Reverso

11 ♦ Capítulo 11


Notas iniciais
Mais um. Boa leitura!

Reverso

By Amanur

Capítulo 11

...

Mentalmente, Sakura se via em processo de negação. Não sabe exatamente o que está negando, mas sabe que está negando algo. Ela sabia que a coisa estava bem ali, na ponta do seu nariz, mas, por algum motivo, ela se forçava a olhar apenas para o horizonte. E as coisas começaram em embaralhar na sua cabeça. O que é verdade e o que é mentira?, se perguntou. Às vezes, parecia que os dois se fundiam, formando um novo conceito; um novo parâmetro, só para lhe deixar confusa.

Itachi tira o seu fôlego, e o Sasuke a deixa zonza. Ela não sabe o que pensar, ou o que fazer, ali. E ele parece não se importar muito com o seu silêncio, como se já esperasse aquela sua reação. E ela não gostou disso. Não gosta de previsibilidade. Não gosta de saber que pode ser manipulável. Por que pessoas previsíveis são fáceis de manipular.

Mas um carro atrás da moto do Sasuke precisou buzinar para que eles saíssem do caminho. Então, lentamente, ele foi empurrando a moto até a frente da loja de conveniências do posto de gasolina. Aí, ele a olhou com determinação, guardando a carteira com seu poema no bolso de sua calça. Ele parecia ter algo a lhe dizer, mas parecia hesitar como se estivesse com medo de algo.

E Sakura nem disse que ele poderia ficar com seu poema. Mas seu corpo não reagiu só por causa daquele frio na barriga que sentiu quando ele sorriu.

Quantas vezes será que ele leu aquilo?, ela se perguntou.

— Escuta... Você se importa de voltar sozinha para casa? Eu te dou o dinheiro. — ele diz, por fim.

Apesar de se forçar a olhar para ela, Sasuke tinha que admitir que fosse difícil sustentar o olhar após a confissão absurda que acabara de fazer. Por que diabos havia contado a ela sobre aquilo? Ele não compreendia por que as palavras saíram de sua boca tão deliberadamente. Aquilo não era de seu feitio.

— O que? Você pretende me deixar sozinha, tremendo de frio, depois de me arrastar até aqui? — e ela sequer fazia noção de que parte da cidade eles estavam. Não sabia nem se ainda estavam na cidade, isto é!

Ele ficou meio sem jeito, sem saber o que dizer. Sakura revirou os olhos, se remoendo de raiva, trincando os dentes. Mas estava com raiva de si mesma, na verdade. Pois achava que ela deveria ter imaginado que ele fosse, no final das contas, lhe pregar aquela peça. Estava com raiva por ter depositado em si alguma esperança de que ele fosse diferente do que aparentava. Estava com raiva por ter se sentido atraída por ele, mesmo que pela mera curiosidade.

— Inacreditável! — resmungou — Que seja! — ela socou o capacete extra contra o peito dele e esticou a mão para que ele lhe desse o dinheiro. Afinal, ela havia deixado sua mochila no carro da Karin, com todo o seu dinheiro e mais o celular. E isso era o mínimo que ele poderia fazer para lhe compensar.

Relutantemente, ele lhe entregou uma nota qualquer, lhe dizendo para pegar um taxi. Também não era como se ele estivesse tirando algum prazer com aquilo. Simplesmente não estava mais se sentindo tão à vontade, como sentiu segundos atrás enquanto conversavam sobre o poema dela.

Sakura nem pôs a nota no bolso para não estragá-la, já que ela estava pingando água. Maldita chuva que não parava de cair!, praguejou. E agora, teria que voltar sozinha para casa.

Ele ainda tentou compensar alguma coisa, lhe dizendo para tomar um banho quente assim que chegasse em casa para não pegar uma gripe. Mas ela nem se deu ao trabalho de dar de ombros. Atravessou a rua correndo para o outro lado, ao vê-lo passar cantando os pneus. Ficou indignada!

No que diabos ele estava pensando em fazer agora?, ela se perguntava. Mas será que ela deveria tê-lo impedido? Deveria ter parado na frente de sua moto? Mas por que faria isso? Não é como se ela se importasse com ele também. Ele não faria o mesmo por ela, faria?

Ok, a resposta estava ali, na ponta do seu nariz. E ela estava enxergando. Ele meio que já a impediu de cometer uma loucura maior, naquela festa. Afinal, ele ainda não explicou por que a levara embora para sua casa também, ao invés de simplesmente tê-la deixado lá e ido embora com a Ino, e ela suspeitava. Mas Sakura ainda relutava em acreditar nisso, por que ele com certeza fez isso com alguma intenção. Não é como se tivesse sido um ato altruísta, com a mais pura das boas intenções. Ele apenas queria a Karin!, se lembrou.

Sakura pegou o primeiro taxi que passou. Deu seu endereço ao motorista e o carro partiu. Mas na segunda curva que o cara deu, a moto preta parou bem em frente ao táxi, obrigando o motorista a dar uma freada brusca. Se não estivessem com seus cintos de segurança devidamente colocados, teriam dado com a cara no painel. O carro que vinha atrás também freou bruscamente e, assim, sucessivamente. Mas, felizmente, ninguém se acidentou. Só que o motorista do taxi ficou fulo e começou a buzinar feito louco para o Sasuke, enquanto Sakura não sabia o que fazer. O rapaz simplesmente ficou ali, parado, sem se importar em estar trancando o trânsito, com todos os carros buzinando para ele.

Então, ela tirou seu cinto e desceu do carro. Saiu correndo em direção àquela moto.

— MAS O QUE DIABOS VOCÊ PENSA QUE ESTÁ FAZENDO? FICOU LOUCO? — berrou tanto por estar com raiva, como para fazê-lo lhe ouvir diante de tanto ruído.

— VOCÊ TINHA RAZÃO! EU NÃO PODIA TE DEIXAR SOZINHA, NESSA CHUVA.

— Ah, tá, né? — agora ela ficou de boca aberta olhando para ele.

E Sasuke apenas esticou o braço, oferecendo de volta o seu capacete. Vai ver ele não era tão estúpido quando aparentava ser mesmo!, pensou.

Ela pegou o capacete e correu de volta até o motorista do taxi. Entregou-lhe toda a nota que o Sasuke havia dado, sem fazer a mínima idéia de qual era o valor ali, e voltou para a moto. E então, os dois partiram a toda velocidade.

Ela ainda estava com frio, mas não era mais aquele frio que a incomodava. Era um frio que aquecia — por mais estranho que isso pareça. Enquanto as rodas iam pelo asfalto molhado, ela ia se perguntando o que estava acontecendo com ele.

Com eles dois.

Mas nem mesmo ele saberia lhe responder ao certo. Não fazia idéia de por que não conseguiu ir muito longe sem ela o agarrando suas costas. Não entendia por que teve que dar a volta na quadra para buscá-la. Talvez por... educação?, pensou. Mas não se convenceu muito disso, já que nunca ligou para modos, ou etiqueta. Achou que o melhor mesmo fosse nem pensar sobre o assunto.

E então, seguiram caminho em silêncio, sem trocar uma palavra sequer, um com o outro.

Quando Sakura se deu conta, ele já estava parando a moto em frente a sua casa. Suspirou antes de descer. Ela ainda não queria entrar em casa — qualquer coisa era melhor do que aquele lugar... Mas ela sabia também que, cedo ou tarde, teria que enfrentar a realidade de frente. Então, seria melhor se livrar de tudo o quanto antes. Não havia razão para prolongar a tortura...

Desceu da moto, e lhe entregou o capacete. Lhe disse obrigado, mesmo sem saber exatamente pelo quê ela estava agradecendo, e deu as costas.

— Ei! Tem uma coisa em que eu sou bom. — ele diz, quando estava há poucos passos da porta.

Então ela olhou para ele por cima do ombro.

— Sou bom em corrida de moto. Mas será que isso conta como alguma coisa?

— Claro que sim. Se é o que você gosta... Minha avó sempre dizia que é importante fazer o que se gosta para ser feliz. Ninguém é feliz fazendo o que não quer.

— Hum... Você acredita em felicidade?

— Não na felicidade eterna. — deu de ombros — A felicidade é apenas momentos.

Ele mordeu o lábio inferior, ergueu a sobrancelha cerrando os olhos, e olhou para o outro lado da rua.

— Tenho mais uma pergunta. Por que você se veste toda de preto, hein? Digo... Não me entenda mal!, não tenho nada contra! Mas é que tudo o que você fala parece ter, sei lá!... Cor. Quero dizer... Você não faz o tipo de garota mórbida, gótica, depressiva, ou metaleira... E você ainda usa roupas de marcas. Não faz sentido!

Agora foi ela quem olhou para o outro lado da rua. Suspirou e deu as costas, caminhando até a porta. Girou a maçaneta e, antes de entrar, lhe disse:

— Cada um encontra a sua maneira de expressar o que sente. — e então, lhe veio em mente a lembrança de algum dever. Havia alguma coisa que ela deveria lhe cobrar, mas não conseguia lembrar bem o que era. Era algo importante. Uma obrigação...

Ah!, lembrou.

— E Sasuke... Quando é que você vai começar a me falar sobre o Itachi? Não se esqueça da nossa proposta!

Ele pôs de volta seu capacete, girando o acelerador.

— O mais breve que você imaginar. — e, então, ele partiu naquela chuva.

Só que ela não tinha certeza de ter entendido o que ele quis dizer.

E nem Sasuke tinha certeza de que entendeu o que ela quis dizer. O que ela queria expressar se vestindo de preto? Além de metaleiros, góticos, mórbidos, ou sabe lá o que, quem mais se vestia de preto? Por acaso ela estava de luto? Um luto eterno por quem? Algum parente? Algum amigo? Talvez algum ex-namorado?, pensou.

Seu celular ficou vibrando por um tempão, durante toda aquela corrida na chuva, mas ignorou todas às vezes. Quando chegou em casa, viu que eram ligações do hospital e do Itachi. Mas ele não retornou nenhuma das chamadas. Foi direto tomar um banho quente e demorado. E depois, simplesmente, foi dormir. Só que ele não conseguiu pregar os olhos por um instante sequer. Havia muita coisa em sua mente o atormentando.

Itachi chegou umas duas horas depois. Já era noite e Sasuke estava meio deitado, na vertical, no sofá da sala olhando para a tela da televisão. No entanto ele não enxergava nada, e nem fazia idéia do que estava ouvindo. Não conseguia se concentrar em nada. Sua mente parecia uma sala vazia, toda branca.

Itachi passou pelo irmão chutando seus pés do caminho, mas o mais novo nem se deu ao trabalho de reclamar. E então, o cabeludo começou a dar voltas pelo sofá. Ele fazia isso de propósito para torrar a paciência do Sasuke; para chamar a sua atenção. Itachi não podia acreditar no que estava acontecendo. Mal acreditou quando o ligaram para lhe informar que seu irmão havia simplesmente deixado o hospital, logo após os médicos saírem do quarto do pai para lhe dizer que o homem havia sofrido uma parada cardiorrespiratória e falecido. Ele queria esmagar o Sasuke com as próprias mãos.

— Não precisa nem dizer nada! — Sasuke lhe disse — Eu já sei tudinho o que você vai dizer.

— Oh, é mesmo? Então me diga, Sasuke, como é ter o poder de ler a mente das pessoas? Por que, você sabe, eu sempre tive vontade de fazer isso! Sempre quis entrar nessa sua cabeça de merda para saber que porra você pensa sobre a vida!

— Você seria mais feliz se chupasse meu pau, do que soubesse o que se passa na minha cabeça.

Sasuke ouviu seu irmão bufar, e depois chutar o sofá para descarregar a raiva que se acumulava em sua garganta.

— POR QUE VOCÊ SEMPRE FOGE, SASUKE? VOCÊ NUNCA PAROU PARA PENSAR NO FARDO QUE VOCÊ SEMPRE DEIXA EM MINHAS COSTAS? ENQUANTO VOCÊ ESTEVE POR AÍ, PASSEANDO, FUI EU QUEM TOMOU CONTA DELE, E TODOS OS PROBLEMAS DA EMPRESA! HÁ TRÊS ANOS QUE ELE VEM LUTANDO CONTRA O CÂNCER, E VOCÊ NÃO ESTAVA NEM AÍ! VOCÊ SEMPRE DEIXOU TUDO PARA QUE EU TOMASSE CONTA! MAS ADVINHA SÓ, MANINHO: EU TAMBÉM ME CANSO DAS COISAS! E ESTOU CANSADO DE VOCÊ!

— E QUE O VOCÊ QUER QUE EU FAÇA, ITACHI? QUE EU ME MATE? Acho que isso não lhe faria muita diferença, não é mesmo?

— Quero que você cresça! Que pare de pensar só em você! Assuma alguma responsabilidade, pelo menos uma vez na vida.

— Eu tinha certeza de que você diria exatamente isso... — resmungou.

Ahh, saco! Mil vezes saco!, praguejou internamente. Sasuke se levantou do sofá, e saiu caminhando pelo corredor até as escadas, indo para o seu quarto. Ele estava cansado de ouvir o que as pessoas querem dele, sem perguntar o que ele mesmo queria fazer! Além disso, não foi o Itachi quem mais sofreu nas mãos do pai. E agora, ele se lembrou de algo que ouviu certa vez. “Os pais sempre acabam preferindo o filho caçula, porque tentam consertar os erros que cometeram com os primogênitos.” Mas, no seu caso, Sasuke tinha certeza de que foi o contrário. Seus pais cometeram mais erros com ele, do que com o Itachi. Em seu ponto de vista, seu irmão sempre foi o mais querido. Ele acreditava que não tinha motivo algum para se importar o aquele velho carrasco, e que Itachi estava sendo incoerente.

— E depois, as pessoas me acusam de egoísta! — resmungou para si — Tsc!

— Amanhã será o enterro, Sasuke. Pelo menos, tenha a decência de comparecer! — ainda ouviu seu irmão lhe dizer.

E Itachi não sabia mais o que pensar a respeito do irmão. Ele não entedia por que o rapaz era daquele jeito. Não entendia como um ser humano poderia ser tão insensível quanto seu próprio irmão. Ela sabia de tudo o que seu pai havia feito ao rapaz, mas sempre achou que Sasuke fosse dramático demais.

Enquanto isso, Sasuke ligou o volume do seu aparelho de som ao volume máximo, e pegou seu fumo especial, adquirido naquela festa, e que havia guardado na gaveta do criado mudo. E foi assim que passou o resto da noite: detonando os seus ouvidos e o cérebro com aquela droga. Ele pensou que o Itachi deveria estar fazendo o mesmo.

Mais tarde, só por não ter mais o que fazer, resolveu ligar para a Ino.

— O que você me diria se eu dissesse que meu pai morreu hoje?

— Hein? Por que você diria isso?

— Por que é verdade.

— Oh... Quer brindar? Meu pai comprou uísque, essa semana. Quero dizer... Sei que você odeia o cara, não é mesmo? Você não deveria estar feliz, ao invés de soar como se fosse o fim do mundo? Venha para cá, Susu. Eu te consolo... Hehe.

Então é isso o que ela diria!, pensou. Bom, achou que fosse normal alguém nas circunstâncias dela dizer isso, não é mesmo? Afinal, tudo o que ele fazia era falar mal do velho. O que mais ele poderia querer ouvir?

— No fim de semana, brindaremos.

No dia seguinte, nem viu quando o Itachi saiu de casa. Acordou meio grogue, com febre alta e quase delirando. Ainda por cima, a bosta do seu corpo inteiro doída. Maravilha!, praguejou. Ele estava com uma bela gripe do cão.

E ainda imaginou se ela estaria na mesma situação que ele.

De qualquer forma, vestiu sua calça social e paletó. Ele odiava aquelas roupas, mas tinha noção de que seria severamente criticado se comparecesse à cerimônia com seu jeans surrado e jaqueta de couro. E bem como suspeitava, Itachi havia deixado o endereço do cemitério pendurado na geladeira. Pegou as chaves da sua moto e se foi.

Havia dois motivos pelo qual ele não queria ir naquela merda. Primeiro: a vaca da sua madrasta estaria lá só para fingir que se importa com alguma coisa. Segundo: por que havia algum lugar no planeta em que o universo estaria trocando aquela vida por outra. Mas o problema não era exatamente esse, em si. O problema é que, talvez, aquele homem poderia retornar de alguma forma, para concluir o que deixou pendente. E ninguém derramaria uma lágrima sequer por isso. E isso já lhe era motivo suficiente para odiar com todas as forças ser obrigado a ir até lá.

Notas finais
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