a coisa está na ponta do seu nariz, mas apenas conseguia enxergar o que estava adiante, no horizonte.

Quando a aula acabou, ela acompanhou a Karin até o banheiro. A ruiva não parava de resmungar e reclamar sobre as duas garotas mais bonitas da turma — talvez até da faculdade inteira —, mas Sakura não conseguia prestar atenção ao que ela dizia, por que a sua cabeça era uma confusão de imagens. Do Sasuke cortando a própria mão, e depois do Itachi sorridente. Tinha alguma coisa errada naquele cenário, e ela suspeitava de que não fosse apenas o conflito sobre “ser ou não ser” que Sasuke havia mencionado antes. E ainda havia a mensagem das duas garotas que a perturbavam. E pensou que, talvez, o Sasuke não fosse tudo isso que diziam ser. Talvez, todos estivessem a olhar para o horizonte, apenas.

— Jamais desista dos seus sonhos, Sah! — a Karin dava a descarga, enquanto a rosada olhava aquela mancha escura no espelho, a observando — Não deixe que elas te atinjam. Elas se acham o máximo só por que tem a lista telefônica cheia de nomes masculinos.

— Uhum... Você era amiga delas, Ka?

A ruiva suspirou, a olhando, quando saiu da baia. Deixou seus ombros caírem, como se sentisse derrotada, desvalorizada.

— Foi mal, Sah. Meu passado me condena, e eu tenho vergonha dele... Por isso nunca te contei nada.

— Não precisa me contar, se não quiser.

— Você é minha melhor amiga... Talvez eu devesse contar sim...

— Afinal, para quê servem os amigos, certo? — Sakura sorriu. Mas Karin não devolveu o sorriso.

— Bom, você já sabe que minha é o cão de salto alto na terra, né? Me diga, Sah, você acha mesmo que eu conseguiria pagar nossa cara faculdade apenas vendendo bonecas de pano?

Sakura nunca havia parado para pensar nisso. Para ela, sua amiga fazia bonecas por que gostava e frenquentava a as aulas como duas coisas separadas, sem relação alguma.

A ruiva abriu a torneira da pia para lavar as mãos, sem olhar para Sakura. Em seguida, uma moça de outra turma, que penteava os cabelos, saiu porta afora levando seus materiais, deixando as duas amigas às sós, no banheiro. Karin inalou uma boa quantia de oxigênio para os pulmões, tentando encorajar-se. Pois estava prestes a fazer a confissão mais importante de sua vida. Sentia as mãos trêmulas e as pernas ligeiramente bambas, enquanto o coração descompassava no ritmo.

— De vez em quando, eu faço uns programas... — Sakura mal a ouviu.

— Programas? Programas de televisão?

Karin revirou os olhos.

— Não seja ingênua...

— Oh... Eu sinto muito... Juro que não fazia idéia. Mas o que isso tem a ver com a Ino e a Hinata? Elas fazem isso também?

— Não... Não que eu saiba, pelo menos... — Karin soltou um suspiro pesado, enquanto enxugava as mãos no papel toalha — O Sasuke, sem querer, me contratou uma vez. Mas assim que eu vi que era ele, caí fora. Acho que o idiota espalhou a notícia para todo mundo de propósito e, desde então, ele me inferniza.

Elas juntaram suas coisas do balcão, e saíram do prédio em silêncio. Sakura não sabia o que pensar. Karin parecia sempre tão animada, exceto quando tinha seus momentos de conflito com a mãe, que aquilo lhe era estranho. Havia muita coisa a ser perguntado, como: desde quando faz isso? Ela gosta de fazer aquilo? Sua mãe sabia sobre isso? Por que não procura outro trabalho? — Mas se deu conta de que o dinheiro fácil e rápido é a resposta para os seus problemas...

— Ontem, na festa, quando sumi... Eu estava com um cliente... — a ruiva confessou, enquanto caminhavam pelo corredor do prédio.

Só de imaginar alguém a tocando, Sakura sentiu calafrios. Mas não disse nada, apena abraçou seus materiais, e baixou a cabeça. Mas Karin estava se remoendo por dentro para saber o que a amiga estava pensando sobre ela, naquele momento. Tudo o que não queria era perder sua amizade. Mas o constrangimento calava ambas. Karin se sentia confusa, sem saber se sentia-se aliviada por ter tirado aquele peso dos ombros, ou se sentia-se ainda mais oprimida pela revelação.

De qualquer forma, elas foram correndo até o estacionamento, onde Karin havia deixado seu fusca. Tentavam se proteger da chuva dividindo o guarda-chuva que a Sakura havia trazido. E então, ao se aproximar, a rosada viu sua bolsa preta no banco da frente, como havia deixado ali na noite anterior. Imaginou quantas chamadas não atendidas de casa ela encontraria na tela. Abriu a porta, e jogou suas coisas no banco de trás. Quando se preparava para sentar, Karin se lembrou que deixou o celular sobre a tampa do vaso sanitário, pois o havia retirado do bolso da calça para abaixá-las. Então, Sakura lhe disse que a esperaria ali, enquanto Karin corria de volta para buscá-lo.

Como estava frio, ela desfez o coque em seu cabelo. Além disso, ele já estava praticamente desmanchando, por causa da corrida que deram. Enfiou os fios do cabelo para dentro da jaqueta, para cobrir e aquecer o pescoço. Em seguida, se esticou para trás, a fim de alcançar seu celular na bolsa. Havia quarenta e sete chamadas não atendidas. Mas a garota não estava com a menor vontade de voltar para casa, e enfrentar as duas feras. Pois ainda tinha mais essa! E ela sequer havia pensando em algo para dizer aos seus pais. Não que isso fosse mudar alguma coisa. De qualquer forma, ela já sabia que algo a esperava.

Apagou as notificações, e arrumou um espaço em sua mochila para guardar a bolsa preta. Como a Karin parecia estar demorando, tirou seu caderno de poesia para escrever algumas idéias que haviam batido em sua mente.

“Diga por que estamos a lutar

Eu e você até estarmos mal

Até quando não terminar

E não haver mais um instante de paz

Ninguém que fale sobre a voz

Perdemos o senso da vida”

Viu que ficou uma porcaria meio sem sentido, mas, depois, pensou, daria uma esculpida nas palavras — como seu professor de línguas, da antiga escola, lhe dizia. Para ele, a literatura é como a escultura. Aos poucos se moldam as palavras, esculpindo os versos, modelando os parágrafos, até finalizar a peça inteira.

O som da chuva batendo contra a lataria do carro e no concreto, meio que lhe atrapalhava. Assim mesmo, fez mais algum esforço pensando em mais alguma coisa, quando ouviu o som de uma moto sobrepor à chuva. Só levantou os olhos quando viu um vulto na porta ao seu lado, batendo no vidro da janela.

— JÁ ANDOU DE BICICLETA NA CHUVA? — Sasuke berrou, para que ela pudesse ouvi-lo melhor.

Ele estava todo encharcado, da cabeça aos pés, e tremia batendo os dentes. Havia alguma urgência em seus olhos avermelhados, como se tivesse chorado.

Lentamente, balançou a cabeça em negação, sem mais a certeza ao quê ela estava negando. E ele ficou ali, alternando o olhar entre a garota e sua moto, como se não soubesse mais o que fazer.

Sakura não gosta de motos. Ela pensa que são perigosas demais. Ainda mais na chuva, com as ruas molhadas e o asfalto escorregadio.

Mas não soube dizer o que deu em si para escrever um bilhete para a Karin, avisando que pegou um ônibus e depois a ligaria para se desculpar. Alguma coisa lhe dizia que aquela bola de mentiras ainda iria lhe sufocar. Ainda mais agora, que fugiria da obrigação que tinha para com seus pais, mais uma vez! Mas ela não quis nem pensar nisso, para não desistir da loucura que estava prestes a fazer. Uma doce loucura!, pensou. Pois jamais havia desobedecido aos seus pais, muito menos para sair com um estranho. E pensar que esse estranho, na verdade, era seu cunhado, tornava tudo mais interessante. Mas também sentiu uma pontada de culpa ao se lembrar disso. O que o Itachi diria se soubesse o que ela estava fazendo?, se perguntou.

Enquanto isso, Sasuke sentia lhe dar nos nervos quando via que, enquanto uma vida se extingue, outra nasce. É como se o universo tentasse suprir o que perdeu. Como se uma vida fosse substituível por outra. Mas achava que essa era a lei da natureza trabalhando em um ciclo vicioso... Do pó viemos, e para o pó retornaremos!, pensou. Na natureza nada se cria, tudo se transforma.

O médico o chamou para uma conversa particular no corredor, depois do último exame. Só para lhe dizer que o velho tinha, no máximo, dois meses de vida e que deixaria a seu critério contar ao homem ou não. Segundo o doutor, a estatística diminui quando o paciente descobre seu tempo, por que tende a se desesperar, se estressar e se deprimir, agravando sua situação clínica.

E então, Sasuke se viu com aquela enorme bola de massa negra e pesada em suas mãos, ameaçando desabar a qualquer momento. Era como se ele tivesse algum poder a seu alcance e dispor. Prolongar a tortura de seu pai — e a dele próprio — ou despejar tudo de uma vez, para que tudo acabe o quanto antes? Seria egoísmo, ou alguma demonstração de afeto?, se perguntou.

Mas por que ele também deveria se importa depois de tudo?, se questionou.

E então, ele tomou sua decisão.

Depois, pegou sua moto, sem mesmo se importar em vestir a capa de chuva para se proteger daquele temporal infernal. Saiu cantando os pneus alucinadamente, sem prestar atenção a aonde ia. Sua mente era um vazio infinito e branco. E ele só sentia frio. Frio no corpo e na alma.

Quando se deu conta, havia voltado para a faculdade. Foi quando a encontrou dentro do fusca velho da Karin.

E aquele vazio opressor meio que se extinguiu, quando a viu descer do carro, deixando a mochila no fusca preto, sem se importar com a chuva também.

— Sempre evito a chuva nessa época do ano por causa da água gelada. O Frio me faz me sentir morta. — ela resmunga, passando a mão sobre os braços para se aquecer.

— Eu gosto do frio. — Sasuke respondeu.

Ela ficou o olhando por um tempo, antes de lhe puxar até a moto, avisando-o que a ruiva poderia voltar a qualquer momento.

Ele lhe entregou o capacete extra, e partiram. A roda traseira chegou a patinar algumas vezes no asfalto e, a cada esquina que dobrava, ele acelerava um pouco mais.

Ele queria saber o que se passava na cabeça dela para não ter reclamado uma vez sequer da sua velocidade excessiva. Com certeza, ele receberia uma penca de multas por excesso de velocidade, mas aquele vento frio cortando a jaqueta com a água o acalmava mais. E por isso, ficaram dando voltas por uma hora ininterrupta. Só voltaram a se falar quando teve que parar num posto de gasolina para reabastecer o tanque.

Na verdade, foi ele mesmo quem quebrou o silêncio.

— O que foi? Tá olhando o quê? — Sasuke percebeu que ela parecia analisá-lo da cabeça aos pés.

Mas nem ela sabia por que o olhava. Havia algo diferente naquele rapaz que ela não soube identificar.

— Estou com frio. — ela disse, apenas.

— Não se preocupe. Você não está morta.

— E nem você.

O frentista do posto teve que tocar no braço do Sasuke para desviar sua atenção dela. E então, foi pagar a gasolina com o cartão de créditos na máquina. Enquanto o cara validava o pagamento, Sasuke viu o papel dobrado que havia posto dentro da carteira, na noite da festa. Depois que pegou o comprovante de pagamento, voltou para o lado dela na moto.

— Foi você mesmo quem escreveu isso? — entregou o papel.

Sasuke a observou desdobrar a folha, e se espantar com o que viu. Ela não havia dado falta daquele poema em seu caderno, e nem tinha percebido que havia algo escrito atrás daquela folha, onde desenhara o mapa. Depois a garota o olhou com os olhos arregalados e o rosto, de repente, avermelhado.

— Desde quando você escreve poemas? — ele perguntou, tirando o excesso de água do cabelo.

— Sei lá... Desde que me conheço por gente... — resmungou.

— Hummm. Legal. Posso ficar com isso? Quero dizer... Já que você fez o mapa para mim, e tal...

— E por que você iria querer ficar com isso? É só um rascunho bobo.

— Por que... Eu gosto dele...

— Desde quando você lê poemas? — ela perguntou, já Sasuke não fazia o mínimo do feitio.

Mas ele deu de ombros, tomando o papel das mãos dela.

— Você é boa com as palavras, hein! Quem me dera ser tão bom assim em alguma coisa... Eu te falei, não falei? Sou um zero a esquerda no piano, sou péssimo em qualquer disciplina da faculdade. E na escola também não fui nenhum gênio como o Itachi. Acho que não sirvo pra nada... — ele resmungou, guardando o papel de volta na carteira.

De repente, ela o surpreende, pegando em sua mão e a girando... Virando a palma da mão cortada para cima.

— Todo mundo é bom em alguma coisa. — ela disse, enquanto passava a ponta de seu dedo gelado sobre o corte — Talvez você apenas precise... Pensar um pouco mais sobre o que você gosta de fazer. Realmente, ninguém é bom em algo que não gosta.

— Meu pai dizia que eu só precisava me esforçar mais.

Sakura percebeu o tempo verbal que ele usou agora, e franziu o cenho.

— Não! Não se deve dizer a ninguém que ela deve se esforçar. Ela pode se obcecar por aquela idéia, e acabar entrando em colapso sem saber quando ultrapassou os limites. É perigoso.

Ele sorriu.

— Ahh! Então você conhece o poder das palavras!

— Claro que sim! — ela largou sua mão, desviando o olhar. E então, o olhou novamente — Assim como sempre percebo quando alguém fala no passado. Principalmente quando ainda de manhã, esse alguém ainda falava no presente.

Ah. Droga!, ele pensou. O que alguém diz quando se vê encurralado num beco sem saída?

Talvez a verdade?, se perguntou.

— Pois é... — de repente, ele sentiu algo trancar sua garganta — Eu meio que... Acabei de matar meu pai, e estou tentando fugir do Itachi.

Notas finais
Algum comentário?
Ah, esqueci de mencionar que as fotos dos personagens já estão no meu blog. inclusive uma outra versão da capa que eu tinha feito... :D
http://amanur.blogspot.com/2011/09/reverso.html
OBS: esse pseudo poema que ela escreveu, na verdade, é outro trecho de outra musica da laura pausini, que também não salvei o o titulo da musica... T__T mas assim que eu achar eu coloco aqui!