Reverso

9 ♦ Capítulo 9


Notas iniciais
Tá aí, mais um. Boa leitura! :)

Reverso

By Amanur

Capítulo 9

...

Sakura estava pensando em como, às vezes, as pessoas passam um ano inteiro ao lado de alguém e acha que já a conhece bem o suficiente para fazer julgamentos à respeito do seu caráter. E quando mais um ano se passa, acabamos percebendo que não a conhece ainda. Mas ela tinha mesmo que admitir a verdade nua e crua, como ela é. É impossível conhecer uma pessoa em todos os seus aspectos. Os defeitos, as qualidades, os desejos, os sonhos, os imperativos... Muita coisa é guardada a sete chaves para si mesmo. Por Deus!, pensou, era pretencionismo em demasia querer pensar que conhecia a si mesma, inclusive. Havia muita coisa a seu próprio respeito que ela ainda desconhecia. Como essa vontade, talvez, de ser outra pessoa...

As duas sentaram-se em uma pequena mesa redonda, com quatro cadeiras, ao fundo do restaurante universitário. Ficaram uma bem de frente para a outra. E cada uma delas já tinha a sua refeição sobre sua bandeja. Ela pretendia comer em silêncio, mas percebeu que a Karin estava inquieta demais para isso. E como previsto, em seguida, a ruiva começou a lhe encher de perguntas sobre o porquê de ter entrado na sala de aula ao lado do Sasuke. Ela deu de ombros, dizendo que apenas haviam se esbarrado pelo corredor, e que aquilo não foi nada demais. Ainda disse que ele não havia feito sequer uma de suas provocações para cima dela, nem nada. Apenas entraram na sala juntos.

E então, a garota descobriu que ainda tinha uma leve compulsão à mentiras. Qualquer um teria percebido seu rosto vermelho, mas agradeceu pela Karin estar preocupada demais com suas próprias explicações. Foi então que percebeu que a ruiva se atrapalhou para lhe dizer como haviam se perdido uma da outra durante a festa.

—... Quando me virei, depois que peguei o ponche, alguém me puxou até as escadas. Você viu a multidão que tinha naquela sala, né, Sah? Quando consegui me desvencilhar dele,

e voltar para buscá-la, não a encontrei mais. E olha que eu andei por toda aquela sala, e ainda fui até a cozinha e a garagem procurando por ti! Fiquei preocupada, achando que tivesse acontecido alguma coisa com você... — então, Sakura se distraiu para analisar por partes toda essa explicação.

Em primeiro lugar: ela levou um bom tempo para sair de perto da mesa, bebendo uma dose atrás da outra. Em segundo lugar: quando se afastou, caminhou apenas por alguns passos da mesa para dançar com o Gaara. E terceiro: além disso, lembrava bem de ter visto a cozinha com a porta trancada, para que ninguém não autorizado entrasse. Provavelmente por que os pertences quebráveis da sala, além da louça cara, deveriam ser mantidos a salvo longe da aglomeração juvenil bêbada. Portanto, a Karin não tinha como ter ir até lá para procurá-la.

Sua lição do dia foi: não julgar um livro pela capa. Um livro com capa horrível pode ter muitos conteúdos interessantes, enquanto que um livro de capa bonita pode ser um monte de bobagens vazias. Mas o vice versa sempre existe e, por isso, não pensaria mais sobre o assunto. Só o tempo pode levantar a poeira para mostrar o que há por baixo da terra!, pensou. Por isso, Sakura não lhe contestou, nem a acusou de nada, pois imaginava que sua amiga deveria ter seus motivos para mentir, bem como ela tinha os seus.

Depois de fazerem suas refeições, as duas foram caminhando em silêncio em direção ao caixa registrador para pagar o buffet que haviam consumido. Enquanto se metiam na extensa fila, Sakura viu Sasuke sentado em uma mesa, a girar uma faca prateada entre os dedos. Lembrando dos boatos assombrosos a seu respeito, ela acabou se deixando distrair por aquela cena. Além disso, havia uma sombra nos olhos do rapaz que tirava todo o brilho que havia visto a pouco na sala de aula, quando ele tentava fazer gracinhas para o professor Yamato. E por aquele instante, ela não conseguiu distinguir mais nada a sua volta. Era como se ele tivesse se transformado por completo em outra pessoa. Em alguém mais sombrio, psicótico. Um calafrio percorreu por sua espinha, mesmo sem saber bem o por quê. Em seguida, ela apenas observou o moreno mover os lábios, tranquilamente olhando para alguém, passando a lâmina na palma da própria mão, ao mesmo tempo.

—... Não, eu não tenho medo de nada. O medo é a perturbação resultante da idéia de um perigo real, aparente, ou da presença de alguma coisa estranha ou perigosa, você sabia? O medo é a apreensão, receio de ofender, de causar algum mal, de ser desagradável. Ou seja, nada mais é do que algo criado por você mesmo, em sua própria mente. — e seus lábios esboçaram um sorriso frio, enquanto seus olhos pareciam vidrados naquela faca — Medo é para fracos, covardes e oprimidos. Não, eu não tenho medo de nada. Não me preocupo com nada. Não criei essa idéia em minha cabeça... — foi o que ela conseguiu entender, fazendo uma breve leitura labial.

Ele havia dito mais alguma coisa, enquanto cerrava o punho para deixar as gotas de sangue cair sobre a mesa. Mas Sakura não conseguiu mais se concentrar. Aquele “não tenho medo de nada” a fez estremecer. E não foi de um jeito bom. Foi com um frio na barriga, como se houvesse centenas de borboletas farfalhando em seu estômago, por que parecia haver muito mais a se ler em seus olhos do que em seus lábios. Mas o mais estranho de tudo, foi perceber que, apesar de todas aquelas sensações que ela sentiu, no fundo, não estava com medo. Ela estava apenas... Curiosa.

— Venha, Sakura! — de repente, a Karin lhe puxa — A fila está andando!

Só quando a ruiva girou seu corpo para frente, a fazendo desviar os olhos do Sasuke, foi que entendeu o que a amiga quis dizer. O Itachi estava a duas cabeças a frente delas na fila, conversando com uma moça muito bonita. Ela tinha cabelos curtos, lisos, em tom escuro azulado. Além de linda, era ela bastante feminina. Seus gestos eram delicados e sutis, Sakura percebeu. E notou também que a moça usava uma presilha nos cabelos, com uma flor branca de papel ou algum tecido enrijecido.

O sorriso que o Itachi exibia para ela era de tirar o fôlego — o da Sakura, pelo menos. Mas assim mesmo, alguma coisa a induzia a continuar olhando para o Sasuke ao invés. Mas quando se virou para uma rápida espiada, por cima do ombro, viu que ele não estava mais lá.

— Eu ouvi alguns boatos por aí, mas gostaria de ouvir da sua própria boca o que aconteceu depois que nos separamos... Você realmente fez um striptease em cima de uma mesa? — Karin perguntou.

— De quem você ouviu isso?

— Kiba, Gaara, Naruto, Neji, Lee... Eles estavam comentando isso, quando cheguei na sala, hoje.

Ou seja, era verdade. Afinal, não tinha como o Sasuke ter espalhado aquilo antes, se ela estivera com o cara o tempo todo. E agora se sentia mortalmente envergonhada.

Karin viu o estado em que sua amiga ficou, ao ouvir a notícia. A garota parecia ter levado um soco na boca do estômago. Ela duvidava muito que aquilo pudesse ser verdade, mas sua reação lhe indicava que era tudo verdade. E agora, entendia por que Itachi parecia tão distante. Quando a via, ele costuava correr para o lado dela, como um cachorro domesticado. Mas de uma coisa a ruiva tinha certeza! Que sua amiga deveria estar estupidamente bêbada para ter feito aquilo! E que se arrependia amargamente. Sakura cobria o rosto, curvando os ombros. Parecia com uma de suas bonecas de pano, sem apoio. Mas tudo o que poderia fazer para consolá-la era por uma mão em seu ombro, pois era péssima em dar conselhos.

— Não fique assim, Sah... Tenho certeza de que vocês resolverão tudo. — Karin apenas diz.

Sakura olhou novamente para o namorado. Quando está sozinho, o Itachi parecia sempre ser outra pessoa. Concentrado e sério; sempre perdido em seus pensamentos. Agora, lá estava ele como se nada o preocupasse, percebeu. Como se não passasse de um jovem rapaz, um estudante comum. E então, ela desconfiou de que agora o entendesse um pouco mais.

Será que ser um administrador é mesmo o que ele quer ser?, se perguntou, lembrando do que o Sasuke havia lhe comentado.

Sasuke e Itachi estavam na lista de chamada da aula de empreendedorismo, com o professor Kakashi. Mas apenas o mais velho dos Uchiha estava presente. À frente da turma, o professor havia solicitado para que todos se agrupassem em grupos de até cinco pessoas para a realização de um trabalho sobre ponto de venda, quando as pessoas menos prováveis se apresentaram a frente das duas, perguntando se poderiam fazer o trabalho com elas.

De todos os colegas da turma, a Ino e a Hinata eram as últimas pessoas que esperariam ver sentadas ali, ao lado delas. Elas sorriam para as duas, e especialmente para Sakura. Do outro lado da sala, Itachi havia se agrupado com os rapazes playboys da turma. O Naruto, o Gaara, o Neji e o Sasori. Pela expressão séria que fazia, Sakura suspeitou que ele também estivesse com algum tipo de problema, conversando com os rapazes. Parecia haver algum tipo de discussão muito séria entre eles, na verdade. E se questionou sobre o que poderia ser. Ela tentou ler os lábios deles, mas eles falavam rápido demais para que pudesse captar algo. Mas ao que parecia, ele era o alvo principal da discordância entre eles.

Na verdade, Itachi estava tirando suas próprias conclusões sobre o ocorrido na noite anterior. Ele ainda custava a acreditar no que seu irmão havia lhe contado, pois acreditava na integridade de sua namorada, mas precisava ter certeza por que a dúvida poderia enlouquecê-lo. Foi então que ouviu todo o relato da boca de seus colegas. Mas antes, é claro, precisou prometer que não avançaria em ninguém, independentemente de qual for a resposta. Afinal, não era de se meter em discuções e, com ameaças, sabia que não obteria nenhuma informação.

Mas ele se arrependeu em seguida, ao ouvir o depoimentos dos rapazes. Os quatro colegas lamentavam por cada palavra que diziam, mas Itachi não conseguia olhar para o rosto deles. A vergonha o impedia. Pois não há nada pior para um homem do que a traição de sua mulher. Lembrou de ter lido em algum lugar algo sobre mulheres serem muito mais preparadas para tal situação. Afinal viveram séculos convivendo com a poligamia dos homens, em séculos passados, com seus ancestrais. Havia um povo, inclusive, que demonstrava seu poder aquisitivo através da quantidade de esposas que tinha. Pois somente um homem rico poderia sustentar tantas mulheres. Mas para o homem, a traição de uma mulher pode lhe ser fatal. E ele, de fato, não estava preparado para aquela notícia. E pensar que havia passado a noite inteira estudando, enquanto ela se divertia com outros, o irritava profundamente. Não fui suficiente para ela?, pensou. Não lhe deu atenção suficiente? Deveria ter passado mais tempo com ela? Isso afetava diretamente sua moral e orgulho. Era como se ele houvesse falhado em seu papel de homem. Discretamente, enquanto seu grupo tentava amenizar seu humor, mudando de assunto falando sobre trivialidades, ele tentava olhar para ela do outro lado da sala. Mas só de olhar para seus fios de cabelo cor de rosa, começou a sentir repulsa. Nunca gostara da cor do cabelo dela, e agora gostava menos ainda.

Enquanto isso, o grupo da Sakura era o único grupo de quatro integrantes da turma. Ela escrevia os nomes delas numa folha de papel, já que o trabalho deveria ser entregue ainda no dia ao final da aula, quando a Ino começou a falar.

— Se o Sasuke não tivesse matado a aula, ele completaria nosso grupo, não é mesmo, Hi?

— Uhum. Com certeza teria. — respondeu a morena.

A Karin parecia distraída, lixando suas unhas, mas Sakura percebeu as intenções das garotas. Desconfiou de que elas não estavam muito a fim de fazer trabalho algum, na verdade. Mas fingiu não ter notado nada. Era o melhor que ela poderia fazer. E então, continuou escrevendo. Só que isso não fez muita diferença, pois elas estavam dispostas a continuar naquele assunto. Sakura só não esperava que fossem tão diretas.

— E você, Sakura? — a loira interrogou — Desde quando mantém relações com o Sasuke? Achei que vocês nem se conhecessem.

— Não mantenho relação alguma com ele! — a rosada deu de ombros, para mostrá-las que não sabia do que elas estavam falando e que aquele assunto não significava nada para ela.

— Oh, não seja assim! Estamos entre amigas aqui, não é mesmo, Karin? — a morena se inclinou para o lado, passando o braço por cima dos ombros da ruiva — O que está entre nós, fica entre nós, não é mesmo? — havia alguma mensagem por trás daquela frase que Sakura não captou, mas que, claramente, era direcionada à sua amiga que as olhava com uma expressão de nojo.

— Eu vi o Sasuke a levando embora de moto, ontem à noite, Sakura. — a loira comentou — Você sabia que ele havia me levado à festa? E que concordara em dormir na minha casa para uma noite de sexo?

A Karin começou a bater palmas.

— E você, Ino? Vai bancar a vadia invejosa enciumada da história agora? — a Karin tinha um tique nervoso, quando ficava nervosa. Ela piscava o olho esquerdo a cada dez segundos, como estava fazendo agora, Sakura percebeu.

E ela arregalou os olhos, por que não era de se meter em brigas. Seu coração começou a pulsar mais forte, justamente por que detesta discutir com alguém. Sakura, simplesmente, era péssima em argumentar. Não que tivesse medo também, apenas não queria chamar a atenção de ninguém. Ainda mais dentro de sala de aula.

A loira sorriu para a Karin sem o menor humor exprimido nos olhos. Seus lábios se curvavam apenas num dos cantos de sua boca.

— Claro que não. Não seja ridícula, amiga. Apenas quero ter certeza sobre o que está acontecendo, para passar uma mensagem. — a loira olhou para a rosada, dos pés a cabeça, com desdém — O Sasuke é areia demais para o seu caminhão. Aquele cara faz o que quer, e ponto final. Ou você o ama, ou você o odeia.

— É... eu definitivamente o odeio! — Karin resmungou.

— Bom, eu o amo. — e então, a loira a olhou novamente — E você, Sah?

— Bom, não se preocupe. — lhe disse — Meus interesses estão direcionados à outra pessoa.

— Aham. O Itachi, não é mesmo? — a morena diz, rindo da cara dela — Pena que você pisou na bola.... Mas quem sabe, agora, ele perceba que princesas ficam na Disney. — e revirou os olhos — Talvez eu deva fazer o papel da vadia invejosa enciumada agora! — e ela olhou para a Karin, insinuantemente — Mas não vou fazer isso, por que sei que agora você tem zero por cento de chance com ele. Para o seu próprio bem, Sakura, desencana antes que você se machuque ainda mais. Te dou esse conselho com a mais pura das intenções.

A Karin bufou, cruzando os braços, quando o professor se aproximou para saber o que tinham escrito até então, ao ver que elas só conversavam. Sakura teve que lhe mostrar que além dos nomes, já havia escrito três parágrafos com toda a teoria. Mas aquilo o que acabara de ouvir da morena a incomodou. Afinal, o que ela quis dizer com aquilo tudo?

Afinal, Sakura não sabia que Itachi costumava sair com a Hinata, antes de se transferir para aquela faculdade.

Enquanto isso, Sasuke pensava em como a dor é uma sensação desagradável, que varia desde desconforto leve a excruciante, associada a um processo destrutivo atual ou potencial dos tecidos que se expressa através de uma reação orgânica e/ou emocional. Ou pelo menos, foi isso o que havia aprendido na escola. A dor é mais que uma resposta resultante da integração central de impulsos dos nervos, ativados por estímulos locais. De fato, a dor é uma experiência sensorial e emocional desagradável associada a uma lesão. Mas alguns especialistas acreditam que a dor é benéfica por nos alertar, imediatamente, de que algo está prejudicando o nosso corpo.

Seja como for, era através dela que, às vezes, ele comprovava a si mesmo de que ainda estava vivo. Geralmente ficava tão imerso em seus problemas que não consiguia mais distinguir o sonho da realidade. E, por isso, abria cortes na palma da mão para ter certeza de que estava acordado. E escolhia sempre aquela região do copo por não deixar cicatrizes. Já tinha marcas demais na pele para querer acrescentar mais a ela. Não que ele se importasse com a estética, ou vaidade. Dizem que as catrizes são a prova da força de um homem. Só que ele também não era esse tipo de exibicionista, e não se importava com isso. Na verdade, havia muitas coisas ao qual ele não se importava.

— Ixo é uma ameaxa? — o ruivo lhe perguntou. Seu jeito irritante de trocar o “s” pelo “x” já estava lhe dando nos nervos. Mas apesar do tom calmo do ruivo, Sasuke percebeu que seus olhos expressavam terror.

— Ameaça? Hehehe. Não, não... É um aviso, apenas. Mas considere o que sua mente tiver capacidade, é claro. — e então, o moreno arrastou a cadeira para fora da mesa e se levantou, pegando um guardanapo de papel do suporte sobre a mesa para limpar aquela mancha da mão.

Enquanto ia caminhando entre aquela multidão, para cair fora daquele restaurante, Naruto veio atrás dele o agarrando pelo braço. Sasuke fez um rápido movimento, se esquivando para que ele não o tocasse mais. Ele ainda sentia algo ferver em seu sangue.

— Cara, que merda foi essa? — o loiro perguntou — Você pirou?

Mas o que Sasuke poderia dizer, quando nem mesmo ele mesmo sabia ao certo? Tudo o que sabia era que ela não era como as outras. Ela era... Sei lá!, pensou. Havia algo a mais nela... Algo naquelas palavras...

Achou que as palavras escritas naquele papel são a ausência do ruído que ele precisava ouvir. Elas apareciam em sua mente como uma marca, uma tatuagem. Já ouviu dizer que se deve tomar cuidado com o que é dito, por que as palavras pronunciadas têm poder. Mas ele começou a achar que as escritas também têm. E achava que ela não fazia a menor idéia disso.

Deu as costas ao Naruto, sem dizer nada. Foi até a biblioteca — coisa que nunca fez na vida! Perdeu um tempão lá, procurando um livro sobre psicologia, e outro sobre direitos civis. Ele queria saber até quando um aviso pode ser considerado ameaça, e o que deve ser feito quando alguém lhe dá o aviso. Não que ele estivesse preocupado com isso — apenas queria saber até onde poderia torturar psicologicamente uma pessoa, pois acabou de descobrir que isso era divertido de fazer.

Com uma pequena sacola em mãos, foi até o estacionamento pegar sua moto. Não era parte do seu plano matar aquela aula, mas já que se atrasou em sua pesquisa, resolveu dar o pé do campus. Pôs os livros no baú da moto, e encostou-se a ela. Percebeu que estava desesperado e necessitado por nicotina nos pulmões. Então, puxou sua carteira de cigarros do bolso, olhando para aquele estacionamento estático, sem movimento. Estava repleto de carros. Todos os tipos de carros. Carros caros, antigos, sujos, limpos, carros amassados, carros caindo aos pedaços... Mas não havia uma alma perambulando por ali, além dele. Todos estavam em sala de aula.

Ele estava ligando o motor para aquecê-lo, quando sentiu seu celular vibrar no bolso. Era do hospital. Uma enfermeira queria avisar-lhe que seu pai teve algumas complicações durante uma seção de químioterapia, e precisava de alguém para acompanhá-lo no próximo exame.

Suspirou. Por que diabos o hospital tinha o número dele?, se perguntou.

Deu a volta na quadra do campus da faculdade, pensando no que fazer. Ao ver que ainda faltava uma hora para o término da aula, acelerou. Pegou a avenida principal, voando entre os carros até o hospital.

Quando chegou no quarto, encontrou seu pai sentado na cama. O homem tossia cuspindo sangue nas mãos.

— Onde está sua preciosa mulher que não está ao seu lado, quando você mais precisa dela, hein? — o moreno lhe perguntou, sarcasticamente.

— Suponho que todo mundo tenha defeitos... — o homem resmungou, pegando um lenço de papel ao lado da cama para limpar-se.

— Pena que alguns tenham mais defeitos que outros...

Notas finais
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