Reverso

30 ♦ Capítulo 30


Notas iniciais
Capitulo 30! T__T
Boa leitura!

Reverso

By Amanur

Capítulo 30

...

Apesar dos esforços de Sasuke em fazê-la distrair-se com assuntos frívolos, Sakura tinha suas suspeitas sobre o restante daquela noite.

Ele pôs uma música calma para tocar em seu aparelho de som, e foi preparar duas xícaras de chá de camomila com leite — receita de uma das empregadas que trabalhava para o seu pai —para beberem, enquanto a garota se retirou para tomar um banho. Na banheira, com água morna, ela conseguiu relaxar. Seus músculos pareciam tensos. Quando saiu do banheiro, enrolada no mesmo roupão que vestiu da primeira vez em que esteva no apartamento dele, encontrou o rapaz deitado sobre a cama, cantarolando junto com a música. Ele já tinha a sua xícara na mão, enquanto o seu chá a aguardava sobre o criado mudo.

Ela sorriu de canto.

— Você parece feliz.

— E por que não deveria?

— É estranho. Geralmente você está carrancudo, sério, ou debochando de alguém.

— E isso te encomoda?

— Talvez, um pouco.

— Quer que eu faça carranca?

Ela balançou a cabeça, negativamente.

— Gosto de ver seus dentes. — acrescentou.

Ele escancarou a boca para mostrá-la os dentes, como se mostrasse à um dentista. Sem muita dar bola para sua gracinha, se deitou ao seu lado, abraçando o travesseiro.

— Eu sei o que você está fazendo! — ela diz.

— Tomando chá?

— Digo, por que me trouxa para cá.

Ah!, então, é isso! — ele pensou. Não que aquilo fosse um segredo. Apenas não queria aborrece-la mencionando aquele assunto outra vez.

Ele tomou mais um gole de seu chá, pensando no que dizer, quando ela mesma decide mudar de assunto. Afinal, ela sabia que ele não mudaria de idéia, e também não a deixaria ir embora sem antes presenciar aquilo. Pois algo lhe dizia que iria mesmo ter seu pesadelo.

— E suas corridas? Você prometeu que me levaria naquele sábado, mas não apareceu para me levar. — ela comentou.

— Foi você quem desapareceu, lembra?

Ela deu de ombros.

— Como foi? Quando será a próxima?

— Na verdade... Não quero falar sobre isso. — e então, ele se levantou da cama, meio emburrado.

Ela percebeu, e não entendeu. Afinal, aquele deveria ser seu assunto favorito em conversas. Mas Sasuke insistia em lhe dar as costas. Fingiu que mexia em algo, dentro de uma das gavetas de sua cômoda, enquanto lhe dizia para beber o chá que havia lhe preparado, para ajudá-la a dormir mais tranquilamente.

Mas ela resolveu insistir naquele assunto, até que ele resolvesse abrir o jogo e contar o que aconteceu.

— Esses dias sonhei com aquele dia em que você me levou. Aquele foi um dos melhores dias da minha vida, Sasuke. Nunca experimentei algo tão emocionante. Talvez para você não seja nada demais, já que está acostumado em correr, mas para mim foi ótimo. Esses dias estive pensando em pular de pára-quedas também. já pensou? Não quero morrer sem antes fazer isso! Sempre quis ver o mundo do alto... bom, não seria exatamente o mundo, mas parte dele já basta. Dizem que a velocidade com que o corpo cai é tanta, que chega a ficar dificil de respirar, por que o ar simplesmente desvia do rosto sem dar a chance que conseguirmos inalar algo...

Mas quanto mais ele a ouvia, mais irritado Sasuke ia ficando. Não queria ser lembrado de nada sobre aquilo, pois havia decidido que deveria ajudar o irmao na empresa, e ponto final. Era o minimo que ele poderia fazer, depois de tudo. Mas enquanto revirava à toa suas coisas, sem saber o que procurava, ele encontrou o panfleto que o homem com quem havia conversado da ultima vez lhe entregara. O papel divulgava inscrições para o Circuito GP nacional para amadores, e o cara se disponibilizava para patrociná-lo, pois, curiosamente, era um dos produtores do evento. E esse era o maior sonho dele; poder correr num circuito. Mesmo que não ganhasse, só pelo prazer de poder acelerar ao máximo numa pista livre de obstáculos, livre de pedestres que pudesse atropelar, já se daria por realizado. Mas se ele corresse, ele sabia que desistiria da idéia de trabalhar para a empresa, para se dedicar em tempo integral às corridas. E por isso, manteve aquele panfleto escondido. Mas lamentou-se por não ter conseguido jagá-lo fora, no entanto. E na raiva pela frustração, ele chutou sua cômoda, fazendo alguns objetos sobre ela cairem no chão.

Sakura, que falava sem parar sobre sua vontade de arriscar a propria vida, se surpreendeu com aquele chute. Em parte, era exatamente o que queria — uma reação dele. Mas não imaginou que ele fosse demonstrar todo aquele aborrecimento.

Sem dizer nada, ele saiu do quarto. Ao ver que a gaveta foi deixada aberta, ela se levantou, para ver no que ele mexia, e encotrou o panfleto amassado sobre algumas roupas. O papel dizia que as inscrições foram encerradas ao meio dia daquela sexta-feira e corrida seria naquele domingo, a dois dias. Ela se perguntou se ele havia se inscrito, e foi atrás dele para entender o que o aborrecia.

Sasuke estava estirado sobre o sofá da sala, olhando para o teto. Sem dizer nada, ela sentou no chão, ao lado dele, encostando as costas no sofá. Apoiou acabeça sobre o braço dele, olhando também para o teto. Ela o acompanhou no silêncio, para lhe dar o tempo que precisasse para pensar no que dizer, até que ele resolvesse falar algo.

— Fiz a inscrição só para me torturar. — ele começou dizendo, imaginando que ela tivesse visto o papel — Mas não vou participar do circuito.

— Por que não?

— Você sabe quantos já morreram nessas corridas? Um pneu pode estourar no meio da corrida, algum outro participante pode esbarrar em mim só para me tirar da pista, o motor pode explodir; o menor discuido pode me fazer desequilibrar... qualquer coisa pode acontecer!

— Você nunca se importou com isso antes. — ela o lembrou.

— Agora é diferente. Antes eu não tinha por que me importar, porque não tinha o que peder. — ele olhou para ela, esperando que entendesse o que deixou nas entrelinhas.

Só que Sakura não poderia aceitar que ela fosse a desculpa para ele deixar de fazer o que mais gostava na vida.

— Eu posso tanto morrer amanhã, ou daqui a alguns minutos, quanto posso viver por um século, Sasuke. E você também! Mas quando tiver seus 70 anos, já vai ser tarde demais. Além disso, o que me atraiu a você, foi justamente o fato de vocêe não se importar com nada. Não me faça mudar de opinião!

— O que quer dizer com isso? Que resolveu ficar do meu lado só para andar na minha moto? — ele indaga, de repente, se irritando ainda mais com aquilo. Detestava se sentir usado. Mas Sakura não se intimidou com o tom de voz irritadiço dele.

— Não! Eu amo a sua mente; sua personalidade, sua maneira de pensar, e não sua moto! Você me ofende, dizendo uma coisa dessas! Se você mudar sua maneira de pensar, estará deixando de ser quem é. E eu não quero ficar com uma cópia modificada do Itachi. Quero o Sasuke original! Não uma versão falsificada do que ele já foi! Você estará cometendo suicídio, se deixar de ser quem é, não entende?

Ele ficou sem resposta, diante dos argumentos dela. Não sabia o que pensar direito. Talvez estivesse cansado demais para pensar com clareza. Então, decidiu que não discutiria mais com ela sobre aquilo. Apenas se levantou, e voltou para o quarto sem dizer mais nada.

Ela ficou na duvida se havia o feito compreender bem o que queria dizer. Não queria que ele pensasse que ela poderia ter se apaixonado por qualquer um que tivesse uma moto, e corresse. Apenas queria faze-lo entender que querer ser o que não era, mesmo que pelo bem de outros, bem... Não era a solução.

Quando entrou no quarto, o encontrou deitado na cama, de costas para ela. Ele não havia arrumado as coisas que derrubou, então, ela o fez.

— Não precisa fazer isso. — ele resmungou, ao perceber o que ela estava fazendo.

— Eu sei. — mas assim mesmo, ela continuou a arrumar.

Assim que terminou, sentou na cama, ao lado dele, para tomar seu chá, que já estava quase frio.

Houve algumas vezes, em sua época de escola, que Sakura chegava em casa chorando por que se sentia sozinha na escola. Para acalmá-la, sua mãe lhe fazia aquele mesmo chá, de camomila com leite. E em seguida, ela caia no sono. Apesar do gesto, nunca achou que aquilo pudesse significar algo. Achava que sua mãe apenas queria calá-la. Mas agora, experimentando aquele sabor, novamente, a fez pensar mais sobre o assunto.

Depois de esvaziar a xícara, ela deitou-se, também de costas para ele. Em seguida, ambos apagaram os abajures. Mas para garantir um bom sonho, Sakura tentou pensar em coisas boas e positivas. No entanto, antes de se deixar dominar pelo sono, pensou nos momentos anteriores, com Sasuke, e sorriu para si sem acreditar que havia conseguido fazer aquilo. A garota, então, fechou os olhos, revendo os momentos, até que apagou completamente.

O início do sono foi tranquilo. Imagens randômicas, sem grandes significados, lhe aparecia em mente. Depois, se viu correndo pela casa de praia, que mais tarde, seu padrasto vendeu. Viu algumas pessoas que não lembrava quem fossem, e, então, se viu no próprio quarto, onde tudo aconteceu. Sua cama, embaixo da janela, estava com algumas roupas estendidas. Sua mesa de estudos estava cheia de livros e cadernos e, ao lado do guarda-roupas, estava sua mochila.

O homem estava com uma sacola nas mãos, com as coisas que deveria buscar. Ele foi até seu quarto para lhe dizer que estava de saída, quando a encontrou trocando de blusa. Ela havia deixado a porta aberta, propositalmente, aberta para que ele a visse seminua. Mas apesar disso, ela tremia de medo e vergonha. O homem percebeu quais eram suas intenções e, por isso mesmo, se irritou. E então, ela apenas ouviu o som da sacola sendo derrubada no chão, quando ele começou a avançar em direção a dela com passos firmes.

— Sua criança estúpida. Voce sabe que não deveria ter deixado a porta aberta! — ela havia sentido o cheiro de alcool emanando dele, e presumiu que ele tivesse se alcoolizado por lamentar a perda de sua mae. Para ela, esse era o único motivo que existia. E por saber que pessoas bêbadas são mais vulneráveis, ela resolveu tomar aquela iniciativa. Ela ainda tinha esperança de que ele pudesse voltar para sua mãe, já que achava que ele também não queria se separar da mulher.

— Se sexo é tudo o que você precisa para ficar com ela, entao venha. Deixe-me atuar em meu papel de filha, que une a família. Não é para isso que servimos? — sua voz saiu trêmula, hesitante. Mas estava determinada a seguir em frente com o plano.

O homem, no entanto, soltou uma risada de escárnio, que pareceu ecoar por toda a casa, e ainda vibrar nos ossos dela. Mas ela suspirou coragem, mas não desistir daquela decisão.

Ele não era um homem feio e, naquela época, e estava no auge da casa dos trinta anos. Ele tinha lá suas qualidades físicas, apesar dos poucos fios brancos na cabeça. Então, Sakura tentava se contentar com isso em mente, com a estúpida ilusão de que, só por isso, aquilo não seria assim tão ruim.

Depois da risada, eles ficaram por alguns tensos segundos, olhando um para o outro, sem trocar palavras. Ela tentava controlar seus batimentos cardíacos pela respiração, enquanto o homem trocava véu olhar entre o rosto da menina e os seios dela, subindo e descendo. A sensação que ela teve, a seguir, foi a de que bastou uma piscada de olhos, para tê-lo por cima de seu corpo. Num instante ele estava ali, parado, devorando-a com aqueles olhos sagazes, experientes; e no outro, ele a empurrou para a cama, arrancando-lhe o sutiã.

Sasuke acordou com o balançar da sua cama. Estava acostumado a dormir sozinho, então, estranhou sentir que havia mais alguém com ele. Mas assim que se lembrou de Sakura, sem fazer barulho, ligou a luz de seu abajur. A garota se remexia de um lado para o outro, com os cabelos grudados no rosto, de tanto que ela suava. Ela franzia o cenho, e resmungava coisas incompreensíveis. Até que, de repente, ela para com toda a movimentação. Na curiosidade, ele permaneceu observando-a por mais algum tempo. Quando achou que ela não iria mais se agitar, foi quando justamente ela começou a chorar, quieta e silenciosamente.

Ele ficou sem saber o que fazer; se a observava mais um pouco, ou se lhe poupava daquele sofrimento. Quando decidiu que iria acordá-la, ela abre os olhos, ofegante, se vira de bruços, abraça o travesseiro, e chora mais escondendo o rosto na fronha.

Sasuke deitou-se por cima das costas dela, para sentir o corpo da garota tremer por baixo do seu, e não disse nada. A deixou chorar pelo tempo que precisasse para descarregar sua tristeza, raiva e frustração, esperando pelo momento em que ela fosse começar seja lá o que ela fosse fazer depois.

Mas tudo o que ela fez foi se remexer por baixo dele, se virando de frente para ele, e o abraçou.

— É estranho ver o sol se erguer dia após dia como se nada aconteceu. Eu olho para as pessoas à minha volta, nas ruas, elas parecem ser as mesmas. É como se ninguém mudasse. Como se nada acontecesse na vida delas. A minha deu uma reviravolta estúpida, mas não entendo por que ninguém vê. O mundo, simplesmente continua o mesmo, como se aquilo não tivesse sido nada demais... Então, deixo minha mente apenas em vaguear pelos pensamentos. Alguém se importa com o que aconteceu comigo naquele dia? Não vejo nada mudar. Eu me pergunto se deveria ficar, ou partir para algum outro lugar, onde eu pudesse fingir ser outra pessoa, com um passado diferente. Será que eu devo mesmo dormir ou devo ficar acordada? Estou realmente feliz? Ou isso é tudo apenas uma ilusão? E o mais frustrante é saber que ainda há pessoas que sofrem com muito mais. Não sei por que, mas há vezes em que desejo ser a pessoa mais martirizada no mundo, só para que me notem.

— Se desejos pudessem se tornar realidade, eu faria com que não tivesse acontecido. — ele murmura.

— Depois daquilo, fizemos um acordo. — ela disse — Ele ficaria e tomaria conta de nós se eu não contasse nada a ninguém. Suponho que o final da história, você já saiba.

— Você disse, uma vez, que três pessoas haviam lhe matado. Só consigo pensar em sua mãe e seu padrasto. A terceira pessoa seria seu pai biológico, por tê-la deixado? — ele duvidava daquela hipótese. Apostava mais na idéia dela mesma ter se "suicidado" por ter mudado seu caráter, como havia lhe dito mais cedo.

Mas Sakura tinha outra resposta a dar.

— A terceira pessoa, talvez nem exista. — apenas disse.

Ele não disse nada. Tentou pensar no que ela quis dizer, sem chutar palpites. Se ela não disse diretamente quem era, talvez fosse por não querer. Então, ele apenas saiu de cima dela, para colocá-la por cima de si.

No dia seguinte, no Sábado, Sakura passou o tempo inteiro no apartamento de Sasuke. Ele não era muito organizado com os papéis da empresa, então, ela resolveu ajudá-lo. Além disso, como ele dispensava cozinheira, e apenas comia enlatados, ela resolveu preparar algo mais saudável para ele. Quando a noite estava se aproximando, no entanto, ela se prontificou para voltar para casa. Mas ele insistiu para que ela ficasse e o ajudasse a recuperar a matéria perdida na faculdade.

Ela cedeu ao pedido, embora soubesse que a intenção dele fosse outra. Além disso, ela não tinha mais vontade de voltar para casa. Tudo o que queria era poder prolongar seu tempo com Sasuke ao máximo possível. E por isso, ignorou todas as ligações que recebeu de casa. A partir das oito da noite, entretanto, começou a ligar para o numero da sala. Mas desligava toda vez que seu padrasto atendia. Só aceitou dizer algo, quando foi sua mãe quem atendeu a chamada, para avisar, somente, que não dormiria em casa outra vez. A mulher não disse nada, e Sakura encerrou a ligação.

Enquanto isso, Sasuke andava de um lado para outro, inquieto. Mordia a ponta do polegar, e não conseguia se concentrar em nada. Mal ouvia o que ela lhe dizia. Ele apenas conseguia pensar na corrida que estava prestes a perder. A corrida que poderia tanto definir como a melhor de sua vida, quanto a pior.

Notas finais
Algum comentário?
Resolvi nao contar como ela se machucava, para deixar livre para vocês imaginarem. Na verdade, eu tenho em mente como, mas como também nao gosto de dar todas as informações "mastigadas" (acho que perde um pouco da graça, do mistério), resolvi deixar assim.
O próximo, portanto, será o último! :)
To mega feliz por acabar mais uma fic *-*